Há uma expressão célebre que diz que se pusermos alguns
macacos com máquinas de escrever (a expressão é antiga, hoje usariam Macs e
pareceriam hipsters, os macacos), ao fim de vários anos os macacos terão
escrito as obras completas de Shakespeare.
Lembrei-me disto no Bonfim. Estava a ver o jogo junto ao RC
e dá-se a cena clássica: Javi desce, Luisão e Garay abrem e toda a gente sobe lá
para a frente. Como só o Witsel é que desce, mais tarde ou mais cedo sai um
passe insensato ou um chutão cheio de fé para a frente. O problema foi que o RC
disse o que ia acontecer como se eu estivesse a ver o jogo em diferido: “Agora
o Javi dá ao Garay e o Garay chuta.” E assim foi.
Goleámos porque, só para a frente, o plantel do Benfica tem
ao seu dispor: Cardozo, Rodrigo, Aimar, Carlos Martins, Gaitan, Nolito, Bruno César,
Enzo Perez, Salvio. Com esta gente e enfrentando equipas falidas treinadas pelo
José Mota, é como colocar numa arena uma horda de selvagens contra um hipster que frequente
a FNAC da Baixa–Chiado. É óbvio que os selvagens vão conseguir bater-lhe,
roubar-lhe os óculos de haste grossa, violá-lo e queimar-lhe o cadáver. Nas
mãos de Jorge Jesus, não há a hipótese destes jogadores trocarem a bola e
controlarem o jogo. Jorge Jesus, neste momento, é um general militar a quem dão
uma super metralhadora e que, em vez de a disparar, atira-a contra a cabeça do
adversário.
Não vou repetir os erros tácticos do Benfica porque já há
gente a escrevê-lo muito melhor do que eu. O meu drama é o meu coração depender
dessa selvajaria. Como qualquer bom adepto, ordeno mentalmente o que quero que o
jogador faça antes dele o fazer. “Vai para cima dele”, “Desce”, “Mata o Hulk”,
etc. O problema, neste momento, é que me sinto justamente a gritar com uma
tribo lunática, praticamente sem hábitos de civilização conjunta, quanto mais
de linguagem. Ainda para mais, dizem os jornais que os únicos da tribo que
procuram a agricultura de subsistência (isto é: defender), podem ser vendidos. Não
vou conseguir comunicar com ninguém, portanto. Se vendermos Witsel e Javi Garcia, quando perdermos a bola na saída para o ataque não vale a pensa gritar "Desce" a ninguém. É como pedir o "Romeu e Julieta" a um macaco. Ou pedir ao Jesus para jogar com 3 médios.
Não tendo a hipótese de me desligar (não há esse botão nos
fanáticos), vou ter que entregar o coração a esta selvajaria. Esperar que a
horda consiga mutilar consecutivamente os mais fracos de forma a que ganhe uma
empatia entre si. Estou neste momento a imaginar Enzo Perez de tanga, a
procurar com o seu olhar vazio Bruno César, também vestido tribalmente, os dois
a trocar uma olhar de entendimento após um massacre a um Paços de Ferreira
qualquer. A sede de sangue unirá a tribo e torná-la-à cada vez mais insaciáveis, tornanda-a assim cada vez mais forte frente aos fracos e mais previsível contra equipas com 2 neurónios.
A esperança reside na sorte de não apanharmos qualquer tribo
mais inteligente, que se esconda em cima das árvores, deixando os nossos
desorientados e a lutar entre si. Se se sucederem várias batalhas ganhas, os
Benfiquistas acudirão ao estádio e gritarão cânticos de incentivo à maralha de
ataque desorganizada que é a nossa equipa de futebol. Com alguma sorte no
calendário (e, claro, nos jogos), poderemos chegar às batalhas decisivas sem
termos já os 7-8 pontos de atraso habituais. E depois, pronto, pode ser que a
tribo já tenha descoberto o fogo.
Estou lixado. Da minha felicidade depende a capacidade do
Benfica deixar de ser selvagem. E isso é tão provável como macacos escreverem
as obras completas de Shakespeare. Bem, antes os macacos que o Jesus.







