Aos 05:23
O nosso obrigado!
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sexta-feira, 14 de setembro de 2012
sábado, 8 de setembro de 2012
Uma infância feliz a ver o Benfica ganhar no Subbuteo
Num Natal, em Espinho, os meus pais e os meus tios guardaram-me uma prenda especial. Após toda a excitação da noite natalícia, não desconfiando eu que muita da alegria nas faces rosadas dos meus pais e tios eram devido ao vinho que tão bem acompanhava o bacalhau, deram-me uma caixa grande. Quando abri, era um jogo de subbuteo. Benfica e Setúbal na caixa que trazia ainda guarda-redes, bola e balizas. O meu pai explicou-me mais ou menos as regras e, de seguida, o meu Tio João (é a memória mais nítida que tenho dele), esquecido da regra "deixa o miúdo ganhar", bateu-me por 3-2, fazendo com que o Setúbal passasse a ser uma equipa odiada.
A Itália, lá atrás, fez muitas vezes de Belenenses. O Espinho e a Juventus na outra ponta e, cá à frente, o Boavista.
O subbuteo passou a ser a minha companhia, o meu mundo, um tabuleiro onde eu podia, finalmente, dar largas a todo o futebol que me fervilhava no corpo. Passei, então, a recortar d'"A Bola" todas - todas - as fichas de jogo para saber os onzes e suplentes de cada equipa. Só isso justifica que eu ainda diga de cor: Alfredo, Casaca, Nogueira, Barny, Caetano, Nelo, Tavares, Bobó, Marlon, Ricky e Artur para o Boavista de Manuel José. Era suposto o meu cérebro estar ocupado com coisas mais úteis, mas aquela prenda - mal sabiam os meus pais - mudou a minha vida.
Desde aí que, sozinho, passei a fazer os meus campeonatos, praticando a escrita (mal entrara na primária) em cadernos onde escrevia pacientemente Benfica - Chaves; Boavista - Porto; Chaves - Sporting e por aí adiante. Depois, ia para o campo. Óbvio que isto obrigou os meus pais a ter que me comprar montes de equipas, que coleccionei e que ainda guardo. Nos anos e no Natal, tios, pais e avós sabiam que escusavam de me vir com outros brindes: eu queria equipas, equipas, equipas. Óbvio que toda a gente me oferecia o Benfica - o que me aborrecia imenso, o Benfica já eu tinha, o Beira-Mar é que era difícil de encontrar. Lembro-me perfeitamente de pedir, meio culpado, meio contrariado, o Porto e o Sporting. Fomos à Rua de Santo António e lembro-me da sensação de culpa: pedir uma coisa aos meus pais que, sabíamos todos, era odiosa. Mas o Benfica tinha que ganhar a alguém, portanto havia que coleccionar essa gente.
Jogadores colados de equipas muito, muito, muito derrotadas
Jogava sempre na sala, em cima do tapete, que fazia com que a bola não fosse tão rápida como nos azulejos da sala e com que o campo não patinasse tanto. Os tempos dos jogos eram de 5 minutos por parte, marcados no relógio do velhinho VHS. Eu jogava pelas duas equipas e fazia o relato, em jeito de Gabriel Alves, dizendo imensos "aliiiiii", que era um vício de relato de Gabriel Alves (se virem o relato do 3-6 que está no Youtube, o Alves no relato do 3º do JVP, diz "E ALI, João Pinto..."). No fim, apontava o resultado no caderno e fazia a pontuação e a lista de melhores marcadores. Depois ia para o corredor com a bola e fazia o Domingo Desportivo, imitando os golos que haviam sido marcados naquele mundo mágico. atirando a bola contra o móvel e fazendo-me de guarda-redes desesperado, que não conseguia chegar àquele remate colocadíssimo, enquanto na minha cabeça ecoavam comentários à Domingo Desportivo.
As bolas iam várias vezes para baixo do sofá e eu metia a régua da escola a tapar atrás da baliza e às vezes livros e tudo o mais para impedir que as bolas fossem lá parar. É que se ficassem demasiado longe tinha que chamar alguém, porque eu não conseguia levantar o sofá sozinho, e, se chamasse muitas vezes, mais cedo ou mais tarde o jogo pararia.
Um fiscal de linha que, pisado, teve que ficar com a bandeira colada ao cotovelo
Quando eu jogava subbuteo, as equipas arrumavam-se tacticamente, exactamente na disposição que os jornalistas d'"A Bola" haviam escalado a equipa no diagrama. O Paneira, sabia eu, era aquele boneco na meia direita. E várias vezes flectia para o meio e marcava. Antes de chutar eu fazia o relato "Perde a bola o Belenenses e, ALI, Paneira a rematar... GOOOOOLOOOOOO. GOOOOOOLO DO BEN-FI-CA!" e juntava os jogadores, como se eles se abraçassem, mas não muito, porque depois tinha que os distribuir outra vez pela táctica e os minutos no VHS passavam rápido e tinha que mudar de campo.
O Benfica, nas minhas mãos, era cheio de ases e de craques, e os outros, nas minhas mãos, falhavam passes atrás de passes e passavam a bola ao Paneira e só marcavam golos ao Neno se o Benfica já tivesse 4 ou 5 de vantagem e os minutos no VHS já estivessem quase a anunciar o escaldante Beira-Mar - Estoril que se seguiria.
Uma vez uns amigos do meu pai foram jantar a nossa casa e tive que arrumar as coisas mais cedo. Estava eu, pacientemente, a arrumar um Penafiel-Sporting (3-0 Penafiel, lembro-me bem), quando o Ninito, um amigo do meu pai, Benfiquista doente - e, logo, uma pessoa fantástica - me pediu um dos meus cadernos. Lembro-me perfeitamente dos risos quando ele disse: "Isto é que é um filho: 8 jornadas e o Sporting tem 0 pontos". Eles riram-se muito e hoje eu também me rio, mas na altura lembro-me de pensar que, se calhar, mas só se calhar, eu fazia alguma batota. Mesmo com a sensação que estava a prejudicar ligeiramente os de alvalade, a época acabou por não melhorar para eles, acabando numa escandalosa descida que mereceu especial reportagem no corredor de minha sala. Como não tinha assim tantas equipas, no ano seguinte jogaram de novo o campeonato e, tragicamente, desceram mais uma vez.
Mas nem tudo foram rosas para o Glorioso. Já com 5 títulos na manga (sim, eu lembro-me de tudo isto vivamente), numa manhã de sábado, enquanto davam desenhos-animados, jogava-se o muito aguardado jogo do título. Adivinharam: Benfica-Farense (um crónico segundo lugar). Estava eu muito bem a brincar, a fazer os relatos na minha cabeça e às vezes alto e o Benfica a ganhar 2-0, quando a minha irmã, cansada de fazer os TPCs, resolve chatear-me e dizer que quer jogar. Eu lá lhe explico: quem ganhar é campeão, Benfica-Farense, está 2-0 e tal e ela diz que vai jogar pelo Farense. A minha irmã é 6 anos mais velha do que eu, portanto tive que comer e calar. Falhei o 3-0 com o Yuran (era tão mais fácil quando eu segurava o guarda redes adversário, ainda por cima com a mão esquerda...) e ela fez 2 golos (fez batota de certeza). 2-2. E agora? Agora, penalties. Perdi. Fiquei furioso, mas tive que escrever no caderno: Farense campeão. Foi, até eu deixar de jogar, a única mancha no incólume palmarés Benfiquista.
Farense campeão. Como não tinha o nome dactilografado para o placard, tive que o escrever.
Vieram depois as descobertas: as equipas na Europa, as selecções. O Espinho deixou de ser o Espinho e passou também a Juventus. O Braga a Arsenal, o Estoril a Suécia. O Chaves passou também, vejam lá, a ser o Barcelona. Torneios e torneios (às vezes sem o Benfica, para equilibrar) sucederam-se na sala. Escrevia folhas e folhas sobre Taças Uefas imaginárias, fazia sorteios, desenhava os jogos, fazia tudo. Deram-me, dois Natais mais tarde, um placard. Delirei. Folhas e folhas com nomes de equipas para eu recortar e meter no placard, dando cada vez mais verosimilhança ao meu mundo, fazendo-me aprender a escrever Tottenham Hotspur e a ver ali, magicamente dactilografado, BENFICA. Havia o Milan, a Juventus, o Real. Mas havia o Benfica. Amava aquele placard.
O campo era cada vez mais real. E as caixas onde vinham as equipas eram os autocarros para os jogos. O meu avô e o meu pai davam-me equipas e viam, deliciados, os jogos. Aliás, muitas das equipas eu nem sequer queria - estou a falar a sério - porque em princípio não jogariam com o Benfica, mas o meu avô achou um escândalo eu não ter a selecção holandesa (que viria, num torneio de Verão, em Espinho, a ser o Blackpool). E vai daí, decidiu dar-me éne selecções. Fiz um Mundial aos pés dele na casa dos meus avós, ficando ele felicíssimo pela minha alegria a comemorar o Mundial com a Argentina que ele me oferecera.
A primeira vez que viajei na vida - sou um rapaz com mesmo muita sorte - foi a Londres, com 9 anos. Lembro-me do Big Ben, do museu de História Natural, de nunca deixar de dar a mão aos meus pais. Mas do que me lembro melhor foi de entrar numa loja que só vendia subbuteo. O céu. Pessoal: o céu. Abri muito os olhos de alegria, o meu pai pegou-me no ombro, levou-me lá para fora e disse-me: "Porta-te bem. Escolhes duas equipas, é a tua prenda." Concentrei-me. Revirei a loja. Comprei o Milan (Savicevic, Boban, Maldini) e o PSG (Valdo, Ginola, Ricardo Gomes). A equipa do PSG tinha umas tiras nas mangas. Era a primeira equipa que eu via pintada assim. Pareceu-me que tinha comprado um palácio.
Reparem nas mangas. Que delícia.
JVC. Mítico.
Muitas vezes repetiram estes bonecos o 4-4 em Leverkusen.
Apesar de ter sido uma criança relativamente solitária no mundo do subbuteo, muitos clássicos partilhei com o meu grande amigo Tiago Palma. Companheiro de carteira desde os 6 anos, foi o Tiago que me explicou a regra dos golos fora nas competições europeias, distraindo-me tanto nessa aula, que ainda hoje não consigo fazer contas de dividir por números com mais de um dígito. Partilhámos muitas futeboladas no pátio da escola, no parque perto de minha casa e na rua atrás de casa dele. Farenses-Benfica e Benficas-Farense sucediam-se até à exaustão. Sem entrar nos campeonatos que até tinham direito a caderno - porque isso envolvia uma perseverança e uma rectidão que me obrigava a fazer disputar nebulosos jogos como Setúbal-Porto antes de ir dormir-, travámos duelos mortais na minha sala e na dele. Como os bonecos de subbuteo eram relativamente frágeis e os duelos entre nós aguerridos e bem disputados (quem nunca perdeu pontos no São Luís que atire a primeira pedra!), passámos a jogar com os bonecos dos bolos de anos, feitos em PVC, mais maleáveis e transportáveis. Pintámos os do Sporting de preto, o alternativo do Farense, e jogámos até ao infinito.
A rapaziada com que eu e o Tiago pontificávamos.
São os meus brinquedos que nunca deixei a minha mãe dar. Aprendi a escrever e a contar com eles. Tenho memórias vivas de jogos, de torneios, de coisas que aconteciam à minha volta enquanto o Benfica triunfava sem parar em Portugal e no estrangeiro, no tapete verde e as repetições do corredor. Não encontro subbuteos em lado nenhum e gostava de continuar a coleccioná-los.
Não gosto muito de dedicatórias, mas neste tem de ser: um abraço ao Tiago Palma pelas tardes a ver futebol a jogar futebol e a conversar sobre futebol, e um obrigado aos meus pais, por me terem feito uma criança tão feliz.
Esta é a equipa do meu coração. Vermelha e branca, altiva e humilde, com garra e técnica. O Benfica da minha infância, o Benfica que ficou, para sempre, guardado no meu coração.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Gota d'água
Não consigo perceber por que é que não temos meio campo. Até
consigo: a direcção e a equipa técnica do Benfica são atrasados mentais ou,
simplesmente, não querem saber. As duas hipóteses revelam que estão a mais. Que
Ruben Amorim esteja num rival e Nuno Coelho sabe-se lá onde são só cerejas no
topo de um bolo. Ou de um castelo de cartas prestes a ruir. A liderança com o
melhor ataque é uma ilusão que talvez nem o mais incauto dos Benfiquistas já
iluda. Adivinha-se (mais) uma intempérie.
Quando Witsel entrou contra aqueles turcos na pré-eliminatória o ano passado, qualquer pessoa com dois dedos de futebol presente na Luz percebeu que estava ali ouro. Possante e com uma técnica que várias vezes o fazia parecer um jogador de futsal (a maneira como pisava a bola e a conduzia), Witsel era o jogador “à futebol europeu” do Benfica. Tal como Ramires, era óbvio que ia sair, mais cedo ou mais tarde. Não valia a pena sonharmos com um novo Paneira, com um futuro capitão. Witsel, com o seu ar urbano e aquele futebol todo, ia sair. Só não sabíamos que tão cedo, e sem ser campeão. Desperdícios destes não se admitem. Foi um prazer vê-lo na Luz, foi um horror vê-lo desperdiçado na táctica de Jesus, foi um negócio do caraças (não estivesse o SLB falido e podíamos falar do “vender bem” do Benfica. Mas quando se vende para pagar juros…).
Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Quando Witsel entrou contra aqueles turcos na pré-eliminatória o ano passado, qualquer pessoa com dois dedos de futebol presente na Luz percebeu que estava ali ouro. Possante e com uma técnica que várias vezes o fazia parecer um jogador de futsal (a maneira como pisava a bola e a conduzia), Witsel era o jogador “à futebol europeu” do Benfica. Tal como Ramires, era óbvio que ia sair, mais cedo ou mais tarde. Não valia a pena sonharmos com um novo Paneira, com um futuro capitão. Witsel, com o seu ar urbano e aquele futebol todo, ia sair. Só não sabíamos que tão cedo, e sem ser campeão. Desperdícios destes não se admitem. Foi um prazer vê-lo na Luz, foi um horror vê-lo desperdiçado na táctica de Jesus, foi um negócio do caraças (não estivesse o SLB falido e podíamos falar do “vender bem” do Benfica. Mas quando se vende para pagar juros…).
Já Javi foi um soco na alma. Javi Garcia podia ter sido um
Paneira, podia ter sido um daqueles estrangeiros míticos, à Benfica. Podia ter
sido um Thern, um Schwartz, um Isaías. Quando Javi marcou o golo aos lagartos, o ano passado,
sorriu para a bancada como um adepto do Benfica. Tinha saltado mais alto do que um
dos de verde e cabeceou seco um delicioso centro de Aimar. Não fez os corninhos
do Isaías no 3-6, mas sorriu como ele. Para sempre já tinham ficado as imagens
de Javi, podre de bêbado, a festejar o título e a gritar juras de amor a um
clube que ele, claramente, não sabia ser tão grande. Sem os pés de Witsel, Javi
sempre foi cheio de entrega, sempre cheio de concentração. Javi Garcia foi
daqueles medíocres que, vestido à Benfica, se tornou gigante. Odiado pelos
rivais, Javi jogava sempre de dentes cerrados, sempre a suar a camisola, sempre
a dar tudo. Em Javi vi o Benfica que sonhei e que cheguei a ver. Javi Garcia empatizou imediatamente com as bancadas e as bancadas com ele. Javi parecia carregar as alegrias do passado e uma raiva nos dentes devido às derrotas do presente. Merecia o nome nas camisolas, merecia a aprovação até de um céptico como eu. Sonhei-o capitão.
Mas a vida não está para sonhos e muito menos o Benfica. Num
futebol mercantilizado, com milionários tristes e praticamente sem símbolos, não
há espaço para o coração infantil que me palpita quando o Benfica joga. Num
clube onde ninguém percebeu que haveria médios centro a menos, que é o mesmo
que não saber as vogais todas do alfabeto, poderemos nós estar preocupados com
símbolos, com mística, com magia?
Às vezes fico tão preocupado com o Benfica, com os erros
perpétuos, com degenerações, que me esqueço o quanto gosto deste clube. Acho
que essa é a maior tristeza que estas derrotas todas me deram: sofro tanto que
me esqueço do amor que tenho às camisolas vermelhas, ao terceiro anel cheio,
aos gritos BEN-FI-CA BEN-FI-CA BEN-FI-CA até não ter ar nos pulmões.
Não posso deixar que me tirem este amor. E antes de me
preocupar outra vez com o buraco no nosso meio campo, vou ficar triste por
Javi, afinal, não ser o Thern dos meus dias. O meu Benfiquismo merece isso.
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Obrigada, Hulk
Estava a trabalhar na redacção do Porto quando me chamaram
para ir à janela ver a nova contratação do FCP. A primeira coisa que pensei foi
que nunca tinha visto um jogador de futebol tão largo. Percebi imediatamente
que a alcunha «Incrível» não devia ser por acaso.
Mas aquela que guardo carinhosamente como a primeira
recordação tua, Hulk, e que tão bem te define, aconteceu na tua estreia no
Estádio do Dragão. Jogávamos contra o belenenses e tu entraste já na segunda
parte. O FCPorto ganhava, mas 1-0 é um resultado que nunca satisfaz aquela
plateia. Houve um livre e tu assumiste que querias bater. O Mariano, coitado,
ainda não devia ter treinado muitas vezes contigo, porque se colocou à frente.
Saiu lesionado. E tu ainda marcaste o segundo. Percebi imediatamente que
tínhamos ali os pés mais fortes do mundo.
Se há momento teu que o mundo não pode esquecer é aquele que
protagonizaste em alvalade, com o único jogador que pesava mais do que tu na
altura. Eu estava lá, e desde que pegaste na bola que comecei a gritar “Hulk,
Hulk, Hulk”. E gritei, e gritei, e gritei. E tu correste, e deixaste o
Rochemback para trás, bem para trás, e fuzilaste-os. Percebi imediatamente que
tínhamos ali um Fenómeno.
Depois, Hulk, foi uma questão de ires aguentando os assobios
do Dragão. Sonho com o dia em que terei oportunidade de dar dois estalos a cada
adepto que te assobiou e que, a qualquer falhanço da equipa esta época, vai questionar
a tua venda. Eles existem, como sabes. Mas tu não lhes ligaste puto.
Continuaste sempre o mesmo: forte, possante, irreverente, decisivo e muito,
muito egoísta. Hulk, aqui que ninguém nos ouve, perdoa-me todas as vezes em que
soltei um audível “passa a bola filho da puta”. Tu é que tinhas razão. Eu não o
percebi imediatamente, mas a bola tinha de ser tua.
Até que chegou aquele dia. O túnel. O maldito túnel. Foste
tão menino Hulk. Naquela altura já te deviam ter explicado o que aquela casa
gasta. E tu, mesmo assim, caíste. Não imagino o que te terá passado pela cabeça
quando era a tua cabeça que queriam. Suspenderam-te de imediato, que é uma
coisa que não acontece, por exemplo, a jogadores que mandam árbitros ao chão.
Tentaram que te fosses embora, que a tua carreira acabasse logo ali, e depois
vieram corrigir o erro. De quatro meses para três jogos. E ainda me recordo bem
daqueles arautos da verdade desportiva a fazerem as contas e a apregoarem que o
FCPorto até fazia mais pontos sem ti do que contigo. Oh, Hulk, percebes agora
como me rio deles, não percebes?
O que eles talvez não saibam é como isso nos ajudou a ver-te
como um jogador à Porto. Outro qualquer, o Sapunaru, por exemplo, não
conseguiria controlar a raiva por eles. Tu fizeste melhor: humilhaste-os.
E calaste-os. Porra, Hulk, este é o melhor silêncio do
mundo. E qualquer um percebe isso.
Agora, Hulk, está na hora de ires. E eu tive o privilégio de ver o teu último golo com a nossa camisola, quando fuzilaste aquele guarda-redes de voz fininha no sábado. Um portista sabe que esta foi a melhor maneira de saíres do nosso clube. Parece-me que tu até nem
querias muito, o que me faz admirar-te ainda mais. Ambos sabemos que vais para
pior e que vais ter saudades do que já ganhaste aqui. E também ambos sabemos
que o Porto vai sentir a tua falta, mas vai continuar a ganhar. Mas obrigada,
Hulk. Muito, muito obrigada. És Incrível.
domingo, 2 de setembro de 2012
Pequeno Futebol Clube
É sábado, o mercado fechou há umas horas e, na sede do Pequeno Futebol Clube - uma tasca com três estrelas Michelin -, as manchetes dos jornais desportivos não interessam a ninguém. João Moutinho não foi para o Tottenham? Vira a página. Javi Garcia saiu do benfica (aleluia, irmãos)? Passa à frente. Na página 30, finalmente, a notícia do dia, lá em baixo, num quadradinho sem cor: o PFC fintou os Abramovich desta vida e conseguiu três reforços por empréstimo.
Dois defesas-esquerdos do benfica e um
médio do FCPorto. A custo zero. E vestem o mesmo tamanho do que os
emprestados da época passada, por isso é só trocar o nome da
camisola. O presidente do PFC, desta vez, esmerou-se. Do sportem não
quis ninguém, claro, porque ainda há uma diferença entre o Pequeno
Futebol Clube e o Mínimo Futebol Clube.
É dia de bola. Da sede ao estádio
seria só atravessar a rua, mas, desta vez, o PFC vai fazer uma
deslocação até um estádio do Euro abandonado. Os sócios estão
revoltados. As cadeiras confortáveis e limpas fazem doer as costas.
O relvado impecável prejudica o futebol de qualidade ímpar. Os
torniquetes, meu deus, é o fim do mundo, até funcionam.
Já não bastavam estas contrariedades,
ainda por cima do outro lado está o campeão. E o PFC detesta o
campeão. Não é que o campeão alguma vez tenha feito mal ao PFC,
mas adepto do PFC que é adepto do PFC detesta todos os clubes que
lutam por títulos. Ao adepto do PFC, soa a insulto que uma equipa
queira sempre os três pontos. O adepto do PFC tem como melhor
momento da sua vida aquela tarde soalheira em Vila Nova do Fim do
Mundo, em que o PFC conquistou um glorioso empate que assegurou a
permanência na primeira divisão, no último minuto da última
jornada. Isto sim, é sentir o futebol. Os adeptos do campeão sabem
lá o que isto é, esquisitinhos da caca que ainda há um ano andavam aí na rua a festejar uma Liga Europa.
Ser adepto do campeão é fácil.
Pega-se no carro, faz-se centenas de quilómetros e entra-se numa
bancada pintada da mesma cor. Canta-se por Hulk e Moutinho, que
tantos corações partiram ao estarem ali, e espera-se que James
entre para resolver o imbróglio. Os golos chegam, como quase sempre,
e para a semana há mais (não há, porque o calendário é
ridículo). Isto não faz sentido para o adepto do PFC.
Ser adepto do PFC é lixado. Na bancada
estão os do costume, só que desta vez misturados com os adeptos do campeão, com
aquele ar sorridente de quem está sempre a vencer troféus. Começam
tímidos, não vá aparecer aí uma goleada, mas animam-se com aquele golo
em contra-ataque perante o facilitismo da defesa do campeão. A
noite, afinal, pode ser de festa para o PFC! Tudo o que têm de fazer
é defender, dar pau e perder tempo durante toda a eternidade de jogo
que se segue. Resta-lhes ainda assobiar o avançado brasileiro do campeão,
porque, para os adeptos do PFC, só o seu central caceteiro de quase
40 anos vale 50 milhões de euros. Para seu azar, é esse mesmo
avançado brasileiro que fuzila o guarda-redes de voz fininha do PFC
e mata o jogo.
Tudo o que o adepto do PFC desejava era
aquele empate no último minuto, num golpe de sorte, fruto de um
falhanço de um rapaz do campeão. Com aquele empate, a noite de
sábado na sede seria uma loucura. Os filhos e os netos do adepto do
PFC iriam recordar para sempre aquela partida mítica em que o
central caceteiro conseguiu acabar sem amarelo. Infelizmente, tudo
correu como seria normal e o campeão ganhou.
Mas não há drama. O adepto do PFC, o
verdadeiro adepto do PFC, é um adepto do caraças. Torce pelo PFC e
apenas pelo PFC, por isso já está a preparar a deslocação ao
rival Sporting Clube da Pequenez. Nesses jogos é que se conquistam
permanências, nesses jogos é que o pequeno se separa do mínimo. O
campeão que vá à sua vida, que o PFC vai continuar a lutar pela
sua.
O pior são aqueles adeptos do PFC que
ontem lá estavam, e que tantas vezes encontro por esses estádios
fora. Disfarçam-se adeptos do PFC, mas na verdade são adeptos de
outros clubes bem maiores, frustrados pelos títulos perdidos para o campeão.
Quando o Targino faz o 3-2, não é a permanência do Olhanense que
eles vêem à frente, mas sim a aproximação ou a conquista de
pontos das suas equipas. Quando o Moutinho corta uma bola, é
atropelado por trás e cai para o chão magoado, eles não gritam “maçã
podre” porque ele é de Portimão, mas porque trocou o clube deles
pelo campeão. Quando o Hulk passa por eles a 300 km/h, não é das
portagens na Via do Infante que se lembram, mas daqueles 5-0 no
Dragão e do seu querido David Luiz (pausa para elogiar a brilhante
exibição frente ao Falcao) a ser ultrapassado por este camião
brasileiro que os estúpidos dos russos nunca mais cá vêm buscar.
Admiro muito os primeiros adeptos do
PFC. Quero que as crianças de Vila Nova do Fim do Mundo cresçam a
torcer pelo clube da sua terra, que nas tascas se discutam as
notícias mais pequeninas dos jornais desportivos e que os empates
que asseguram a permanência no último minuto da última jornada
sejam para sempre recordados como o melhor momento das suas vidas.
É-me muito fácil ser do FCPorto, pelo que vocês, do Olhanense, do
Beira-Mar, do Rio Ave, etc, me parecem os verdadeiros adeptos de
futebol.
Quanto aos segundos adeptos do PFC,
meus caros, azar. Preocupem-se com o meio-campo vazio da vossa equipa
ou o ataque mortífero que apenas vos faz ganhar a equipas
dinamarquesas de cujo nome já nem me recordo. Era o que eu faria, se
fosse vocês. Mas felizmente sou do campeão.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Eu e os selvagens
Há uma expressão célebre que diz que se pusermos alguns
macacos com máquinas de escrever (a expressão é antiga, hoje usariam Macs e
pareceriam hipsters, os macacos), ao fim de vários anos os macacos terão
escrito as obras completas de Shakespeare.
Lembrei-me disto no Bonfim. Estava a ver o jogo junto ao RC
e dá-se a cena clássica: Javi desce, Luisão e Garay abrem e toda a gente sobe lá
para a frente. Como só o Witsel é que desce, mais tarde ou mais cedo sai um
passe insensato ou um chutão cheio de fé para a frente. O problema foi que o RC
disse o que ia acontecer como se eu estivesse a ver o jogo em diferido: “Agora
o Javi dá ao Garay e o Garay chuta.” E assim foi.
Goleámos porque, só para a frente, o plantel do Benfica tem
ao seu dispor: Cardozo, Rodrigo, Aimar, Carlos Martins, Gaitan, Nolito, Bruno César,
Enzo Perez, Salvio. Com esta gente e enfrentando equipas falidas treinadas pelo
José Mota, é como colocar numa arena uma horda de selvagens contra um hipster que frequente
a FNAC da Baixa–Chiado. É óbvio que os selvagens vão conseguir bater-lhe,
roubar-lhe os óculos de haste grossa, violá-lo e queimar-lhe o cadáver. Nas
mãos de Jorge Jesus, não há a hipótese destes jogadores trocarem a bola e
controlarem o jogo. Jorge Jesus, neste momento, é um general militar a quem dão
uma super metralhadora e que, em vez de a disparar, atira-a contra a cabeça do
adversário.
Não vou repetir os erros tácticos do Benfica porque já há
gente a escrevê-lo muito melhor do que eu. O meu drama é o meu coração depender
dessa selvajaria. Como qualquer bom adepto, ordeno mentalmente o que quero que o
jogador faça antes dele o fazer. “Vai para cima dele”, “Desce”, “Mata o Hulk”,
etc. O problema, neste momento, é que me sinto justamente a gritar com uma
tribo lunática, praticamente sem hábitos de civilização conjunta, quanto mais
de linguagem. Ainda para mais, dizem os jornais que os únicos da tribo que
procuram a agricultura de subsistência (isto é: defender), podem ser vendidos. Não
vou conseguir comunicar com ninguém, portanto. Se vendermos Witsel e Javi Garcia, quando perdermos a bola na saída para o ataque não vale a pensa gritar "Desce" a ninguém. É como pedir o "Romeu e Julieta" a um macaco. Ou pedir ao Jesus para jogar com 3 médios.
Não tendo a hipótese de me desligar (não há esse botão nos
fanáticos), vou ter que entregar o coração a esta selvajaria. Esperar que a
horda consiga mutilar consecutivamente os mais fracos de forma a que ganhe uma
empatia entre si. Estou neste momento a imaginar Enzo Perez de tanga, a
procurar com o seu olhar vazio Bruno César, também vestido tribalmente, os dois
a trocar uma olhar de entendimento após um massacre a um Paços de Ferreira
qualquer. A sede de sangue unirá a tribo e torná-la-à cada vez mais insaciáveis, tornanda-a assim cada vez mais forte frente aos fracos e mais previsível contra equipas com 2 neurónios.
A esperança reside na sorte de não apanharmos qualquer tribo
mais inteligente, que se esconda em cima das árvores, deixando os nossos
desorientados e a lutar entre si. Se se sucederem várias batalhas ganhas, os
Benfiquistas acudirão ao estádio e gritarão cânticos de incentivo à maralha de
ataque desorganizada que é a nossa equipa de futebol. Com alguma sorte no
calendário (e, claro, nos jogos), poderemos chegar às batalhas decisivas sem
termos já os 7-8 pontos de atraso habituais. E depois, pronto, pode ser que a
tribo já tenha descoberto o fogo.
Estou lixado. Da minha felicidade depende a capacidade do
Benfica deixar de ser selvagem. E isso é tão provável como macacos escreverem
as obras completas de Shakespeare. Bem, antes os macacos que o Jesus.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Já não há heróis
Os jogadores do F.C. Porto são uns privilegiados. Fazem o que gostam e nós gostamos do que eles fazem. São ídolos de pequenos e de grandes, são aplaudidos e levados ao colo pelo Zé da esquina e pelo dono do banco e ouvem o seu nome cantado por milhares de gargantas fiéis. E tudo o que precisam de fazer é ganhar.
Levantam-se de manhã na sua casa de luxo, comem o pequeno-almoço feito pela empregada ou pela loiraça de 1,80m que se deita com eles na cama e sentam-se ao volante da última novidade do automobilismo para irem para o treino. Correm, fazem uns exercícios e convivem com as estrelas azuis e brancas. Regressam ainda a tempo de descansar, de jogar Playstation como eternas crianças e de brincar com os telemóveis mais caros do mercado. Uma ou duas vezes por semana, deixam a família feliz para viajar num autocarro ou num avião confortáveis, dormem num hotel de 4 ou 5 estrelas e, durante uma hora e meia, jogam à bola com a camisola mais bonita do mundo.
Haverá melhor profissão do que esta?
Sim, eu sei que a pressão e o cansaço também são enormes. A exigência é muita e poucos falhanços são permitidos. Entrar num estádio cheio e ser insultado não deve ser fácil. Ouvir um ou outro assobio de vez em quando não deve ser agradável. Não poder andar na rua, ir ao supermercado ou sair à noite sem estar sujeito a dar dezenas de autógrafos ou a levar uma cabeçada também não deve ser espectacular. Mas continuo a achar que uns milhares de euros no fim do mês e a nossa admiração compensam isso.
Imagino que um operário fabril que ganhe o salário mínimo não tenha milhares de apoiantes a cantarem o seu nome se a máquina encravar e ele, fintando um ou outro parafuso saltitante, consiga enfiar o tubo no buraquinho da agulha, por muito bonita que esta imagem seja.
Imagino que um pescador seja mais do que assobiado se um dia chegar à doca e disser ao patrão que só conseguiu 10 quilos de camarão porque a última vez que saiu para o mar foi há apenas 48 horas e não teve tempo de descansar entretanto.
Imagino que um agricultor possa ir à vontade ao supermercado ou sair à noite, mas que não o faça muitas vezes porque alguém tem de ficar em jogo para as colheitas.
Imagino que um jovem que estudou e que fez tudo o que podia para aprender a executar determinada profissão fique tão frustrado por estar desempregado que tenha que emigrar para qualquer lado, a qualquer preço, mesmo depois do dia 31 de Agosto.
Eu sei que também sou uma privilegiada. Tenho 25 anos e tenho emprego, logo naquilo que tanto gosto de fazer. Trabalho de manhã, à tarde e à noite, aos fins-de-semana e aos feriados, conforme o calendário manda. Não ouço aplausos nem assobios, mas os meus leitores, desde o Zé da esquina ao dono do banco, são igualmente exigentes. Posso sonhar em ser contratada pela BBC, mas é muito pouco provável que isso aconteça, por muito que as minhas notícias evoluam. Certamente que não me vou retirar aos 35 anos e estou a rezar para que ainda tenha reforma se o fizer aos 70. Não espero ter uma casa ou um carro de luxo e muito menos vir a dar um autógrafo na vida (a cabeçada posso levar, não serei a primeira jornalista a fazê-lo). Faça o que fizer, nunca terei um salário que sequer se assemelhe ao vosso. E pior: nunca vou entrar no Estádio do Dragão, olhar para bancada e ver um adepto a pedir a minha camisola, a camisola do Futebol Clube do Porto com o meu nome.
É este privilégio que poucos podem ter e que ainda menos sabem como é bom ter. E é por isso que não consigo perceber por que hão vocês de estar tão interessados em ir lutar pela Europa no tottenham ou pelo campeonato russo no zenit. Dinheiro? Coitados, são tão pobrezinhos. Fama? Em clubes de merda como esses? Títulos? Porque o Porto ganha tão poucos...
Mas vão. Vão lá, a sério. Nós até precisamos do dinheiro. E eu consigo ter consciência que vocês não amam este clube como eu, por isso não vêem as coisas desta forma. No Porto de outros tempos, era um drama substituir um Vítor Baía, um João Pinto ou um Domingos. No Porto de agora, não há Álvaro Pereira, Hulk ou João Moutinho que não se esqueça de um dia para o outro. À vossa ambição desmedida, nós, os adeptos, respondemos com uma substituição rápida: hoje pedimos a vossa camisola, amanhã pedimos a de outro qualquer. É que, para nós, já não há heróis.
P.S. Bela vitória no sábado, embora a fraca qualidade do guimarães tenha ajudado. Gostei muito do Alex Sandro (tem tudo para ser melhor do que o palhaço do seu antecessor) e adorei ver que a cabeça do Hulk pode estar longe, mas o corpo, pelo menos até agora, mantém-se cá. Adorei sobretudo os foras-de-jogo idiotas e aquela defesa com a mão do N'Diaye na grande área, a fazer lembrar uma que ele fez com a cabeça na luz e que deu penalty.
P.S. Bela vitória no sábado, embora a fraca qualidade do guimarães tenha ajudado. Gostei muito do Alex Sandro (tem tudo para ser melhor do que o palhaço do seu antecessor) e adorei ver que a cabeça do Hulk pode estar longe, mas o corpo, pelo menos até agora, mantém-se cá. Adorei sobretudo os foras-de-jogo idiotas e aquela defesa com a mão do N'Diaye na grande área, a fazer lembrar uma que ele fez com a cabeça na luz e que deu penalty.
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