terça-feira, 4 de setembro de 2012

Obrigada, Hulk

Estava a trabalhar na redacção do Porto quando me chamaram para ir à janela ver a nova contratação do FCP. A primeira coisa que pensei foi que nunca tinha visto um jogador de futebol tão largo. Percebi imediatamente que a alcunha «Incrível» não devia ser por acaso.

Mas aquela que guardo carinhosamente como a primeira recordação tua, Hulk, e que tão bem te define, aconteceu na tua estreia no Estádio do Dragão. Jogávamos contra o belenenses e tu entraste já na segunda parte. O FCPorto ganhava, mas 1-0 é um resultado que nunca satisfaz aquela plateia. Houve um livre e tu assumiste que querias bater. O Mariano, coitado, ainda não devia ter treinado muitas vezes contigo, porque se colocou à frente. Saiu lesionado. E tu ainda marcaste o segundo. Percebi imediatamente que tínhamos ali os pés mais fortes do mundo.

Se há momento teu que o mundo não pode esquecer é aquele que protagonizaste em alvalade, com o único jogador que pesava mais do que tu na altura. Eu estava lá, e desde que pegaste na bola que comecei a gritar “Hulk, Hulk, Hulk”. E gritei, e gritei, e gritei. E tu correste, e deixaste o Rochemback para trás, bem para trás, e fuzilaste-os. Percebi imediatamente que tínhamos ali um Fenómeno.


Depois, Hulk, foi uma questão de ires aguentando os assobios do Dragão. Sonho com o dia em que terei oportunidade de dar dois estalos a cada adepto que te assobiou e que, a qualquer falhanço da equipa esta época, vai questionar a tua venda. Eles existem, como sabes. Mas tu não lhes ligaste puto. Continuaste sempre o mesmo: forte, possante, irreverente, decisivo e muito, muito egoísta. Hulk, aqui que ninguém nos ouve, perdoa-me todas as vezes em que soltei um audível “passa a bola filho da puta”. Tu é que tinhas razão. Eu não o percebi imediatamente, mas a bola tinha de ser tua.

Até que chegou aquele dia. O túnel. O maldito túnel. Foste tão menino Hulk. Naquela altura já te deviam ter explicado o que aquela casa gasta. E tu, mesmo assim, caíste. Não imagino o que te terá passado pela cabeça quando era a tua cabeça que queriam. Suspenderam-te de imediato, que é uma coisa que não acontece, por exemplo, a jogadores que mandam árbitros ao chão. Tentaram que te fosses embora, que a tua carreira acabasse logo ali, e depois vieram corrigir o erro. De quatro meses para três jogos. E ainda me recordo bem daqueles arautos da verdade desportiva a fazerem as contas e a apregoarem que o FCPorto até fazia mais pontos sem ti do que contigo. Oh, Hulk, percebes agora como me rio deles, não percebes?

O que eles talvez não saibam é como isso nos ajudou a ver-te como um jogador à Porto. Outro qualquer, o Sapunaru, por exemplo, não conseguiria controlar a raiva por eles. Tu fizeste melhor: humilhaste-os.


E calaste-os. Porra, Hulk, este é o melhor silêncio do mundo. E qualquer um percebe isso.





Agora, Hulk, está na hora de ires. E eu tive o privilégio de ver o teu último golo com a nossa camisola, quando fuzilaste aquele guarda-redes de voz fininha no sábado. Um portista sabe que esta foi a melhor maneira de saíres do nosso clube. Parece-me que tu até nem querias muito, o que me faz admirar-te ainda mais. Ambos sabemos que vais para pior e que vais ter saudades do que já ganhaste aqui. E também ambos sabemos que o Porto vai sentir a tua falta, mas vai continuar a ganhar. Mas obrigada, Hulk. Muito, muito obrigada. És Incrível.

domingo, 2 de setembro de 2012

Pequeno Futebol Clube

É sábado, o mercado fechou há umas horas e, na sede do Pequeno Futebol Clube - uma tasca com três estrelas Michelin -, as manchetes dos jornais desportivos não interessam a ninguém. João Moutinho não foi para o Tottenham? Vira a página. Javi Garcia saiu do benfica (aleluia, irmãos)? Passa à frente. Na página 30, finalmente, a notícia do dia, lá em baixo, num quadradinho sem cor: o PFC fintou os Abramovich desta vida e conseguiu três reforços por empréstimo.

Dois defesas-esquerdos do benfica e um médio do FCPorto. A custo zero. E vestem o mesmo tamanho do que os emprestados da época passada, por isso é só trocar o nome da camisola. O presidente do PFC, desta vez, esmerou-se. Do sportem não quis ninguém, claro, porque ainda há uma diferença entre o Pequeno Futebol Clube e o Mínimo Futebol Clube.

É dia de bola. Da sede ao estádio seria só atravessar a rua, mas, desta vez, o PFC vai fazer uma deslocação até um estádio do Euro abandonado. Os sócios estão revoltados. As cadeiras confortáveis e limpas fazem doer as costas. O relvado impecável prejudica o futebol de qualidade ímpar. Os torniquetes, meu deus, é o fim do mundo, até funcionam.

Já não bastavam estas contrariedades, ainda por cima do outro lado está o campeão. E o PFC detesta o campeão. Não é que o campeão alguma vez tenha feito mal ao PFC, mas adepto do PFC que é adepto do PFC detesta todos os clubes que lutam por títulos. Ao adepto do PFC, soa a insulto que uma equipa queira sempre os três pontos. O adepto do PFC tem como melhor momento da sua vida aquela tarde soalheira em Vila Nova do Fim do Mundo, em que o PFC conquistou um glorioso empate que assegurou a permanência na primeira divisão, no último minuto da última jornada. Isto sim, é sentir o futebol. Os adeptos do campeão sabem lá o que isto é, esquisitinhos da caca que ainda há um ano andavam aí na rua a festejar uma Liga Europa.


Ser adepto do campeão é fácil. Pega-se no carro, faz-se centenas de quilómetros e entra-se numa bancada pintada da mesma cor. Canta-se por Hulk e Moutinho, que tantos corações partiram ao estarem ali, e espera-se que James entre para resolver o imbróglio. Os golos chegam, como quase sempre, e para a semana há mais (não há, porque o calendário é ridículo). Isto não faz sentido para o adepto do PFC.

Ser adepto do PFC é lixado. Na bancada estão os do costume, só que desta vez misturados com os adeptos do campeão, com aquele ar sorridente de quem está sempre a vencer troféus. Começam tímidos, não vá aparecer aí uma goleada, mas animam-se com aquele golo em contra-ataque perante o facilitismo da defesa do campeão. A noite, afinal, pode ser de festa para o PFC! Tudo o que têm de fazer é defender, dar pau e perder tempo durante toda a eternidade de jogo que se segue. Resta-lhes ainda assobiar o avançado brasileiro do campeão, porque, para os adeptos do PFC, só o seu central caceteiro de quase 40 anos vale 50 milhões de euros. Para seu azar, é esse mesmo avançado brasileiro que fuzila o guarda-redes de voz fininha do PFC e mata o jogo.

Tudo o que o adepto do PFC desejava era aquele empate no último minuto, num golpe de sorte, fruto de um falhanço de um rapaz do campeão. Com aquele empate, a noite de sábado na sede seria uma loucura. Os filhos e os netos do adepto do PFC iriam recordar para sempre aquela partida mítica em que o central caceteiro conseguiu acabar sem amarelo. Infelizmente, tudo correu como seria normal e o campeão ganhou.

Mas não há drama. O adepto do PFC, o verdadeiro adepto do PFC, é um adepto do caraças. Torce pelo PFC e apenas pelo PFC, por isso já está a preparar a deslocação ao rival Sporting Clube da Pequenez. Nesses jogos é que se conquistam permanências, nesses jogos é que o pequeno se separa do mínimo. O campeão que vá à sua vida, que o PFC vai continuar a lutar pela sua.

O pior são aqueles adeptos do PFC que ontem lá estavam, e que tantas vezes encontro por esses estádios fora. Disfarçam-se adeptos do PFC, mas na verdade são adeptos de outros clubes bem maiores, frustrados pelos títulos perdidos para o campeão. Quando o Targino faz o 3-2, não é a permanência do Olhanense que eles vêem à frente, mas sim a aproximação ou a conquista de pontos das suas equipas. Quando o Moutinho corta uma bola, é atropelado por trás e cai para o chão magoado, eles não gritam “maçã podre” porque ele é de Portimão, mas porque trocou o clube deles pelo campeão. Quando o Hulk passa por eles a 300 km/h, não é das portagens na Via do Infante que se lembram, mas daqueles 5-0 no Dragão e do seu querido David Luiz (pausa para elogiar a brilhante exibição frente ao Falcao) a ser ultrapassado por este camião brasileiro que os estúpidos dos russos nunca mais cá vêm buscar.

Admiro muito os primeiros adeptos do PFC. Quero que as crianças de Vila Nova do Fim do Mundo cresçam a torcer pelo clube da sua terra, que nas tascas se discutam as notícias mais pequeninas dos jornais desportivos e que os empates que asseguram a permanência no último minuto da última jornada sejam para sempre recordados como o melhor momento das suas vidas. É-me muito fácil ser do FCPorto, pelo que vocês, do Olhanense, do Beira-Mar, do Rio Ave, etc, me parecem os verdadeiros adeptos de futebol.

Quanto aos segundos adeptos do PFC, meus caros, azar. Preocupem-se com o meio-campo vazio da vossa equipa ou o ataque mortífero que apenas vos faz ganhar a equipas dinamarquesas de cujo nome já nem me recordo. Era o que eu faria, se fosse vocês. Mas felizmente sou do campeão.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Eu e os selvagens


Há uma expressão célebre que diz que se pusermos alguns macacos com máquinas de escrever (a expressão é antiga, hoje usariam Macs e pareceriam hipsters, os macacos), ao fim de vários anos os macacos terão escrito as obras completas de Shakespeare.
Lembrei-me disto no Bonfim. Estava a ver o jogo junto ao RC e dá-se a cena clássica: Javi desce, Luisão e Garay abrem e toda a gente sobe lá para a frente. Como só o Witsel é que desce, mais tarde ou mais cedo sai um passe insensato ou um chutão cheio de fé para a frente. O problema foi que o RC disse o que ia acontecer como se eu estivesse a ver o jogo em diferido: “Agora o Javi dá ao Garay e o Garay chuta.” E assim foi.

Goleámos porque, só para a frente, o plantel do Benfica tem ao seu dispor: Cardozo, Rodrigo, Aimar, Carlos Martins, Gaitan, Nolito, Bruno César, Enzo Perez, Salvio. Com esta gente e enfrentando equipas falidas treinadas pelo José Mota, é como colocar numa arena uma horda de selvagens contra um hipster que frequente a FNAC da Baixa–Chiado. É óbvio que os selvagens vão conseguir bater-lhe, roubar-lhe os óculos de haste grossa, violá-lo e queimar-lhe o cadáver. Nas mãos de Jorge Jesus, não há a hipótese destes jogadores trocarem a bola e controlarem o jogo. Jorge Jesus, neste momento, é um general militar a quem dão uma super metralhadora e que, em vez de a disparar, atira-a contra a cabeça do adversário.

Não vou repetir os erros tácticos do Benfica porque já há gente a escrevê-lo muito melhor do que eu. O meu drama é o meu coração depender dessa selvajaria. Como qualquer bom adepto, ordeno mentalmente o que quero que o jogador faça antes dele o fazer. “Vai para cima dele”, “Desce”, “Mata o Hulk”, etc. O problema, neste momento, é que me sinto justamente a gritar com uma tribo lunática, praticamente sem hábitos de civilização conjunta, quanto mais de linguagem. Ainda para mais, dizem os jornais que os únicos da tribo que procuram a agricultura de subsistência (isto é: defender), podem ser vendidos. Não vou conseguir comunicar com ninguém, portanto. Se vendermos Witsel e Javi Garcia, quando perdermos a bola na saída para o ataque não vale a pensa gritar "Desce" a ninguém. É como pedir o "Romeu e Julieta" a um macaco. Ou pedir ao Jesus para jogar com 3 médios.

Não tendo a hipótese de me desligar (não há esse botão nos fanáticos), vou ter que entregar o coração a esta selvajaria. Esperar que a horda consiga mutilar consecutivamente os mais fracos de forma a que ganhe uma empatia entre si. Estou neste momento a imaginar Enzo Perez de tanga, a procurar com o seu olhar vazio Bruno César, também vestido tribalmente, os dois a trocar uma olhar de entendimento após um massacre a um Paços de Ferreira qualquer. A sede de sangue unirá a tribo e torná-la-à cada vez mais insaciáveis, tornanda-a assim cada vez mais forte frente aos fracos e mais previsível contra equipas com 2 neurónios.

A esperança reside na sorte de não apanharmos qualquer tribo mais inteligente, que se esconda em cima das árvores, deixando os nossos desorientados e a lutar entre si. Se se sucederem várias batalhas ganhas, os Benfiquistas acudirão ao estádio e gritarão cânticos de incentivo à maralha de ataque desorganizada que é a nossa equipa de futebol. Com alguma sorte no calendário (e, claro, nos jogos), poderemos chegar às batalhas decisivas sem termos já os 7-8 pontos de atraso habituais. E depois, pronto, pode ser que a tribo já tenha descoberto o fogo.

Estou lixado. Da minha felicidade depende a capacidade do Benfica deixar de ser selvagem. E isso é tão provável como macacos escreverem as obras completas de Shakespeare. Bem, antes os macacos que o Jesus.


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Já não há heróis

Os jogadores do F.C. Porto são uns privilegiados. Fazem o que gostam e nós gostamos do que eles fazem. São ídolos de pequenos e de grandes, são aplaudidos e levados ao colo pelo Zé da esquina e pelo dono do banco e ouvem o seu nome cantado por milhares de gargantas fiéis. E tudo o que precisam de fazer é ganhar.

Levantam-se de manhã na sua casa de luxo, comem o pequeno-almoço feito pela empregada ou pela loiraça de 1,80m que se deita com eles na cama e sentam-se ao volante da última novidade do automobilismo para irem para o treino. Correm, fazem uns exercícios e convivem com as estrelas azuis e brancas. Regressam ainda a tempo de descansar, de jogar Playstation como eternas crianças e de brincar com os telemóveis mais caros do mercado. Uma ou duas vezes por semana, deixam a família feliz para viajar num autocarro ou num avião confortáveis, dormem num hotel de 4 ou 5 estrelas e, durante uma hora e meia, jogam à bola com a camisola mais bonita do mundo. 

Haverá melhor profissão do que esta? 

Sim, eu sei que a pressão e o cansaço também são enormes. A exigência é muita e poucos falhanços são permitidos. Entrar num estádio cheio e ser insultado não deve ser fácil. Ouvir um ou outro assobio de vez em quando não deve ser agradável. Não poder andar na rua, ir ao supermercado ou sair à noite sem estar sujeito a dar dezenas de autógrafos ou a levar uma cabeçada também não deve ser espectacular. Mas continuo a achar que uns milhares de euros no fim do mês e a nossa admiração compensam isso. 

Imagino que um operário fabril que ganhe o salário mínimo não tenha milhares de apoiantes a cantarem o seu nome se a máquina encravar e ele, fintando um ou outro parafuso saltitante, consiga enfiar o tubo no buraquinho da agulha, por muito bonita que esta imagem seja. 

Imagino que um pescador seja mais do que assobiado se um dia chegar à doca e disser ao patrão que só conseguiu 10 quilos de camarão porque a última vez que saiu para o mar foi há apenas 48 horas e não teve tempo de descansar entretanto. 

Imagino que um agricultor possa ir à vontade ao supermercado ou sair à noite, mas que não o faça muitas vezes porque alguém tem de ficar em jogo para as colheitas. 

Imagino que um jovem que estudou e que fez tudo o que podia para aprender a executar determinada profissão fique tão frustrado por estar desempregado que tenha que emigrar para qualquer lado, a qualquer preço, mesmo depois do dia 31 de Agosto. 

Eu sei que também sou uma privilegiada. Tenho 25 anos e tenho emprego, logo naquilo que tanto gosto de fazer. Trabalho de manhã, à tarde e à noite, aos fins-de-semana e aos feriados, conforme o calendário manda. Não ouço aplausos nem assobios, mas os meus leitores, desde o Zé da esquina ao dono do banco, são igualmente exigentes. Posso sonhar em ser contratada pela BBC, mas é muito pouco provável que isso aconteça, por muito que as minhas notícias evoluam. Certamente que não me vou retirar aos 35 anos e estou a rezar para que ainda tenha reforma se o fizer aos 70. Não espero ter uma casa ou um carro de luxo e muito menos vir a dar um autógrafo na vida (a cabeçada posso levar, não serei a primeira jornalista a fazê-lo). Faça o que fizer, nunca terei um salário que sequer se assemelhe ao vosso. E pior: nunca vou entrar no Estádio do Dragão, olhar para bancada e ver um adepto a pedir a minha camisola, a camisola do Futebol Clube do Porto com o meu nome. 

É este privilégio que poucos podem ter e que ainda menos sabem como é bom ter. E é por isso que não consigo perceber por que hão vocês de estar tão interessados em ir lutar pela Europa no tottenham ou pelo campeonato russo no zenit. Dinheiro? Coitados, são tão pobrezinhos. Fama? Em clubes de merda como esses? Títulos? Porque o Porto ganha tão poucos... 

Mas vão. Vão lá, a sério. Nós até precisamos do dinheiro. E eu consigo ter consciência que vocês não amam este clube como eu, por isso não vêem as coisas desta forma. No Porto de outros tempos, era um drama substituir um Vítor Baía, um João Pinto ou um Domingos. No Porto de agora, não há Álvaro Pereira, Hulk ou João Moutinho que não se esqueça de um dia para o outro. À vossa ambição desmedida, nós, os adeptos, respondemos com uma substituição rápida: hoje pedimos a vossa camisola, amanhã pedimos a de outro qualquer. É que, para nós, já não há heróis.



P.S. Bela vitória no sábado, embora a fraca qualidade do guimarães tenha ajudado. Gostei muito do Alex Sandro (tem tudo para ser melhor do que o palhaço do seu antecessor) e adorei ver que a cabeça do Hulk pode estar longe, mas o corpo, pelo menos até agora, mantém-se cá. Adorei sobretudo os foras-de-jogo idiotas e aquela defesa com a mão do N'Diaye na grande área, a fazer lembrar uma que ele fez com a cabeça na luz e que deu penalty.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Os outros

Começou o campeonato e o Benfica não descurou a sua tradição de não ganhar e fez questão de mostrar, em apenas 90 minutos, todas as suas deficiências. Dado que, quando escrevo, o meu objectivo não é enlouquecer, vou abster-me de comentar o meu clube, dado que tudo é evidente demais.
Voltemo-nos, assim, para os demais.

O grande inimigo do Benfica é, como é óbvio, o clube do Guarda Abel. O Porto mantém a sua estrutura e o seu futebol. Um 4-3-3 com anos e anos, que ataca sempre pela certa, não deixando os adversários contra-atacar ou respirar no seu território. Contratou um bom avançado (a sua principal falha o ano passado), mas mantém-se sem suplentes à altura no meio campo (que bom que era que Moutinho tivesse um acidente ou se tornasse um Spur) e, na frente, depende de Hulk. E é aqui que temos que pedir a todos os anjinhos e aos Zenits e aos Atléticos para nos fazerem o favor de levar o homem de cá. Aparentemente, o Porto passará a jogar com James e Varela ou Atsu nas alas e, salvo qualquer descoberta na segunda divisão japonesa, o poder de fogo do clube de Martins dos Santos vai descer muito. Restará ao Porto – e é muito – a sua habitual competência, o seu sangue frio. E isso chega para os tornar favoritos. No entanto, um bom arranque do Benfica (e voltamos ao primeiro parágrafo) poderá expor as feridas que os azuis escondem tão bem: os ordenados em atraso, os casos recorrentes dos jogadores que querem sair, Álvaro Pereira e Kléber à porrada, etc.
Se o Benfica fosse competente, podia ambicionar por sal nas feridas do rival. Assim, resta-nos esperar que Hulk saia, que ninguém entre, e que um milagre aconteça.


Os verdes continuam o seu caminho estranho.  Apesar de já não ter Polga (aquele abraço!), o Sporting tem um plantel curto e com muito pouca gente que meta respeito e medo. Quando olho para os seus 11, invejo claramente Ínsua e acho que Carrillo se tornaria um grande extremo no Manchester United. Falta-lhes um criativo no meio campo, mas, mais do que tudo, falta-lhes exigência. O Sporting já não é – aos olhos de todos – candidato ao título. Até para os seus adeptos. O derby será, como sempre, um jogo perigosíssimo, e conto com o defensivismo de Sá Pinto para tentar tirar pontos aos azuis, já na 6ª jornada. Espero, também, que alguém lhe tire os comprimidos para podermos, finalmente, vê-lo mandar uma bolachada num árbitro. Sá Pinto: pelo Artur Jorge e pelo Liedson, terás sempre o meu eterno e incondicional apoio.

O Braga é um caso sério e preocupante. Tem o mesmo plantel da época passada, um treinador que vai querer acabar com o mito de 2004/2005 e uma estrutura férrea que se senta, com igual à vontade, nos camarotes do Dragão e da Luz. Apesar de nem uma Taça terem ganho nos últimos anos, o golpe “à Boavista” está quase à vista de todos. Aprecio especialmente Leandro Salino, Amorim (jogadores que cabiam no plantel do Benfica de caras, e o segundo só não lá está porque -> voltar ao primeiro parágrafo) e Lima. E odeio Mossoró, a quem desejo, sem qualquer pudor, que alguém lhe enfie a chuteira pela perna dentro, deixando-o sem jogar até aos 45 anos, quando poderá voltar a jogar na sua terra local, que não sei qual é, mas à qual irei só para o insultar. É dos jogadores que mais odeio no campeonato e que sonho encontrar a passarem na passadeira quando guio.
São uma maior ameaça que os verdes e nunca é demais repeti-lo.


Marítimo e Nacional continuarão a ser terrenos perigosos, pejados de brasileiros e de jogadores de Leste que parecem agigantar-se contra o Benfica. A claque feminina do Nacional continuará a ser mais irritante que o seu presidente (e isso é difícil). Danilo Dias podia ser suplente num grande ou ir para o Braga. E o Porto ganha lá sempre. Mais facilmente na Choupana do que nos Barreiros. É tudo o que sei sobre as ilhas.

Em Guimarães estará uma equipa falida cheia de jogadores que não conheço. É bom que sejam minimamente bons, senão acabam com aquele marroquino que, apesar do golo ao Porto há dois anos, se foi embora por estar cansado das ameaças. O que aprecio em Guimarães é a independência daquela gente insana. Odeiam com a mesma força Benfica, Porto, Sporting, Belenenses, Académica, Braga e Boavista. Julgo que nem a claque feminina do Nacional é bem recebida lá. Respeito isso.

Olhanense, Académica, Rio Ave, Setúbal, Beira Mar, Gil Vicente e Paços de Ferreira vão manter-se como a prova de endurance do campeonato. Vão estacionar o autocarro e bombear bolas para os seus brasileiros rápidos da frente, passar o tempo todo no chão e a fazer anti-jogo, à espera de um milagre numa bola parada ou num contra-ataque. Em Olhão, Coimbra e Vila do Conde moram treinadores ex-Porto (coincidências do futebol português), pelo que poderemos esperar 11 cães de fila em marcação cerrada e de faca nos dentes contra nós, contrastando com o futebol de ataque, agradável, com dois avançados e dois extremos bem abertos, com que enfrentarão (corajosamente!, rezarão as crónicas) os azuis. Malgrado o primeiro parágrafo, é rezar para que o Benfica seja mais competente contra estes adversários do que Porto e Braga. O Sporting cometerá o seu habitual suicídio nestes jogos.

Estoril e Moreirense são-me desconhecidos (eu trabalho, não tenho tempo para conhecer toda a gente, ok?), mas lutarão com o lote de cima para não descer e comportar-se-ão de igual forma. O jogo com o Estoril servirá para recordar o famoso “EstorilGate”, mas este fim de semana ninguém se lembrou de um célebre Gil Vicente – Porto jogado em Guimarães, pois não?
Da primeira à última equipa comentadas, uma coisa os une: todos detestam o Benfica. É bom que o Benfica aprenda a lição depressa. A de que é o alvo a abater em todos os estádios.

Não estivesse o Benfica tão focado em auto-mutilar-se e em insistir nos seus erros, e até podia estar cheio de ambição. Assim, bem, prometi a mim mesmo que não escrevia sobre isso. Anda lá, Zenit, compra o Hulk e dá lá 25 milhões de prenda de casamento à Fernanda!




Sem vergonha

Muito se tem falado de vergonha nos últimos dias. Seja através de discursos lidos ou de cassetes repetidas, a vergonha é uma constante no futebol português. E nesta jornada veio novamente ao de cima.

Gostei do jogo que o F.C. Porto fez em Barcelos. Tivemos várias oportunidades para marcar e praticamente não deixámos o adversário jogar. Gostei do Jackson, do Lucho e do Alex Sandro, e gostei de ver o Hulk ainda interessado em nós. Falhámos muito, é verdade, mas também falhámos porque o guarda-redes fez a exibição da vida dele. E perdoem-me aqueles (poucos) que esperavam vir aqui ler uma análise lúcida do empate, porque eu também creio que falhámos porque o árbitro considerou que agarrar o tronco, a bacia e a perna do Kléber durante vários segundos não é motivo suficiente para penalty. Árbitro esse que está tão perto do lance que quase que também é agarrado pelo jogador do gil. 

Esperei dois dias para escrever porque cheguei a acreditar que conseguia ser como aqueles portistas que alegam que o Porto tem de ser superior às falhas dos árbitros e que tinha de ter jogado muito mais para ganhar. Gostava mesmo de ser assim, mas não sou. Quanto mais vejo as imagens, quanto mais jornais leio, mais penalties vejo (o Mangala também é mandado ao chão na grande área e o James, se não fosse palhacito e não se tivesse encolhido logo, também tinha sido varrido). 

Não tenho vergonha, portanto, de assumir que acho que o campeonato começou com o F.C. Porto a ser prejudicado em dois pontos. Sim, também admito que se aquela primeira parte não tivesse sido tão adormecida não teríamos precisado de nos chatear com isto. Mas, assim de repente, lembro-me que começámos os últimos dois campeonatos com vitórias à rasca na primeira jornada e que isso provavelmente se repetiria se pelo menos uma destas faltas tivesse sido devidamente assinalada. A tradição ainda é o que era: os árbitros continuam sem vergonha de nos roubar em Barcelos. 

Quem também anda com falta de vergonha é o treinador do gil vicente, estrela de anúncios publicitários e ilustre mestre da táctica do anti-jogo. Comentou ele, no final da partida, que a equipa não jogou fechada e que nem sequer viu nenhum lance polémico. Saberá certamente este senhor que ninguém espera que a sua equipa assuma o jogo contra o bicampeão nacional, mas também não é bonito tentar fazer de todos nós, os que viram o jogo, estúpidos. O gil vicente não só jogou fechado, como passou os 90 minutos a fazer faltas, a demorar uma eternidade em cada lançamento e a aplaudir cada interrupção idiota que o árbitro deixava prolongar. Se ficam contentes com pontos ganhos assim, tal como ficaram com a vitória escandalosa da época passada, tudo bem, são um clube muito pequeno e eu compreendo, mas admitam-no. 

Outra vergonha que vai permanecer por cá pelo menos até ao dia 31 de Agosto é a daqueles jogadores que aproveitam cada microfone colocado à sua frente para exprimir desejos de jogar neste ou naquele clube, de brilhar neste ou naquele campeonato, ou de receber este ou aquele salário. Já chega a vergonha de arrastar o mercado até tão tarde, deixando as equipas vulneráveis aos caprichos dos grandes tubarões europeus, não precisamos de mais meninos com a cabeça longe quando já estão pontos em disputa. 

O que vale é que os nossos rivais estiveram à altura do momento. Na luz, o benfica, com mais um jogador devido a um erro do árbitro, teve todas as razões para ter ficado contente com o empate, tal foi a qualidade do jogo apresentado. Em Guimarães, o sportem de Sá Pinto manteve a sua estratégia de nunca assumir o favoritismo e cumpriu os mínimos para os seus tão pouco exigentes adeptos. Sem vergonha nenhuma, claro.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Se contratarmos outro extremo, a culpa também é do árbitro alemão?

Sente-se no ar o aroma dos anos 90. Ou dos 2000, já não sei. É como se víssemos o início de um filme que já vimos e, sem sabermos muito bem do que se trata, nos lembrássemos imediatamente do fim. Está no ar aquele cheiro nauseabundo e enjoativo do Benfica a abdicar de mais um campeonato por falta de comparência, oferecendo ao Porto a possibilidade de, fazendo os mínimos, facturar um terceiro campeonato consecutivo, isolando ainda mais a conquista de 2009/2010 como um acidente.

Escrevo a 16 de Agosto, a 15 dias do fecho do mercado. Entretanto, o Benfica já contratou Paulo Lopes, Michel, Hugo Vieira, Luisinho, Ola John e Salvio (falta-me alguém?). Assim como o ano passado já tinha contratado Artur, Wass, Witsel, Garay, Matic, Nolito, Bruno César, Enzo Perez, Mora e Rodrigo. Faltava, como ainda falta, um defesa esquerdo. Entretanto, gastaram-se em Salvio e Ola John 22 milhões de euros, isto para a posição mais bem preenchida do plantel. Já defesa esquerdo, nada. O erro é tão ostensivo (e o ano passado custou um campeonato) que me dá nojo. Dá-me nojo porque eu sofro com isto. Porque eu não durmo quando perdemos e ainda sou infeliz pelo que se passou o ano passado. Odeio que o Benfica perca e odeio de morte os culpados dessas derrotas. Irrita-me, portanto, que senhores usem mal o dinheiro que eu e outros papalvos lhes damos em quotas, cativos e afins. Usam esse dinheiro em negócios esquisitos com comissões e em troca dão-nos humilhações como perder campeonatos com 5 pontos de avanço.

Mas não há só incompetência na procura de um defesa esquerdo (vamos todos fazer um minuto de silêncio em memória da puta que pariu o olheiro que descobriu o Emerson), há uma despreocupação na procura do mesmo que pode parecer de cariz aventureiro - quase poética, quase boémia - aos mais distraídos. Para quem já conhece o que a casa gasta, sabe que é mais uma aposta de Jorge Jesus no seu Championship Manager particular. É que, para quem não sabe, além de um campeonato e 3 taças da Liga, JJ tem nos seus currículos as carreiras de Di Maria, David Luiz e Fábio Coentrão. Foram, de facto, negócios prodigiosos para o Benfica e o dinheiro dos mesmos fez concerteza falta. São negócios pelos quais estamos - de verdade - agradecidos. Eu não esqueço que quando JJ chegou à Luz David Luiz era um defesa esquerdo (insistência de Quique) horrível, Di Maria um Gaitan mas sem tanta técnica e Coentrão o próximo Diogo Valente. No entanto, as suas vendas não trouxeram títulos. Não recebemos taças, não fomos para o Marquês. É que JJ está apostado em fazer de Melgarejo um defesa esquerdo ofensivo, estilo Coentrão. Poderá resolver jogos e ajudar no ataque. Poderá ter um pendor ofensivo tal que no fim da época o vendemos acima de 8 milhões. Mas entretanto poderá dar aqueles 6 ou 7 pontinhos preciosos a perder. Ou então vai ser só mais um Djaló. Desde este meu humilde campo, pedia ao senhor Jesus para se deixar de ideias, para brincar no computador dele (se ele quiser até com a equipa do seu coração, aquela de verde) e não no meu Benfica. 

Assusta-me todo este descontrolo do jogo na Alemanha. Assusta-me e deprime-me, porque sei onde é que isto vai dar. Assusta-me que Luisão, Maxi e Carlos Martins fiquem assim num amigável. Vende-se a versão que a culpa de todos os males são os árbitros e o Porto (o Porto que nos ganhou sem ponta de lança e com o Vítor Pereira no banco), mas, pelos vistos, não se preparam os jogadores contra os árbitros. Se sabemos que todos os anos em Braga há festa, com supostas agressões, provocações, luzes que vão abaixo, expulsões aos nossos jogadores que são agredidos, a preparação mental dos jogadores do Benfica é esta? De cabeça perdida, à peitada aos árbitros? Longe de mim ser politicamente correcto: eu acho bem que os jogadores do SLB pressionem árbitros e até que insultem e provoquem adversários se for para nosso benefício, mas que o façam sem serem miúdos de 15 anos. Ninguém no Benfica prepara os jogadores para este tipo de situações, ninguém vai lembrar a Aimar que tem de jogar em vez de discutir com os árbitros, ninguém vai dizer aos jogadores mais novos, como Rodrigo, que quando uma situação destas acontece têm que fugir das expulsões e deixar o capitão ir resolver o assunto. Não, o capitão entrou à Kostadinov, não só arruinando esse argumento, como dando a imagem de um clube a naufragar na sua psicose com os árbitros. E o resto da comitiva riu-se para a UEFA ver.

O quadro está pintado à vista de todos. É um filme repetido, como aqueles clássicos que passam nas tardes de domingo: o Benfica na pré-época. É um deja vu de várias pré-temporadas onde o desequilíbrio do plantel se via de Marte: 2005/06, 2006/07, 2010/11, 2011/12, com a possibilidade de repetirmos o mágico início de época de 2007/08 com o despedimento de Jesus antes da 5ª jornada, sendo a sua cabeça a oferenda pré-eleições de Vieira aos sócios e ao mesmo tempo uma elegia a Fernando Santos e ao seu despedimento na primeira jornada.

Não torço contra o Benfica apesar de detestar esta direcção. Se formos campeões e Vieira celebrar o seu 3º título, sairei à rua, feliz e bêbado de felicidade. Nada me alegrava mais do que não ter razão, nada me faria mais feliz do que comer palavrinha a palavrinha este pessimismo. Mostrem-me até Maio que estou errado. Mas, infelizmente, não acredito. Já vi este filme muitas vezes. Já sei o fim.