quinta-feira, 24 de maio de 2012

Eu, ignorante das modalidades, me confesso

Eu e o M. somos, provavelmente, o casal mais competitivo do mundo. Não conheço mais ninguém que tenha um campeonato de pontos para as tarefas domésticas, onde todas as conquistas são discutidas ao pormenor e onde, como não podia deixar de ser, eu estou a ser extremamente prejudicada porque o meu namorado acha que arrumar pensos higiénicos na gaveta dos guardanapos não dá direito a menos 50 pontos.

Como já perceberam, há uma pequena coisa que não facilita: eu sou do Porto, ele é do benfica. E se no futebol - porque adoramos o desporto e até percebemos alguma coisa do assunto - é a paixão que nos move, nas outras modalidades entramos num puro estado de “quero-ganhar-mais-do-que-tu”.

É normalmente nesta altura que percebemos que não somos os melhores adeptos dos nossos clubes, embora isto vos possa chocar. É que nós não somos daqueles que seguem os campeonatos de andebol, basquetebol, hóquei patins, voleibol e futsal acerrimamente, que vêem as deprimentes tardes desportivas nos canais dos clubes ou que desejam uma camisola do Robert Johnson ou do Frederick Gentry (sim, fui procurar os nomes no Google). Atenção: admiramos muito a malta que vai aos pavilhões, que conhece os jogadores e que não grita golo quando há um ponto. Gostávamos muito de ser assim, mas não somos. E não o fingimos ser só porque a época futebolística acabou e precisamos de algo que nos mantenha ligados ao ventilador.

Valha-nos a competitividade para tornar esta altura do ano tão animada lá em casa. No andebol, a coisa ainda foi mais ou menos pacífica. O FCPorto tetracampeão é tão melhor que até o M. desistiu sem dar luta. Mas não sem antes acompanharmos os jogos decisivos como burros a olhar para um palácio, a chamar Varela ao Elias, a pedir foras-de-jogo aos espertinhos que ficam na mama e a pedir penalties quando nem sequer é falta (o que é falta no andebol? Não sei, os gajos jogam com a mão!!!). O meu pai, ex-jogador e árbitro de andebol, deve ter vergonha de ter uma filha e um genro assim.

Depois passámos para o voleibol. Eu não tenho equipa, mas aprendi rapidamente a torcer contra o benfica, embora a versão oficial seja que tenho muitos amigos em Espinho. O M. sofreu um bom bocado. Queixou-se dos árbitros (sem fazer a mínima ideia das regras) e lamentou a falta de eficácia do benfica (num desporto em que bastam três toques para realizar um remate, parece-me que a eficácia é uma coisa muito subjectiva). Eu só fiquei contente.

Chegou a vez do basquetebol. Eu sou claramente a mais ignorante. Mal conheço os jogadores, para além do objetivo de acertar com a bola no cesto não sei avaliar quem está a jogar bem e quem está a jogar mal, e não consigo perceber a magia de um desporto em que é possível a mesma equipa marcar 12 pontos num minuto e meio (o meu coração está preparado para ver dois golos do man. city nos descontos, nada mais do que isso). O M. tem a mania, só porque o pai é um ex-jogador da modalidade. Diz “turnover” em vez de “AQUELE ESTÚPIDO PERDEU A BOLA PORQUÊ?”. Avisou-me que o benfica tem melhor equipa, mas que o Porto tem melhor treinador (vénia ao Moncho, este eu sei que é enorme, quanto mais não seja pelos óculos).

Vimos os jogos entre o Porto Canal e a benfica TV. Rimo-nos sobretudo dos comentários da segunda, porque os senhores que lá trabalham não sabem que, se um jogador lançou para três pontos e sofreu falta, tem direito a três lances livres. Só faltou dizerem que estavam a ser roubados pelo Proença, juro. Sofremos muito, verdade seja dita. Jantámos ao som do último jogo, comigo a levantar os braços para acompanhar o “Mágico Porto, graças a deus não nasci lampião” arrepiante do pavilhão e o M. a pedir passos sem ter a certeza do que isso significa. Desesperámos com os milhares de pontos falhados e com aquela intensidade de, a cada segundo, tudo poder mudar. E o benfica ganhou. Bem, parece-me, embora tenham havido ali uma ou duas faltas duvidosas que se não tivessem marcadas poderiam mudar a história. Que isto fique registado: só mesmo num desporto do qual não percebo nada é que alguma vez direi que o FCPorto perdeu bem e nem mesmo num desporto do qual não percebo nada deixarei de atribuir alguma da culpa aos outros.

O que se seguiu foi o Porto Canal a terminar a emissão à força, o Twitter a especular sobre bancadas a arder e um cenário de guerra e as reacções de hoje, que variam entre o “toda a gente sabe que os adeptos portistas são uns atrasados mentais” e o “só no Porto é que isto acontece”, ou o “a culpa foi do benfica, que provocou” e o “se não fosse a polícia os adeptos portistas tinham batido palmas à equipa vencedora”.

Não estive lá, não sei o que se passou. Já vi as imagens dos objectos atirados à equipa do benfica, os comunicados a acusar o treinador e o roupeiro lampiões de interacção com os adeptos e os muitos relatos sobre a incompetência da polícia. Se há coisa que a experiência de bancada me ensinou é que nunca ninguém tem razão e como, repito, não estive lá, não posso falar do assunto. Mas há quem possa, pelos vistos.

O que me irrita nem é a capa da Bola titular “benfica campeão no Dragão”, como se a partir de agora eu nunca mais pudesse gozar um lampião pelos 5-0, pelos campeões na luz, pela reviravolta na Taça e pela vitória deste ano que nos empurrou para o bicampeonato. Acho normal que o basquetebol se tenha tornado, de repente, o desporto mais apreciado do país. Percebo os adeptos que festejam este título como se a época, afinal, não tivesse sido desastrosa. Também já fiz essa figura.

O que me deixa doente é a superioridade moral. O “não sabem perder”. O “nós pelo menos só apagámos as luzes”. O “no Porto isto é normal, porque é uma cidade violenta, mal-educada e animalesca”. Isso sim, tira-me do sério. Abstenho-me de contra-argumentar sobre o povo portuense, porque esse não precisa de qualquer defesa perante comentários ignorantes, que confundem desporto com sociedade. Quanto ao não saber perder, é um facto: nenhum portista sabe, porque não está habituado. O mais normal ontem seria o FCPorto derrotar o benfica e ser campeão. Tudo o que fuja à normalidade demora a entranhar-se. Não defendo a reacção violenta, como é óbvio, mas admito que, ao contrário, não fosse tão estranho. E, por último, em relação à comparação, acho-a simplesmente idiota, principalmente vindo de um clube cujos adeptos queimaram um autocarro com as portas fechadas, sem questionar se estaria alguém lá dentro, e que, sei lá, mataram uma pessoa com um very-light. Meus caros, deixem-se disso: anormais há em todo o lado e, se há coisa que a nossa casa prova, é que no fundo somos todos iguais.

Dito isto, já estamos preparados para o hóquei em patins, aquele desporto onde eu e o M. demoramos sempre uns bons segundos a perceber se a bola entrou ou não. Vai ser rasgadinho, vai ser bom. Se o FCPorto ganhar, será só mais um (já nem sei qual será a palavra a colocar antes de campeões); se o benfica ganhar, será feriado nacional. E ainda falta o futsal, essa modalidade que ficou conhecida por ter deixado o Luís Filipe Vieira em cuecas, imagem que ainda hoje me atormenta. Na natação e no bilhar nós não damos hipóteses (não faço ideia, mas fica bem assim escrito) e infelizmente já não temos secção de campismo para eu e o M. podermos, pelo menos, fazer umas apostas a dinheiro sobre de quem será a melhor tenda.


P.S. Espero que os jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos das modalidades compreendam que este texto é apenas um retrato exagerado da nossa ignorância. O vosso trabalho ou a vossa dedicação são tão ou ainda melhores do que os das pessoas ligadas ao futebol. Têm a nossa admiração por isso e perdoem-nos este amor doentio pela bola a correr no relvado.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Eu quero ser o Vítor Paneira


El futbol es la recuperacion semanal de la infancia – Javier Matias, “Salvajes y sentimentales – Letras de fútbol”

Quando jogava à bola com os meus amigos, na época onde nos sentávamos na sala de aula no intervalo de jogar à bola, e onde cada um de nós tinha um nome do seu jogador preferido, eu era o Vítor Paneira. Nunca quis ser o Magnusson nem o Águas nem o Valdo. Eu queria ser como o Paneira.
Vem isto a propósito da Catarina ter chegado a casa e, com o sorriso que me preenche, ter-me dito com ternura que tinha falado com o Paneira, como quem diz “Desculpa, eu sei que gostavas que tivesses sido tu”. Eu não gostava só de falar com o Paneira. Eu quis – e quero – ser como ele.

Vítor Paneira tem um nome tão português quanto invulgar e se houve jogador que personficou o Benfica em campo foi ele. Paneira (havia um tipo na minha escola que dizia “Páneira” e eu odiava-o por isso) era quem eu queria ser.
De Paneira guardo praticamente tudo. A finta letal para fora e os arranques. Mas, sobretudo, a inteligência com que lia o jogo e a concentração. Paneira jogava concentrado, como se tudo dependesse daquilo. Paneira jogava com olhar sério, expressão dura, sem sorrisos. Quando marcava explodia para a bancada, com os braços a rodar no ar, partilhando a alegria e o alívio que os verdadeiros adeptos sentem quando marcamos.

A minha primeira memória exacta do 7 da minha infância – e, logo, da minha vida – é de um Salgueiros-Benfica. Paneira estava no banco e eu fiquei alarmado. O meu pai explicou-me que o escondíamos da temível Juventus (do Trap), que viria à Luz jogar os quartos de final da UEFA. Ganhámos 0-3 com um golaço impressionante do Kulkov (um chapéu a 30 e tal metros ao Pedro Espinha) e o Paneira entrou no fim para defesa direito. Quando a Velha Senhora veio à Luz, ganhámos 2-1 com dois golos do Paneira. Seríamos depois eliminados em Turim, no jogo que me fez ficar a detestar a Juve para sempre, com o primeiro golo a ser marcado pelo Kohler, que depois de partir o nariz ao Silvino (esse frangueiro traidor que se desviou dos penalties com o PSV) encostou para o 1-0. Mas dizia eu, ganhámos 2-1. O Paneira partiu-os todos. E lembro-me dos festejos, loucos como um grito, a atirar-se para os abraços dos adeptos. Eu queria ser assim. Eu queria ser jogador do Benfica, ter um nome português e invulgar, marcar na Luz cheia e atirar-me para as bancadas.

Paneira tinha um semblante carregado como se jogasse xadrez. Parecia imune às bancadas adversárias, parecia que vivia num mundo só seu, que sabia esperar até à última pela entrada do defesa esquerdo adversário para, com a parte de fora do pé direito, fintar para fora e arrancar para o cruzamento. Tive sempre a sensação de que Paneira era a única pessoa no mundo que queria tanto ganhar como eu.

Há um lance mágico na final da Taça de 92/93 contra o Boavista em que a equipa troca toda a bola rápido, o Paneira tabela com o Águas e à saída do guarda redes, Paneira pica a bola para golo. O vermelho que estava no Jamor explodiu. Foi a coisa mais bonita que a melhor equipa que eu me lembro do SLB fez. Estava em casa, numa tarde soalheira, com o Tiago Palma, Farense fanático e simpatizante do Glorioso. Vimos o jogo felizes. A minha mãe tocou à porta e eu, como era um puto (demasiado) bem comportado, desci os 3 andares para a ajudar a carregar as compras. Quando subi, o Tiago – nunca me hei-de esquecer da cara dele – disse-me com pena: “O Futre marcou um golão”. Eu perdi aquele 3-1 porque ajudei a minha mãe com as compras. Tinha 9 anos e nunca mais me esqueci disso. O Paneira faz parte disso, desse constante regresso à infância.

O Paneira é a minha ligação ao meu avô, quando festejámos os dois um 1-0 ao Beira – Mar no último minuto, de penalty, em 93/94 (roubaram-nos uns 4 penalties nesse jogo, antes que se ponham com bocas). O meu avô foi buscar-me a casa do Tiago, eu desci a correr, pedi-lhe para por o relato e estávamos na Avenida 5 de Outubro em Faro quando o Paneira rematou.

Foi a época de todas as épocas, para qualquer Benfiquista da minha geração. Os verdes haviam-nos roubado Paulo Sousa (que é o maior verme, o maior traste, a pessoa por quem tenho menos respeito no mundo) e Pacheco e tinham uma super equipa. Nós estávamos destruídos, quase perderamos também JVP e os russos bebiam como russos. Naquela noite maravilhosa de 14 de Maio de 1994, Paneira não fez os 3 de JVP nem os 2 de Isaías e nem sequer aquele último do Hélder. Mas estava lá.

É ele quem salta sobre a bola no 3º golo, depois do livre do Aílton e a mete ao segundo poste. É ele quem assiste o Hélder no 6º golo. Mas guardo o 4º com carinho.
Para quem não sabe – e portanto não é do Benfica – a perder por 2-3 ao intervalo, Carlos Queirós retirou o defesa esquerdo, Paulo Torres. A ala esquerda ficou ali, ao relento. E Paneira, como bom xadrezista, explorou o erro até ao limite. Fê-los sangrar. E hoje, ao rever pela enésima vez o resumo do 3-6 (já sei quase tudo de cor), apercebo-me que Paneira os quis castigar por todos nós. Por todos os que nos sentimos humilhados com a saída de Paulo Sousa, por todos os que – como eu – fomos gozados no recreio. Outros foram no café, outros no trabalho. Paneira pensou em nós. E no 4º golo investe pela esquerda. Passa um, passa dois e adianta demais. Paulo Sousa cobre a bola. E Paneira acredita. Paneira acredita que o traidor vai falhar, acredita que vai ficar com a bola, acredita que o recreio vai voltar a ser bom. E Paneira ganhou a bola ao traidor. Porque é ele era o Benfica e acreditava sempre até ao fim e lutava, lutava, lutava como nós lutaríamos com aquela camisola vestida. E depois cruzou. JVP finge que não é nada com ele e deixa a bola passar. Isaías matou-os.

Tinha 12 ou 13 anos. Paneira tinha sido escorraçado da Luz e jogava no Vitória. Ganharam-nos na Luz 1-3 e Paneira, aos microfones na rádio, mostrava toda a sua mágoa contra aquele Benfica. Contra o Benfica que o expulsara, contra aqueles dirigentes que destruíram que restava de mística no meu clube. Nunca vi esse jogo, esses golos. Lembro-me bem da tristeza que senti quando o Paneira falou do lado de lá.

Se o Benfica um dia voltar a ser Benfica, vamos buscar o Paneira. Será treinador de juniores ou ficará só por ali, a fazer o que bem entender. Paneira é a infância e a juventude de muitos de nós.
Tenho 28 anos. Às vezes, no caminho para casa, ainda me imagino jogador do Benfica, capaz de levantar a Luz, arrepiado com a sensação de marcar um golo pelo clube do meu coração. Imagino-me a correr para a bancada, de braços no ar, como um grito. Eu, aos 28 anos, ainda quero ser o Vítor Paneira.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

O Polga tem mais encanto na hora da despedida

Quando ontem vi aquele jogador de um metro e meio a entrar na área do sportem à vontade e a metê-la lá dentro de cabeça, só consegui pensar: vou ter mesmo saudades do Polga. Aquele jeito lento de se deslocar na área, aquele corte mal feito que deixa um adversário isolado, aquela indecisão entre ir para a direita ou para a esquerda, aquela escolha quase sempre errada, aquele PUFF!, mas onde é que está o Polga, desapareceu?!?! Não, não, está ali a marcar o infinito. Porra, foram nove anos mesmo bons.

O Polga é exactamente o que um adversário meu não devia ser: é simpático, não cria nenhum tipo de animosidade, não me obriga a insultá-lo e tem até ar de quem me emprestaria umas cebolas se fosse meu vizinho. Talvez por isso, não me consigo lembrar de um só momento em que lhe tenha desejado mal. Nunca me preocupei ao ouvir o seu nome na constituição das equipas, aquele “oh não, o Izmailov vai jogar e ele contra nós é tramado”. O Polga não. Nunca pedi para que se lesionasse, aquele “se deus existisse, o João Pereira ficava sem uma perna”. Não, o Polga não.

É engraçado como nem consigo enumerar os lances em que ele me desiludiu. Às tantas, nunca o fez. O Polga esteve sempre à altura dos acontecimentos. De um campeão do mundo não se espera outra coisa, aliás. Alguns poderão dizer: estás para aí a gozar mas o rapaz conseguiu sobreviver a nove anos de sportem. É verdade, não é fácil para ninguém. Mas eu sou de um clube que uma vez perdeu uma Taça com dois golos do Rodrigo Tiuí, portanto não era preciso assim tanto para entrar na minha lista de “espero-que-morras-de-uma-maneira-muito-dolorosa”.

O Polga, resumidamente, é o sportem. Nove anos depois, nem um campeonato. Há bebés que ainda mal sabem dizer “PORTO” e que já têm mais títulos do que o Polga. Mas não digo isto só pelo vasto palmarés. O Polga é o sportem, porque esteve sempre nos sítios certos, mas com a equipa errada. O Polga estava lá quando o Jorginho nos deu um título em alvalade. O Polga viu o Luisão a saltar mais alto do que o Ricardo. O Polga teve uma visão privilegiada (do banco) daquele terceiro golo do CSKA na final da UEFA. E adivinhem qual foi o central do sportem que, não contente com os 11 golos marcados pelo bayern de munique, enfiou um na própria baliza para o número ser mais redondo? Epa, o Polga é tão o sportem.

Em defesa do Polga - e eu vou sempre defendê-lo! -, estava aqui a ver a lista de centrais do sportem nos últimos nove anos e tenho de admitir que já vi sem-abrigos com melhores condições de vida do que ele. Beto (antes de ir para o real madrid), Enakarhire, Tonel, Caneira, Gladstone, Torsiglieri… Tenho de parar, é demais, não consigo. Polga: adeus e volta sempre.

Um pequeno e último parágrafo para dar os parabéns ao sportem, por ter conseguido uma época pior do que a do ano passado. Não era uma meta nada fácil de ultrapassar. Os milhões foram muito bem gastos, o Sá Pinto é um grande treinador quando um 0-0 chega e não esqueçamos a direcção, que anda por aí a distribuir dinheiro quando toda a gente sabe como a vida está difícil para os árbitros assistentes.

P.S. Faz hoje nove anos que vencemos a UEFA em Sevilha. Não sei se já vos disse como é mesmo bom ser do FCPorto.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Sevilha, meu amor

Já não ia a Sevilha há quase nove anos. A última vez que lá tinha estado foi no dia 21 de maio de 2003. Estavam 45 graus. Quarenta-e-cinco-graus. Não sei se já sentiram um calor assim, mas digo-vos: torna-se difícil respirar. Ou isso, ou então foi o estúpido do Larsson que quase me matava. Mas, mesmo assim, foi o melhor dia da minha vida.

Já conhecia a cidade. Fui lá muito pequenina, com a família, e a única coisa que me lembro é que estavam 40 e tal graus. Uma constante, portanto. Regressar a Sevilha este sábado foi, sem surpresa, enfrentar uma onda de calor insuportável (39 graus em Maio e há gente que consegue viver assim), mas foi também conhecer uma parte da cidade até então ignorada.

O M. já me tinha falado muito do betis. Contou-me todas as histórias e descreveu-me todas as personagens, sempre com uma alegria que me parecia completamente desmedida num enredo que mete um clube com dois títulos no palmarés. Daí que o jogo, em si, não me tenha surpreendido muito. O betis nem jogou bem, nem jogou mal, teve momentos de euforia quando fez a reviravolta e levou com o golo do empate no último minuto. Exactamente como o M. tinha dito: o betis é um clube sofredor.

O que me surpreendeu foram aqueles adeptos. 45 mil para ver uma equipa que já não luta por nada. Todos com uma camisola, um cachecol (pois, também fiquei com essa cara quando vi pessoas com cachecóis ao pescoço com aquele calor), qualquer coisa verde. A cantarem o hino até arrepiar. A aplaudirem um tosco qualquer como se fosse um filho. E sempre, sempre a insultarem os outros. Contentíssimos, tão felizes, mas porquê?

O Manolo, amigo de longa data do meu sogro e do M., e que tem bético escrito na testa, explicou-me, sem saber. É que na última jornada o betis foi a casa do sevilha vencer por 2-1, com um golo aos 92 minutos. “Já nos deu para muitos meses”, disse ele, com um sorriso que ia daqui até Sevilha. E ali estava um adepto, que anda a descer e a subir de divisão e que nos últimos anos viu o maior rival a ganhar provas europeias, a ensinar-me que gostar mesmo de um clube também tem de envolver detestar mesmo outro.

O betis não tem um único jogador que eu desejasse no F.C. Porto. O tosco que vos falei é o rapaz que marcou os golos ao sevilha – um super-herói! Mas, no sábado, ouviram-se olés ao Barça. Sim, à melhor equipa de todos os tempos. Devem ter sido uns seis ou sete passes de seguida, na defesa, já sem os catalães a pressionarem, no melhor momento do jogo para o betis. “Oléeeeeeeeee…”. Como se estivessem a dar 5 numa final da Liga dos Campeões. Impossível não adorar.

No entanto, se o objectivo da viagem foi convencerem-me a deixar os nossos filhos serem um dia do betis para não arranjarmos problemas cá em casa, devo dizer-vos que falharam. Gostei do estádio, dos adeptos, do ambiente, mas para sofredor já me chega o M., que diz que, se um dia nos mudarmos para o Algarve, eu vou ser do sevilha só para o chatear. Uma hipótese a considerar, portanto.

De Sevilha levo, no entanto, outro amor. Aquele Barcelona, que, mesmo sem querer, nos mostrou ao vivo a magia que nos habituamos a admirar pela televisão. Voltar a encontrar Messi, aquele miúdo que se estreou na inauguração do Dragão, com o mesmo ar de desinteressado, de esquisito, de nerd que não tem amigos. Aplaudir Xavi e Iniesta para eles saberem como é bom viver no mesmo tempo do que eles. Sorrir com a felicidade do meu sogro e do M., que nem dois putos enamorados por Busquets. Ver os casais com camisolas do betis, a segurar pela mão os filhos com camisolas do Barça. De Messi, sempre de Messi. E compreender a excitação daquele miúdo, de três ou quatro anos, aos saltos na bancada quando o aquecimento começa:

- Mira, mamá, es Messi!

terça-feira, 15 de maio de 2012

Vimos a melhor equipa de sempre, Deus e o Betis

No sábado fomos a Sevilha com o meu pai. Disse-o vezes sem conta no meu anterior blog, mas volto à carga: não acredito no conceito de segundo clube, mas se o tivesse era o Real Betis Balompie (sim, apesar do verde).
Acontece que, durante 3 épocas - 1999/2000 a 2001/2002 inclusive - eu e o meu pai fomos sócios - com cativo - no Benito Villamarin. Acontece que Faro fica mais perto de Sevilha do que Lisboa e precisávamos de um programa pai - filho que nos animasse (coisa que o Benfica daquela era não conseguia). Ficámos béticos. 

Aprendi tudo o que pude e o que não pude sobre futebol espanhol naqueles 3 anos. Líamos a Marca e ouvíamos a Cadena Ser no caminho. Aprendemos a história de um clube. Vimos Denilson, vimos Joaquin a aparecer. Vimos Capi (um craque). Descemos à segunda - com o Sevilha a perder de propósito com o Oviedo do Paulo Bento para o Betis descer. Subimos à primeira com um golo decisivo na penúltima jornada num jogo louco contra o Recreativo de Huelva, marcado pelo Belenguer (o que expulsou o Cardozo no Getafe - Benfica). O Betis, campeão em 1935 e que 5 anos depois estava na terceira divisão - vítima das suas simpatias republicanas (apesar do Real Betis) - vive orgulhoso da sua aficcion e aprendeu a cultivar a fidelidade para enfrentar os seus vizinhos favorecidos. O Viva el Betis Manquepierda! tornou-se um lema que granjeou respeito por Espanha inteira, enquanto os orgulhosos adeptos sustentaram uma vida de azares e injustiças, enchendo estádios pela terceira divisão.



No Benito Vilamarin vivi muitas histórias de bola e vivi a insana rivalidade com o Sevilla. Lembro-me que cada golo contra o Sevilla ouvido na rádio era sempre festejado como se do Betis. Lembro-me do ódio a Salva, que era tão sevillista que quando marcou o golo do empate num Betis-Atletico (um golo de penalty que não era, aos 10 minutos de desconto, quando o árbitro deu uns já de si escandalosos 6) apanhou a bola e chutou contra um apanha bolas. Era um ser adorável.

Lembro-me do senhor que pedia "mano!" por tudo e por nada, em todos os cruzamentos para a área. E um dia o árbitro marcou mão num corte que claramente não era. A bancada levantou-se e aplaudiu o senhor, que se emocionou. 

No sábado, além de rever a boa gente de Sevilha , que celebrava ainda a sua vitória no derby, vi a melhor equipa do mundo de sempre (revi ainda o Manolo que nos foi entregar os bilhetes e que celebrava cada golo do Betis comigo high five que se tornou o nosso cumprimento - tinha tantas saudades dele. Ainda emanava felicidade dos 1-2 aos vizinhos). O Barça, para os seus padrões, fez um jogo horrível. E tenho-vos a dizer, meus caros, que aquilo (porque "aquilo" não é bem futebol, pelo menos o futebol que eu vejo há anos) é poesia. A bola, como disse a Catarina, parece outra. Lenta e sem pressas, como se soubesse o caminho. Vai sempre serena e as recepções são de seda. A bola cola-se ao pé de Xavi, que roda sobre os adversários de radar ligado. Busquets é intransponível. Vou mais longe: está ali o melhor trinco que eu vi jogar. Melhor que Redondo, sim.

E depois, Leo Messi. Tem um ar desligado, mesmo durante o próprio jogo. Camisola de fora, ombros caídos e mesmo lá de cima sente-se o olhar ausente. Apareceu 3 vezes. A primeira num passe de morte, devagar - à velocidade certa - entre os centrais, para alguém falhar. E duas arrancadas. Impressiona: a bola não se afasta um milímetro da trajectória que Messi imagina, as ancas começam a mentir e a afastar adversários, o pára-arranca do drible é mortal. Na primeira há um corte ao remate no momento vital,  na segunda foi placado - à rugby - por um betico que percebeu o que dali ia sair. Tenho pena que não tenha marcado para eu, o meu pai e a Catarina podermos dizer que o vimos finalizar o record de golos. Mas já podemos dizer que o vimos. A Deus.
O Barça de Guardiola, que nós vimos despedir-se da Liga Espanhola (o mesmo Barça que começou em Numancia, com uma derrota, numa belíssima tarde), foi a equipa mais linda, mais perfeita, que pisou um campo de futebol. E nós vimo-la.
 
      
Os béticos aplaudiram Beñat - que marcou os 2 golos de livre na vitória no derby (o segundo é toda uma genialidade) - como se lhe quisessem dar a casa e a família. Celebraram a expulsão de Daniel Alves (ex-sevillista) e aproveitaram o facto do Barça jogar com 10 para cantarem olés. Estavam 45 mil nas bancadas.

Dizem que não devemos voltar aos locais onde já fomos felizes. Para mim, foi ter 18 anos outra vez, foi recordar as viagens com o meu pai, foi ser bético outra vez. No Benito Villamarin, serei sempre feliz. Manquepierda.




domingo, 13 de maio de 2012

André e Falcao

Pelo título, até parece que vou falar-vos sobre uma dupla de música popular brasileira, mas não. Embora fosse certamente um bom tema, hoje vou falar-vos antes de André Villas Boas e Radamel Falcao.

Eu não sou uma adepta propriamente fácil. Simpatizo com quem veste a camisola do FCPorto, mas não me perco de amores por qualquer um. Festejei dezenas de golos do Jardel, mas nunca o considerei um ídolo. Apoiei muito os Costinhas e Maniches que tanto ganharam entre nós, mas sempre desconfiei um bocadinho daqueles feitios. Não insulto o Álvaro e o Rolando enquanto estiverem de azul, mas dificilmente os perdoarei.

Para me convencerem, é preciso mais do que golos, títulos e fama internacional. Têm de ser Porto, como o Lucho. Às vezes é preciso serem mágicos, como o Deco. Outras basta terem umas boas pernas, como o Capucho. No fundo, façam o que fizerem, vão ficar sempre atrás de quem tem tudo isto e muito mais: Vítor Baía, por exemplo.

Há, no entanto, épocas que me toldam um pouco este raciocínio tão lógico, quase matemático, que consegue juntar talento e raça a tíbias e perónios jeitosos. Foi assim com Mourinho, quando Derlei, um jogador aparentemente banal e que veio a tornar-se uma prostituta barata, era o meu herói. E foi assim no ano passado, quando André e Falcao me transformaram numa adolescente apaixonada.

Quanto às vitórias, nem preciso de as enumerar. Houve golos, títulos e fama internacional. Ambos foram sempre Porto, falaram à Porto, sentiram o Porto. Eram mágicos e tinham umas pernas do caraças. Deixaram-me tão caidinha que passei o Verão a escrever ridículas cartas de amor. Primeiro, ao treinador que me trocou pela russa feia e gorda. Depois, ao jogador que me deixou por uma espanhola que não vale nada. Pelo menos um deles chegou a ler os meus desabafos, mas ambos foram embora sem olhar para trás.

Os grandes amores são impossíveis de esquecer, mas o meu coração está sarado. Da raiva inicial, passei à indiferença pelas vossas conquistas, e acabei triste pelos vossos falhanços. Não respeito quem sai do Porto pela porta pequena, mas sinto-me frustrada por não poder acabar esta época a pensar: “Pronto, vocês tinham razão. Saíram para melhor e eu é que não tinha percebido isso. Parabéns, voltem sempre”.

André, és um excelente treinador e não merecias aquele bando de energúmenos. Não foi por falta de aviso, é certo, mas nem eu te desejei tanto mal (mentira, desejei sim, mas só quando estava mesmo chateada contigo). De grande promessa, passaste a grande dúvida. De chelsea e Barcelona, passou a falar-se de roma e valência. E na tua cadeira de sonho ficou outro campeão.

Falcao, tu ganhaste a Liga Europa sozinho, mas não quero acreditar que isso te baste. Passaste o ano a ser humilhado e agora acabaste a ver a Liga dos Campeões por um canudo. Bem podes dar mil entrevistas a tentar convencer-nos que o at. madrid é uma grande coisa, mas depois olhas para o lado e é só veres quem lá está e quão maus eles são. Naquela quarta-feira à noite, durante umas horas, o mundo conseguiu ver o que eu vi há mais de um ano: o melhor ponta-de-lança da actualidade. Mas hoje já voltaste à tua vidinha de quem perde uma qualificação europeia, de quem nem sonha ser campeão e muito menos melhor marcador. E esses o mundo esquece rapidamente.

Percebem o que perderam? Chamem-me sonhadora, louca, o que quiserem, mas sempre que, por momentos, vos imagino mais um ano connosco, não vos vejo a levar três do aston villa ou do albacete, ou a lutar pelo quarto, pelo quinto ou pelo sexto lugar. Repito: chamem-me sonhadora, louca, o que quiserem, mas convosco isto tinha sido muito melhor e a esta hora vocês estavam a sorrir, nos Aliados, com os adeptos que tanto vos admiram, a festejar o que vocês quisessem.

Sou campeã. Estou feliz e preparada para mais um Verão de despedidas mais ou menos amargas. Espero ganhar mais no próximo ano, porque esse é o meu destino. Continuarei a acompanhar-vos ao longe, nos clubes que pagarem as vossas ambições, sejam eles o real madrid ou o anzhi. Eu sei que tinha razão, que não saíram para melhor e que vocês devem ter percebido isso. 

Confessem-me lá: valeu a pena?

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Como guerrilheiros na relva

Athletic de Bilbao. Morro de inveja e de respeito sempre que os vejo a jogar. É como se um clube pudesse olhar todos os outros de cima para baixo, sabendo que gostávamos de ser assim. Quando aquele vermelho, branco e preto entra em campo, há ali uma ideia, há ali uma autenticidade que queríamos todos ter.

Todos os dias nos dói - e aqui não escrevo para Benfiquistas, escrevo para quem sente um clube - que nos sintamos clientes. Sou um adepto. Sou um selvagem que gosta do cachecol envelhecido pelo sol e pela chuva, sou um doente que passa horas na net a ver camisolas antigas do Benfica, suspirando por um modelo dos anos 80. Dói-me que o equipamento alternativo do Glorioso não seja sempre o branco.
Não quero ser tratado como um cliente porque não quero que o Benfica seja uma empresa. O futebol é o amor (obrigado pelo regresso, Ricardo). O amor irracional, inexplicável e insensato a um emblema, a uma cor, a uma tribo. É o amor que nos faz chorar nas vitórias e nas derrotas.

Não quero que me vendam merchandising absurdo com o meu emblema. Dói-me - factualmente - o corpo quando me apercebo que há mesmo gente que não é do Benfica como eu sou a trabalhar no meu Benfica. Esta realidade afecta-me a mim, afecta a C., afecta qualquer pessoa que goste verdadeiramente de um clube. Não é uma questão de revivalismo, não é ser contra a modernização - nada disso. É ver as nossas cores esbaterem-se com as outras, é isso que é inadmissível. É ver que os equipamentos são iguais aos dos outros clubes que partilham a mesma marca.

Ver jogar o Athletic é ver a guerrilha contra isso. É a cruzada pelo futebol dos povos, pelo futebol como identidade, como símbolo de pertença. Como guerrilheiros na relva, cujos golos são festejados como gritos contra a globalização.
Este Bilbao, o Bilbao de Bielsa, que joga com a bola na relva, sem granadas disparatadas, aprimora o conceito. Valdano diz que jogam com respeito, com ética. Uma ética destinada ao público que os vê.

Aí vêm eles: camisolas com a bandeira da região e aquele ar de quem vão jogar de boina. Como guerrilheiros na relva, sem clientes, cheios de adeptos. Impossível não torcer por eles.