A reacção do Ronaldo no final do jogo contra a Dinamarca lembrou-me a pergunta celebrizada por Baptista Bastos e tão bem caricaturada por Herman José. Para uma certa geração, era fundamental saber onde toda a gente tinha estado no dia 25 de Abril de 1974. Todos gostavam de se mostrar muito revolucionários, mesmo que tenham passado o dia em casa. Todos coloriam a revolução como queriam, porque ali se tinha vivido História.
Nos grandes momentos, sejam eles políticos ou desportivos, é normal que toda a gente queira deixar a sua marca. Acredito que seja por isso que Ronaldo, frustrado com uma exibição terrível, tenha perguntado aos jornalistas onde estava Messi nesta altura do ano passado, lembrando que também ele tinha dificuldades em destacar-se numa selecção que também ela já teve melhores dias. E acredito ainda que seja porque Ronaldo e Messi são o melhor que a nossa geração pôde ver que os jornalistas continuem a questionar ambos sobre a inevitável comparação, mesmo que o timming seja, por vezes, duvidoso.
Eu não gosto do Ronaldo. Nunca gostei, por isso estou à vontade para falar. Não estou a dizer isto porque ele ontem não jogou uma bosta, ou porque está na moda amar ou odiar o rapaz, mas apenas porque a actualidade assim o obriga. E não vou deixar de o dizer se ele marcar quatro hat-tricks seguidos e der o campeonato da Europa a Portugal. Nem deixarei de o dizer daqui a umas décadas aos meus netos, o Lionel, o Andrés e o Messi. E não gostar do Ronaldo não implica, obviamente, não constatar o seu génio. Para mim, Ronaldo é o segundo melhor jogador do mundo de longe e, na comparação com Messi, elogiarei sempre o facto de ter de trabalhar tanto para tentar ser melhor.
O que eu não gosto no Ronaldo é o que eu não gosto noutro jogador qualquer que tenha o mesmo feitio. Não gosto do estilo superstar, do show-off, dos auto-elogios, da confusão entre "ter personalidade" e ser um arrogante bruto, da namorada que vai a jantares do Obama no dia seguinte a aparecer numa capa em lingerie, do filho pago em segredo, da família espampanante a quem ninguém tem coragem de dizer que é ridícula, das prendinhas da Nike antes de um jogo tão importante. Faz-me rir que o Gaspar, mítico central caceteiro, tenha achado normal andar anos com aquele cabelo amarelo, com uma pinta de quem achava parecer tal e qual o Brad Pitt? Sim, faz-me. Mas o Ronaldo mudar de penteado ao intervalo de um jogo com a Alemanha não me faz rir, dá-me raiva. Porque o Ronaldo é o capitão da selecção nacional e dele esperava que tivesse passado o intervalo a motivar os colegas e não a olhar para o espelho.
Dir-me-ão os acólitos de Ronaldo (sim, porque agora há uma religião e, ou somos todos uns adoráveis crentes, ou somos uns detestáveis ateus) que ele é uma vítima da sua própria fama. Sim, ok, percebo que a imprensa o persiga mais do que ao Hélder Postiga, compreendo que seja uma vida mais interessante. Mas o Messi, o inevitável Messi, o único com acesso ao mesmo patamar, não se mete nestas palhaçadas.
Alegarão os tais acólitos que um jogador de futebol não vale pelo que faz fora do campo. Sim, está bem, o Beckham seria sempre bom sem a sua Spice Girl e o Yannick Djaló nem com a Luciana Abreu lá vai (pausa para lamentar o fim desta relação, que tantas alegrias nos deu). Mas eu adoro futebol, adoro mesmo a sério, e vejo aqueles gajos como heróis, como exemplos, como pessoas que todos os dias fazem parte da minha vida. Não lhes exijo que sejam Nobel da Literatura ou que acabem com a fome no mundo, mas arrepia-me que não tenham o mínimo de respeito e educação, já nem vou dizer comigo ou com o Presidente da República, mas com os miúdos que lhes vão pedir autógrafos porque quando forem grandes querem ser como eles.
O que separa um jogador excelente de um jogador que fica na História está muito longe de ser apenas o futebol. Maradona não queria saber de chefes de Estado (a não ser o de Cuba, claro), mas pintava a rebeldia com tanta inteligência, com tanto humor, que nos deixava sempre a torcer por ele, mesmo quando era pouco mais do que um drogado. Ronaldo é simplesmente estúpido. Não sabe falar, muito menos pensar, e fica muito irritadinho porque os poucos jornalistas que não fazem uma vénia à passagem de sua excelência têm a distinta lata de exigir explicações pelos dois golos falhados só com o guarda-redes pela frente. Todos falham? Claro que todos falham. Mas uns falham, admitem o erro, aprendem com ele e seguem em frente. Este faz birra, coitadinho, porque ouve gritos a Messi onde quer que vá. Meu caro, achas mesmo que a tua profissão, que a tua vida, são um peso sobre os teus ombros? É chato adormecer à noite quando se ganha não sei quantos milhões de euros por ano? Vai à merda que o meu namorado não é rico e tem pessoas a agarrarem-se a ele para que explique a doença ou a morte de um familiar. Isso sim, deve ser horrível. Já para não falar da agricultora de 90 anos que tem de colher a própria comida ou o miúdo que tem de andar quilómetros para ir à escola. Estas pessoas são o teu país e não, não tens de te sentir culpado por seres rico e bom jogador (giro, desculpa, mas é muito subjectivo), mas também não podes esperar que esta gente te deixe em paz quando desistes de uma bola e ficas com aquele ar de “ai que não me apetece ir lá atrás”.
Voltarão os acólitos à carga, porque exigimos muito mais do Ronaldo do que de outro qualquer. E eu roubo a citação ao A., que escreveu que “não se pode querer ser o melhor do mundo e ao mesmo tempo querer sofrer uma pressão semelhante à do Miguel Lopes”. É que é mesmo isso. Ontem assisti ao jogo no meu local de trabalho e vi pessoas a rirem-se quando o Postiga não chegou a um passe inalcançável do Ronaldo e caiu no relvado. Portanto, gozamos um rapaz por não chegar a uma bola, mesmo tentando, por não aparentar ser grande coisa, mas que, afinal, até mostram as estatísticas que é dos melhores marcadores da selecção, mas ai jesus que o mundo vai acabar quando alguém (o grande P.!) questiona por que razão o senhor Ronaldo tem direito a não acompanhar o lateral dinamarquês até à defesa.
Vá, venham-me lá com o argumento que ele veio de uma família pobre e humilde e que é muito difícil ser o Ronaldo. Terei todo o prazer em recordar-vos que, antes de um jogo qualquer da Liga dos Campeões, um jornalista perguntou ao Lucho, nessa altura no Marselha, se sentia muito a pressão. E ele respondeu: “A pressão real é a de um pai que se levanta cedo todas as manhãs para alimentar os filhos. Isso é o que meu pai fez por mim e pelos meus irmãos. Fico espantado quando vejo jogadores a queixarem-se de algo. Levantar-se todos os dias às cinco horas da manhã para ir fazer um trabalho de que não gostamos, isso sim, é motivo de queixa”. Isto, meus caros, é o que distingue os Luchos dos Ronaldos que aí andam. E não peço desculpa por preferir os primeiros.
Se eu acho que o Ronaldo devia ser castigado por aquela exibição, chicoteado em público e colocado no banco no próximo jogo? Não, claro que não. Ronaldo é o melhor jogador português de longe, deixemo-nos de embirrações, e até pode ser Bola de Ouro e tudo o que ele quer. Mas também não me tentem sequer obrigar a ter pena dele, porque isso nunca terei. Muito menos me façam sentir anti-patriota por não beijar o chão que ele pisa. Ronaldo é a imagem de Portugal no mundo, é verdade, por muito que isso me custe. Eu seria bem mais feliz se, na Austrália ou na Rússia, quando disse a minha nacionalidade, me tivessem respondido: “Ah, és do país do Saramago”. Mas não, disseram que eu sou do país do Ronaldo. Por isso, é normal que este país, que a geração que tem o prazer de viver na mesma altura de Ronaldo e Messi, que todos os que sentem tanto o futebol que nunca vão esquecer onde estavam no dia em que o clube venceu a Champions ou que a selecção foi à final do Euro, exijam mais dele.
P.S. O abraço de João Moutinho a Varela após o golo deste foi das coisas mais bonitas que eu já vi. Emocionou-me mesmo. Deve ser por serem do FCPorto. Sim, agora que penso nisso, às tantas, é por causa disso.