Dois defesas-esquerdos do benfica e um
médio do FCPorto. A custo zero. E vestem o mesmo tamanho do que os
emprestados da época passada, por isso é só trocar o nome da
camisola. O presidente do PFC, desta vez, esmerou-se. Do sportem não
quis ninguém, claro, porque ainda há uma diferença entre o Pequeno
Futebol Clube e o Mínimo Futebol Clube.
É dia de bola. Da sede ao estádio
seria só atravessar a rua, mas, desta vez, o PFC vai fazer uma
deslocação até um estádio do Euro abandonado. Os sócios estão
revoltados. As cadeiras confortáveis e limpas fazem doer as costas.
O relvado impecável prejudica o futebol de qualidade ímpar. Os
torniquetes, meu deus, é o fim do mundo, até funcionam.
Já não bastavam estas contrariedades,
ainda por cima do outro lado está o campeão. E o PFC detesta o
campeão. Não é que o campeão alguma vez tenha feito mal ao PFC,
mas adepto do PFC que é adepto do PFC detesta todos os clubes que
lutam por títulos. Ao adepto do PFC, soa a insulto que uma equipa
queira sempre os três pontos. O adepto do PFC tem como melhor
momento da sua vida aquela tarde soalheira em Vila Nova do Fim do
Mundo, em que o PFC conquistou um glorioso empate que assegurou a
permanência na primeira divisão, no último minuto da última
jornada. Isto sim, é sentir o futebol. Os adeptos do campeão sabem
lá o que isto é, esquisitinhos da caca que ainda há um ano andavam aí na rua a festejar uma Liga Europa.
Ser adepto do campeão é fácil.
Pega-se no carro, faz-se centenas de quilómetros e entra-se numa
bancada pintada da mesma cor. Canta-se por Hulk e Moutinho, que
tantos corações partiram ao estarem ali, e espera-se que James
entre para resolver o imbróglio. Os golos chegam, como quase sempre,
e para a semana há mais (não há, porque o calendário é
ridículo). Isto não faz sentido para o adepto do PFC.
Ser adepto do PFC é lixado. Na bancada
estão os do costume, só que desta vez misturados com os adeptos do campeão, com
aquele ar sorridente de quem está sempre a vencer troféus. Começam
tímidos, não vá aparecer aí uma goleada, mas animam-se com aquele golo
em contra-ataque perante o facilitismo da defesa do campeão. A
noite, afinal, pode ser de festa para o PFC! Tudo o que têm de fazer
é defender, dar pau e perder tempo durante toda a eternidade de jogo
que se segue. Resta-lhes ainda assobiar o avançado brasileiro do campeão,
porque, para os adeptos do PFC, só o seu central caceteiro de quase
40 anos vale 50 milhões de euros. Para seu azar, é esse mesmo
avançado brasileiro que fuzila o guarda-redes de voz fininha do PFC
e mata o jogo.
Tudo o que o adepto do PFC desejava era
aquele empate no último minuto, num golpe de sorte, fruto de um
falhanço de um rapaz do campeão. Com aquele empate, a noite de
sábado na sede seria uma loucura. Os filhos e os netos do adepto do
PFC iriam recordar para sempre aquela partida mítica em que o
central caceteiro conseguiu acabar sem amarelo. Infelizmente, tudo
correu como seria normal e o campeão ganhou.
Mas não há drama. O adepto do PFC, o
verdadeiro adepto do PFC, é um adepto do caraças. Torce pelo PFC e
apenas pelo PFC, por isso já está a preparar a deslocação ao
rival Sporting Clube da Pequenez. Nesses jogos é que se conquistam
permanências, nesses jogos é que o pequeno se separa do mínimo. O
campeão que vá à sua vida, que o PFC vai continuar a lutar pela
sua.
O pior são aqueles adeptos do PFC que
ontem lá estavam, e que tantas vezes encontro por esses estádios
fora. Disfarçam-se adeptos do PFC, mas na verdade são adeptos de
outros clubes bem maiores, frustrados pelos títulos perdidos para o campeão.
Quando o Targino faz o 3-2, não é a permanência do Olhanense que
eles vêem à frente, mas sim a aproximação ou a conquista de
pontos das suas equipas. Quando o Moutinho corta uma bola, é
atropelado por trás e cai para o chão magoado, eles não gritam “maçã
podre” porque ele é de Portimão, mas porque trocou o clube deles
pelo campeão. Quando o Hulk passa por eles a 300 km/h, não é das
portagens na Via do Infante que se lembram, mas daqueles 5-0 no
Dragão e do seu querido David Luiz (pausa para elogiar a brilhante
exibição frente ao Falcao) a ser ultrapassado por este camião
brasileiro que os estúpidos dos russos nunca mais cá vêm buscar.
Admiro muito os primeiros adeptos do
PFC. Quero que as crianças de Vila Nova do Fim do Mundo cresçam a
torcer pelo clube da sua terra, que nas tascas se discutam as
notícias mais pequeninas dos jornais desportivos e que os empates
que asseguram a permanência no último minuto da última jornada
sejam para sempre recordados como o melhor momento das suas vidas.
É-me muito fácil ser do FCPorto, pelo que vocês, do Olhanense, do
Beira-Mar, do Rio Ave, etc, me parecem os verdadeiros adeptos de
futebol.
Quanto aos segundos adeptos do PFC,
meus caros, azar. Preocupem-se com o meio-campo vazio da vossa equipa
ou o ataque mortífero que apenas vos faz ganhar a equipas
dinamarquesas de cujo nome já nem me recordo. Era o que eu faria, se
fosse vocês. Mas felizmente sou do campeão.






