Preciso dos palavrõs no futebol. Preciso de largar aquela
caralhada, de sentir o profundo desprezo que o “Foda-se”, dito sibilinamente,
esticando o “assssseeee”, tem pelo azar quando a bola bate na barra. Quero
dizer palavrões e insultos estranhos e bizarros aos rivais. Não basta chamar
“merdoso” ao Diogo Valente. Temos que exagerar, tornar o insulto uma imagem ridícula e dantesca. O Diogo Valente (que é dos meus alvos preferidos, sempre
com aquele olhar de Beckham incompreendido) tem de ser “uma grande montanha de
merda” ou um “atrasado mental filho de um boi”. Preciso de gritar a um rival
que vá marcar um canto perto de mim que ele “não vale um caralho”, que é o
nível último da inaptidão.
Quero passar na banca dos cachecóis e olhar para todos e
pensar sempre que é hoje que vou comprar um e que vai dar sorte. Tenho saudades
de entrar no metro e de avaliar pelo número de pessoas à Benfica se a Luz vai
estar cheia ou não. Tenho saudades do número de pessoas que se acumula na estátua
do Eusébio, como se aquele fosse o ponto de encontro único para ir à Catedral.
O futebol e, sobretudo, o Benfica, fazem parte de mim. Todos
os dias – melhor dizendo, todas as horas – penso no Benfica, em soluções para
as laterais, em putativas entrevistas
aos jornais enquanto presidente do Benfica, sempre fortíssimo nos ataques aos
rivais, com um fino conhecimento histórico que me permitiria desmontar
rapidamente os ataques de Pinto da Costa e com argumentos que o levariam à
loucura. Imagino-me também jogador, a marcar o sexto em Alvalade, incitando
depois a nossa bancada a cantar o “À meia dúzia é mais barato”. O Aimar é o primeiro a chegar para me abraçar. "Es tuyo, Pablo", digo-lhe ao ouvido, agradecendo a fantástica assistência que me deixou na cara de Patrício.
O futebol está em tudo na minha vida e não encontro melhor
metáfora em tudo o que faço. Quando digo a um doente que está tudo a correr bem
digo-lhes sempre que “em equipa que ganha não se mexe”. Quando meto um catéter à
primeira digo que foi à Cardozo.
Uma vez estava na consulta a correr de um lado para o outro –
faltavam-me processos, vinhetas e tudo o mais – e estava sempre a passar na
sala de espera dos doentes. Um doente vira-se para mim: “Você não pára!”.
Respondi-lhe: “Pareço o Witsel a varrer o meio campo”. O senhor, Benfiquista,
riu-se a bom rir.
O meu pai, quando fala de alguém que tem a mania que é bom e
que é o maior, usa uma expressão de outro grande Benfiquista nosso amigo,
senhor já falecido e dono do mais fino humor: “Esse gajo tem a mania que é o
Eusébio”. Ter a mania que se é o Eusébio é ter a mania que se é Deus. É a
prepotência, a má educação, a falta de respeito. Quando alguém acha que é o Eusébio,
não importa quão bom é, já está a exagerar, é um pavão, um convencido que deve
ser posto no lugar. Ter a mania que se é o Eusébio devia dar um castigo
exemplar que obrigasse o prevaricador a perceber que não só se excedeu, mas que
pecou.
Preciso de mais do que amigáveis e notícias de jornal. Preciso
de ter que fazer ao fim de semana, de ter um objectivo principal em que pensar,
dado que o próximo (Benfica–Braga, primeira jornada) ainda vem longe, com várias
semanas vazias de existência pelo meio. Ocupá-las-ei com livros e outros
pormenores que nunca me vão preencher tanto como aquele vermelho lindo e
berrante do manto sagrado, mas todas as horas estão já contadas em decrescente
para a bola, para o Benfica.
Cá em casa a vida segue, mas com uns silêncios estranhos. Continuamos
a namorar, a ver séries, a ler, a trabalhar, a pensar em viagens. Mas não
estamos completos, não estamos preenchidos. Falta a bola. Falta o bichinho, a
pica, o coração aos saltos, quase na boca e às vezes no estômago.
Preciso de futebol. De dar dois saltinhos antes do Aimar
tocar para a frente e o Cardozo dar de pé esquerdo para o Witsel. Vamos lá.




