Como
já perceberam, há uma pequena coisa que não facilita: eu sou do
Porto, ele é do benfica. E se no futebol - porque adoramos o
desporto e até percebemos alguma coisa do assunto - é a paixão que
nos move, nas outras modalidades entramos num puro estado de
“quero-ganhar-mais-do-que-tu”.
É
normalmente nesta altura que percebemos que não somos os melhores
adeptos dos nossos clubes, embora isto vos possa chocar. É que nós
não somos daqueles que seguem os campeonatos de andebol,
basquetebol, hóquei patins, voleibol e futsal
acerrimamente, que vêem as deprimentes tardes desportivas nos canais
dos clubes ou que desejam uma camisola do Robert
Johnson
ou do Frederick
Gentry (sim, fui procurar os nomes no Google). Atenção: admiramos
muito a malta que vai aos pavilhões, que conhece os jogadores e que
não grita golo quando há um ponto. Gostávamos muito de ser assim,
mas não somos. E não o fingimos ser só porque a época
futebolística acabou e precisamos de algo que nos mantenha ligados
ao ventilador.
Valha-nos
a competitividade para tornar esta altura do ano tão animada lá em
casa. No andebol, a coisa ainda foi mais ou menos pacífica. O
FCPorto tetracampeão é tão melhor que até o M. desistiu sem dar
luta. Mas não sem antes acompanharmos os jogos decisivos como burros
a olhar para um palácio, a chamar Varela ao Elias, a pedir
foras-de-jogo aos espertinhos que ficam na mama e a pedir penalties
quando nem sequer é falta (o que é falta no andebol? Não sei, os
gajos jogam com a mão!!!). O meu pai, ex-jogador e árbitro de
andebol, deve ter vergonha de ter uma filha e um genro assim.
Depois
passámos para o voleibol. Eu não tenho equipa, mas aprendi
rapidamente a torcer contra o benfica, embora a versão oficial seja
que tenho muitos amigos em Espinho. O M. sofreu um bom bocado.
Queixou-se dos árbitros (sem fazer a mínima ideia das regras) e
lamentou a falta de eficácia do benfica (num desporto em que bastam
três toques para realizar um remate, parece-me que a eficácia é
uma coisa muito subjectiva). Eu só fiquei contente.
Chegou
a vez do basquetebol. Eu sou claramente a mais ignorante. Mal conheço
os jogadores, para além do objetivo de acertar com a bola no cesto
não sei avaliar quem está a jogar bem e quem está a jogar mal, e
não consigo perceber a magia de um desporto em que é possível a
mesma equipa marcar 12 pontos num minuto e meio (o meu coração está
preparado para ver dois golos do man. city nos descontos, nada mais
do que isso). O M. tem a mania, só porque o pai é um ex-jogador da
modalidade. Diz “turnover” em vez de “AQUELE ESTÚPIDO PERDEU A
BOLA PORQUÊ?”. Avisou-me que o benfica tem melhor equipa, mas que
o Porto tem melhor treinador (vénia ao Moncho, este eu sei que é
enorme, quanto mais não seja pelos óculos).
Vimos
os jogos entre o Porto Canal e a benfica TV. Rimo-nos sobretudo dos
comentários da segunda, porque os senhores que lá trabalham não
sabem que, se um jogador lançou para três pontos e sofreu falta,
tem direito a três lances livres. Só faltou dizerem que estavam
a ser roubados pelo Proença, juro. Sofremos muito, verdade seja
dita. Jantámos ao som do último jogo, comigo a levantar os braços
para acompanhar o “Mágico Porto, graças a deus não nasci
lampião” arrepiante do pavilhão e o M. a pedir passos sem ter a
certeza do que isso significa. Desesperámos com os milhares de
pontos falhados e com aquela intensidade de, a cada segundo, tudo
poder mudar. E o benfica ganhou. Bem, parece-me, embora tenham havido
ali uma ou duas faltas duvidosas que se não tivessem marcadas
poderiam mudar a história. Que isto fique registado: só mesmo num
desporto do qual não percebo nada é que alguma vez direi que o
FCPorto perdeu bem e nem mesmo num desporto do qual não percebo nada
deixarei de atribuir alguma da culpa aos outros.
O
que se seguiu foi o Porto Canal a terminar a emissão à força, o
Twitter a especular sobre bancadas a arder e um cenário de guerra e
as reacções de hoje, que variam entre o “toda a gente sabe que os
adeptos portistas são uns atrasados mentais” e o “só no Porto é
que isto acontece”, ou o “a culpa foi do benfica, que provocou”
e o “se não fosse a polícia os adeptos portistas tinham batido
palmas à equipa vencedora”.
Não
estive lá, não sei o que se passou. Já vi as imagens dos objectos
atirados à equipa do benfica, os comunicados a acusar o treinador e
o roupeiro lampiões de interacção com os adeptos e os muitos
relatos sobre a incompetência da polícia. Se há coisa que a
experiência de bancada me ensinou é que nunca ninguém tem razão e
como, repito, não estive lá, não posso falar do assunto. Mas há
quem possa, pelos vistos.
O
que me irrita nem é a capa da Bola titular “benfica campeão no
Dragão”, como se a partir de agora eu nunca mais pudesse gozar um
lampião pelos 5-0, pelos campeões na luz, pela reviravolta na Taça
e pela vitória deste ano que nos empurrou para o bicampeonato. Acho
normal que o basquetebol se tenha tornado, de repente, o desporto
mais apreciado do país. Percebo os adeptos que festejam este título
como se a época, afinal, não tivesse sido desastrosa. Também já
fiz essa figura.
O
que me deixa doente é a superioridade moral. O “não sabem
perder”. O “nós pelo menos só apagámos as luzes”. O “no
Porto isto é normal, porque é uma cidade violenta, mal-educada e
animalesca”. Isso sim, tira-me do sério. Abstenho-me de
contra-argumentar sobre o povo portuense, porque esse não precisa de
qualquer defesa perante comentários ignorantes, que confundem
desporto com sociedade. Quanto ao não saber perder, é um facto:
nenhum portista sabe, porque não está habituado. O mais normal
ontem seria o FCPorto derrotar o benfica e ser campeão. Tudo o que
fuja à normalidade demora a entranhar-se. Não defendo a reacção
violenta, como é óbvio, mas admito que, ao contrário, não fosse
tão estranho. E, por último, em relação à comparação, acho-a
simplesmente idiota, principalmente vindo de um clube cujos adeptos
queimaram um autocarro com as portas fechadas, sem questionar se
estaria alguém lá dentro, e que, sei lá, mataram uma pessoa com um
very-light. Meus caros, deixem-se disso: anormais há em todo o lado
e, se há coisa que a nossa casa prova, é que no fundo somos todos
iguais.
Dito
isto, já estamos preparados para o hóquei em patins, aquele
desporto onde eu e o M. demoramos sempre uns bons segundos a perceber
se a bola entrou ou não. Vai ser rasgadinho, vai ser bom. Se o
FCPorto ganhar, será só mais um (já nem sei qual será a palavra a
colocar antes de campeões); se o benfica ganhar, será feriado
nacional. E ainda falta o futsal, essa modalidade que ficou conhecida
por ter deixado o Luís Filipe Vieira em cuecas, imagem que ainda
hoje me atormenta. Na natação e no bilhar nós não damos hipóteses
(não faço ideia, mas fica bem assim escrito) e infelizmente já não
temos secção de campismo para eu e o M. podermos, pelo menos, fazer
umas apostas a dinheiro sobre de quem será a melhor tenda.
P.S. Espero que os jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos das modalidades compreendam que este texto é apenas um retrato exagerado da nossa ignorância. O vosso trabalho ou a vossa dedicação são tão ou ainda melhores do que os das pessoas ligadas ao futebol. Têm a nossa admiração por isso e perdoem-nos este amor doentio pela bola a correr no relvado.
P.S. Espero que os jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos das modalidades compreendam que este texto é apenas um retrato exagerado da nossa ignorância. O vosso trabalho ou a vossa dedicação são tão ou ainda melhores do que os das pessoas ligadas ao futebol. Têm a nossa admiração por isso e perdoem-nos este amor doentio pela bola a correr no relvado.
