El futbol es la recuperacion semanal de la
infancia – Javier Matias, “Salvajes y sentimentales – Letras de fútbol”
Quando jogava à bola com os meus amigos, na época onde nos
sentávamos na sala de aula no intervalo de jogar à bola, e onde cada um de nós
tinha um nome do seu jogador preferido, eu era o Vítor Paneira. Nunca quis ser
o Magnusson nem o Águas nem o Valdo. Eu queria ser como o Paneira.
Vem isto a propósito da Catarina ter chegado a casa e, com o
sorriso que me preenche, ter-me dito com ternura que tinha falado com o
Paneira, como quem diz “Desculpa, eu sei que gostavas que tivesses sido tu”. Eu
não gostava só de falar com o Paneira. Eu quis – e quero – ser como ele.
Vítor Paneira tem um nome tão português quanto invulgar e se
houve jogador que personficou o Benfica em campo foi ele. Paneira (havia um
tipo na minha escola que dizia “Páneira” e eu odiava-o por isso) era quem eu queria ser.
De Paneira guardo praticamente tudo. A finta letal para fora
e os arranques. Mas, sobretudo, a inteligência com que lia o jogo e a concentração.
Paneira jogava concentrado, como se tudo dependesse daquilo. Paneira jogava com
olhar sério, expressão dura, sem sorrisos. Quando marcava explodia para a
bancada, com os braços a rodar no ar, partilhando a alegria e o alívio que os
verdadeiros adeptos sentem quando marcamos.
A minha primeira memória exacta do 7 da minha infância – e,
logo, da minha vida – é de um Salgueiros-Benfica. Paneira estava no banco e
eu fiquei alarmado. O meu pai explicou-me que o escondíamos da temível Juventus
(do Trap), que viria à Luz jogar os quartos de final da UEFA. Ganhámos 0-3 com
um golaço impressionante do Kulkov (um chapéu a 30 e tal metros ao Pedro
Espinha) e o Paneira entrou no fim para defesa direito. Quando a Velha Senhora veio
à Luz, ganhámos 2-1 com dois golos do Paneira. Seríamos depois eliminados em
Turim, no jogo que me fez ficar a detestar a Juve para sempre, com o primeiro
golo a ser marcado pelo Kohler, que depois de partir o nariz ao Silvino (esse
frangueiro traidor que se desviou dos penalties com o PSV) encostou para o 1-0.
Mas dizia eu, ganhámos 2-1. O Paneira partiu-os todos. E lembro-me dos festejos,
loucos como um grito, a atirar-se para os abraços dos adeptos. Eu queria ser
assim. Eu queria ser jogador do Benfica, ter um nome português e invulgar,
marcar na Luz cheia e atirar-me para as bancadas.
Paneira tinha um semblante carregado como se jogasse xadrez. Parecia
imune às bancadas adversárias, parecia que vivia num mundo só seu, que sabia
esperar até à última pela entrada do defesa esquerdo adversário para, com a
parte de fora do pé direito, fintar para fora e arrancar para o cruzamento. Tive
sempre a sensação de que Paneira era a única pessoa no mundo que queria tanto
ganhar como eu.
Há um lance mágico na final da Taça de 92/93 contra o
Boavista em que a equipa troca toda a bola rápido, o Paneira tabela com o Águas
e à saída do guarda redes, Paneira pica a bola para golo. O vermelho que estava
no Jamor explodiu. Foi a coisa mais bonita que a melhor equipa que eu me lembro
do SLB fez. Estava em casa, numa tarde soalheira, com o Tiago Palma, Farense
fanático e simpatizante do Glorioso. Vimos o jogo felizes. A minha mãe tocou à
porta e eu, como era um puto (demasiado) bem comportado, desci os 3 andares
para a ajudar a carregar as compras. Quando subi, o Tiago – nunca me hei-de
esquecer da cara dele – disse-me com pena: “O Futre marcou um golão”. Eu perdi
aquele 3-1 porque ajudei a minha mãe com as compras. Tinha 9 anos e nunca mais
me esqueci disso. O Paneira faz parte disso, desse constante regresso à infância.
O Paneira é a minha ligação ao meu avô, quando festejámos os
dois um 1-0 ao Beira – Mar no último minuto, de penalty, em 93/94 (roubaram-nos
uns 4 penalties nesse jogo, antes que se ponham com bocas). O meu avô foi buscar-me
a casa do Tiago, eu desci a correr, pedi-lhe para por o relato e estávamos na
Avenida 5 de Outubro em Faro quando o Paneira rematou.
Foi a época de todas as épocas, para qualquer Benfiquista da
minha geração. Os verdes haviam-nos roubado Paulo Sousa (que é o maior verme, o
maior traste, a pessoa por quem tenho menos respeito no mundo) e Pacheco e
tinham uma super equipa. Nós estávamos destruídos, quase perderamos também JVP
e os russos bebiam como russos. Naquela noite maravilhosa de 14 de Maio de
1994, Paneira não fez os 3 de JVP nem os 2 de Isaías e nem sequer aquele último
do Hélder. Mas estava lá.
É ele quem salta sobre a bola no 3º golo, depois do livre do
Aílton e a mete ao segundo poste. É ele quem assiste o Hélder no 6º golo. Mas
guardo o 4º com carinho.
Para quem não sabe – e portanto não é do Benfica – a perder
por 2-3 ao intervalo, Carlos Queirós retirou o defesa esquerdo, Paulo Torres. A
ala esquerda ficou ali, ao relento. E Paneira, como bom xadrezista, explorou o
erro até ao limite. Fê-los sangrar. E hoje, ao rever pela enésima vez o resumo
do 3-6 (já sei quase tudo de cor), apercebo-me que Paneira os quis castigar por
todos nós. Por todos os que nos sentimos humilhados com a saída de Paulo Sousa,
por todos os que – como eu – fomos gozados no recreio. Outros foram no café,
outros no trabalho. Paneira pensou em nós. E no 4º golo investe pela esquerda. Passa
um, passa dois e adianta demais. Paulo Sousa cobre a bola. E Paneira acredita.
Paneira acredita que o traidor vai falhar, acredita que vai ficar com a bola,
acredita que o recreio vai voltar a ser bom. E Paneira ganhou a bola ao
traidor. Porque é ele era o Benfica e acreditava sempre até ao fim e lutava,
lutava, lutava como nós lutaríamos com aquela camisola vestida. E depois
cruzou. JVP finge que não é nada com ele e deixa a bola passar. Isaías
matou-os.
Tinha 12 ou 13 anos. Paneira tinha sido escorraçado da Luz e
jogava no Vitória. Ganharam-nos na Luz 1-3 e Paneira, aos microfones na rádio,
mostrava toda a sua mágoa contra aquele Benfica. Contra o Benfica que o
expulsara, contra aqueles dirigentes que destruíram que restava de mística no
meu clube. Nunca vi esse jogo, esses golos. Lembro-me bem da tristeza que senti
quando o Paneira falou do lado de lá.
Se o Benfica um dia voltar a ser Benfica, vamos buscar o
Paneira. Será treinador de juniores ou ficará só por ali, a fazer o que bem
entender. Paneira é a infância e a juventude de muitos de nós.
Tenho 28 anos. Às vezes, no caminho para casa, ainda me
imagino jogador do Benfica, capaz de levantar a Luz, arrepiado com a sensação
de marcar um golo pelo clube do meu coração. Imagino-me a correr para a
bancada, de braços no ar, como um grito. Eu, aos 28 anos, ainda quero ser o Vítor
Paneira.