terça-feira, 24 de julho de 2012

Preciso do Benfica

Preciso de futebol. Preciso daqueles segundinhos antes do jogo começar, em que esfrego as mãos, dou dois pulinhos de nervos e tenho fé. São os dois segundos onde esqueço o meu pessimismo, esqueço as análises e acredito que os onze de vermelho são os melhores do mundo. Dou dois pulinhos e penso um “`Bora!” ou “Vamos lá”, seguido invariavelmente de palavrões.

Preciso dos palavrõs no futebol. Preciso de largar aquela caralhada, de sentir o profundo desprezo que o “Foda-se”, dito sibilinamente, esticando o “assssseeee”, tem pelo azar quando a bola bate na barra. Quero dizer palavrões e insultos estranhos e bizarros aos rivais. Não basta chamar “merdoso” ao Diogo Valente. Temos que exagerar, tornar o insulto uma imagem ridícula e dantesca. O Diogo Valente (que é dos meus alvos preferidos, sempre com aquele olhar de Beckham incompreendido) tem de ser “uma grande montanha de merda” ou um “atrasado mental filho de um boi”. Preciso de gritar a um rival que vá marcar um canto perto de mim que ele “não vale um caralho”, que é o nível último da inaptidão.
                                                                                                     
Quero passar na banca dos cachecóis e olhar para todos e pensar sempre que é hoje que vou comprar um e que vai dar sorte. Tenho saudades de entrar no metro e de avaliar pelo número de pessoas à Benfica se a Luz vai estar cheia ou não. Tenho saudades do número de pessoas que se acumula na estátua do Eusébio, como se aquele fosse o ponto de encontro único para ir à Catedral.

O futebol e, sobretudo, o Benfica, fazem parte de mim. Todos os dias – melhor dizendo, todas as horas – penso no Benfica, em soluções para as laterais, em putativas entrevistas aos jornais enquanto presidente do Benfica, sempre fortíssimo nos ataques aos rivais, com um fino conhecimento histórico que me permitiria desmontar rapidamente os ataques de Pinto da Costa e com argumentos que o levariam à loucura. Imagino-me também jogador, a marcar o sexto em Alvalade, incitando depois a nossa bancada a cantar o “À meia dúzia é mais barato”. O Aimar é o primeiro a chegar para me abraçar. "Es tuyo, Pablo", digo-lhe ao ouvido, agradecendo a fantástica assistência que me deixou na cara de Patrício.

O futebol está em tudo na minha vida e não encontro melhor metáfora em tudo o que faço. Quando digo a um doente que está tudo a correr bem digo-lhes sempre que “em equipa que ganha não se mexe”. Quando meto um catéter à primeira digo que foi à Cardozo.
Uma vez estava na consulta a correr de um lado para o outro – faltavam-me processos, vinhetas e tudo o mais – e estava sempre a passar na sala de espera dos doentes. Um doente vira-se para mim: “Você não pára!”. Respondi-lhe: “Pareço o Witsel a varrer o meio campo”. O senhor, Benfiquista, riu-se a bom rir.
O meu pai, quando fala de alguém que tem a mania que é bom e que é o maior, usa uma expressão de outro grande Benfiquista nosso amigo, senhor já falecido e dono do mais fino humor: “Esse gajo tem a mania que é o Eusébio”. Ter a mania que se é o Eusébio é ter a mania que se é Deus. É a prepotência, a má educação, a falta de respeito. Quando alguém acha que é o Eusébio, não importa quão bom é, já está a exagerar, é um pavão, um convencido que deve ser posto no lugar. Ter a mania que se é o Eusébio devia dar um castigo exemplar que obrigasse o prevaricador a perceber que não só se excedeu, mas que pecou.

Preciso de mais do que amigáveis e notícias de jornal. Preciso de ter que fazer ao fim de semana, de ter um objectivo principal em que pensar, dado que o próximo (Benfica–Braga, primeira jornada) ainda vem longe, com várias semanas vazias de existência pelo meio. Ocupá-las-ei com livros e outros pormenores que nunca me vão preencher tanto como aquele vermelho lindo e berrante do manto sagrado, mas todas as horas estão já contadas em decrescente para a bola, para o Benfica.
Cá em casa a vida segue, mas com uns silêncios estranhos. Continuamos a namorar, a ver séries, a ler, a trabalhar, a pensar em viagens. Mas não estamos completos, não estamos preenchidos. Falta a bola. Falta o bichinho, a pica, o coração aos saltos, quase na boca e às vezes no estômago.

Preciso de futebol. De dar dois saltinhos antes do Aimar tocar para a frente e o Cardozo dar de pé esquerdo para o Witsel. Vamos lá.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Deixaremos sempre jogar o Mantorras

A primeira imagem que tenho de Pedro Mantorras é a de um longínquo alverca-sportem. Surpreendentemente, eu torcia pelos da casa. De repente, vejo um homem negro, desajeitado, a pegar na bola e a fintar os verdes todos confusos. Na minha memória, ele tinha marcado três golos e eu tinha festejado cada um deles como se ele fosse o meu irmão mais velho. Vejo agora, à luz do tempo e do zerozero.pt, que só marcou um. Também eu, portanto, sou uma vítima do fenómeno Mantorras.

Nos dias seguintes a esse jogo, lembro-me do frenesim pelo jovem de 18 anos (alguém ainda acredita nisso?) do alverca. Já toda a gente o queria, mas ele lá foi para o benfica, numa derrota estrondosa para os rivais. Em pouco tempo, Pedro Mantorras tinha meio mundo atrás dele e já valia 18 milhões de contos. Crianças e adolescentes que não sabem o que isto significa: estamos a falar de 90 milhões de euros. Parece-vos um exagero quando falamos de uma promessa do início dos anos 2000? Então vocês não conhecem o Mantorras.

Pedro Mantorras foi, durante muitos anos, o rapaz africano que reavivou as memórias coloniais de Eusébio e Coluna. Para os adeptos do benfica – e estou convencida que não só -, torcer por ele era uma forma disfarçada de ter pena de outra raça. Reforço que, durante muitos anos, ele foi um pobre rapaz de origens humildes que só gostava de jogar à bola. Mesmo quando já não era rapaz, nem era pobre. Não me entendam mal: o pobre do rapaz não fez nada por isso, além da figura triste de ir a uma conferência de imprensa pedir que o deixassem jogar. O marketing sem escrúpulos, à moda de Luís Filipe Vieira, é que se aproveitou dele para vender muitos kits de sócio por todo um continente. Se o Mantorras fosse branco, não lhe teriam feito o mesmo.

Mas a verdade é que Pedro Mantorras tinha mesmo uma aura. Lembro-me bem da época de 2004/2005, quando o benfica foi campeão com várias vantagens de apenas um golo. O M. diz sempre que foi tudo graças ao Trapattoni. Eu sei que foi culpa do Mantorras. Era ele que entrava sempre a poucos minutos do fim, com um joelho para cada lado e com aquele ar de quem não faz mal a uma mosca, e que desempatava aquela merda quando eu já estava a preparar-me para sair para os Aliados. O Mantorras fazia-me mal.

Quando Pedro Mantorras iniciava o aquecimento, a luz ia abaixo. Na minha terra dizia-se que o benfica marcava sempre mais um golo fora do campo, e nem sequer estávamos a falar das habituais ajudas da arbitragem. Quem foi àquele estádio e assistiu a um desses momentos, nunca se há-de esquecer da sensação de surrealismo, de entrada numa outra dimensão, em que o jogo pouco interessava porque o Mantorras estava lá.

E o mais engraçado é que o Mantorras nem sequer lhes passava cartão. Recordo-me perfeitamente de um benfica-leiria em que os lampiões perdiam por 0-1 num jogo muito importante de um campeonato decidido ao ponto. Trapattoni, fino como um raio, comete um acto de desespero e mete a jovem promessa que nessa altura já devia ter uns 19 anos e três meses. Aos 93 minutos, Mantorras empata o jogo. E pensam vocês: e foi a correr buscar a bola e colocou-a no centro do campo para tentar marcar o segundo, consagrar uma reviravolta histórica e colocar o benfica numa melhor posição na luta pelo título? Não. O Mantorras não. O Mantorras ficou a festejar durante largos minutos, com os companheiros a acharem aquilo muito estranho, mas com os adeptos histéricos com o empate. Para eles, o Mantorras era a única coisa maior do que o benfica.

Felizmente para a geração de portistas que ficou traumatizada com estes golos no último minuto à Mantorras, na qual me incluo, a estrelinha não durou para sempre. Com o tempo, o fenómeno transformou-se num problema. As lesões, as operações, os médicos, um livro, tribunais à mistura, muito ficou por explicar. Os mais crentes ainda hoje defendem que Pedro Mantorras, num clube decente e, sobretudo, com um presidente decente, teria sido um jogador extraordinário. Eu, se me esquecer daquele alverca-sportem, tenho muitas dúvidas. Do que eu tenho a certeza é que, como se voltou a ver hoje, num amigável apitado por… adivinhem lá… “pode ser o João!”, a parolada da luz nunca mais vai ser a mesma. E até a águia fugiu!

domingo, 8 de julho de 2012

O campeão voltou

Acabou-se o Europeu. Acabaram-se as modalidades e todas as distracções. A época 2012/2013 está aí e nós, os malucos, temos finalmente algo para fazer. O calendário dos jogos de preparação está imprimido e não há dia em que uma conversa não comece por:
- O Jackson Martínez já chegou?
Ou:
- Sabes se o Jackson Martínez vale alguma merda?
Ou ainda:
- Será que o Jackson Martínez gosta de francesinhas?
Isto sim, são coisas importantes da vida.

Até agora, o FCPorto 2012/2013 não apresenta grandes novidades. Fabiano parece-me uma contratação certeira, ainda que ameaçada pela proibição dos empréstimos a outros clubes da primeira Liga (uma decisão que, eticamente, até pode ser de saudar, mas que irá ameaçar o futuro de muitos jogadores, principalmente portugueses). Jackson Martínez é, tal como todos os jogadores que só conhecemos pelo YouTube, uma grande promessa. E aguardamos que todos os Gansos e Caballeros que por aí andam prefiram assinar pelo Porto do que pelo benfica em cinco segundos ou menos, não vá a tradição perder-se.

Sapunaru está desaparecido em combate e, entre as saídas, até agora só se confirmaram as inevitáveis, como Guarín ou Cristian Rrodíguez (paz às suas almas). Hulk, Moutinho, James, Álvaro Pereira, Rolando e Fernando já foram vendidos para dezenas de clubes, mas o dinheiro a sério tarda a entrar nos cofres. Este ano, não acredito que as cláusulas de rescisão não sejam contornadas, porque a vida está difícil e vamos ficar todos sem subsídios de Natal e de férias. Mas enfim, um dia o FCPorto vendeu o Cissokho por 15 milhões, por isso eu sou rapariga para acreditar em milagres.

Sinceramente, não estou muito preocupada. Estou consciente que a situação financeira não nos vai permitir entrar em grandes aventuras. É certo que quase 9 milhões de euros dados por um rapaz que jogava no México parece, à primeira vista, um belo tiro no pé, mas recordo que o Hulk também era o tosco muito caro que vinha da segunda divisão japonesa. Sei também que teremos de vender alguns dos craques. Hulk, Moutinho e Fernando parecem-me ser os mais difíceis de substituir, mas, mais uma vez, sublinho que estamos a falar do clube que rapidamente fez esquecer Deco, Lisandro e até Vítor Baía. E, sobretudo, confio sempre na incompetência dos nossos rivais para nos garantirem mais um campeonato nacional.

Mas isto sou eu, a C. calma e descontraída que lê artigos sobre o local de estágio na Suíça como se disso dependesse um mundo melhor. Quando isto começar a aquecer, com troféus em causa e túneis com porrada e árbitros a roubar-nos, aí sim, falaremos melhor.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Andreas Brehme não jogou na lotaria

Gosto de penalties. Talvez seja uma consequência meio psicanalítica de ter crescido com o Itália 90 (e ao mesmo tempo há um severo recalcamento do penalty do Veloso). É das coisas que eu mais gosto nas fases finais. Os treinadores e os guarda–redes estão defendidos: os primeiros vão dizer que perderam numa lotaria e os segundos só têm a hipótese de serem lembrados (tirando o Silvino, que fez questão de se desviar de todos, filho de uma grande vaca). Mas o caminho de um jogador para a bola, aquele meio campo inteiro, deve ser das coisas mais solitárias de uma vida. No que é que se pensa até se chegar lá? Ouve-se o estádio ou só o coração a bater no peito, como uma bomba?


                                                                                
Depois do Portugal – Espanha, em que Portugal foi derrotado nos penalties, as televisões focaram Ronaldo que, sempre com consciência das câmaras, exclamava “Que injustiça”, como se Portugal tivesse mandado 3 bolas ao ferro (como o Brasil contra a Argentina em 90). Portugal fez um excelente Europeu, muito acima de todas as expectativas. Mas perdeu para uma equipa que lhe é superior. E, meus caros, não foi na lotaria. Foi nos penalties. E os penalties estão muito longe de ser só sorte.

O Itália 90 é dos Mundias mais desconsiderados pelos críticos, mas como eu gastei o VHS a vê-lo e revê-lo é o Mundial da minha infância e adoro-o. E foi um Mundial cheio de penalties. Assim de memória: Irlanda–Roménia, Argentina–Jugoslávia (Ivkovic a defender outro a Maradona), Argentina–Itália e Inglaterra–Alemanha. E nos desempates da Argentina, nasceu uma lenda: Goycochea. Goycochea, que nem foi titular no primeiro jogo, tinha um ar de chulo da esquina, com o crucifixo fora da camisola e cicatrizes no rosto. Um ar silencioso e ameaçador. Goycochea defendeu 4 penalties só nesse Mundial (julgo que é o recorde numa só competição) e com uma grande peculariedade: mijava na linha de baliza antes dos penalties. Para marcar território. O território que Pirlo marcou quando, com a Itália a perder, marcou com desprezo, à Panenka, e olhou de cima para baixo para o guarda-redes inglês, como se tivesse pensado na lista de compras no caminho até à bola.


Imaginem-se a fazer meio campo a pé, depois de 120 minutos a correr, com o coração aos saltos e a cabeça numa confusão sem saber para que lado vão chutar. Chegam lá, o árbitro dá-vos a bola e enquanto a ajeitam, o guarda-redes mija. Urina ali, como se vos dissesse: daqui não passas. Tudo o que se pensou no caminho vai ao ar. Foi o que se passou com Donadoni e Serena, em Nápoles, a casa que Maradona emprestou a Itália para os eliminar nas meias-finais.

Também em 1990, Stuart Pearce acertou em Ilgner (grandíssimo guarda-redes, que seria depois campeão no fabuloso do Madrid de Capello em 96/97) e falhou o seu penalty. Carregou a cruz seis longos e penosos anos. Todos os dias, antes de adormecer, Pearce devia pensar porque não chutara para o outro lado, como aliás o poderá ter pensado durante aquele longo caminho.
 “A angústia do guarda redes antes do penalty” é o título de um livro de Peter Handke. É um título estúpido. A angústia de quem vai marcar é insuperável. A angústia de Pearce era um nó na garganta. E em 96, nos quartos-de-final contra a Espanha, Pearce fez outra vez o mesmo caminho. Um caminho que deve ter levado mais de seis anos a fazer. E meteu-a lá dentro. E gritou e gritou e gritou e livrou-se da maldição. A cara de Pearce é um poema ao futebol e à vida.


Portanto, pode uma coisa tão grande, tão emblemática – todos vamos saber que foram Moutinho e Bruno Alves a falhar aqueles penalties, não vamos? – ser só sorte, cara ou coroa? Não. Nos penalties, naquele silêncio, há treino, muita análise (saber os truques todos do guarda-redes e do marcador e todas as estatísticas) e muitíssimo carácter. E nisso, Portugal perdeu. Perdeu porque tinha menos especialistas – e isso é que foi decisivo – perdeu porque Paulo Bento ainda foi alinhavar os marcadores no apito final (a imagem dele com o bloco foi, para mim, assustadora) e perdeu porque meteu o seu especialista a marcar o penalty com menos probabilidade de ser batido (porque quem já viu mais do que uma série de penalties sabe que várias vezes não se chega ao 5º). Repito: fez um grande Europeu e até um excelente jogo contra a Espanha. Mas perdeu. Sem injustiças, Ronaldo.

Quando na final do Campeonato do Mundo de 1990, a cerca de 5 minutos do fim, um duvidoso penalty foi assinalado contra a Argentina, Andreas Brehme, mítico esquerdino neroazzurri, enfrentou a lenda Goycochea. Imagino que a baliza lhe tenha parecido mínima, o guarda-redes enorme e o silêncio dos 73 mil da bancada e dos milhões e milhões de espectadores pesadíssimo. E chutou. Com o pé direito. Rasteiro, colocadíssimo. Um penalty de laboratório. Trabalho, truque e carácter.

Não foi injusto. Não é uma lotaria. É o futebol. Que não é uma questão de vida ou morte. É muito mais do que isso.
 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Me da igual

Estamos na Europa. Estamos, aliás, no Sul da Europa, com três equipas nas meias-finais e uma peculiar loucura pela bola. O tempo está bom, o mar sabe a sal e a areia é fina. Ligamos a televisão e respira-se Europeu: a Bola de Ouro é ou não é de Ronaldo, Shakira vai ou não vai ver Piqué, Balotelli faz ou não faz flexões como os outros. Discussões intensas, numa língua quente, apaixonada, que nos faz acreditar que tudo isso é muito mais importante do que o resgate europeu à sua banca. Estamos, claro, em Espanha.

Ou melhor dizendo, estamos no País Basco.

- Me da igual.

O empregado de mesa pergunta-nos a nacionalidade. Ao ouvir Portugal, lembra-se da meia-final do dia seguinte e, em castelhano, ouvimos a primeira de muitas negas à selecção espanhola. É que os bascos são bascos e não querem misturas.


A conversa continuou e o empregado de mesa, a quem o resultado do Portugal-Espanha, como havia sugerido, era completamente indiferente, contou-nos que, no primeiro jogo dos espanhóis, contra a Itália, envergou uma camisola azurra. Coincidência? Talvez. A camisola podia andar lá por casa e ele não ter mais roupa para vestir. Mais uma dose de confiança e chegamos aos quartos-de-final, Espanha-França, e uma camisola francesa para ver o jogo, claro. Sem insistirmos, sem muita pressão, uma promessa: iria comprar uma camisola portuguesa em menos de 24 horas.

Dava-lhe igual, como se nota. Não queria nada saber de futebol. Só não queria era que a Espanha ganhasse. Pensámos que ia ser giro ver aquela meia-final naquele contexto. Imaginámos uma multidão de “portugueses” de ocasião, nuestros hermanos de coração, a torcer por João Moutinho e companhia como se dos pupilos de Bielsa se tratassem. Mas não. Os bascos são ainda mais loucos.

Já se aquecia em Donetsk quando corremos para o restaurante (La Cueva, em San Sebastian, já agora recomendo). A televisão estava apagada. Teríamos entrado no único sítio na Terra que ignorava um campeonato europeu de futebol? Também estes empregados se mostravam muito simpáticos connosco, mas muito insensíveis ao momento. Diziam-nos, claro, que lhes dava igual. Um deles até confessou, baixinho, que só não gosta é do Ronaldo. Tem a mania, diz ele, e o Messi é mais tranquilo. Garantimos-lhe que bateu à porta certa.

O jogo começou e eu e o M. éramos, provavelmente, os dois portugueses menos nervosos do mundo. Eu seguia Moutinho a cada segundo, ele esperava que o tosco (um dos três toscos, para ser exacta) saísse do banco para resolver. Não havia mais ninguém interessado, nem no restaurante, nem em lado nenhum. De repente, lá fora, um golo. Na nossa televisão, nem pitada de emoção que indicasse um atraso ao estilo da Meo. Afinal, ali ao lado, havia um torneio de futebol de rua, uma coisa organizada, com várias equipas e árbitros e polémicas das boas. Estávamos na Europa, dentro das fronteiras do país agora bi-campeão europeu e campeão mundial, e, a eles, dava-lhes igual.


Injustiça. A palavra saiu da boca do capitão português para as páginas dos jornais. E o povo acreditou. Sem se lembrar que, para alguém perder com injustiça, é preciso alguém ganhar injustamente. Sem pensar que não foi, claramente, o caso. Atenção: Portugal fez um grande jogo. Durante 90 minutos, conseguiu anular a fortíssima Espanha. Mesmo sem ter rematado à baliza (tremenda injustiça!), e mesmo ficando a léguas de dar espectáculo, a equipa de Paulo Bento foi inteligente, prática e, sobretudo, apresentou-se bastante acima das expectativas. Moutinho, enfim, com muita pena minha, foi enorme. Pepe e Bruno Alves, apesar de terem exagerado na dose de pancadaria, estiveram muito fortes. A Coentrona até aos meus olhos pareceu um jogador de classe. E, lá na frente, onde Portugal insiste em jogar com um a menos, finalmente o Ronaldo do real madrid, com todas as suas qualidades e os seus defeitos.

Não se podia ter pedido mais. O prolongamento foi uma agonia, com os pequeninos espanhóis a começarem a assustar na área, e os penaltis consumaram a grande injustiça da passagem justa da melhor equipa. Não me interpretem mal: Portugal podia ter ganho o jogo, como é evidente. Mas a Espanha é melhor. Não foi muito melhor ali, mas foi melhor a marcar penaltis e é melhor em tudo, como se viu na final. Por isso não me venham dizer que foi um caso de falta de sorte. Falta de sorte teve o Porto com o zenit, quando o massacre não se traduziu em golos e na consequente passagem aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Falta de sorte teve o Porto com o gil vicente, quando o árbitro nomeado foi Bruno Paixão. Respira, Catarina, respira.

E, por favor, parem de ficar contentes com a eliminação. Portugal perdeu, foi afastado, veio para casa mais cedo do que os adeptos desejavam (adivinho, porque não sei). E isso é mau, a não ser que estejamos a falar daquela equipa que festeja uma derrota na Liga Europa noite dentro, no próprio estádio. Se me continuarem a mostrar que a selecção portuguesa é feliz se não perder por muitos, então aí é que não me convencem mesmo a torcer por ela. Me da igual.

P.S. Este é o meu último texto sobre o Euro, por isso não posso acabar sem agradecer a Andrés Iniesta por existir. A partir de agora, acabaram-se as divagações. A época começou hoje e há que escrever sobre o Porto.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Fuga para a vitória

“Em 1942, os nazis pensavam que estavam sentados no topo do mundo”. É com esta frase que arranca o trailer de um dos filmes de bola mais famosos de sempre. “Escape to Victory” é a história ficcionada de um jogo de futebol entre a selecção alemã, a jogar em casa, perante os grandes oficiais nazis, durante a Segunda Guerra Mundial, e um grupo de prisioneiros dos aliados que quer fugir do campo de concentração.

O filme nem é grande coisa. Conta com a participação de Pelé, que fala o pior inglês de sempre, mas marca um golo de pontapé de bicicleta, porque os americanos pensam que isto é uma coisa que acontece todos os dias no futebol europeu. Com o aproximar da vitória dos aliados, os adeptos começam a cantar o hino francês, num momento arrepiante, mas completamente falso. Até que Sylvester Stallone, que seria, por si só, um motivo para não ver o filme, defende um penalty ridículo, em câmara lenta, em que parece agarrar um balão com as duas mãos e um enorme à-vontade.




O realizador norte-americano inspirou-se na história, já aqui relatada pelo M., do FC Start. No entanto, no filme, o final é mais feliz: os prisioneiros conseguem fugir devido à invasão de campo, disfarçados no meio do povo. Até o Pelé, que como se sabe tem um tom de pele que era muito característico na Alemanha de Hitler.

O que “Escape to Victory” tem de inspirador é que simboliza o poder que o futebol tem perante todas as contrariedades, sejam elas financeiras, sociais ou políticas. E foi deste filme que me lembrei quando se confirmou o Alemanha-Grécia desta sexta-feira.

É verdade que, à partida, é bastante exagerado comparar a Alemanha de Hitler à Alemanha de Merkel, ou comparar a exterminação dos judeus à exterminação dos países periféricos, ou comparar a propaganda nazi à propaganda pseudo-europeísta. Mas o que não podemos negar é que o Alemanha-Grécia não será apenas um jogo de futebol.

Na sexta-feira, vão entrar em campo um país dominador e um país subserviente. Nas bancadas, estarão adeptos que foram aumentados este mês e adeptos que vêem os seus salários cortados há meses. Angela Merkel, o rosto da austeridade, poderá olhar para o banco grego e ver Fernando Santos, um português duplamente resgatado. Por toda a Grécia, e menos de uma semana depois de a ilusão de um salvador radical se ter evaporado, vai torcer-se não só contra Neuer, Ozil e Gomez, mas também contra o FMI, o BCE e a Comissão Europeia.

Infelizmente, a diferença entre a Alemanha e a Grécia no relvado parece ser ainda maior do que na taxa desemprego. Os alemães estão sentados no topo do mundo, têm jogadores muito melhores, uma equipa quase perfeita e, se for preciso, a UEFA de Platini ao seu lado. Os gregos não têm praticamente nada. E é isso que torna a coisa ainda mais bonita: apesar de, provavelmente, a Alemanha acabar por golear a Grécia, se, muito por acaso, aqueles 90 minutos forem uma loucura e os gregos passarem, haverá todo um continente farto de troikas a festejar.

“Now is the time for heroes”. O trailer do filme acaba assim. E eu estou a torcer para que, amanhã, haja heróis gregos na Polónia.




(A equipa do filme e a equipa do FC Start) 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Messi e Maradona: o craque e o Robin dos Bosques

Não serve este texto para comparar, outra vez, Cristiano Ronaldo e Messi. Deixamos essas comparações para os madridistas e para portugueses como o Nuno Luz. Quando, cá em casa, falamos de Leo Messi, a única comparação que nos surge é com Deus, Diego Armando Maradona.

Há jogadores que passam uma carreira a um degrau de serem os melhores da sua geração, como Totti, Modric e Aimar. São génios que ficam só (?) no coração. Depois há os que, sendo os melhores da sua geração, têm que pedir licença para entrar no domínio dos deuses. Poderá Romário ser equiparado a Cruyff? E por que é que Platini é considerado melhor do que Eusébio (esta é retórica)? E, depois, entre os melhores dos melhores, há um Brasil–Argentina particular entre Pelé e Diego Armando Maradona. Mas já lá vamos.

Leo Messi é o melhor que já vi. Melhor que Ronaldo, o Fenómeno, melhor que Zidane. Quando a bola lhe chega aos pés é o fim do mundo. Não há táctica nem gigantes que apanhem aquele pé esquerdo que sabe todos os caminhos até à baliza. A maneira como as ancas mentem e vão desviando adversários e a frieza com que encara os guarda-redes fazem de Leo Messi o maior génio que tive o prazer de ver. São tantos e tantos os golos e as fintas que me marcaram que é difícil enumerar. Será, então, Leo melhor que Diego?
Futebolisticamente, arrisco: sim. Messi é o melhor de todos os tempos. É mais matador do que Maradona e tem um pé esquerdo equivalente (que ousadia, Manel, que ousadia que tu acabaste de escrever!). Com uns assustadores 24 anos, Messi tem 5 campeonatos, 3 champions, 2 supertaças europeias, 2 campeonatos do mundo por clubes e é medalha de ouro dos Jogos Olímpicos. Tem três bolas de ouro e este ano pulverizou o recorde europeu de golos numa época. Dá vontade de chorar.

Mas o futebol é mais do que a soma de títulos, muito mais. Se o nosso clube acompanha a nossa vida, num imenso paralelismo entre campeonatos e feitos como acabar o curso, a história do futebol não é menos do que a história da humanidade. E a Leo falta bater à porta da história.

A Catarina escreveu no facebook que o Alemanha–Grécia vai ser o jogo mais político da nossa geração. Vamos, finalmente, ver o futebol como representação da vida dos povos. Não é que seja a primeira vez. Afinal, cada vez que vemos um jogo da Liga Espanhola, é fácil identificar ainda as cicatrizes da Guerra Civil em cada emblema. Mas falta-nos um jogo marcante, em que o mundo se una para derrotar o poder. Foi isso que Maradona conseguiu e que Leo dificilmente terá.

Se Messi é, quanto a mim, futebolisticamente superior a Maradona, socialmente não lhe chega aos calcanhares. Apesar de jogar numa equipa que enfrenta um Madrid de milhões e milhões de euros, o Barça não é propriamente uma equipa de pobretanas. Messi nem sequer tee uma juventude de futebol de rua, já que aos 15 já estava em La Masia a ser aperfeiçoado. E isso é muito.

Quando, no dia 22 de Junho de 1986 (26 anos antes do Alemanha–Grécia), Diego Armando Maradona, naquele que é o jogo mais importante de sempre da história do futebol, ganhou sozinho à Inglaterrra, o mundo nunca mais ficou igual. Com um golo com a mão (“foi como tirar uma carteira a um inglês”, disse ele. Poderia Messi, crescido em La Masia, assaltar como numa viela em Buenos Aires?) e com um slalom que ficou eterno, Maradona ganhou os povos para a sua causa.

A invasão inglesa das Falkland pairava sobre o jogo e Maradona, naquele dia, ganhou a guerra. Com uma bola de futebol, um jogador de futebol deu cabo do poder, das armas, dos mais fortes. Naquela hora e meia de 22 de Junho de 1986, não houve fome, não houve injustiças, não houve guerra. Quando Diego driblou os ingleses, foram os povos que driblaram os senhores da guerra e os senhores do dinheiro. Maradona, que foi um género de Robin dos Bosques napolitano (se bem que aquele Nápoles era fortíssimo, não era só Maradona), tornava-se, para sempre, Guevara vestido de jogador de futebol e de charuto ao canto da boca.

É isso que chateia Pelé: Maradona está no coração de todos e Pelé no bolso da FIFA. Pelé pode ter mais de mil golos, mas nunca ganhou uma guerra com uma bola de futebol. Quantos golos valem, afinal, uma guerra?

A Messi falta um Argentina–Inglaterra, falta a possibilidade de entrar não só na história do futebol, mas da humanidade.  Talvez a sorte lhe sorria e ofereça uma vitória no Campeonato do Mundo de 2014, em pleno Rio de Janeiro, contra o Brasil. Mas seria só mais uma vitória futebolística no maravilhoso pé esquerdo de Leo Messi. Para dar, definitivamente, a mão a Maradona, faltava a Messi ser o grego que expulsaria a Alemanha do Euro.