terça-feira, 21 de agosto de 2012

Sem vergonha

Muito se tem falado de vergonha nos últimos dias. Seja através de discursos lidos ou de cassetes repetidas, a vergonha é uma constante no futebol português. E nesta jornada veio novamente ao de cima.

Gostei do jogo que o F.C. Porto fez em Barcelos. Tivemos várias oportunidades para marcar e praticamente não deixámos o adversário jogar. Gostei do Jackson, do Lucho e do Alex Sandro, e gostei de ver o Hulk ainda interessado em nós. Falhámos muito, é verdade, mas também falhámos porque o guarda-redes fez a exibição da vida dele. E perdoem-me aqueles (poucos) que esperavam vir aqui ler uma análise lúcida do empate, porque eu também creio que falhámos porque o árbitro considerou que agarrar o tronco, a bacia e a perna do Kléber durante vários segundos não é motivo suficiente para penalty. Árbitro esse que está tão perto do lance que quase que também é agarrado pelo jogador do gil. 

Esperei dois dias para escrever porque cheguei a acreditar que conseguia ser como aqueles portistas que alegam que o Porto tem de ser superior às falhas dos árbitros e que tinha de ter jogado muito mais para ganhar. Gostava mesmo de ser assim, mas não sou. Quanto mais vejo as imagens, quanto mais jornais leio, mais penalties vejo (o Mangala também é mandado ao chão na grande área e o James, se não fosse palhacito e não se tivesse encolhido logo, também tinha sido varrido). 

Não tenho vergonha, portanto, de assumir que acho que o campeonato começou com o F.C. Porto a ser prejudicado em dois pontos. Sim, também admito que se aquela primeira parte não tivesse sido tão adormecida não teríamos precisado de nos chatear com isto. Mas, assim de repente, lembro-me que começámos os últimos dois campeonatos com vitórias à rasca na primeira jornada e que isso provavelmente se repetiria se pelo menos uma destas faltas tivesse sido devidamente assinalada. A tradição ainda é o que era: os árbitros continuam sem vergonha de nos roubar em Barcelos. 

Quem também anda com falta de vergonha é o treinador do gil vicente, estrela de anúncios publicitários e ilustre mestre da táctica do anti-jogo. Comentou ele, no final da partida, que a equipa não jogou fechada e que nem sequer viu nenhum lance polémico. Saberá certamente este senhor que ninguém espera que a sua equipa assuma o jogo contra o bicampeão nacional, mas também não é bonito tentar fazer de todos nós, os que viram o jogo, estúpidos. O gil vicente não só jogou fechado, como passou os 90 minutos a fazer faltas, a demorar uma eternidade em cada lançamento e a aplaudir cada interrupção idiota que o árbitro deixava prolongar. Se ficam contentes com pontos ganhos assim, tal como ficaram com a vitória escandalosa da época passada, tudo bem, são um clube muito pequeno e eu compreendo, mas admitam-no. 

Outra vergonha que vai permanecer por cá pelo menos até ao dia 31 de Agosto é a daqueles jogadores que aproveitam cada microfone colocado à sua frente para exprimir desejos de jogar neste ou naquele clube, de brilhar neste ou naquele campeonato, ou de receber este ou aquele salário. Já chega a vergonha de arrastar o mercado até tão tarde, deixando as equipas vulneráveis aos caprichos dos grandes tubarões europeus, não precisamos de mais meninos com a cabeça longe quando já estão pontos em disputa. 

O que vale é que os nossos rivais estiveram à altura do momento. Na luz, o benfica, com mais um jogador devido a um erro do árbitro, teve todas as razões para ter ficado contente com o empate, tal foi a qualidade do jogo apresentado. Em Guimarães, o sportem de Sá Pinto manteve a sua estratégia de nunca assumir o favoritismo e cumpriu os mínimos para os seus tão pouco exigentes adeptos. Sem vergonha nenhuma, claro.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Se contratarmos outro extremo, a culpa também é do árbitro alemão?

Sente-se no ar o aroma dos anos 90. Ou dos 2000, já não sei. É como se víssemos o início de um filme que já vimos e, sem sabermos muito bem do que se trata, nos lembrássemos imediatamente do fim. Está no ar aquele cheiro nauseabundo e enjoativo do Benfica a abdicar de mais um campeonato por falta de comparência, oferecendo ao Porto a possibilidade de, fazendo os mínimos, facturar um terceiro campeonato consecutivo, isolando ainda mais a conquista de 2009/2010 como um acidente.

Escrevo a 16 de Agosto, a 15 dias do fecho do mercado. Entretanto, o Benfica já contratou Paulo Lopes, Michel, Hugo Vieira, Luisinho, Ola John e Salvio (falta-me alguém?). Assim como o ano passado já tinha contratado Artur, Wass, Witsel, Garay, Matic, Nolito, Bruno César, Enzo Perez, Mora e Rodrigo. Faltava, como ainda falta, um defesa esquerdo. Entretanto, gastaram-se em Salvio e Ola John 22 milhões de euros, isto para a posição mais bem preenchida do plantel. Já defesa esquerdo, nada. O erro é tão ostensivo (e o ano passado custou um campeonato) que me dá nojo. Dá-me nojo porque eu sofro com isto. Porque eu não durmo quando perdemos e ainda sou infeliz pelo que se passou o ano passado. Odeio que o Benfica perca e odeio de morte os culpados dessas derrotas. Irrita-me, portanto, que senhores usem mal o dinheiro que eu e outros papalvos lhes damos em quotas, cativos e afins. Usam esse dinheiro em negócios esquisitos com comissões e em troca dão-nos humilhações como perder campeonatos com 5 pontos de avanço.

Mas não há só incompetência na procura de um defesa esquerdo (vamos todos fazer um minuto de silêncio em memória da puta que pariu o olheiro que descobriu o Emerson), há uma despreocupação na procura do mesmo que pode parecer de cariz aventureiro - quase poética, quase boémia - aos mais distraídos. Para quem já conhece o que a casa gasta, sabe que é mais uma aposta de Jorge Jesus no seu Championship Manager particular. É que, para quem não sabe, além de um campeonato e 3 taças da Liga, JJ tem nos seus currículos as carreiras de Di Maria, David Luiz e Fábio Coentrão. Foram, de facto, negócios prodigiosos para o Benfica e o dinheiro dos mesmos fez concerteza falta. São negócios pelos quais estamos - de verdade - agradecidos. Eu não esqueço que quando JJ chegou à Luz David Luiz era um defesa esquerdo (insistência de Quique) horrível, Di Maria um Gaitan mas sem tanta técnica e Coentrão o próximo Diogo Valente. No entanto, as suas vendas não trouxeram títulos. Não recebemos taças, não fomos para o Marquês. É que JJ está apostado em fazer de Melgarejo um defesa esquerdo ofensivo, estilo Coentrão. Poderá resolver jogos e ajudar no ataque. Poderá ter um pendor ofensivo tal que no fim da época o vendemos acima de 8 milhões. Mas entretanto poderá dar aqueles 6 ou 7 pontinhos preciosos a perder. Ou então vai ser só mais um Djaló. Desde este meu humilde campo, pedia ao senhor Jesus para se deixar de ideias, para brincar no computador dele (se ele quiser até com a equipa do seu coração, aquela de verde) e não no meu Benfica. 

Assusta-me todo este descontrolo do jogo na Alemanha. Assusta-me e deprime-me, porque sei onde é que isto vai dar. Assusta-me que Luisão, Maxi e Carlos Martins fiquem assim num amigável. Vende-se a versão que a culpa de todos os males são os árbitros e o Porto (o Porto que nos ganhou sem ponta de lança e com o Vítor Pereira no banco), mas, pelos vistos, não se preparam os jogadores contra os árbitros. Se sabemos que todos os anos em Braga há festa, com supostas agressões, provocações, luzes que vão abaixo, expulsões aos nossos jogadores que são agredidos, a preparação mental dos jogadores do Benfica é esta? De cabeça perdida, à peitada aos árbitros? Longe de mim ser politicamente correcto: eu acho bem que os jogadores do SLB pressionem árbitros e até que insultem e provoquem adversários se for para nosso benefício, mas que o façam sem serem miúdos de 15 anos. Ninguém no Benfica prepara os jogadores para este tipo de situações, ninguém vai lembrar a Aimar que tem de jogar em vez de discutir com os árbitros, ninguém vai dizer aos jogadores mais novos, como Rodrigo, que quando uma situação destas acontece têm que fugir das expulsões e deixar o capitão ir resolver o assunto. Não, o capitão entrou à Kostadinov, não só arruinando esse argumento, como dando a imagem de um clube a naufragar na sua psicose com os árbitros. E o resto da comitiva riu-se para a UEFA ver.

O quadro está pintado à vista de todos. É um filme repetido, como aqueles clássicos que passam nas tardes de domingo: o Benfica na pré-época. É um deja vu de várias pré-temporadas onde o desequilíbrio do plantel se via de Marte: 2005/06, 2006/07, 2010/11, 2011/12, com a possibilidade de repetirmos o mágico início de época de 2007/08 com o despedimento de Jesus antes da 5ª jornada, sendo a sua cabeça a oferenda pré-eleições de Vieira aos sócios e ao mesmo tempo uma elegia a Fernando Santos e ao seu despedimento na primeira jornada.

Não torço contra o Benfica apesar de detestar esta direcção. Se formos campeões e Vieira celebrar o seu 3º título, sairei à rua, feliz e bêbado de felicidade. Nada me alegrava mais do que não ter razão, nada me faria mais feliz do que comer palavrinha a palavrinha este pessimismo. Mostrem-me até Maio que estou errado. Mas, infelizmente, não acredito. Já vi este filme muitas vezes. Já sei o fim.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Empurra benfica

O futebol voltou. Aleluia, irmãos! É verdade que ainda estamos todos apreensivos com as poucas entradas e as saídas que tardam em concretizar-se de forma a aliviar o caos financeiro dos clubes, mas o certo é que a bola já rola. E, para não variar, o F.C. Porto até já tem um título. A Supertaça não me parece, no entanto, suficiente para combater o sucesso dos nossos rivais.

O sportem, completamente imune à crise, como se sabe, continua a contratar craques e a arrecadar medalhas e diplomas nas modalidades, mesmo naquelas em que não tem atletas. Que classe, senhores viscondes! 

Já o benfica, entristecido pela falta de uma pré-época recheada de troféus e de estádios cheios com camisolas do Mantorras, optou por uma estratégia superior: mandar árbitros ao chão. 

Não consigo ver as imagens sem me rir. O árbitro, qual papoila saltitante, fez-me lembrar os não saudosos tempos dos mergulhos de João Vieira Pinto para a piscina, com a novidade deste ser para trás, digno de um novo desporto olímpico. 

Quanto à agressão do Luisão – sim, agressão, não alegada agressão, nem terá agredido, nem nenhuma dessas expressões que se usam para o desculpar –, não me parece grande novidade. Talvez ainda não o tivéssemos visto a fazer tal coisa com o peito, visto que é mais normal ser com as mãos... 


… ou com os pés...



Mas acho muito bonito o que certos jornalistas estão a fazer, todo este empenho em mostrar como Luisão é um fofinho que só deseja a paz no mundo. Segundo o novo acordo ortográfico imposto por Jorge Jesus na luz, e no domingo posto em prática pelo diretor de futebol do benfica, o que o árbitro fez foi «amandar-se para o chão». Esta é, aliás, uma tendência entre as pessoas que se aproximam muito do Luisão. Fartam-se de se amandar para todo o lado.







Duvido que Luisão vá ser castigado, mas preocupa-me que possa refugiar-se num vício antigo para fugir à intensa pressão mediática. E todos sabemos como o álcool pode provocar ainda mais violência.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Já fomos mais Porto

O meu pai estacionava o carro no parque que dava para o vazio. Não havia nada ali. Pelo caminho, passávamos pela piscina olímpica que nunca o chegou a ser, pelo pavilhão de basquetebol, andebol e hóquei em patins e pelo campo de treinos de futebol. Antes de entrar para o pavilhão das piscinas, ainda dava sempre uma olhadela ao Estádio das Antas, qual sua majestade num reino azul e branco.

Há 20 anos, o F. C. Porto era assim.

Eu sentia-me especial. Mostrava com orgulho o cartão de sócia com a minha fotografia e as quotas em dia à senhora que “guardava” as piscinas. Ela sabia o meu nome, apesar de eu ser apenas mais uma entre dezenas. O balneário era uma confusão de meninas de fato-de-banho, que se identificavam mais pelas toucas do que pelo talento, mesmo que uma delas se tenha tornado uma atleta olímpica (Boa sorte, Sara, estamos a torcer por ti).

Adorava nadar para as poucas pessoas que estavam a ver. Sentia que aquele era o meu momento, em que fazia alguma coisa pelo meu clube. Não há nada melhor do que nos sentirmos parte do F. C. Porto.

Há umas semanas, vimos um vídeo dessa altura e fiquei chocada. C., uma mulher que se crê com um cadastro moral quase irrepreensível, afinal agarrava-se disfarçadamente às paredes da piscina para ganhar lanço e ultrapassar os outros putos. Enfim, só os mais fortes sobrevivem.

Percebo agora como devia ser uma grande seca para o meu pai estar ali uma hora a olhar para mim. Por isso, compreendo perfeitamente todas as vezes em que o apanhei, disfarçadamente, a sair para ir ver os treinos que decorriam ali ao lado.

As estrelas de futebol treinavam mais cedo. Normalmente, quando estávamos a chegar eles estavam a sair do campo. Ali, naquele F. C. Porto, era perfeitamente normal a grande estrela Domingos cumprimentar uma miúda de cinco anos ou a grande referência Paulinho Santos ficar à conversa com um pai sobre o embate que se avizinhava. Fazíamos todos parte do mesmo.

Enquanto eu nadava, eram as modalidades que treinavam. O meu pai, na altura, devia ser o maior entendido do andebol, do basquetebol e do hóquei em patins portistas. Quando eu saía da piscina e não o via, sabia onde o podia encontrar: no pavilhão. Muitas vezes, sem pressa para jantar, ficávamos os dois ali um bocadinho a vê-los.


Naquele F. C. Porto, era normal uma criança como eu saber quem era Jared Miller, Tó Neves ou Carlos Resende. Naquele F. C. Porto, era normal uma criança conviver de perto com os craques, dizer-lhes um simples olá, invejar um cesto ou ter medo do disco voador do hóquei. Aquele F. C. Porto podia não ter pipocas na bancada, mas sabia como fazer uma criança feliz, passando o domingo entre uma modalidade e outra, sem sequer imaginar que, um dia, as piscinas iam estar dispersas, os futebolistas iam treinar para uma redoma de vidro distante e os outros atletas iam ter de jogar com a camisola azul e branca sem receber salário.

Agora, no vazio que antes víamos do parque de estacionamento, há um estádio e um pavilhão belíssimos, criações de última geração, palcos de um novo século de vitórias. Há um clube maior e um novo mundo de estrelas. Infelizmente, a minha infância já vai longe e a minha proximidade com o F. C. Porto também. Não sei se seria bom continuar a jogar para não ganhar e não sei quantas pessoas terão gerido mal a situação para acabar assim. Não conheço o suficiente do basquetebol para avaliar a decisão e nem sequer posso dizer que tenha sido uma grande adepta da modalidade. Mas ninguém gosta de ver o seu clube morrer um bocadinho.


P.S. Muito obrigada a todos os campeões do nosso basquetebol. Um dia voltaremos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Preciso do Benfica

Preciso de futebol. Preciso daqueles segundinhos antes do jogo começar, em que esfrego as mãos, dou dois pulinhos de nervos e tenho fé. São os dois segundos onde esqueço o meu pessimismo, esqueço as análises e acredito que os onze de vermelho são os melhores do mundo. Dou dois pulinhos e penso um “`Bora!” ou “Vamos lá”, seguido invariavelmente de palavrões.

Preciso dos palavrõs no futebol. Preciso de largar aquela caralhada, de sentir o profundo desprezo que o “Foda-se”, dito sibilinamente, esticando o “assssseeee”, tem pelo azar quando a bola bate na barra. Quero dizer palavrões e insultos estranhos e bizarros aos rivais. Não basta chamar “merdoso” ao Diogo Valente. Temos que exagerar, tornar o insulto uma imagem ridícula e dantesca. O Diogo Valente (que é dos meus alvos preferidos, sempre com aquele olhar de Beckham incompreendido) tem de ser “uma grande montanha de merda” ou um “atrasado mental filho de um boi”. Preciso de gritar a um rival que vá marcar um canto perto de mim que ele “não vale um caralho”, que é o nível último da inaptidão.
                                                                                                     
Quero passar na banca dos cachecóis e olhar para todos e pensar sempre que é hoje que vou comprar um e que vai dar sorte. Tenho saudades de entrar no metro e de avaliar pelo número de pessoas à Benfica se a Luz vai estar cheia ou não. Tenho saudades do número de pessoas que se acumula na estátua do Eusébio, como se aquele fosse o ponto de encontro único para ir à Catedral.

O futebol e, sobretudo, o Benfica, fazem parte de mim. Todos os dias – melhor dizendo, todas as horas – penso no Benfica, em soluções para as laterais, em putativas entrevistas aos jornais enquanto presidente do Benfica, sempre fortíssimo nos ataques aos rivais, com um fino conhecimento histórico que me permitiria desmontar rapidamente os ataques de Pinto da Costa e com argumentos que o levariam à loucura. Imagino-me também jogador, a marcar o sexto em Alvalade, incitando depois a nossa bancada a cantar o “À meia dúzia é mais barato”. O Aimar é o primeiro a chegar para me abraçar. "Es tuyo, Pablo", digo-lhe ao ouvido, agradecendo a fantástica assistência que me deixou na cara de Patrício.

O futebol está em tudo na minha vida e não encontro melhor metáfora em tudo o que faço. Quando digo a um doente que está tudo a correr bem digo-lhes sempre que “em equipa que ganha não se mexe”. Quando meto um catéter à primeira digo que foi à Cardozo.
Uma vez estava na consulta a correr de um lado para o outro – faltavam-me processos, vinhetas e tudo o mais – e estava sempre a passar na sala de espera dos doentes. Um doente vira-se para mim: “Você não pára!”. Respondi-lhe: “Pareço o Witsel a varrer o meio campo”. O senhor, Benfiquista, riu-se a bom rir.
O meu pai, quando fala de alguém que tem a mania que é bom e que é o maior, usa uma expressão de outro grande Benfiquista nosso amigo, senhor já falecido e dono do mais fino humor: “Esse gajo tem a mania que é o Eusébio”. Ter a mania que se é o Eusébio é ter a mania que se é Deus. É a prepotência, a má educação, a falta de respeito. Quando alguém acha que é o Eusébio, não importa quão bom é, já está a exagerar, é um pavão, um convencido que deve ser posto no lugar. Ter a mania que se é o Eusébio devia dar um castigo exemplar que obrigasse o prevaricador a perceber que não só se excedeu, mas que pecou.

Preciso de mais do que amigáveis e notícias de jornal. Preciso de ter que fazer ao fim de semana, de ter um objectivo principal em que pensar, dado que o próximo (Benfica–Braga, primeira jornada) ainda vem longe, com várias semanas vazias de existência pelo meio. Ocupá-las-ei com livros e outros pormenores que nunca me vão preencher tanto como aquele vermelho lindo e berrante do manto sagrado, mas todas as horas estão já contadas em decrescente para a bola, para o Benfica.
Cá em casa a vida segue, mas com uns silêncios estranhos. Continuamos a namorar, a ver séries, a ler, a trabalhar, a pensar em viagens. Mas não estamos completos, não estamos preenchidos. Falta a bola. Falta o bichinho, a pica, o coração aos saltos, quase na boca e às vezes no estômago.

Preciso de futebol. De dar dois saltinhos antes do Aimar tocar para a frente e o Cardozo dar de pé esquerdo para o Witsel. Vamos lá.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Deixaremos sempre jogar o Mantorras

A primeira imagem que tenho de Pedro Mantorras é a de um longínquo alverca-sportem. Surpreendentemente, eu torcia pelos da casa. De repente, vejo um homem negro, desajeitado, a pegar na bola e a fintar os verdes todos confusos. Na minha memória, ele tinha marcado três golos e eu tinha festejado cada um deles como se ele fosse o meu irmão mais velho. Vejo agora, à luz do tempo e do zerozero.pt, que só marcou um. Também eu, portanto, sou uma vítima do fenómeno Mantorras.

Nos dias seguintes a esse jogo, lembro-me do frenesim pelo jovem de 18 anos (alguém ainda acredita nisso?) do alverca. Já toda a gente o queria, mas ele lá foi para o benfica, numa derrota estrondosa para os rivais. Em pouco tempo, Pedro Mantorras tinha meio mundo atrás dele e já valia 18 milhões de contos. Crianças e adolescentes que não sabem o que isto significa: estamos a falar de 90 milhões de euros. Parece-vos um exagero quando falamos de uma promessa do início dos anos 2000? Então vocês não conhecem o Mantorras.

Pedro Mantorras foi, durante muitos anos, o rapaz africano que reavivou as memórias coloniais de Eusébio e Coluna. Para os adeptos do benfica – e estou convencida que não só -, torcer por ele era uma forma disfarçada de ter pena de outra raça. Reforço que, durante muitos anos, ele foi um pobre rapaz de origens humildes que só gostava de jogar à bola. Mesmo quando já não era rapaz, nem era pobre. Não me entendam mal: o pobre do rapaz não fez nada por isso, além da figura triste de ir a uma conferência de imprensa pedir que o deixassem jogar. O marketing sem escrúpulos, à moda de Luís Filipe Vieira, é que se aproveitou dele para vender muitos kits de sócio por todo um continente. Se o Mantorras fosse branco, não lhe teriam feito o mesmo.

Mas a verdade é que Pedro Mantorras tinha mesmo uma aura. Lembro-me bem da época de 2004/2005, quando o benfica foi campeão com várias vantagens de apenas um golo. O M. diz sempre que foi tudo graças ao Trapattoni. Eu sei que foi culpa do Mantorras. Era ele que entrava sempre a poucos minutos do fim, com um joelho para cada lado e com aquele ar de quem não faz mal a uma mosca, e que desempatava aquela merda quando eu já estava a preparar-me para sair para os Aliados. O Mantorras fazia-me mal.

Quando Pedro Mantorras iniciava o aquecimento, a luz ia abaixo. Na minha terra dizia-se que o benfica marcava sempre mais um golo fora do campo, e nem sequer estávamos a falar das habituais ajudas da arbitragem. Quem foi àquele estádio e assistiu a um desses momentos, nunca se há-de esquecer da sensação de surrealismo, de entrada numa outra dimensão, em que o jogo pouco interessava porque o Mantorras estava lá.

E o mais engraçado é que o Mantorras nem sequer lhes passava cartão. Recordo-me perfeitamente de um benfica-leiria em que os lampiões perdiam por 0-1 num jogo muito importante de um campeonato decidido ao ponto. Trapattoni, fino como um raio, comete um acto de desespero e mete a jovem promessa que nessa altura já devia ter uns 19 anos e três meses. Aos 93 minutos, Mantorras empata o jogo. E pensam vocês: e foi a correr buscar a bola e colocou-a no centro do campo para tentar marcar o segundo, consagrar uma reviravolta histórica e colocar o benfica numa melhor posição na luta pelo título? Não. O Mantorras não. O Mantorras ficou a festejar durante largos minutos, com os companheiros a acharem aquilo muito estranho, mas com os adeptos histéricos com o empate. Para eles, o Mantorras era a única coisa maior do que o benfica.

Felizmente para a geração de portistas que ficou traumatizada com estes golos no último minuto à Mantorras, na qual me incluo, a estrelinha não durou para sempre. Com o tempo, o fenómeno transformou-se num problema. As lesões, as operações, os médicos, um livro, tribunais à mistura, muito ficou por explicar. Os mais crentes ainda hoje defendem que Pedro Mantorras, num clube decente e, sobretudo, com um presidente decente, teria sido um jogador extraordinário. Eu, se me esquecer daquele alverca-sportem, tenho muitas dúvidas. Do que eu tenho a certeza é que, como se voltou a ver hoje, num amigável apitado por… adivinhem lá… “pode ser o João!”, a parolada da luz nunca mais vai ser a mesma. E até a águia fugiu!

domingo, 8 de julho de 2012

O campeão voltou

Acabou-se o Europeu. Acabaram-se as modalidades e todas as distracções. A época 2012/2013 está aí e nós, os malucos, temos finalmente algo para fazer. O calendário dos jogos de preparação está imprimido e não há dia em que uma conversa não comece por:
- O Jackson Martínez já chegou?
Ou:
- Sabes se o Jackson Martínez vale alguma merda?
Ou ainda:
- Será que o Jackson Martínez gosta de francesinhas?
Isto sim, são coisas importantes da vida.

Até agora, o FCPorto 2012/2013 não apresenta grandes novidades. Fabiano parece-me uma contratação certeira, ainda que ameaçada pela proibição dos empréstimos a outros clubes da primeira Liga (uma decisão que, eticamente, até pode ser de saudar, mas que irá ameaçar o futuro de muitos jogadores, principalmente portugueses). Jackson Martínez é, tal como todos os jogadores que só conhecemos pelo YouTube, uma grande promessa. E aguardamos que todos os Gansos e Caballeros que por aí andam prefiram assinar pelo Porto do que pelo benfica em cinco segundos ou menos, não vá a tradição perder-se.

Sapunaru está desaparecido em combate e, entre as saídas, até agora só se confirmaram as inevitáveis, como Guarín ou Cristian Rrodíguez (paz às suas almas). Hulk, Moutinho, James, Álvaro Pereira, Rolando e Fernando já foram vendidos para dezenas de clubes, mas o dinheiro a sério tarda a entrar nos cofres. Este ano, não acredito que as cláusulas de rescisão não sejam contornadas, porque a vida está difícil e vamos ficar todos sem subsídios de Natal e de férias. Mas enfim, um dia o FCPorto vendeu o Cissokho por 15 milhões, por isso eu sou rapariga para acreditar em milagres.

Sinceramente, não estou muito preocupada. Estou consciente que a situação financeira não nos vai permitir entrar em grandes aventuras. É certo que quase 9 milhões de euros dados por um rapaz que jogava no México parece, à primeira vista, um belo tiro no pé, mas recordo que o Hulk também era o tosco muito caro que vinha da segunda divisão japonesa. Sei também que teremos de vender alguns dos craques. Hulk, Moutinho e Fernando parecem-me ser os mais difíceis de substituir, mas, mais uma vez, sublinho que estamos a falar do clube que rapidamente fez esquecer Deco, Lisandro e até Vítor Baía. E, sobretudo, confio sempre na incompetência dos nossos rivais para nos garantirem mais um campeonato nacional.

Mas isto sou eu, a C. calma e descontraída que lê artigos sobre o local de estágio na Suíça como se disso dependesse um mundo melhor. Quando isto começar a aquecer, com troféus em causa e túneis com porrada e árbitros a roubar-nos, aí sim, falaremos melhor.