Mas aquela que guardo carinhosamente como a primeira
recordação tua, Hulk, e que tão bem te define, aconteceu na tua estreia no
Estádio do Dragão. Jogávamos contra o belenenses e tu entraste já na segunda
parte. O FCPorto ganhava, mas 1-0 é um resultado que nunca satisfaz aquela
plateia. Houve um livre e tu assumiste que querias bater. O Mariano, coitado,
ainda não devia ter treinado muitas vezes contigo, porque se colocou à frente.
Saiu lesionado. E tu ainda marcaste o segundo. Percebi imediatamente que
tínhamos ali os pés mais fortes do mundo.
Se há momento teu que o mundo não pode esquecer é aquele que
protagonizaste em alvalade, com o único jogador que pesava mais do que tu na
altura. Eu estava lá, e desde que pegaste na bola que comecei a gritar “Hulk,
Hulk, Hulk”. E gritei, e gritei, e gritei. E tu correste, e deixaste o
Rochemback para trás, bem para trás, e fuzilaste-os. Percebi imediatamente que
tínhamos ali um Fenómeno.
Depois, Hulk, foi uma questão de ires aguentando os assobios
do Dragão. Sonho com o dia em que terei oportunidade de dar dois estalos a cada
adepto que te assobiou e que, a qualquer falhanço da equipa esta época, vai questionar
a tua venda. Eles existem, como sabes. Mas tu não lhes ligaste puto.
Continuaste sempre o mesmo: forte, possante, irreverente, decisivo e muito,
muito egoísta. Hulk, aqui que ninguém nos ouve, perdoa-me todas as vezes em que
soltei um audível “passa a bola filho da puta”. Tu é que tinhas razão. Eu não o
percebi imediatamente, mas a bola tinha de ser tua.
Até que chegou aquele dia. O túnel. O maldito túnel. Foste
tão menino Hulk. Naquela altura já te deviam ter explicado o que aquela casa
gasta. E tu, mesmo assim, caíste. Não imagino o que te terá passado pela cabeça
quando era a tua cabeça que queriam. Suspenderam-te de imediato, que é uma
coisa que não acontece, por exemplo, a jogadores que mandam árbitros ao chão.
Tentaram que te fosses embora, que a tua carreira acabasse logo ali, e depois
vieram corrigir o erro. De quatro meses para três jogos. E ainda me recordo bem
daqueles arautos da verdade desportiva a fazerem as contas e a apregoarem que o
FCPorto até fazia mais pontos sem ti do que contigo. Oh, Hulk, percebes agora
como me rio deles, não percebes?
O que eles talvez não saibam é como isso nos ajudou a ver-te
como um jogador à Porto. Outro qualquer, o Sapunaru, por exemplo, não
conseguiria controlar a raiva por eles. Tu fizeste melhor: humilhaste-os.
E calaste-os. Porra, Hulk, este é o melhor silêncio do
mundo. E qualquer um percebe isso.
Agora, Hulk, está na hora de ires. E eu tive o privilégio de ver o teu último golo com a nossa camisola, quando fuzilaste aquele guarda-redes de voz fininha no sábado. Um portista sabe que esta foi a melhor maneira de saíres do nosso clube. Parece-me que tu até nem
querias muito, o que me faz admirar-te ainda mais. Ambos sabemos que vais para
pior e que vais ter saudades do que já ganhaste aqui. E também ambos sabemos
que o Porto vai sentir a tua falta, mas vai continuar a ganhar. Mas obrigada,
Hulk. Muito, muito obrigada. És Incrível.







