Há jogadores que passam uma
carreira a um degrau de serem os melhores da sua geração, como Totti, Modric e
Aimar. São génios que ficam só (?) no coração. Depois há os que, sendo os
melhores da sua geração, têm que pedir licença para entrar no domínio dos
deuses. Poderá Romário ser equiparado a Cruyff? E por que é que Platini é
considerado melhor do que Eusébio (esta é retórica)? E, depois, entre os
melhores dos melhores, há um Brasil–Argentina particular entre Pelé e Diego
Armando Maradona. Mas já lá vamos.
Leo Messi é o melhor que já vi.
Melhor que Ronaldo, o Fenómeno, melhor que Zidane. Quando a bola lhe chega aos
pés é o fim do mundo. Não há táctica nem gigantes que apanhem aquele pé
esquerdo que sabe todos os caminhos até à baliza. A maneira como as ancas
mentem e vão desviando adversários e a frieza com que encara os guarda-redes
fazem de Leo Messi o maior génio que tive o prazer de ver. São tantos e tantos
os golos e as fintas que me marcaram que é difícil enumerar. Será, então, Leo
melhor que Diego?
Futebolisticamente, arrisco: sim.
Messi é o melhor de todos os tempos. É mais matador do que Maradona e tem um pé
esquerdo equivalente (que ousadia, Manel, que ousadia que tu acabaste de
escrever!). Com uns assustadores 24 anos, Messi tem 5 campeonatos, 3 champions,
2 supertaças europeias, 2 campeonatos do mundo por clubes e é medalha de ouro
dos Jogos Olímpicos. Tem três bolas de ouro e este ano pulverizou o recorde
europeu de golos numa época. Dá vontade de chorar.
Mas o futebol é mais do que a
soma de títulos, muito mais. Se o nosso clube acompanha a nossa vida, num
imenso paralelismo entre campeonatos e feitos como acabar o curso, a história
do futebol não é menos do que a história da humanidade. E a Leo falta bater à
porta da história.
A Catarina escreveu no facebook
que o Alemanha–Grécia vai ser o jogo mais político da nossa geração. Vamos,
finalmente, ver o futebol como representação da vida dos povos. Não é que seja
a primeira vez. Afinal, cada vez que vemos um jogo da Liga Espanhola, é fácil
identificar ainda as cicatrizes da Guerra Civil em cada emblema. Mas falta-nos
um jogo marcante, em que o mundo se una para derrotar o poder. Foi isso que
Maradona conseguiu e que Leo dificilmente terá.
Se Messi é, quanto a mim,
futebolisticamente superior a Maradona, socialmente não lhe chega aos
calcanhares. Apesar de jogar numa equipa que enfrenta um Madrid de milhões e
milhões de euros, o Barça não é propriamente uma equipa de pobretanas. Messi
nem sequer tee uma juventude de futebol de rua, já que aos 15 já estava em La
Masia a ser aperfeiçoado. E isso é muito.
Quando, no dia 22 de Junho de
1986 (26 anos antes do Alemanha–Grécia), Diego Armando Maradona, naquele que é
o jogo mais importante de sempre da história do futebol, ganhou sozinho à
Inglaterrra, o mundo nunca mais ficou igual. Com um golo com a mão (“foi como
tirar uma carteira a um inglês”, disse ele. Poderia Messi, crescido em La
Masia, assaltar como numa viela em Buenos Aires?) e com um slalom que ficou
eterno, Maradona ganhou os povos para a sua causa.
A invasão inglesa das Falkland
pairava sobre o jogo e Maradona, naquele dia, ganhou a guerra. Com uma bola de
futebol, um jogador de futebol deu cabo do poder, das armas, dos mais fortes.
Naquela hora e meia de 22 de Junho de 1986, não houve fome, não houve
injustiças, não houve guerra. Quando Diego driblou os ingleses, foram os povos
que driblaram os senhores da guerra e os senhores do dinheiro. Maradona, que foi
um género de Robin dos Bosques napolitano (se bem que aquele Nápoles era
fortíssimo, não era só Maradona), tornava-se, para sempre, Guevara vestido de
jogador de futebol e de charuto ao canto da boca.
É isso que chateia Pelé: Maradona
está no coração de todos e Pelé no bolso da FIFA. Pelé pode ter mais de mil
golos, mas nunca ganhou uma guerra com uma bola de futebol. Quantos golos
valem, afinal, uma guerra?
A Messi falta um Argentina–Inglaterra,
falta a possibilidade de entrar não só na história do futebol, mas da
humanidade. Talvez a sorte lhe sorria e
ofereça uma vitória no Campeonato do Mundo de 2014, em pleno Rio de Janeiro,
contra o Brasil. Mas seria só mais uma vitória futebolística no maravilhoso pé
esquerdo de Leo Messi. Para dar, definitivamente, a mão a Maradona, faltava a
Messi ser o grego que expulsaria a Alemanha do Euro.


