A reacção do Ronaldo no final do jogo contra a Dinamarca lembrou-me a pergunta celebrizada por Baptista Bastos e tão bem caricaturada por Herman José. Para uma certa geração, era fundamental saber onde toda a gente tinha estado no dia 25 de Abril de 1974. Todos gostavam de se mostrar muito revolucionários, mesmo que tenham passado o dia em casa. Todos coloriam a revolução como queriam, porque ali se tinha vivido História.
Nos grandes momentos, sejam eles políticos ou desportivos, é normal que toda a gente queira deixar a sua marca. Acredito que seja por isso que Ronaldo, frustrado com uma exibição terrível, tenha perguntado aos jornalistas onde estava Messi nesta altura do ano passado, lembrando que também ele tinha dificuldades em destacar-se numa selecção que também ela já teve melhores dias. E acredito ainda que seja porque Ronaldo e Messi são o melhor que a nossa geração pôde ver que os jornalistas continuem a questionar ambos sobre a inevitável comparação, mesmo que o timming seja, por vezes, duvidoso.
Eu não gosto do Ronaldo. Nunca gostei, por isso estou à vontade para falar. Não estou a dizer isto porque ele ontem não jogou uma bosta, ou porque está na moda amar ou odiar o rapaz, mas apenas porque a actualidade assim o obriga. E não vou deixar de o dizer se ele marcar quatro hat-tricks seguidos e der o campeonato da Europa a Portugal. Nem deixarei de o dizer daqui a umas décadas aos meus netos, o Lionel, o Andrés e o Messi. E não gostar do Ronaldo não implica, obviamente, não constatar o seu génio. Para mim, Ronaldo é o segundo melhor jogador do mundo de longe e, na comparação com Messi, elogiarei sempre o facto de ter de trabalhar tanto para tentar ser melhor.
O que eu não gosto no Ronaldo é o que eu não gosto noutro jogador qualquer que tenha o mesmo feitio. Não gosto do estilo superstar, do show-off, dos auto-elogios, da confusão entre "ter personalidade" e ser um arrogante bruto, da namorada que vai a jantares do Obama no dia seguinte a aparecer numa capa em lingerie, do filho pago em segredo, da família espampanante a quem ninguém tem coragem de dizer que é ridícula, das prendinhas da Nike antes de um jogo tão importante. Faz-me rir que o Gaspar, mítico central caceteiro, tenha achado normal andar anos com aquele cabelo amarelo, com uma pinta de quem achava parecer tal e qual o Brad Pitt? Sim, faz-me. Mas o Ronaldo mudar de penteado ao intervalo de um jogo com a Alemanha não me faz rir, dá-me raiva. Porque o Ronaldo é o capitão da selecção nacional e dele esperava que tivesse passado o intervalo a motivar os colegas e não a olhar para o espelho.
Dir-me-ão os acólitos de Ronaldo (sim, porque agora há uma religião e, ou somos todos uns adoráveis crentes, ou somos uns detestáveis ateus) que ele é uma vítima da sua própria fama. Sim, ok, percebo que a imprensa o persiga mais do que ao Hélder Postiga, compreendo que seja uma vida mais interessante. Mas o Messi, o inevitável Messi, o único com acesso ao mesmo patamar, não se mete nestas palhaçadas.
Alegarão os tais acólitos que um jogador de futebol não vale pelo que faz fora do campo. Sim, está bem, o Beckham seria sempre bom sem a sua Spice Girl e o Yannick Djaló nem com a Luciana Abreu lá vai (pausa para lamentar o fim desta relação, que tantas alegrias nos deu). Mas eu adoro futebol, adoro mesmo a sério, e vejo aqueles gajos como heróis, como exemplos, como pessoas que todos os dias fazem parte da minha vida. Não lhes exijo que sejam Nobel da Literatura ou que acabem com a fome no mundo, mas arrepia-me que não tenham o mínimo de respeito e educação, já nem vou dizer comigo ou com o Presidente da República, mas com os miúdos que lhes vão pedir autógrafos porque quando forem grandes querem ser como eles.
O que separa um jogador excelente de um jogador que fica na História está muito longe de ser apenas o futebol. Maradona não queria saber de chefes de Estado (a não ser o de Cuba, claro), mas pintava a rebeldia com tanta inteligência, com tanto humor, que nos deixava sempre a torcer por ele, mesmo quando era pouco mais do que um drogado. Ronaldo é simplesmente estúpido. Não sabe falar, muito menos pensar, e fica muito irritadinho porque os poucos jornalistas que não fazem uma vénia à passagem de sua excelência têm a distinta lata de exigir explicações pelos dois golos falhados só com o guarda-redes pela frente. Todos falham? Claro que todos falham. Mas uns falham, admitem o erro, aprendem com ele e seguem em frente. Este faz birra, coitadinho, porque ouve gritos a Messi onde quer que vá. Meu caro, achas mesmo que a tua profissão, que a tua vida, são um peso sobre os teus ombros? É chato adormecer à noite quando se ganha não sei quantos milhões de euros por ano? Vai à merda que o meu namorado não é rico e tem pessoas a agarrarem-se a ele para que explique a doença ou a morte de um familiar. Isso sim, deve ser horrível. Já para não falar da agricultora de 90 anos que tem de colher a própria comida ou o miúdo que tem de andar quilómetros para ir à escola. Estas pessoas são o teu país e não, não tens de te sentir culpado por seres rico e bom jogador (giro, desculpa, mas é muito subjectivo), mas também não podes esperar que esta gente te deixe em paz quando desistes de uma bola e ficas com aquele ar de “ai que não me apetece ir lá atrás”.
Voltarão os acólitos à carga, porque exigimos muito mais do Ronaldo do que de outro qualquer. E eu roubo a citação ao A., que escreveu que “não se pode querer ser o melhor do mundo e ao mesmo tempo querer sofrer uma pressão semelhante à do Miguel Lopes”. É que é mesmo isso. Ontem assisti ao jogo no meu local de trabalho e vi pessoas a rirem-se quando o Postiga não chegou a um passe inalcançável do Ronaldo e caiu no relvado. Portanto, gozamos um rapaz por não chegar a uma bola, mesmo tentando, por não aparentar ser grande coisa, mas que, afinal, até mostram as estatísticas que é dos melhores marcadores da selecção, mas ai jesus que o mundo vai acabar quando alguém (o grande P.!) questiona por que razão o senhor Ronaldo tem direito a não acompanhar o lateral dinamarquês até à defesa.
Vá, venham-me lá com o argumento que ele veio de uma família pobre e humilde e que é muito difícil ser o Ronaldo. Terei todo o prazer em recordar-vos que, antes de um jogo qualquer da Liga dos Campeões, um jornalista perguntou ao Lucho, nessa altura no Marselha, se sentia muito a pressão. E ele respondeu: “A pressão real é a de um pai que se levanta cedo todas as manhãs para alimentar os filhos. Isso é o que meu pai fez por mim e pelos meus irmãos. Fico espantado quando vejo jogadores a queixarem-se de algo. Levantar-se todos os dias às cinco horas da manhã para ir fazer um trabalho de que não gostamos, isso sim, é motivo de queixa”. Isto, meus caros, é o que distingue os Luchos dos Ronaldos que aí andam. E não peço desculpa por preferir os primeiros.
Se eu acho que o Ronaldo devia ser castigado por aquela exibição, chicoteado em público e colocado no banco no próximo jogo? Não, claro que não. Ronaldo é o melhor jogador português de longe, deixemo-nos de embirrações, e até pode ser Bola de Ouro e tudo o que ele quer. Mas também não me tentem sequer obrigar a ter pena dele, porque isso nunca terei. Muito menos me façam sentir anti-patriota por não beijar o chão que ele pisa. Ronaldo é a imagem de Portugal no mundo, é verdade, por muito que isso me custe. Eu seria bem mais feliz se, na Austrália ou na Rússia, quando disse a minha nacionalidade, me tivessem respondido: “Ah, és do país do Saramago”. Mas não, disseram que eu sou do país do Ronaldo. Por isso, é normal que este país, que a geração que tem o prazer de viver na mesma altura de Ronaldo e Messi, que todos os que sentem tanto o futebol que nunca vão esquecer onde estavam no dia em que o clube venceu a Champions ou que a selecção foi à final do Euro, exijam mais dele.
P.S. O abraço de João Moutinho a Varela após o golo deste foi das coisas mais bonitas que eu já vi. Emocionou-me mesmo. Deve ser por serem do FCPorto. Sim, agora que penso nisso, às tantas, é por causa disso.
Partilhamos amigos e famílias. Partilhamos almoços e jantares. Partilhamos livros e discos. Partilhamos viagens e segredos. Partilhamos uma casa e uma vida. Só não partilhamos o clube.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
O nosso sábado
Sábado, no Porto, pela C.:
Foi um sábado como outro qualquer. Acordámos tarde, ligámos a televisão e passámos o dia a ver desporto. Primeiro o futsal, porque ver lampiões e lagartos raivosos é sempre giro, ainda que sem metade da piada dos tempos em que um jogador portista beijava o dragão que tinha tatuado no braço. Depois o andebol, porque a selecção luta pelo acesso ao Mundial e há lá uns rapazes simpáticos que vestem de azul e branco. E, claro, o grande jogo do dia, aquele pelo qual todos esperávamos ansiosamente.
Vimos o benfica-Porto em hóquei com a família praticamente toda junta, porque as grandes ocasiões assim o exigem. A lição estava bem estudada. Conhecíamos os jogadores, discutimos os clubes pelos quais já jogaram, sublinhámos as maiores ameaças do adversário. Tentámos ainda lembrar-nos da última vez em que o Porto não foi campeão nesta modalidade. Não conseguimos. Ficámos também a saber que os adeptos portistas foram proibidos de se deslocarem ao pavilhão da luz. Não consigo perceber como é que, num país democrático, as forças policiais têm poderes para privar pessoas que tinham bilhetes na mão de irem ver um jogo de hóquei e como é que achamos que zelar pela segurança dos adeptos passa por proibi-los de aparecer. Se a moda pega...
Enfim. Começámos mal, a perder, sem grande reacção. Conforme os nervos aumentavam, desapareciam as garrafas de cerveja do frigorífico. Já estávamos encostados ao sofá, sem grande vontade, quando os golos chegaram. Emoção, rivalidade, vontade, um jogador adversário a gritar para as bancadas que nos iam "matar, caralho", estava lá tudo. O jogo adivinhava-se cada vez mais renhido quando chegou a hora do Portugal-Alemanha. Ora, nós somos malucos, mas ainda somos capazes de perceber a importância de um campeonato da Europa de futebol. A televisão grande ficou, então, sintonizada na selecção, enquanto a pequena televisão da cozinha transmitia o hóquei naquele canal nefasto.
Não foi, portanto, nada surpreendente que, enquanto o jogo de hóquei não terminou, a cozinha tivesse ficado mais lotada do que a sala. Era vê-los a amontoarem-se, a fecharem os olhos porque com aquele tamanho de ecrã já não se vê lá muito bem e a gritarem dois golos de seguida, como se a selecção estivesse a ganhar a final do Euro com uma exibição do caraças. Ainda hoje tento imaginar o que terão pensado os vizinhos, pessoas normais que certamente viam o Portugal-Alemanha. Adoro sonhar que nos ouviram e que, atentos, ansiosos pelo golo, pensaram que a sua televisão estaria atrasada. Mas o golo não chegava, porra. O que se passará então? E pumba, mais outro, só para os deixar KO.
Claro que, como é habitual em todas as modalidades, a equipa de arbitragem decidiu dar um ar da sua graça e o Porto acabou por perder a vantagem. Imagino também que na minha casa, em Lisboa, onde só há uma televisão, esses golos tenham sido festejados com mais vontade do que os golos do Pauleta, do Nuno Gomes, do Eusébio e do Fernando Gomes todos juntos (fui obrigada a recorrer à história porque esta selecção não marca golos). É por isso que sempre que me perguntam como é que eu consigo aturar o M. (e é uma pergunta que me fazem muitas vezes, estranho) eu respondo: é que nós somos iguais, só muda a cor.
A noite continuou com a seca do Portugal-Alemanha, comigo a gritar para o Moutinho não dar muito nas vistas e uma oportunidade perdida de vendermos o Varela. Acho engraçado que o país esteja contente com uma coisa nunca antes vista, o chamado "empate moral", porque se eu fosse adepta desta selecção estaria certamente muito zangada por a minha equipa não querer (nem saber, admitamos) ganhar aquele jogo. Felizmente, não sou, por isso acabei o sábado felicíssima com mais um golo do Hulk que pode aumentar a conta em mais uns milhões. Fazendo as contas, só no sábado marquei 6 golos (cinco do hóquei mais este). Quase que aposto que será mais do que esta selecção durante todo o Euro.
Sábado, em Lisboa, pelo M.:
O meu sábado começou sexta à noite, com copos no Bairro e uma animada discussão Benfiquista, onde eu e o L. defendemos o Cardozo como se fosse um irmão, contra os infames ataques do L. Já antes, à espera deles, eu e o R. discutimos a imperiosa necessidade de impingir o Gaitan a alguém e de que o Witsel fique.
Estávamos um bocado desapontados com as declarações do Manuel José porque puseram fim ao espírito "visita de estudo" que a seleção tem desde os tempos do Queiróz e que, na nossa humilde opinião, podiam evitar uma goleada (estávamos certos). Falámos mal sem parar do Cristiano Ronaldo e continuámos nos copos.
Um copo puxa o outro e falámos mal do Porto, soube umas coisas do Jesus (tanto o L. como o L. são da Amadora e na Amadora sabe-se tudo do Jesus, inclusive expressões literais ditas pelo mesmo, o que torna as conversas muito mais reais. Às 4 da manhã, podia jurar que estava a ouvir Jesus himself a discutir com o Rui Costa) e continuámos a esquecer-nos que havia essa coisa da seleção.
Acordei, naturalmente, tarde. Já não tenho a prática universitária e basta uma noite fora de horas que parece que fui atropelado. Felizmente, havia o futsal. Festejei de janela aberta cada golo dos nossos rapazes para o vizinho lagarto se lembrar da minha voz - que ele nunca vai esquecer, dado que fiz abanar o prédio com o terceiro golo do Llorente em Bilbao - e fui à baixa resolver uns assuntos, ainda satisfeito com a mão cheia.
Depois veio o R. e ficámos a sofrer com o hóquei. Havia mesmo gente que estava a comentar o Holanda-Dinamarca no twitter, o que não deixava de ser fascinante, já que o centro do Mundo era, obviamente, o pavilhão da Luz. O Benfica jogou melhor e devia ter ganho. O guarda-redes do Porto meteu a mão nos tomates e fez piretes, mas vai continuar sem receber ordenado, que é muito bem feito. Desmoralizámos no 3-5, chegou o C. (lagarto) que fez pressing para mudar para a seleção e nós, que estávamos a perder e já não queríamos saber de hóquei para nada - toda a gente sabe que os árbitros ainda favorecem mais o Porto no hóquei do que no futebol (e isso é um feito) e começámos a ver aquela seca. Mas eu continuei no computador a controlar o hóquei (queria lá saber da seleção, não queria era ser mau anfitrião), e foi assim que eu e o Rafa festejámos o 4-5 e o 5-5. Com isto lá mudámos para o hóquei e ficámos a curtir o caos. O Reinaldo foi para a rua e eu e o Rafa gritámos "TOMA, FILHO DA PUTA!" e, a não ser que o Lahm tenha levado amarelo ao mesmo tempo, isso pode ter confundido os vizinhos. Acabou 5-5, podemos ser campeões em Almeirim (sim, tornei-me um expert instantâneo em hóquei) e isso é que interessa.
Depois mudámos para a seleção e foi horrível, até porque a minha televisão está super atrasada e ouvimos os vizinhos a gritar "Foda-se!" ainda o Nélson Oliveira não tinha conquistado brilhantemente a bola para o Varela falhar. Tecemos milhares de considerações técnicas e desapaixonadas sobre a necessidade de um número 10 e de um ponta-de-lança e batemos sem perdão no Cristiano Ronaldo. A seguir vimos o Argentina-Brasil, ainda a tempo de festejarmos o terceiro golo do Messi. Gozámos com as pessoas que dizem que o rapaz só é bom no Barça e que é muito protegido (sim, o C. é verde, mas detesta o Ronaldo).
Foi um sábado óptimo, com 5 aos lagartos e um passo fundamental para o título de hóquei. E, só para não dizerem que eu sou faccioso e mais não sei o quê, também fiquei contente com a seleção. Parece-me que, no próximo jogo, o Nélson Oliveira vai ser titular!
quinta-feira, 7 de junho de 2012
E vem-nos à memória uma frase batida: a minha seleção é o Benfica
Qualquer doente de bola adora Europeus e Mundiais. São momentos míticos, com uma magia especial, que sabemos que vão entrar para a história. O Euro 2000 parece-me sempre uma coisa irreal, cheia de histórias, que aconteceu há milhares de anos, mas do qual me lembro de tudo. E ainda no outro dia passei meia hora com o meu pai ao telefone, a vermos os dois um programa sobre o Europeu de 96 e a adorar a imagem do Andreas Moller com uma pose de pretensa realeza depois de marcar o penalty decisivo que eliminou a Inglaterra em pleno Wembley.
Não gosto da seleção portuguesa, é-me impossível. Quem sofre a sério com um clube não consegue ter um segundo amor, um romance de Verão de 2 em 2 anos. O nosso coração está entregue há muito. E o futebol é mais do que isso. Não se gosta só do Benfica. Um Benfiquista detesta os rivais (e vice-versa). Quem não sente isto, não percebe o jogo. Quem não torce contra os adversários na Europa não está dentro da beleza da rivalidade, da deliciosa maldade que os adeptos podem ter.
Mas, dizia eu, os Europeus e Mundiais são momentos deliciosos. Eu tinha um orgulho enorme quando colava um jogador estrangeiro do Benfica numa caderneta de um Mundial ou Europeu e lia o "SL Benfica (PORTUGAL)" em baixo. Lembro-me que o Schwartz (a propósito, vão ler o Constantino) me saiu a um domingo na caderneta do Mundial de 1994. Recordo, pela enésima vez, que o Suécia - Brasil do Itália 90, com Mozer, Valdo e Aldair de um lado e Thern, Magnusson e Schwartz do outro, foi qualquer coisa de muito especial.
Obviamente que, como doente, colar o Balakov e o Kostadinov me fez impressão. Aquilo era gente que nem numa caderneta do campeonato nacional devia estar, quanto mais numa coisa tão rara e preciosa. Daí que sempre me tenha feito impressão que eu, que ainda não consigo olhar para o Domingos sem ficar nervoso, tenha que torcer pela seleção portuguesa e, pior, ter que esquecer as inimizades, as insanáveis diferenças. É-me organicamente impossível. Eu sei - de cor - que o Benfica foi a equipa com mais titulares no primeiro jogo do Euro 1996 (Hélder, Dimas e JVP). Ou pelo menos isso era o 11 anunciado pel`"A Bola" no dia do jogo. Mas acho que jogaram mesmo os 3. Portanto, olhe para onde olhe, tenho mais carinho pelo cromo do Schwartz e no facto de termos tido mais titulares do que os outros do que pela seleção em si.
Isto, claro, torna-se mais surreal em 2012. Só de pensar no onze inicial, fico enjoado. Rui Patrício (não mete medo, mas não gosto, obviamente); João Pereira (o ar de gozo depois do último derby... Nojo.), Pepe (ui, que bom, um caceteiro que no Dragão tinha praticamente licença de porte de armas e que agora tenta lesionar o Messi todos os dias. Adoro!), Bruno Alves (tenho que comentar?) e Fábio Coentrão (pronto, o único rapaz aceitável e merecedor de aplausos). Miguel Veloso (o tal que jurou nunca jogar no Benfica - como se nós te quiséssemos - e cujo pai me lixou a infância. Também fico em pulgas quando tem a bola), Moutinho (pagava para que o Khedira lhe metesse o joelho para dentro. Ou os dois) e Meireles (filho de uma grandessíssima...). Nani (ler a explicação do Rui Patrício), Hugo Almeida (pausa para incredulidade. Em milhões de portugueses, este é o melhor a ponta de lança? Tenho a mesma sensação com o Cavaco: isto é o melhor que arranjamos para Presidente da República?) e Cristiano Ronaldo (um lagarto atrasado mental, oligofrénico, cuja imprensa portuguesa quer que seja maior que o Eusébio, que já fez um pirete aos adeptos do Benfica em plena Catedral).
E querem que eu torça por isto? Sábado, o Glorioso Sport Lisboa e Benfica recebe os verdes na final do futsal e pode ser campeão em hóquei contra os azuis. Preferia ganhar o jogo 1 da final de futsal (sim, só o jogo 1, nem estou a falar da final toda) a que Portugal fosse campeão da Europa. Sim, o meu nível de doença é este.
Apesar de ser muito ténue a esperança de sequer ganhar um jogo (quanto mais passar o grupo), por respeito aos cromos que colei, por respeito ao clube do meu coração e ao próprio futebol, a minha equipa este Europeu é a deste senhor:
Que pena a caderneta da Panini do Euro não ter um cromo para os treinadores.
terça-feira, 5 de junho de 2012
Blog anti-adeptos da selecção
O Euro está a chegar. Para nós, lá em casa, isso significa terminar uma caderneta de cromos, decorar nomes e caras de jogadores esquisitos, esperar por grandes jogos e, sobretudo, apostar a dinheiro num vencedor. Mas esta é a parte boa de um Europeu ou de um Mundial, competições que cremos terem sido originalmente pensadas para dar motivos para viver aos malucos, como nós, que não aguentam um mês de Junho de pausa no futebol.
A parte má é a que está aí, por todo o lado, e chama-se selecção nacional. O Euro ainda nem começou e já não há pachorra, embora tenha ficado desiludida por ninguém se ter lembrado de comprar um helicóptero para filmar as três horas de voo entre Lisboa e Poznan. Comecemos, então, pelos protagonistas: esta selecção não sabe jogar à bola, não entusiasma, não tem aquela aura do Euro 2000 à volta, a esperança saloia do Euro 2004 ou a qualidade do Mundial 2006. Olhando de fora, pouco mais se vê do que um grupo de jogadores com penteados horrorosos e um péssimo gosto para roupas e namoradas. O seleccionador está sempre com ar de chateado, de quem está ali por obrigação e de quem só quer picar o ponto e vir embora. Tudo isto pode ser uma estratégia para desviar as atenções e aliviar a pressão, claro, e não quero aqui juntar-me aos profetas da desgraça porque não tenho poderes divinatórios, mas assim torna-se mesmo difícil torcer por eles.
Eu, neste assunto, sou suspeita. Não torço pela selecção. Desculpem-me aqueles que apregoam que, por ter nascido dentro de um território definido há quase 900 anos, sou obrigada a meter uma bandeira na janela e a pintar a cara de vermelho e verde (Pausa: com estas cores, como é que queriam que eu aderisse?). Sim, claro que Portugal me diz mais do que a Ucrânia e a Polónia, mas só porque os nomes dos jogadores são mais fáceis de pronunciar. Olhando para aqueles 23, e admitindo uma natural simpatia por quem actualmente enverga ou já envergou a camisola azul e branca, não há nada que faça o meu coração bater mais depressa.
Se durante o ano todo achei o Ronaldo um idiota, não sei por que é que durante estes 15 dias o hei-de tratar como um herói. Se durante o ano todo insultei o Nélson Oliveira por se atirar para o chão, não sei por que é que agora tenho de gritar golo dele. Se durante o ano todo torci para que o João Pereira se lesionasse, não sei por que é que este é o momento de não o fazer. Não percebo, a sério. Ah e tal, porque agora vestem a camisola das quinas e somos todos um só e não sei quê. Não, não, e não. Eu sou do FCPorto e ocupo todo o meu tempo de adepta com isso, não tenho espaço para mais nada.
E isso leva-me à parte mais delicada da questão: as pessoas que durante dois anos não falam de bola, até se incomodam com quem chega segunda-feira ao trabalho e comenta o decisivo resultado do paços de ferreira-marítimo, não sabem quem é o melhor médio centro da Liga, não sabem sequer o que é um médio centro, e que olham para mim com aquele ar de "coitadinha, não tem mais nada que fazer do que fazer 600 quilómetros para ir ver um jogo de 11 homens contra 11", mas que durante o mês de um Europeu ou de Mundial são uns grandes malucos pela selecção.
É vê-los a irem para as praças das cidades com três cachecóis, duas bandeiras e uma fotografia do Nani que tinham lá em casa. É vê-los nas estradas a dizerem adeus ao autocarro da selecção ou naqueles programas da manhã ou da tarde de altíssima qualidade a comentarem se deve jogar o João Moutinho, o Hugo Viana ou os dois. É vê-los por esses cafés, restaurantes e locais de trabalho por esse país fora a argumentarem que a selecção portuguesa é a pior do mundo após a derrota com a Turquia ou é a melhor do mundo se não perder com a Alemanha. Esta gente é assim: emociona-se com cada passe falhado do Bruno Alves, grita de cada vez que o Ronaldo toca na bola e acha que o Rui Patrício é deus. Mas para nós, os verdadeiros adeptos, o Bruno Alves ou é um central raçudo à Porto, ou é um caceteiro do pior à Porto, o Ronaldo ou é o melhor jogador do mundo ou o segundo melhor jogador do mundo e o Rui Patrício é o totó que ainda não percebeu que não pode agarrar a bola quando um defesa da sua equipa a passa com o pé. E é mesmo difícil explicar-lhes que nós não os vamos conseguir ver de outra maneira, só porque a camisola que usam nestes dias é a de Portugal.
E a pior parte é quando, naqueles directos deprimentes de uma terrinha qualquer, eles dizem que não perdem uma. Quando uma é a transmissão televisiva de um dos prováveis três jogos de um grupo de jogadores dos quais essas mesmas pessoas não souberam nada nos últimos dois anos nem vão saber nos próximos dois, isso é um insulto para nós, os doentes. Eu é que não perco uma do meu clube. E por não perder uma entenda-se ir ao estádio ou ver na televisão todos os jogos, ouvir na rádio quando não há outra opção, ler três ou quatro crónicas diferentes sobre os mesmos 90 minutos só para ver se concordam comigo, falar todos os dias ao telefone com os meus pais sobre aquela nova contratação ou aquele grande palerma que falhou um golo no sábado, discutir com o M. sobre os árbitros da anterior, da próxima e de qualquer jornada e perguntar aos colegas de trabalho se também acham que aquele ponta-de-lança não vale um chavelho. Isso sim, é gostar de um clube, de uma equipa, de um grupo de jogadores que, nas melhores alturas do ano (e ano é uma época, nós nunca sabemos nada pelos anos civis), me deixam tremendamente feliz ou infeliz de três em três dias.
Sim, é muito bonito recordar os espanhóis a festejarem nas ruas, o sorriso inesperado dos gregos ou aquele dia épico dos dinarmaqueses. Claro que sim. Eu adoro bola, por isso é impossível não me entusiasmar com as grandes selecções, que marcam a história do futebol. O problema é que Portugal nunca tem uma selecção assim.
A parte má é a que está aí, por todo o lado, e chama-se selecção nacional. O Euro ainda nem começou e já não há pachorra, embora tenha ficado desiludida por ninguém se ter lembrado de comprar um helicóptero para filmar as três horas de voo entre Lisboa e Poznan. Comecemos, então, pelos protagonistas: esta selecção não sabe jogar à bola, não entusiasma, não tem aquela aura do Euro 2000 à volta, a esperança saloia do Euro 2004 ou a qualidade do Mundial 2006. Olhando de fora, pouco mais se vê do que um grupo de jogadores com penteados horrorosos e um péssimo gosto para roupas e namoradas. O seleccionador está sempre com ar de chateado, de quem está ali por obrigação e de quem só quer picar o ponto e vir embora. Tudo isto pode ser uma estratégia para desviar as atenções e aliviar a pressão, claro, e não quero aqui juntar-me aos profetas da desgraça porque não tenho poderes divinatórios, mas assim torna-se mesmo difícil torcer por eles.
Eu, neste assunto, sou suspeita. Não torço pela selecção. Desculpem-me aqueles que apregoam que, por ter nascido dentro de um território definido há quase 900 anos, sou obrigada a meter uma bandeira na janela e a pintar a cara de vermelho e verde (Pausa: com estas cores, como é que queriam que eu aderisse?). Sim, claro que Portugal me diz mais do que a Ucrânia e a Polónia, mas só porque os nomes dos jogadores são mais fáceis de pronunciar. Olhando para aqueles 23, e admitindo uma natural simpatia por quem actualmente enverga ou já envergou a camisola azul e branca, não há nada que faça o meu coração bater mais depressa.
Se durante o ano todo achei o Ronaldo um idiota, não sei por que é que durante estes 15 dias o hei-de tratar como um herói. Se durante o ano todo insultei o Nélson Oliveira por se atirar para o chão, não sei por que é que agora tenho de gritar golo dele. Se durante o ano todo torci para que o João Pereira se lesionasse, não sei por que é que este é o momento de não o fazer. Não percebo, a sério. Ah e tal, porque agora vestem a camisola das quinas e somos todos um só e não sei quê. Não, não, e não. Eu sou do FCPorto e ocupo todo o meu tempo de adepta com isso, não tenho espaço para mais nada.
E isso leva-me à parte mais delicada da questão: as pessoas que durante dois anos não falam de bola, até se incomodam com quem chega segunda-feira ao trabalho e comenta o decisivo resultado do paços de ferreira-marítimo, não sabem quem é o melhor médio centro da Liga, não sabem sequer o que é um médio centro, e que olham para mim com aquele ar de "coitadinha, não tem mais nada que fazer do que fazer 600 quilómetros para ir ver um jogo de 11 homens contra 11", mas que durante o mês de um Europeu ou de Mundial são uns grandes malucos pela selecção.
É vê-los a irem para as praças das cidades com três cachecóis, duas bandeiras e uma fotografia do Nani que tinham lá em casa. É vê-los nas estradas a dizerem adeus ao autocarro da selecção ou naqueles programas da manhã ou da tarde de altíssima qualidade a comentarem se deve jogar o João Moutinho, o Hugo Viana ou os dois. É vê-los por esses cafés, restaurantes e locais de trabalho por esse país fora a argumentarem que a selecção portuguesa é a pior do mundo após a derrota com a Turquia ou é a melhor do mundo se não perder com a Alemanha. Esta gente é assim: emociona-se com cada passe falhado do Bruno Alves, grita de cada vez que o Ronaldo toca na bola e acha que o Rui Patrício é deus. Mas para nós, os verdadeiros adeptos, o Bruno Alves ou é um central raçudo à Porto, ou é um caceteiro do pior à Porto, o Ronaldo ou é o melhor jogador do mundo ou o segundo melhor jogador do mundo e o Rui Patrício é o totó que ainda não percebeu que não pode agarrar a bola quando um defesa da sua equipa a passa com o pé. E é mesmo difícil explicar-lhes que nós não os vamos conseguir ver de outra maneira, só porque a camisola que usam nestes dias é a de Portugal.
E a pior parte é quando, naqueles directos deprimentes de uma terrinha qualquer, eles dizem que não perdem uma. Quando uma é a transmissão televisiva de um dos prováveis três jogos de um grupo de jogadores dos quais essas mesmas pessoas não souberam nada nos últimos dois anos nem vão saber nos próximos dois, isso é um insulto para nós, os doentes. Eu é que não perco uma do meu clube. E por não perder uma entenda-se ir ao estádio ou ver na televisão todos os jogos, ouvir na rádio quando não há outra opção, ler três ou quatro crónicas diferentes sobre os mesmos 90 minutos só para ver se concordam comigo, falar todos os dias ao telefone com os meus pais sobre aquela nova contratação ou aquele grande palerma que falhou um golo no sábado, discutir com o M. sobre os árbitros da anterior, da próxima e de qualquer jornada e perguntar aos colegas de trabalho se também acham que aquele ponta-de-lança não vale um chavelho. Isso sim, é gostar de um clube, de uma equipa, de um grupo de jogadores que, nas melhores alturas do ano (e ano é uma época, nós nunca sabemos nada pelos anos civis), me deixam tremendamente feliz ou infeliz de três em três dias.
Sim, é muito bonito recordar os espanhóis a festejarem nas ruas, o sorriso inesperado dos gregos ou aquele dia épico dos dinarmaqueses. Claro que sim. Eu adoro bola, por isso é impossível não me entusiasmar com as grandes selecções, que marcam a história do futebol. O problema é que Portugal nunca tem uma selecção assim.
domingo, 27 de maio de 2012
O dia 27 de Maio de 1987, pelos meus pais
Faz hoje 25 anos que fomos campeões europeus em Viena. Devido a factores temporais, não me recordo de absolutamente nada desse dia, pelo que pedi aos meus pais, os grandes culpados por esta minha doença, para o relatarem.
Não sei como foi o dia 27 de maio de 1987 até às 19:15 da tarde, mas daí para a frente nada mais esquecerei.
Juntei o meu colega de trabalho Filipe e o meu vizinho Esteves para assistir ao encontro em minha casa, e aí vimos essa primeira parte horrível, com os nossos jogadores parados, receosos, a verem jogar Matthaus, Brehme, Hoeness, Kogl, o mais novo dos Rummenigge e o guarda-redes Pfaff.
Lembro-me dos comentários do Ribeiro Cristóvão e de um tal Prates, tristes, conformados, como se o nosso destino estivesse traçado: tínhamos estado numa final com o grande Bayern de Munique...
Mas não sabiam que num balneário, lá longe em Viena, alguém dava um murro na mesa e dizia aos homens de azul que era tempo de fazer história.
E fez-se, nessa segunda-parte linda, memorável, azul! Futre a mostrar que era possível, Frasco a jogar às escondidas com os gigantes e depois Madjer e Juary... Mlynarczyk de gelo a segurar a bola nos minutos finais e o João Pinto com a Taça.
E, de repente, o Esteves exemplifica o golo de Madjer, de calcanhar... e espeta um enorme pontapé no Filipe, que estava atrás dele... foi o calcanhar do Esteves!
Tu, C., estavas com a mãezinha em casa dos avós, com 6 mesinhos apenas. Dizem que, aquando da algazarra do primeiro golo, te assustaste muito e começaste a chorar, mas eu sei bem que era um choro de alegria, porque alguém te disse o que aí vinha nos próximos 25 anos...
Pai da C.
O dia não começou nada bem. Tinha dormido mal e a C., com 6 meses, tinha que tirar sangue para fazer umas análises. Correu tudo bem, mas o nervosismo continuava com a preocupação dos resultados das ditas cujas.
Vi o jogo em casa da minha mãe. Eram só mulheres: Avó - Mãe - Irmãs - Filha.
Começa o jogo, eles marcam. Intervalo e já lá quase no fim... GOLOOOOOOOOO! Do PORTO!!!! Tudo aos gritos, de tal maneira que a C. desata num choro a olhar para nós e a achar que estávamos malucas.
Peguei nela e, para a acalmar, fui até à janela. Mal tinha lá chegado... GOLOOOOOOOOOO! Tudo aos gritos outra vez. Não queria acreditar, o PORTO estava a ganhar e eu não vi o segundo golo do Juary, porque estava com a C. ao colo na janela para a menina não se assustar.
A primeira vez para a C. foi assim, há 25 anos. Depois foi sempre a andar por esses estádios fora, a telefonar: "Mãe, não te preocupes, está tudo bem. Ganhámos, carago!"
Mãe da C.
Tenho pena de não ter visto o grande calcanhar do Madjer... perdão, do Esteves, e peço imensa desculpa por ter impedido a minha mãe de ver aquele golo, mas lá que deve ter sido um grande dia para vocês, deve!
Não sei como foi o dia 27 de maio de 1987 até às 19:15 da tarde, mas daí para a frente nada mais esquecerei.
Juntei o meu colega de trabalho Filipe e o meu vizinho Esteves para assistir ao encontro em minha casa, e aí vimos essa primeira parte horrível, com os nossos jogadores parados, receosos, a verem jogar Matthaus, Brehme, Hoeness, Kogl, o mais novo dos Rummenigge e o guarda-redes Pfaff.
Lembro-me dos comentários do Ribeiro Cristóvão e de um tal Prates, tristes, conformados, como se o nosso destino estivesse traçado: tínhamos estado numa final com o grande Bayern de Munique...
Mas não sabiam que num balneário, lá longe em Viena, alguém dava um murro na mesa e dizia aos homens de azul que era tempo de fazer história.
E fez-se, nessa segunda-parte linda, memorável, azul! Futre a mostrar que era possível, Frasco a jogar às escondidas com os gigantes e depois Madjer e Juary... Mlynarczyk de gelo a segurar a bola nos minutos finais e o João Pinto com a Taça.
E, de repente, o Esteves exemplifica o golo de Madjer, de calcanhar... e espeta um enorme pontapé no Filipe, que estava atrás dele... foi o calcanhar do Esteves!
Tu, C., estavas com a mãezinha em casa dos avós, com 6 mesinhos apenas. Dizem que, aquando da algazarra do primeiro golo, te assustaste muito e começaste a chorar, mas eu sei bem que era um choro de alegria, porque alguém te disse o que aí vinha nos próximos 25 anos...
Pai da C.
O dia não começou nada bem. Tinha dormido mal e a C., com 6 meses, tinha que tirar sangue para fazer umas análises. Correu tudo bem, mas o nervosismo continuava com a preocupação dos resultados das ditas cujas.
Vi o jogo em casa da minha mãe. Eram só mulheres: Avó - Mãe - Irmãs - Filha.
Começa o jogo, eles marcam. Intervalo e já lá quase no fim... GOLOOOOOOOOO! Do PORTO!!!! Tudo aos gritos, de tal maneira que a C. desata num choro a olhar para nós e a achar que estávamos malucas.
Peguei nela e, para a acalmar, fui até à janela. Mal tinha lá chegado... GOLOOOOOOOOOO! Tudo aos gritos outra vez. Não queria acreditar, o PORTO estava a ganhar e eu não vi o segundo golo do Juary, porque estava com a C. ao colo na janela para a menina não se assustar.
A primeira vez para a C. foi assim, há 25 anos. Depois foi sempre a andar por esses estádios fora, a telefonar: "Mãe, não te preocupes, está tudo bem. Ganhámos, carago!"
Mãe da C.
Tenho pena de não ter visto o grande calcanhar do Madjer... perdão, do Esteves, e peço imensa desculpa por ter impedido a minha mãe de ver aquele golo, mas lá que deve ter sido um grande dia para vocês, deve!
sexta-feira, 25 de maio de 2012
O Porto, o benfica e os burros
A guerra está instalada. Porto e
benfica, Norte e Sul, Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira. Tudo ou
nada por causa de um jogo de basquetebol. Todos e ninguém com razão.
Muito pouco a pensar em nós, os adeptos.
Longe mim apelar às tréguas. Também
eu gosto que o futebol dependa das rivalidades, das picardias, dos
gestos feios para os visitantes quando é golo nosso. Durante um
derby de Roma, olho sempre para as bancadas à procura dos insultos.
Antes e depois do clássico espanhol, leio com avidez as palavras de
ódio nos jornais de Madrid e da Catalunha. Não sou, nem pretendo
ser, nenhum arauto da moral. Só vos peço para pararem para pensar.
Só um bocadinho.
O maior rival do FCPorto é e sempre
será o benfica. Por tudo. Porque têm mais adeptos, porque nos
incomodam mais, porque é com eles que disputamos o título de melhor
clube português. E sim, porque é um clube absolutamente detestável. Ir à luz será sempre o jogo mais excitante do
ano. Cantar a nossa versão do “glorioso slb” fará sempre
sentido. Lutar contra o domínio mediático vermelho terá de ser
sempre o nosso destino.
E o maior rival do benfica tem mesmo de
ser o FCPorto. Por muito que eles finjam que não querem. Porque
somos nós que ganhamos, porque somos nós que lhes espetamos cinco e
depois ainda somos campeões na luz, porque somos nós, sempre nós,
que não os deixamos dormir bem à noite. No dia em que eles não
ficarem em êxtase com um título de uma modalidade conquistado no
nosso pavilhão, estaremos muito mal.
O Porto e o benfica são o futebol
português. E ninguém pode estar à espera que se dêem bem por
isso. O que eu não aceito é ser tratada como burra, seja por quem
for.
Eu sou muito, muito portista, e espero
que isso se note. Penso no Porto, vivo o Porto e sinto o Porto
constantemente. Não consigo ouvir falar mal do Porto sem espernear.
Assim de repente, não sei o que não faria pelo Porto. E vivo com um
grande lampião. O M. é muito, muito benfiquista, e isso nota-se
bem. Pensa no benfica, vive o benfica e sente o benfica
constantemente. Não consegue ouvir falar mal do benfica sem
espernear. Assim de repente, não sei o que ele não faria pelo
benfica. Somos tão iguais que às vezes acho que um de nós deve
estar enganado (ele, claro).
E isso deve querer dizer alguma coisa.
Nós odiamos o clube um do outro, discutimos sobre arbitragens,
escutas e trafulhices e não concordamos em quase nada. Mas há uma
coisa que respeitamos, porque é inatacável: cada um de nós gosta
mesmo do seu clube. E é isso que pelos vistos custa tanto a
perceber: nós somos adeptos de clubes rivais, mas não somos burros.
Daí que tudo isto me entristeça. Não
há futebol e isso, por si só, já me faz mal. E em vez de estarmos
a pensar em que avançado pode substituir o Hulk, a discutir por
quanto é aceitável vender o Moutinho e a desesperar porque não há
bola a rolar, em vez de eles estarem a escrever nas paredes o que pensam, a questionarem outros candidatos às eleições que se aproximam e a criticarem a choraminguice da arbitragem que desculpa os maus resultados, estamos todos a assistir alegremente a esta infeliz troca de
palavras. Eu percebo a guerra, juro que percebo. Não percebo é como
é que os adeptos não vêem como estão a ser lançados para a linha
da frente pelos generais.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Eu, ignorante das modalidades, me confesso
Eu
e o M. somos, provavelmente, o casal mais competitivo do mundo. Não
conheço mais ninguém que tenha um campeonato de pontos para as
tarefas domésticas, onde todas as conquistas são discutidas ao
pormenor e onde, como não podia deixar de ser, eu estou a ser
extremamente prejudicada porque o meu namorado acha que arrumar
pensos higiénicos na gaveta dos guardanapos não dá direito a menos
50 pontos.
Como
já perceberam, há uma pequena coisa que não facilita: eu sou do
Porto, ele é do benfica. E se no futebol - porque adoramos o
desporto e até percebemos alguma coisa do assunto - é a paixão que
nos move, nas outras modalidades entramos num puro estado de
“quero-ganhar-mais-do-que-tu”.
É
normalmente nesta altura que percebemos que não somos os melhores
adeptos dos nossos clubes, embora isto vos possa chocar. É que nós
não somos daqueles que seguem os campeonatos de andebol,
basquetebol, hóquei patins, voleibol e futsal
acerrimamente, que vêem as deprimentes tardes desportivas nos canais
dos clubes ou que desejam uma camisola do Robert
Johnson
ou do Frederick
Gentry (sim, fui procurar os nomes no Google). Atenção: admiramos
muito a malta que vai aos pavilhões, que conhece os jogadores e que
não grita golo quando há um ponto. Gostávamos muito de ser assim,
mas não somos. E não o fingimos ser só porque a época
futebolística acabou e precisamos de algo que nos mantenha ligados
ao ventilador.
Valha-nos
a competitividade para tornar esta altura do ano tão animada lá em
casa. No andebol, a coisa ainda foi mais ou menos pacífica. O
FCPorto tetracampeão é tão melhor que até o M. desistiu sem dar
luta. Mas não sem antes acompanharmos os jogos decisivos como burros
a olhar para um palácio, a chamar Varela ao Elias, a pedir
foras-de-jogo aos espertinhos que ficam na mama e a pedir penalties
quando nem sequer é falta (o que é falta no andebol? Não sei, os
gajos jogam com a mão!!!). O meu pai, ex-jogador e árbitro de
andebol, deve ter vergonha de ter uma filha e um genro assim.
Depois
passámos para o voleibol. Eu não tenho equipa, mas aprendi
rapidamente a torcer contra o benfica, embora a versão oficial seja
que tenho muitos amigos em Espinho. O M. sofreu um bom bocado.
Queixou-se dos árbitros (sem fazer a mínima ideia das regras) e
lamentou a falta de eficácia do benfica (num desporto em que bastam
três toques para realizar um remate, parece-me que a eficácia é
uma coisa muito subjectiva). Eu só fiquei contente.
Chegou
a vez do basquetebol. Eu sou claramente a mais ignorante. Mal conheço
os jogadores, para além do objetivo de acertar com a bola no cesto
não sei avaliar quem está a jogar bem e quem está a jogar mal, e
não consigo perceber a magia de um desporto em que é possível a
mesma equipa marcar 12 pontos num minuto e meio (o meu coração está
preparado para ver dois golos do man. city nos descontos, nada mais
do que isso). O M. tem a mania, só porque o pai é um ex-jogador da
modalidade. Diz “turnover” em vez de “AQUELE ESTÚPIDO PERDEU A
BOLA PORQUÊ?”. Avisou-me que o benfica tem melhor equipa, mas que
o Porto tem melhor treinador (vénia ao Moncho, este eu sei que é
enorme, quanto mais não seja pelos óculos).
Vimos
os jogos entre o Porto Canal e a benfica TV. Rimo-nos sobretudo dos
comentários da segunda, porque os senhores que lá trabalham não
sabem que, se um jogador lançou para três pontos e sofreu falta,
tem direito a três lances livres. Só faltou dizerem que estavam
a ser roubados pelo Proença, juro. Sofremos muito, verdade seja
dita. Jantámos ao som do último jogo, comigo a levantar os braços
para acompanhar o “Mágico Porto, graças a deus não nasci
lampião” arrepiante do pavilhão e o M. a pedir passos sem ter a
certeza do que isso significa. Desesperámos com os milhares de
pontos falhados e com aquela intensidade de, a cada segundo, tudo
poder mudar. E o benfica ganhou. Bem, parece-me, embora tenham havido
ali uma ou duas faltas duvidosas que se não tivessem marcadas
poderiam mudar a história. Que isto fique registado: só mesmo num
desporto do qual não percebo nada é que alguma vez direi que o
FCPorto perdeu bem e nem mesmo num desporto do qual não percebo nada
deixarei de atribuir alguma da culpa aos outros.
O
que se seguiu foi o Porto Canal a terminar a emissão à força, o
Twitter a especular sobre bancadas a arder e um cenário de guerra e
as reacções de hoje, que variam entre o “toda a gente sabe que os
adeptos portistas são uns atrasados mentais” e o “só no Porto é
que isto acontece”, ou o “a culpa foi do benfica, que provocou”
e o “se não fosse a polícia os adeptos portistas tinham batido
palmas à equipa vencedora”.
Não
estive lá, não sei o que se passou. Já vi as imagens dos objectos
atirados à equipa do benfica, os comunicados a acusar o treinador e
o roupeiro lampiões de interacção com os adeptos e os muitos
relatos sobre a incompetência da polícia. Se há coisa que a
experiência de bancada me ensinou é que nunca ninguém tem razão e
como, repito, não estive lá, não posso falar do assunto. Mas há
quem possa, pelos vistos.
O
que me irrita nem é a capa da Bola titular “benfica campeão no
Dragão”, como se a partir de agora eu nunca mais pudesse gozar um
lampião pelos 5-0, pelos campeões na luz, pela reviravolta na Taça
e pela vitória deste ano que nos empurrou para o bicampeonato. Acho
normal que o basquetebol se tenha tornado, de repente, o desporto
mais apreciado do país. Percebo os adeptos que festejam este título
como se a época, afinal, não tivesse sido desastrosa. Também já
fiz essa figura.
O
que me deixa doente é a superioridade moral. O “não sabem
perder”. O “nós pelo menos só apagámos as luzes”. O “no
Porto isto é normal, porque é uma cidade violenta, mal-educada e
animalesca”. Isso sim, tira-me do sério. Abstenho-me de
contra-argumentar sobre o povo portuense, porque esse não precisa de
qualquer defesa perante comentários ignorantes, que confundem
desporto com sociedade. Quanto ao não saber perder, é um facto:
nenhum portista sabe, porque não está habituado. O mais normal
ontem seria o FCPorto derrotar o benfica e ser campeão. Tudo o que
fuja à normalidade demora a entranhar-se. Não defendo a reacção
violenta, como é óbvio, mas admito que, ao contrário, não fosse
tão estranho. E, por último, em relação à comparação, acho-a
simplesmente idiota, principalmente vindo de um clube cujos adeptos
queimaram um autocarro com as portas fechadas, sem questionar se
estaria alguém lá dentro, e que, sei lá, mataram uma pessoa com um
very-light. Meus caros, deixem-se disso: anormais há em todo o lado
e, se há coisa que a nossa casa prova, é que no fundo somos todos
iguais.
Dito
isto, já estamos preparados para o hóquei em patins, aquele
desporto onde eu e o M. demoramos sempre uns bons segundos a perceber
se a bola entrou ou não. Vai ser rasgadinho, vai ser bom. Se o
FCPorto ganhar, será só mais um (já nem sei qual será a palavra a
colocar antes de campeões); se o benfica ganhar, será feriado
nacional. E ainda falta o futsal, essa modalidade que ficou conhecida
por ter deixado o Luís Filipe Vieira em cuecas, imagem que ainda
hoje me atormenta. Na natação e no bilhar nós não damos hipóteses
(não faço ideia, mas fica bem assim escrito) e infelizmente já não
temos secção de campismo para eu e o M. podermos, pelo menos, fazer
umas apostas a dinheiro sobre de quem será a melhor tenda.
P.S. Espero que os jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos das modalidades compreendam que este texto é apenas um retrato exagerado da nossa ignorância. O vosso trabalho ou a vossa dedicação são tão ou ainda melhores do que os das pessoas ligadas ao futebol. Têm a nossa admiração por isso e perdoem-nos este amor doentio pela bola a correr no relvado.
P.S. Espero que os jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos das modalidades compreendam que este texto é apenas um retrato exagerado da nossa ignorância. O vosso trabalho ou a vossa dedicação são tão ou ainda melhores do que os das pessoas ligadas ao futebol. Têm a nossa admiração por isso e perdoem-nos este amor doentio pela bola a correr no relvado.
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