Num Natal, em Espinho, os meus pais e os meus tios guardaram-me uma prenda especial. Após toda a excitação da noite natalícia, não desconfiando eu que muita da alegria nas faces rosadas dos meus pais e tios eram devido ao vinho que tão bem acompanhava o bacalhau, deram-me uma caixa grande. Quando abri, era um jogo de subbuteo. Benfica e Setúbal na caixa que trazia ainda guarda-redes, bola e balizas. O meu pai explicou-me mais ou menos as regras e, de seguida, o meu Tio João (é a memória mais nítida que tenho dele), esquecido da regra "deixa o miúdo ganhar", bateu-me por 3-2, fazendo com que o Setúbal passasse a ser uma equipa odiada.
A Itália, lá atrás, fez muitas vezes de Belenenses. O Espinho e a Juventus na outra ponta e, cá à frente, o Boavista.
O subbuteo passou a ser a minha companhia, o meu mundo, um tabuleiro onde eu podia, finalmente, dar largas a todo o futebol que me fervilhava no corpo. Passei, então, a recortar d'"A Bola" todas - todas - as fichas de jogo para saber os onzes e suplentes de cada equipa. Só isso justifica que eu ainda diga de cor: Alfredo, Casaca, Nogueira, Barny, Caetano, Nelo, Tavares, Bobó, Marlon, Ricky e Artur para o Boavista de Manuel José. Era suposto o meu cérebro estar ocupado com coisas mais úteis, mas aquela prenda - mal sabiam os meus pais - mudou a minha vida.
Desde aí que, sozinho, passei a fazer os meus campeonatos, praticando a escrita (mal entrara na primária) em cadernos onde escrevia pacientemente Benfica - Chaves; Boavista - Porto; Chaves - Sporting e por aí adiante. Depois, ia para o campo. Óbvio que isto obrigou os meus pais a ter que me comprar montes de equipas, que coleccionei e que ainda guardo. Nos anos e no Natal, tios, pais e avós sabiam que escusavam de me vir com outros brindes: eu queria equipas, equipas, equipas. Óbvio que toda a gente me oferecia o Benfica - o que me aborrecia imenso, o Benfica já eu tinha, o Beira-Mar é que era difícil de encontrar. Lembro-me perfeitamente de pedir, meio culpado, meio contrariado, o Porto e o Sporting. Fomos à Rua de Santo António e lembro-me da sensação de culpa: pedir uma coisa aos meus pais que, sabíamos todos, era odiosa. Mas o Benfica tinha que ganhar a alguém, portanto havia que coleccionar essa gente.
Jogadores colados de equipas muito, muito, muito derrotadas
Jogava sempre na sala, em cima do tapete, que fazia com que a bola não fosse tão rápida como nos azulejos da sala e com que o campo não patinasse tanto. Os tempos dos jogos eram de 5 minutos por parte, marcados no relógio do velhinho VHS. Eu jogava pelas duas equipas e fazia o relato, em jeito de Gabriel Alves, dizendo imensos "aliiiiii", que era um vício de relato de Gabriel Alves (se virem o relato do 3-6 que está no Youtube, o Alves no relato do 3º do JVP, diz "E ALI, João Pinto..."). No fim, apontava o resultado no caderno e fazia a pontuação e a lista de melhores marcadores. Depois ia para o corredor com a bola e fazia o Domingo Desportivo, imitando os golos que haviam sido marcados naquele mundo mágico. atirando a bola contra o móvel e fazendo-me de guarda-redes desesperado, que não conseguia chegar àquele remate colocadíssimo, enquanto na minha cabeça ecoavam comentários à Domingo Desportivo.
As bolas iam várias vezes para baixo do sofá e eu metia a régua da escola a tapar atrás da baliza e às vezes livros e tudo o mais para impedir que as bolas fossem lá parar. É que se ficassem demasiado longe tinha que chamar alguém, porque eu não conseguia levantar o sofá sozinho, e, se chamasse muitas vezes, mais cedo ou mais tarde o jogo pararia.
Um fiscal de linha que, pisado, teve que ficar com a bandeira colada ao cotovelo
Quando eu jogava subbuteo, as equipas arrumavam-se tacticamente, exactamente na disposição que os jornalistas d'"A Bola" haviam escalado a equipa no diagrama. O Paneira, sabia eu, era aquele boneco na meia direita. E várias vezes flectia para o meio e marcava. Antes de chutar eu fazia o relato "Perde a bola o Belenenses e, ALI, Paneira a rematar... GOOOOOLOOOOOO. GOOOOOOLO DO BEN-FI-CA!" e juntava os jogadores, como se eles se abraçassem, mas não muito, porque depois tinha que os distribuir outra vez pela táctica e os minutos no VHS passavam rápido e tinha que mudar de campo.
O Benfica, nas minhas mãos, era cheio de ases e de craques, e os outros, nas minhas mãos, falhavam passes atrás de passes e passavam a bola ao Paneira e só marcavam golos ao Neno se o Benfica já tivesse 4 ou 5 de vantagem e os minutos no VHS já estivessem quase a anunciar o escaldante Beira-Mar - Estoril que se seguiria.
Uma vez uns amigos do meu pai foram jantar a nossa casa e tive que arrumar as coisas mais cedo. Estava eu, pacientemente, a arrumar um Penafiel-Sporting (3-0 Penafiel, lembro-me bem), quando o Ninito, um amigo do meu pai, Benfiquista doente - e, logo, uma pessoa fantástica - me pediu um dos meus cadernos. Lembro-me perfeitamente dos risos quando ele disse: "Isto é que é um filho: 8 jornadas e o Sporting tem 0 pontos". Eles riram-se muito e hoje eu também me rio, mas na altura lembro-me de pensar que, se calhar, mas só se calhar, eu fazia alguma batota. Mesmo com a sensação que estava a prejudicar ligeiramente os de alvalade, a época acabou por não melhorar para eles, acabando numa escandalosa descida que mereceu especial reportagem no corredor de minha sala. Como não tinha assim tantas equipas, no ano seguinte jogaram de novo o campeonato e, tragicamente, desceram mais uma vez.
Mas nem tudo foram rosas para o Glorioso. Já com 5 títulos na manga (sim, eu lembro-me de tudo isto vivamente), numa manhã de sábado, enquanto davam desenhos-animados, jogava-se o muito aguardado jogo do título. Adivinharam: Benfica-Farense (um crónico segundo lugar). Estava eu muito bem a brincar, a fazer os relatos na minha cabeça e às vezes alto e o Benfica a ganhar 2-0, quando a minha irmã, cansada de fazer os TPCs, resolve chatear-me e dizer que quer jogar. Eu lá lhe explico: quem ganhar é campeão, Benfica-Farense, está 2-0 e tal e ela diz que vai jogar pelo Farense. A minha irmã é 6 anos mais velha do que eu, portanto tive que comer e calar. Falhei o 3-0 com o Yuran (era tão mais fácil quando eu segurava o guarda redes adversário, ainda por cima com a mão esquerda...) e ela fez 2 golos (fez batota de certeza). 2-2. E agora? Agora, penalties. Perdi. Fiquei furioso, mas tive que escrever no caderno: Farense campeão. Foi, até eu deixar de jogar, a única mancha no incólume palmarés Benfiquista.
Farense campeão. Como não tinha o nome dactilografado para o placard, tive que o escrever.
Vieram depois as descobertas: as equipas na Europa, as selecções. O Espinho deixou de ser o Espinho e passou também a Juventus. O Braga a Arsenal, o Estoril a Suécia. O Chaves passou também, vejam lá, a ser o Barcelona. Torneios e torneios (às vezes sem o Benfica, para equilibrar) sucederam-se na sala. Escrevia folhas e folhas sobre Taças Uefas imaginárias, fazia sorteios, desenhava os jogos, fazia tudo. Deram-me, dois Natais mais tarde, um placard. Delirei. Folhas e folhas com nomes de equipas para eu recortar e meter no placard, dando cada vez mais verosimilhança ao meu mundo, fazendo-me aprender a escrever Tottenham Hotspur e a ver ali, magicamente dactilografado, BENFICA. Havia o Milan, a Juventus, o Real. Mas havia o Benfica. Amava aquele placard.
O campo era cada vez mais real. E as caixas onde vinham as equipas eram os autocarros para os jogos. O meu avô e o meu pai davam-me equipas e viam, deliciados, os jogos. Aliás, muitas das equipas eu nem sequer queria - estou a falar a sério - porque em princípio não jogariam com o Benfica, mas o meu avô achou um escândalo eu não ter a selecção holandesa (que viria, num torneio de Verão, em Espinho, a ser o Blackpool). E vai daí, decidiu dar-me éne selecções. Fiz um Mundial aos pés dele na casa dos meus avós, ficando ele felicíssimo pela minha alegria a comemorar o Mundial com a Argentina que ele me oferecera.
A primeira vez que viajei na vida - sou um rapaz com mesmo muita sorte - foi a Londres, com 9 anos. Lembro-me do Big Ben, do museu de História Natural, de nunca deixar de dar a mão aos meus pais. Mas do que me lembro melhor foi de entrar numa loja que só vendia subbuteo. O céu. Pessoal: o céu. Abri muito os olhos de alegria, o meu pai pegou-me no ombro, levou-me lá para fora e disse-me: "Porta-te bem. Escolhes duas equipas, é a tua prenda." Concentrei-me. Revirei a loja. Comprei o Milan (Savicevic, Boban, Maldini) e o PSG (Valdo, Ginola, Ricardo Gomes). A equipa do PSG tinha umas tiras nas mangas. Era a primeira equipa que eu via pintada assim. Pareceu-me que tinha comprado um palácio.
Reparem nas mangas. Que delícia.
JVC. Mítico.
Muitas vezes repetiram estes bonecos o 4-4 em Leverkusen.
Apesar de ter sido uma criança relativamente solitária no mundo do subbuteo, muitos clássicos partilhei com o meu grande amigo Tiago Palma. Companheiro de carteira desde os 6 anos, foi o Tiago que me explicou a regra dos golos fora nas competições europeias, distraindo-me tanto nessa aula, que ainda hoje não consigo fazer contas de dividir por números com mais de um dígito. Partilhámos muitas futeboladas no pátio da escola, no parque perto de minha casa e na rua atrás de casa dele. Farenses-Benfica e Benficas-Farense sucediam-se até à exaustão. Sem entrar nos campeonatos que até tinham direito a caderno - porque isso envolvia uma perseverança e uma rectidão que me obrigava a fazer disputar nebulosos jogos como Setúbal-Porto antes de ir dormir-, travámos duelos mortais na minha sala e na dele. Como os bonecos de subbuteo eram relativamente frágeis e os duelos entre nós aguerridos e bem disputados (quem nunca perdeu pontos no São Luís que atire a primeira pedra!), passámos a jogar com os bonecos dos bolos de anos, feitos em PVC, mais maleáveis e transportáveis. Pintámos os do Sporting de preto, o alternativo do Farense, e jogámos até ao infinito.
A rapaziada com que eu e o Tiago pontificávamos.
São os meus brinquedos que nunca deixei a minha mãe dar. Aprendi a escrever e a contar com eles. Tenho memórias vivas de jogos, de torneios, de coisas que aconteciam à minha volta enquanto o Benfica triunfava sem parar em Portugal e no estrangeiro, no tapete verde e as repetições do corredor. Não encontro subbuteos em lado nenhum e gostava de continuar a coleccioná-los.
Não gosto muito de dedicatórias, mas neste tem de ser: um abraço ao Tiago Palma pelas tardes a ver futebol a jogar futebol e a conversar sobre futebol, e um obrigado aos meus pais, por me terem feito uma criança tão feliz.
Esta é a equipa do meu coração. Vermelha e branca, altiva e humilde, com garra e técnica. O Benfica da minha infância, o Benfica que ficou, para sempre, guardado no meu coração.








