Sou de uma geração de Benfiquistas enganados. Somos a geração
que ainda viu a Luz, que viu equipas lindíssimas fazer jogos de encher o
coração e partir a alma. Vimos a tabela do
João Vieira Pinto Rui Águas (obrigado, T.) e Paneira antes do
1-0 no Jamor, contra o Boavista, peça maior de uma orquestra que o mundo devia
reconhecer.
Somos uma geração que cresceu a acreditar no Benfica, que
ser do Benfica é a melhor coisa do mundo. Ouvimos na rádio César Brito
conquistar as Antas, como quem invade o terreno do mal. Vivemos 93/94 como uma
vitória do outro mundo, à Benfica, cheios de força, cheios de querer, de garra,
quando os outros, ricos e endinheirados nos tinham roubado Paulo Sousa e
Pacheco. Vimos aquela meia dúzia em Alvalade como a melhor coisa do mundo.
Podíamos ter todos morrido naquela noite de 14 de Maio e a vida teria feito
sentido, tivéssemos 8, 9, 10 ou 13 anos. Neno, Veloso, Mozer, Hélder, Kennedy;
Abel Xavier, Schwartz, Isaías, Paneira; JVP e Aílton: obrigado.
Somos uma geração que ainda viu os pavilhões cheios.
Lembras-te, D.? José Carlos, Paulo Almeida, Luís Ferreira, Vítor Fortunato e
Rui Lopes na equipa de hóquei. Vimos a extraordinária epopeia europeia de Mike
Plowden, Lisboa, Jean Jacques, Pedro
Miguel, Steve Rocha e Carlos Seixas (6º homem) no basket.
Éramos felizes por ser do Benfica.
Mas tudo isso nos foi retirado.
Nos últimos largos anos temos perdido e muito. Perder para o Porto tornou-se lamentavelmente comum. Durante demasiado tempo culpámos só os árbitros, os fiscais de linha e os Guilhermes Aguiar. Eles continuam a existir e são parte da coisa, não duvidemos. Mas andámos sempre cheios de nós, a achar que mais tarde ou mais cedo algo miraculoso aconteceria e o domínio do futebol português ser-nos ia devolvido. Não foi. Perdemos também nas modalidades. Deixámos de ser exigentes com os nossos dirigentes, treinadores e jogadores - a culpa era sempre dos árbitros - e aconteceu-nos isto.
Temos uma direcção que foge na hora da derrota. Uma política de gestão do clube absurda, em que não há um método, não há uma direcção. Pululam os dirigentes que não são do Benfica (a começar no Presidente), sucedendo-se as fugas informação, a desconfiança, a incompetência. Sucedem-se as promesssas por cumprir, os tiros no pé e tudo mais.
Ontem assisti, pela primeira vez, a um grito de raiva de alguns adeptos do Benfica (não fui ao Benfica - Marítimo). Pela primeira vez, em anos, grita-se a verdade que ignorámos durante anos. Pela primeira vez, de uma forma atabalhoada, admita-se, algo desorganizada e às vezes desorientada (os sócios da borla não são os culpados, a direcção sim), surgiu na Luz um foco de exigência. A exigência que deixámos há muito de ter. A exigência de obrigar quem trabalha no Benfica a honrar a sua história e a subir a bitola do "pelo menos não estamos nos tempos do Vale e Azevedo".
A sportinguização do Benfica - cada vez mais real - tem de acabar. Não podemos festejar Taças da Liga nem quartos de final da Champions. O Benfica quer-se de Campeões. E para isso, o Benfica tem de ser competente.
Não podemos queixar-nos dos árbitros e não exigir a cabeça do presidente que apoiou Fernando Gomes. Não podemos queixar-nos da falta de sorte e permitir que um treinador que ganhou UM campeonato em três se passeie na Luz como se lhe devêssemos a vida e não o contrário. Não podemos andar a aplaudir qualquer jogador que faça um passe certo ou que até uma série de jogos bons, se quando chega a hora da verdade, a doer, perdemos com Porto e Sporting na segunda volta.
Ontem o jogo foi absolutamente deprimente, o lento desligar da máquina do Benfica 2011/2012. Mas em vez de querermos que acabe depressa, é obrigatório encostar a faca às gargantas dos culpados e exigir respostas.
A minha geração exige o Benfica que lhe foi prometido. A minha geração quer voltar a saber onzes e datas memoráveis de cor. A minha geração não quer ter vergonha quando o presidente e treinador do Benfica falam.
Infelizmente, faltam-me as propostas concretas. Falta-me poder dizer-vos que tenho um candidato a presidente, um contrato com outro treinador. Não tenho. Sou só um adepto. Mas sou exigente e não perdoo falhas. Vieira e a sua pandilha, na impossibilidade de serem expulsos, têm que sentir a corda apertada. Pintem-se coisas nas paredes, cante-se a incompetência desta gente, exija-se o Benfica de volta, sem desculpas. Escrevam-se textos em blogs, porque o Rui Gomes da Silva - esse canalha com um QI de um dígito que vive às custas do meu clube - os lê a todos.
Eu sou de uma geração de Benfiquistas que ontem tiveram (mais) um dia de merda. Estou farto de dias de merda, estou farto de escrever deprimido. Não vou desistir porque não dá. (Não o digo como chavão - "Sou Benfica até morrer!", etc. Eu já sabia, antes de 2011/2012, que sou do Benfica até morrer. E isso não limpa a época.) Exijo mais, muito mais.