Ou melhor dizendo, estamos no País Basco.
- Me da igual.
O empregado de mesa pergunta-nos a nacionalidade. Ao ouvir
Portugal, lembra-se da meia-final do dia seguinte e, em castelhano, ouvimos a
primeira de muitas negas à selecção espanhola. É que os bascos são bascos e não
querem misturas.
A conversa continuou e o empregado de mesa, a quem o
resultado do Portugal-Espanha, como havia sugerido, era completamente
indiferente, contou-nos que, no primeiro jogo dos espanhóis, contra a Itália,
envergou uma camisola azurra. Coincidência? Talvez. A camisola podia andar lá
por casa e ele não ter mais roupa para vestir. Mais uma dose de confiança e
chegamos aos quartos-de-final, Espanha-França, e uma camisola francesa para ver
o jogo, claro. Sem insistirmos, sem muita pressão, uma promessa: iria comprar
uma camisola portuguesa em menos de 24 horas.
Dava-lhe igual, como se nota. Não queria nada saber de
futebol. Só não queria era que a Espanha ganhasse. Pensámos que ia ser giro ver
aquela meia-final naquele contexto. Imaginámos uma multidão de “portugueses” de
ocasião, nuestros hermanos de coração, a torcer por João Moutinho e companhia
como se dos pupilos de Bielsa se tratassem. Mas não. Os bascos são ainda mais
loucos.
Já se aquecia em Donetsk quando corremos para o restaurante
(La Cueva, em San Sebastian, já agora recomendo). A televisão estava apagada.
Teríamos entrado no único sítio na Terra que ignorava um campeonato europeu de
futebol? Também estes empregados se mostravam muito simpáticos connosco, mas
muito insensíveis ao momento. Diziam-nos, claro, que lhes dava igual. Um deles
até confessou, baixinho, que só não gosta é do Ronaldo. Tem a mania, diz ele, e
o Messi é mais tranquilo. Garantimos-lhe que bateu à porta certa.
O jogo começou e eu e o M. éramos, provavelmente, os dois
portugueses menos nervosos do mundo. Eu seguia Moutinho a cada segundo, ele
esperava que o tosco (um dos três toscos, para ser exacta) saísse do banco para
resolver. Não havia mais ninguém interessado, nem no restaurante, nem em lado nenhum. De repente, lá
fora, um golo. Na nossa televisão, nem pitada de emoção que indicasse um atraso
ao estilo da Meo. Afinal, ali ao lado, havia um torneio de futebol de rua, uma
coisa organizada, com várias equipas e árbitros e polémicas das boas. Estávamos
na Europa, dentro das fronteiras do país agora bi-campeão europeu e campeão
mundial, e, a eles, dava-lhes igual.
Injustiça. A palavra saiu da boca do capitão português para
as páginas dos jornais. E o povo acreditou. Sem se lembrar que, para alguém
perder com injustiça, é preciso alguém ganhar injustamente. Sem pensar que não
foi, claramente, o caso. Atenção: Portugal fez um grande jogo. Durante 90
minutos, conseguiu anular a fortíssima Espanha. Mesmo sem ter rematado à baliza (tremenda injustiça!), e mesmo ficando
a léguas de dar espectáculo, a equipa de Paulo Bento foi inteligente, prática
e, sobretudo, apresentou-se bastante acima das expectativas. Moutinho, enfim,
com muita pena minha, foi enorme. Pepe e Bruno Alves, apesar de terem exagerado
na dose de pancadaria, estiveram muito fortes. A Coentrona até aos meus olhos
pareceu um jogador de classe. E, lá na frente, onde Portugal insiste em jogar
com um a menos, finalmente o Ronaldo do real madrid, com todas as suas qualidades e os seus defeitos.
Não se podia ter pedido mais. O prolongamento foi uma
agonia, com os pequeninos espanhóis a começarem a assustar na área, e os penaltis
consumaram a grande injustiça da passagem justa da melhor equipa. Não me
interpretem mal: Portugal podia ter ganho o jogo, como é evidente. Mas a
Espanha é melhor. Não foi muito melhor ali, mas foi melhor a marcar penaltis e
é melhor em tudo, como se viu na final. Por isso não me venham dizer que foi um
caso de falta de sorte. Falta de sorte teve o Porto com o zenit, quando o
massacre não se traduziu em golos e na consequente passagem aos
oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Falta de sorte teve o Porto com o gil
vicente, quando o árbitro nomeado foi Bruno Paixão. Respira, Catarina, respira.
E, por favor, parem de ficar contentes com a eliminação.
Portugal perdeu, foi afastado, veio para casa mais cedo do que os adeptos
desejavam (adivinho, porque não sei). E isso é mau, a não ser que estejamos a
falar daquela equipa que festeja uma derrota na Liga Europa noite dentro, no
próprio estádio. Se me continuarem a mostrar que a selecção portuguesa é feliz
se não perder por muitos, então aí é que não me convencem mesmo a torcer por
ela. Me da igual.
P.S. Este é o meu último texto sobre o Euro, por isso não posso acabar sem agradecer a Andrés Iniesta por existir. A partir de agora, acabaram-se as divagações. A época começou hoje e há que escrever sobre o Porto.




