Sábado, no Porto, pela C.:
Foi um sábado como outro qualquer. Acordámos tarde, ligámos a televisão e passámos o dia a ver desporto. Primeiro o futsal, porque ver lampiões e lagartos raivosos é sempre giro, ainda que sem metade da piada dos tempos em que um jogador portista beijava o dragão que tinha tatuado no braço. Depois o andebol, porque a selecção luta pelo acesso ao Mundial e há lá uns rapazes simpáticos que vestem de azul e branco. E, claro, o grande jogo do dia, aquele pelo qual todos esperávamos ansiosamente.
Vimos o benfica-Porto em hóquei com a família praticamente toda junta, porque as grandes ocasiões assim o exigem. A lição estava bem estudada. Conhecíamos os jogadores, discutimos os clubes pelos quais já jogaram, sublinhámos as maiores ameaças do adversário. Tentámos ainda lembrar-nos da última vez em que o Porto não foi campeão nesta modalidade. Não conseguimos. Ficámos também a saber que os adeptos portistas foram proibidos de se deslocarem ao pavilhão da luz. Não consigo perceber como é que, num país democrático, as forças policiais têm poderes para privar pessoas que tinham bilhetes na mão de irem ver um jogo de hóquei e como é que achamos que zelar pela segurança dos adeptos passa por proibi-los de aparecer. Se a moda pega...
Enfim. Começámos mal, a perder, sem grande reacção. Conforme os nervos aumentavam, desapareciam as garrafas de cerveja do frigorífico. Já estávamos encostados ao sofá, sem grande vontade, quando os golos chegaram. Emoção, rivalidade, vontade, um jogador adversário a gritar para as bancadas que nos iam "matar, caralho", estava lá tudo. O jogo adivinhava-se cada vez mais renhido quando chegou a hora do Portugal-Alemanha. Ora, nós somos malucos, mas ainda somos capazes de perceber a importância de um campeonato da Europa de futebol. A televisão grande ficou, então, sintonizada na selecção, enquanto a pequena televisão da cozinha transmitia o hóquei naquele canal nefasto.
Não foi, portanto, nada surpreendente que, enquanto o jogo de hóquei não terminou, a cozinha tivesse ficado mais lotada do que a sala. Era vê-los a amontoarem-se, a fecharem os olhos porque com aquele tamanho de ecrã já não se vê lá muito bem e a gritarem dois golos de seguida, como se a selecção estivesse a ganhar a final do Euro com uma exibição do caraças. Ainda hoje tento imaginar o que terão pensado os vizinhos, pessoas normais que certamente viam o Portugal-Alemanha. Adoro sonhar que nos ouviram e que, atentos, ansiosos pelo golo, pensaram que a sua televisão estaria atrasada. Mas o golo não chegava, porra. O que se passará então? E pumba, mais outro, só para os deixar KO.
Claro que, como é habitual em todas as modalidades, a equipa de arbitragem decidiu dar um ar da sua graça e o Porto acabou por perder a vantagem. Imagino também que na minha casa, em Lisboa, onde só há uma televisão, esses golos tenham sido festejados com mais vontade do que os golos do Pauleta, do Nuno Gomes, do Eusébio e do Fernando Gomes todos juntos (fui obrigada a recorrer à história porque esta selecção não marca golos). É por isso que sempre que me perguntam como é que eu consigo aturar o M. (e é uma pergunta que me fazem muitas vezes, estranho) eu respondo: é que nós somos iguais, só muda a cor.
A noite continuou com a seca do Portugal-Alemanha, comigo a gritar para o Moutinho não dar muito nas vistas e uma oportunidade perdida de vendermos o Varela. Acho engraçado que o país esteja contente com uma coisa nunca antes vista, o chamado "empate moral", porque se eu fosse adepta desta selecção estaria certamente muito zangada por a minha equipa não querer (nem saber, admitamos) ganhar aquele jogo. Felizmente, não sou, por isso acabei o sábado felicíssima com mais um golo do Hulk que pode aumentar a conta em mais uns milhões. Fazendo as contas, só no sábado marquei 6 golos (cinco do hóquei mais este). Quase que aposto que será mais do que esta selecção durante todo o Euro.
Sábado, em Lisboa, pelo M.:
O meu sábado começou sexta à noite, com copos no Bairro e uma animada discussão Benfiquista, onde eu e o L. defendemos o Cardozo como se fosse um irmão, contra os infames ataques do L. Já antes, à espera deles, eu e o R. discutimos a imperiosa necessidade de impingir o Gaitan a alguém e de que o Witsel fique.
Estávamos um bocado desapontados com as declarações do Manuel José porque puseram fim ao espírito "visita de estudo" que a seleção tem desde os tempos do Queiróz e que, na nossa humilde opinião, podiam evitar uma goleada (estávamos certos). Falámos mal sem parar do Cristiano Ronaldo e continuámos nos copos.
Um copo puxa o outro e falámos mal do Porto, soube umas coisas do Jesus (tanto o L. como o L. são da Amadora e na Amadora sabe-se tudo do Jesus, inclusive expressões literais ditas pelo mesmo, o que torna as conversas muito mais reais. Às 4 da manhã, podia jurar que estava a ouvir Jesus himself a discutir com o Rui Costa) e continuámos a esquecer-nos que havia essa coisa da seleção.
Acordei, naturalmente, tarde. Já não tenho a prática universitária e basta uma noite fora de horas que parece que fui atropelado. Felizmente, havia o futsal. Festejei de janela aberta cada golo dos nossos rapazes para o vizinho lagarto se lembrar da minha voz - que ele nunca vai esquecer, dado que fiz abanar o prédio com o terceiro golo do Llorente em Bilbao - e fui à baixa resolver uns assuntos, ainda satisfeito com a mão cheia.
Depois veio o R. e ficámos a sofrer com o hóquei. Havia mesmo gente que estava a comentar o Holanda-Dinamarca no twitter, o que não deixava de ser fascinante, já que o centro do Mundo era, obviamente, o pavilhão da Luz. O Benfica jogou melhor e devia ter ganho. O guarda-redes do Porto meteu a mão nos tomates e fez piretes, mas vai continuar sem receber ordenado, que é muito bem feito. Desmoralizámos no 3-5, chegou o C. (lagarto) que fez pressing para mudar para a seleção e nós, que estávamos a perder e já não queríamos saber de hóquei para nada - toda a gente sabe que os árbitros ainda favorecem mais o Porto no hóquei do que no futebol (e isso é um feito) e começámos a ver aquela seca. Mas eu continuei no computador a controlar o hóquei (queria lá saber da seleção, não queria era ser mau anfitrião), e foi assim que eu e o Rafa festejámos o 4-5 e o 5-5. Com isto lá mudámos para o hóquei e ficámos a curtir o caos. O Reinaldo foi para a rua e eu e o Rafa gritámos "TOMA, FILHO DA PUTA!" e, a não ser que o Lahm tenha levado amarelo ao mesmo tempo, isso pode ter confundido os vizinhos. Acabou 5-5, podemos ser campeões em Almeirim (sim, tornei-me um expert instantâneo em hóquei) e isso é que interessa.
Depois mudámos para a seleção e foi horrível, até porque a minha televisão está super atrasada e ouvimos os vizinhos a gritar "Foda-se!" ainda o Nélson Oliveira não tinha conquistado brilhantemente a bola para o Varela falhar. Tecemos milhares de considerações técnicas e desapaixonadas sobre a necessidade de um número 10 e de um ponta-de-lança e batemos sem perdão no Cristiano Ronaldo. A seguir vimos o Argentina-Brasil, ainda a tempo de festejarmos o terceiro golo do Messi. Gozámos com as pessoas que dizem que o rapaz só é bom no Barça e que é muito protegido (sim, o C. é verde, mas detesta o Ronaldo).
Foi um sábado óptimo, com 5 aos lagartos e um passo fundamental para o título de hóquei. E, só para não dizerem que eu sou faccioso e mais não sei o quê, também fiquei contente com a seleção. Parece-me que, no próximo jogo, o Nélson Oliveira vai ser titular!