Levantam-se de manhã na sua casa de luxo, comem o pequeno-almoço feito pela empregada ou pela loiraça de 1,80m que se deita com eles na cama e sentam-se ao volante da última novidade do automobilismo para irem para o treino. Correm, fazem uns exercícios e convivem com as estrelas azuis e brancas. Regressam ainda a tempo de descansar, de jogar Playstation como eternas crianças e de brincar com os telemóveis mais caros do mercado. Uma ou duas vezes por semana, deixam a família feliz para viajar num autocarro ou num avião confortáveis, dormem num hotel de 4 ou 5 estrelas e, durante uma hora e meia, jogam à bola com a camisola mais bonita do mundo.
Haverá melhor profissão do que esta?
Sim, eu sei que a pressão e o cansaço também são enormes. A exigência é muita e poucos falhanços são permitidos. Entrar num estádio cheio e ser insultado não deve ser fácil. Ouvir um ou outro assobio de vez em quando não deve ser agradável. Não poder andar na rua, ir ao supermercado ou sair à noite sem estar sujeito a dar dezenas de autógrafos ou a levar uma cabeçada também não deve ser espectacular. Mas continuo a achar que uns milhares de euros no fim do mês e a nossa admiração compensam isso.
Imagino que um operário fabril que ganhe o salário mínimo não tenha milhares de apoiantes a cantarem o seu nome se a máquina encravar e ele, fintando um ou outro parafuso saltitante, consiga enfiar o tubo no buraquinho da agulha, por muito bonita que esta imagem seja.
Imagino que um pescador seja mais do que assobiado se um dia chegar à doca e disser ao patrão que só conseguiu 10 quilos de camarão porque a última vez que saiu para o mar foi há apenas 48 horas e não teve tempo de descansar entretanto.
Imagino que um agricultor possa ir à vontade ao supermercado ou sair à noite, mas que não o faça muitas vezes porque alguém tem de ficar em jogo para as colheitas.
Imagino que um jovem que estudou e que fez tudo o que podia para aprender a executar determinada profissão fique tão frustrado por estar desempregado que tenha que emigrar para qualquer lado, a qualquer preço, mesmo depois do dia 31 de Agosto.
Eu sei que também sou uma privilegiada. Tenho 25 anos e tenho emprego, logo naquilo que tanto gosto de fazer. Trabalho de manhã, à tarde e à noite, aos fins-de-semana e aos feriados, conforme o calendário manda. Não ouço aplausos nem assobios, mas os meus leitores, desde o Zé da esquina ao dono do banco, são igualmente exigentes. Posso sonhar em ser contratada pela BBC, mas é muito pouco provável que isso aconteça, por muito que as minhas notícias evoluam. Certamente que não me vou retirar aos 35 anos e estou a rezar para que ainda tenha reforma se o fizer aos 70. Não espero ter uma casa ou um carro de luxo e muito menos vir a dar um autógrafo na vida (a cabeçada posso levar, não serei a primeira jornalista a fazê-lo). Faça o que fizer, nunca terei um salário que sequer se assemelhe ao vosso. E pior: nunca vou entrar no Estádio do Dragão, olhar para bancada e ver um adepto a pedir a minha camisola, a camisola do Futebol Clube do Porto com o meu nome.
É este privilégio que poucos podem ter e que ainda menos sabem como é bom ter. E é por isso que não consigo perceber por que hão vocês de estar tão interessados em ir lutar pela Europa no tottenham ou pelo campeonato russo no zenit. Dinheiro? Coitados, são tão pobrezinhos. Fama? Em clubes de merda como esses? Títulos? Porque o Porto ganha tão poucos...
Mas vão. Vão lá, a sério. Nós até precisamos do dinheiro. E eu consigo ter consciência que vocês não amam este clube como eu, por isso não vêem as coisas desta forma. No Porto de outros tempos, era um drama substituir um Vítor Baía, um João Pinto ou um Domingos. No Porto de agora, não há Álvaro Pereira, Hulk ou João Moutinho que não se esqueça de um dia para o outro. À vossa ambição desmedida, nós, os adeptos, respondemos com uma substituição rápida: hoje pedimos a vossa camisola, amanhã pedimos a de outro qualquer. É que, para nós, já não há heróis.
P.S. Bela vitória no sábado, embora a fraca qualidade do guimarães tenha ajudado. Gostei muito do Alex Sandro (tem tudo para ser melhor do que o palhaço do seu antecessor) e adorei ver que a cabeça do Hulk pode estar longe, mas o corpo, pelo menos até agora, mantém-se cá. Adorei sobretudo os foras-de-jogo idiotas e aquela defesa com a mão do N'Diaye na grande área, a fazer lembrar uma que ele fez com a cabeça na luz e que deu penalty.
P.S. Bela vitória no sábado, embora a fraca qualidade do guimarães tenha ajudado. Gostei muito do Alex Sandro (tem tudo para ser melhor do que o palhaço do seu antecessor) e adorei ver que a cabeça do Hulk pode estar longe, mas o corpo, pelo menos até agora, mantém-se cá. Adorei sobretudo os foras-de-jogo idiotas e aquela defesa com a mão do N'Diaye na grande área, a fazer lembrar uma que ele fez com a cabeça na luz e que deu penalty.






