Não há paciência para este sportem. Acho que é a primeira vez que digo isto na vida e custa-me, porque o sportem já me deu muitas alegrias e eu não gosto de ser ingrata. Mas a minha relação com o sportem está a passar uma fase muito difícil: a indiferença.
Tornei-me numa daquelas pessoas que nem vê os jogos do sportem e só muda de canal de vez em quando para conferir o resultado, como faço com qualquer paços de ferreira-moreirense. Não é por mal, juro, mas é que já nem quero saber. Já passei muitos anos a adormecer durante jogos do sportem, mas nem querer ver é muito grave. É que eu vejo muita coisa inútil, mas o sportem não aguento.
Cheguei a pensar que tinha de procurar ajuda clínica. Precisei que alguém me desse um comprimido de anti-lagartismo, uma coisa assim do género. Ansiava pelo dia em que um Barroso qualquer tentasse discutir futebol comigo, para eu me lembrar do quanto não gosto deles. Esperei e tive sorte: o Porto-sportem chegou.
Chegou, mas ainda assim foi difícil não adormecer. Valeu-nos aquele golaço do Jackson, que me está a fazer acreditar que voltámos a descobrir um craque. Depois foi o normal contra estas equipas da segunda metade da tabela: o Porto ficou à espera que o jogo terminasse. Claro que, às vezes, estes clubes pequenos apanham-nos distraídos, arrancam em contra-ataque, sacam um livre manhoso, e marcam um golo quase sem querer. Vá lá que o sportem nem isso.
O sportem saiu do Dragão sem fazer absolutamente nada. Eu, que sinto o pânico a apoderar-se de mim de cada vez que um adversário passa o meio-campo, só me preocupei quando uma bola entrou na nossa área sem saber o que estava ali a fazer e vi aquele ao qual chamam "ponta-de-lança" do sportem praticamente desmarcado. Vá lá que ele nem acertou nela.
Se o jogo tivesse terminado ao intervalo (que tinha sido um favor que faziam aos adeptos de futebol), os lagartos nem podiam queixar-se daquela falta de sorte que tanto abunda em alvalade, aquela que os fez mandar uma bola ao poste e, na mesma jogada, sofrer o 3-1 que lhes tirou uma Taça UEFA na própria casa. Façamos uma pausa, então, para recordar esse belo dia. Pronto, adiante.
Mas não, a horrível segunda parte trouxe dois penáltis a favor do Porto e um lagarto expulso. Meu deus, que ultraje!!! Desta ninguém esperava daquela malta que já nos roubou uns quantos bem mais escandalosos do que aqueles, e ainda agora a época começou. Então eu, que como qualquer adepto que se preze nunca admito que um adversário se sinta roubado, estudei atentamente os argumentos verdes.
Ora portanto, o problema do penálti do Cedric, e isto é unânime, não é ele dar com o braço na bola. Dizem eles, baseados numa regra moral desesperada, que ele estava sozinho com a bola, portanto era completamente estúpido marcar penálti. Corrijo: marcá-lo foi correcto, porque há um jogador que, dentro da área, coloca o braço a jeito para dominar a bola; fazê-lo é que foi estúpido, mas aí, meus caros, falem com o Cedric.
Quanto ao vermelho, ainda ouvi alguns com a cassete do costume, que no Dragão é sempre assim e não sei quê. Não sei do que falam, mas sei que o Rojo (nome que, a propósito, lhe cai tão bem) devia até ter sido expulso antes. Vejam bem as entradas do menino e, depois, dêem-lhe daqueles comprimidos do Sá Pinto (paz à sua alma) para o acalmar.
E agora, minhas senhoras e meus senhores, um momento único: eu também acho que não há penálti sobre o Jackson. É verdade que a câmara não é nada esclarecedora, estamos a ver o lance por trás, mas, atendendo aos membros do jogador de verde (já vi o lance tantas vezes que deu para reparar em cada braço e em cada perna), não me parece que, além do habitual chega para lá um ao outro, tenha existido falta.
O que é certo é que, se o árbitro não tivesse roubado escandalosamente o sportem, tinham saído do Dragão com um belo empate de 1-0, subiam para um honroso 11º lugar na tabela classificativa, até à frente do portentoso estoril, e o treinador às tantas até podia continuar a ser este até mais uma ou outra humilhação com um Xiripiton qualquer. É uma vergonha isto.
Lá tive eu de lembrar-me o que é o sportem e do tanto que não gosto de um clube assim, acabado como grande, triste até para os seus rivais, e que, como diz um grande lampião, está tão morto que não percebe que aqueles pequenos e breves momentos em que se levanta, começa a esbracejar e dá uns saltinhos enquanto ganha ao gil vicente, não passam de espasmos provocados por um desfibrilhador.
Mas eles lá andam, à espera de uma santa milagrosa de um Scolari qualquer, a acreditar que o sportem ainda existe. E eu voltei ao mesmo, não quero saber, já passou, vem aí o estoril que se mostrou melhor do que eles e eu estou preocupada é com o facilitismo que a minha equipa por vezes dá.
O sportem, para mim, tornou-se um daqueles primos distantes, com quem não temos relação absolutamente nenhuma e que vemos apenas de tempos a tempos, num casamento ou num baptizado, em que lhe perguntamos, mais por simpatia do que por interesse genuíno: - Então, está tudo bem? E ele diz-nos que sim, que está bem, mesmo que o cão tenha morrido, o filho esteja doente e a mulher tenha fugido com outro.
Partilhamos amigos e famílias. Partilhamos almoços e jantares. Partilhamos livros e discos. Partilhamos viagens e segredos. Partilhamos uma casa e uma vida. Só não partilhamos o clube.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
O amante ingénuo e sentimental
Gosto muito de futebol. Tenho respeito pelo jogo, pela sua história e pelas suas histórias. Vejo jogos antigos, procuro coisas que não conheço, sobretudo, claro, sobre o meu clube.
Acho que a única metáfora válida para isto é, lamentavelmente, a do amor. A Catarina já escreveu sobre isso acerca da saída do Villas-Boas. Talvez não qualifique como metáfora e seja isso o que é: amor. Parece duro e inconcebível: pode alguém amar um clube, um jogo? Para mim, sim.
Enervei-me há uns dias com o inacreditável Marselha-Benfica, a primeira mão, de onde saímos vivos com 2-1, depois de levarmos três lindas bolas aos ferros e tirarmos duas em cima da linha, permitindo-nos chegar vivos à Luz contra uma equipa que tinha Papin, Mozer e Waddle. E, já agora, o príncipe Francescoli. Francescoli, que tem um ar de escritor sul-americano, e jogava com a melancolia do Coronel Aureliano Buendía. Procurei esse jogo e emocionei-me como se encontrasse um álbum velho de fotografias da família. Sorri com equipamentos, como quem sorri com os velhos penteados dos anos 80. Revi caras em quem estou sempre a pensar, mas com quem não falo todos os dias, mas devia. Quando o vídeo acabou, foi como fechar o álbum e voltar a arrumá-lo. Voltar à realidade nunca é fácil depois de revisitar uma infância feliz, cheia de amor.
Vi, com o meu pai, que é a pessoa que me ensinou a ver futebol e com quem falo dez, vinte vezes por dia de futebol e dia sim dia não sobre os outros assuntos, o Benfica-Barcelona. Vimos, juntos, a melhor equipa de todos os tempos. Messi, Xavi, Iniesta, Puyol, Busquets. Só foi pena que Pep estivesse longe (tinha jantado com Woody Allen nessa semana. Como se ser treinador da melhor equipa de sempre não chegasse, Pep decidiu juntar a isso preencher-se. Incrível.), mas aquela ideia, aquele conceito que trespassará o tempo, que será visto daqui a 50, 100 anos por outro Manel, em vídeos distantes e históricos, passou no meu relvado, na minha Luz. Claro que o meu amor ao Benfica é superior ao amor ao futebol. Fico lixado de termos perdido, mas corrói-me mais perder 2 pontos largados no campeonato do que aquilo. E acho que quem gosta do Benfica e quer que o Benfica volte a ser grande como já o foi, devia observar a dimensão deste Barça, o que ali se passa. O facto de serem extraordinários semanalmente tira-nos a capacidade de admirar uma equipa de que todos teremos saudades quando acabar. E essa dimensão do Barça explana-se no respeito ao jogo. Que Messi, que é, para mim, o melhor da história, tenha sorrido como uma criança para pedir a Pablo Aimar a sua camisola, a mim, emociona-me. E emociona-me porque aquele monstro, aquele génio, aquele homem que vai superar o tempo, parecia um miúdo com 10 anos à porta do estádio, à espera que acabasse o treino do seu ídolo. E Aimar, que é um gentleman e que talvez tenha até recusado o jantar com Guardiola e Allen, sorriu também. Mais uma fotografia para o álbum. E nós com consciência disso.
Sinceramente vos digo que tenho ainda a ilusão, o sonho, de um dia conseguir falar com uma destas pessoas. Falar com um destes, que amam o jogo. Sentar-me um dia, a jantar, e contar a Maradona, ou a Aimar, ou a Valdano, ou a Pep, aquilo que eu sinto quando vejo um Marselha-Benfica. Gostava de poder conversar, com uma cerveja à frente, sobre estas coisas que se me ocorrem e que me fazem vir para aqui escrever quando vejo futebol. Gostava de lhes falar de Mozer e das fotografias do meu tio João. E sinto, e não vos sei explicar porquê, que aqueles em quem identifico este amor pelo jogo, me perceberiam.
Quando ontem ouvi o discurso de Marcelo Bielsa, treinador do Athletic de Bilbao, após a derrota contra o Barcelona na Taça do Rei, apeteceu-me convidar o senhor para jantar cá em casa. Contar-lhe que, durante o Sporting-Athletic de Bilbao, houve uma imagem sua, de cócoras, a pensar. E que a Catarina, sorrindo, disse: "Gostava de ser assim. Saber aquilo tudo de futebol. Na cabeça daquele homem está a passar montes de futebol, agora.". Gostava de partilhar isso com o senhor Bielsa e gostava de lhe servir um copo de vinho e agradecer. Um homem que, à frente do seu plantel, os acusa de serem "milionários prematuros", de não terem "feridas nem cicatrizes" percebe que os seus jogadores desrespeitaram quem ama futebol. Pior, desrespeitaram os seus adeptos, que qualifica como "ingénuos" e "extraordinários". E é bonito que Bielsa fale dos adeptos num balneário, sem ser aquele discurso politicamente correcto numa conferência de imprensa, com patrocínios atrás e só para os aplausos. Não, Bielsa falou do povo basco dentro do balneário já sem nada a ganhar. Falou por respeito. Falou por amor. Sentiu que tinha que lhes dizer aquilo.
Esta grandeza, esta humanidade toda, eu só a consigo verdadeiramente sentir no futebol. E partilho isso todos os dias com o meu pai e com a Catarina, partilho isso tantas vezes que me sinto chato, porque sei que falo disto muitas vezes, mas isto para mim é uma coisa pungente, é uma coisa forte e tenho que a dizer, tenho que a escrever.
Gostava, um dia, de poder receber o senhor Bielsa, de jantar com ele e dizer-lhe que eu, se fosse jogador de futebol, principalmente se fosse jogador de futebol do Benfica, não me permitiria rir se perdesse uma final. E teria respeito por esse povo ingénuo e extraordinário que sofre pelas cores de uma camisola. Gostava, mesmo, de um dia jantar com Guardiola ou Bielsa e ouvi-los falar. Mas, mais do que isso, mais do que beber uma cerveja com o Maradona, gostava que o meu Benfica recuperasse esta imensa dimensão humana, esta grandeza, este respeito. Gostava que houvesse no Benfica discursos destes, capazes de me prender a fala. Gostava que houvesse alguém no Benfica que nos representasse a nós, os amantes ingénuos e sentimentais.
Brindo a isso. Com amor.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
O FCPorto de Bruxelas
A questão impôs-se às primeiras horas em Bruxelas.
- Onde é que se pode ver o Porto?
A resposta foi imediata.
- Na casa do Futebol Clube do Porto de Bruxelas, claro.
Foi assim que fomos parar ao restaurante "O Castiço", quase cheio para ver a bola. Na televisão, o sportem acabava de arrancar um glorioso empate com o estoril em alvalade (tenho de escrever sobre eles, estou só à espera que o luto pelo Sá Pinto passe). O dono, Z. C., pensou que nós, quatro mulheres, estávamos enganadas. Após alguma insistência, arranjou-nos uma mesa, mesmo em frente a um Dragão de Ouro orgulhosamente exposto. À volta, novos e velhos, homens e mulheres, portugueses emigrados há 30 anos ou há três meses, todos com alguma coisa azul e branca.
As equipas estão a entrar em campo e há um homem que se senta mesmo à minha frente, a tapar-me a visão para o ecrã (no Castiço há duas televisões enormes e ainda uma projecção numa parede, o futebol é para se ver bem). Peço-lhe para se desviar e ele pergunta-me, com rasteira:
- É portista?
À resposta afirmativa, seguiu-se um sorriso e um desviar essencial para que eu possa ver. Detesto comer e beber durante um jogo, mas tem de ser. O pedido é registado com apreço, já que todas bebemos Super Bock. Nesta casa, a Sagres não é bem-vinda, claro. Na mesa atrás de nós, há uma criança equipada à FCP que diz uma asneira quando o árbitro não marca uma falta evidente a nosso favor. A mãe repreende-o, o pai repreende a mãe, e muito bem. Atsu cai na área e pede-se, em uníssono, penalty. Um idoso, mais calmo e ponderado, solta um "parece que foi". O Z. C. grita-lhe que, a favor do Porto, nunca parece; é sempre penalty.
O golo chega e, com ele, a habitual descontracção de adeptos muito habituados a ganhar. A malta distrai-se, começa a conversar e nem nota que o Porto adormeceu em campo. Conto às minhas colegas que, lá em casa, brinco com o M. porque acho que ele tem uns ares de Tarantini. Ele espeta-nos dois de seguida e o M. não pára de me mandar mensagens a lembrar isso mesmo. Desligo-me da conversa, o restaurante de repente parece o Estádio do Dragão e entramos numa transe colectiva à espera da reviravolta.
Quando Kléber cai, caem também umas cervejas, tal é o vigor com que se insulta o árbitro. O penalty, posso garantir-vos, foi tão grande que se viu perfeitamente em Bruxelas. Jackson acaba por empatar, mas para os portistas, estejam eles onde estiverem, um ponto nunca sabe a vitória. Para salvar a noite, quisemos saber mais sobre aquela gente empurrada para fora deste triste país. Contaram-nos como vivem melhor, como não querem voltar, e até nos tentaram convencer a fazer o mesmo.
Pelo meio, o mais importante: o F.C. Porto de Bruxelas é TETRACAMPEÃO do campeonato de amadores de Bruxelas, disputado por várias equipas de imigrantes de todo o mundo. O Z. C., por esta altura já carinhosamente tratado por "presidente", recebeu o Dragão de Ouro de melhor casa internacional das mãos de Pinto da Costa. O A., mais conhecido como "o capitão", é aconselhado a não beber mais Super Bock, porque há jogo no dia seguinte. O segredo do F.C. Porto de Bruxelas é este: mesmo a milhares de quilómetros de distância, são a equipa mais organizada e têm o balneário mais unido. E ganham.
O empate custou menos graças ao "Castiço". É tão bonito saber que o meu clube também é vivido, sentido, ali tão longe. É tão emocionante ver como o futebol liga este país às suas pessoas. É tão arrepiante constatar como o meu Porto, o clube da minha cidade, já é um clube tão grande.
Aos portistas de Bruxelas e aos portistas de todo mundo: sim, claro que fomos roubados. Mas todos sabemos que temos de ganhar mesmo assim.
- Onde é que se pode ver o Porto?
A resposta foi imediata.
- Na casa do Futebol Clube do Porto de Bruxelas, claro.
Foi assim que fomos parar ao restaurante "O Castiço", quase cheio para ver a bola. Na televisão, o sportem acabava de arrancar um glorioso empate com o estoril em alvalade (tenho de escrever sobre eles, estou só à espera que o luto pelo Sá Pinto passe). O dono, Z. C., pensou que nós, quatro mulheres, estávamos enganadas. Após alguma insistência, arranjou-nos uma mesa, mesmo em frente a um Dragão de Ouro orgulhosamente exposto. À volta, novos e velhos, homens e mulheres, portugueses emigrados há 30 anos ou há três meses, todos com alguma coisa azul e branca.
As equipas estão a entrar em campo e há um homem que se senta mesmo à minha frente, a tapar-me a visão para o ecrã (no Castiço há duas televisões enormes e ainda uma projecção numa parede, o futebol é para se ver bem). Peço-lhe para se desviar e ele pergunta-me, com rasteira:
- É portista?
À resposta afirmativa, seguiu-se um sorriso e um desviar essencial para que eu possa ver. Detesto comer e beber durante um jogo, mas tem de ser. O pedido é registado com apreço, já que todas bebemos Super Bock. Nesta casa, a Sagres não é bem-vinda, claro. Na mesa atrás de nós, há uma criança equipada à FCP que diz uma asneira quando o árbitro não marca uma falta evidente a nosso favor. A mãe repreende-o, o pai repreende a mãe, e muito bem. Atsu cai na área e pede-se, em uníssono, penalty. Um idoso, mais calmo e ponderado, solta um "parece que foi". O Z. C. grita-lhe que, a favor do Porto, nunca parece; é sempre penalty.
O golo chega e, com ele, a habitual descontracção de adeptos muito habituados a ganhar. A malta distrai-se, começa a conversar e nem nota que o Porto adormeceu em campo. Conto às minhas colegas que, lá em casa, brinco com o M. porque acho que ele tem uns ares de Tarantini. Ele espeta-nos dois de seguida e o M. não pára de me mandar mensagens a lembrar isso mesmo. Desligo-me da conversa, o restaurante de repente parece o Estádio do Dragão e entramos numa transe colectiva à espera da reviravolta.
Quando Kléber cai, caem também umas cervejas, tal é o vigor com que se insulta o árbitro. O penalty, posso garantir-vos, foi tão grande que se viu perfeitamente em Bruxelas. Jackson acaba por empatar, mas para os portistas, estejam eles onde estiverem, um ponto nunca sabe a vitória. Para salvar a noite, quisemos saber mais sobre aquela gente empurrada para fora deste triste país. Contaram-nos como vivem melhor, como não querem voltar, e até nos tentaram convencer a fazer o mesmo.
Pelo meio, o mais importante: o F.C. Porto de Bruxelas é TETRACAMPEÃO do campeonato de amadores de Bruxelas, disputado por várias equipas de imigrantes de todo o mundo. O Z. C., por esta altura já carinhosamente tratado por "presidente", recebeu o Dragão de Ouro de melhor casa internacional das mãos de Pinto da Costa. O A., mais conhecido como "o capitão", é aconselhado a não beber mais Super Bock, porque há jogo no dia seguinte. O segredo do F.C. Porto de Bruxelas é este: mesmo a milhares de quilómetros de distância, são a equipa mais organizada e têm o balneário mais unido. E ganham.
O empate custou menos graças ao "Castiço". É tão bonito saber que o meu clube também é vivido, sentido, ali tão longe. É tão emocionante ver como o futebol liga este país às suas pessoas. É tão arrepiante constatar como o meu Porto, o clube da minha cidade, já é um clube tão grande.
Aos portistas de Bruxelas e aos portistas de todo mundo: sim, claro que fomos roubados. Mas todos sabemos que temos de ganhar mesmo assim.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
O futebol das meninas
Gostar de futebol não foi, para mim, uma opção. Não houve um
dia em que acordei e, por acaso, pedi à minha mãe para me calçar umas chuteiras
em vez de me vestir uma saia. Não fui para o infantário e gostei mais de brincar à bola
com os rapazes, esses seres nojentos com ranho a sair do nariz, em vez de ir
trocar roupas da Barbie com as raparigas, esse sexo tão civilizado. Nada disso.
Gostar de futebol, para mim, foi claramente fruto de um pai e de um irmão que precisavam de mais alguém para dar uns toques. Não fazia sentido um deles ir à baliza e o outro chutar. Faltava alguém para cruzar, obviamente, e eu tive de preencher esse vazio. Mais por obrigação do que por gosto, é certo, mas a coisa lá se entranhou.
Nunca deixei, no entanto, de brincar com a Barbie, de me apaixonar loucamente por uma boys band de moços de cabelo comprido e voz fininha (THE MOFFATTS FOREVER!) e de escolher qual das Spice Girls eu era (Emma, como me parece óbvio). Só que isto foi passando, e a bola não.
Um dia, do nada, tirei os posters todos dos Moffatts da parede (agora que penso nisto, tenho de pedir desculpa ao meu irmão porque o quarto também era dele…). Decidi substituí-los por uma espectacular colecção do jornal “O Jogo” com a equipa completa do FCPorto 1998/1999. Falamos de craques como Rui Correia, Costinha, Fernando Mendes, Peixe, Chaínho e Secretário, tudo ali escarrapachado, para toda a gente ver.
Lembro-me que as minhas amigas J. e D., convidadas para uma festa de aniversário minha, entraram no quarto e perguntaram-me se não me importava que fosse o meu irmão a escolher o que ficava na parede. Corajosa, assumi que tinha sido eu. Elas não perceberam à primeira, mas depois mostrei-lhes como Capucho, Vítor Baía e até Folha tinham aptidões físicas que podiam perfeitamente ser equiparadas às dos Moffatts. (o Folha? A sério, Catarina?, perguntam vocês. Sim, o Folha. Na altura achávamos que era parecido com o Richard Gere (!) e à custa disso a J. ainda hoje é apaixonada por ele.) Elas aceitaram os meus argumentos.
Foi por volta dessa altura que comecei a usar cadernos em vez de uma capa com folhas e aqueles separadores tão giros às cores (isto está a ficar tão à gaja que os homens de certeza que já pararam de ler o post). Os cadernos dos rapazes estavam sempre cheios de coisas dos seus clubes. Os cadernos das raparigas eram decorados com rapazes giros. Os meus eram um pouco de ambos.
O caderno de Geografia, a minha disciplina preferida na altura, tinha vários Capuchos colados na capa e na contra-capa. O caderno de História só tinha Decos. O caderno de Português o Rubens Júnior (não me peçam para explicar). Não me lembro dos outros (e tenho vergonha de alguns). Eu gostava muito de futebol, mas era uma pré-adolescente em todo o seu esplendor, portanto juntava o melhor de dois mundos (mais tarde, já no secundário, foram as imagens de claques a conquistar os meus cadernos. Estava numa fase tão estranha que até tinha imagens de claques do benfica e do sportem. Era “a minha cena”, estão a ver? Os adolescentes são insuportáveis).
Com o tempo, fui aprendendo a ter um certo recato com as minhas paixões futebolísticas. Num estádio, não ficava bem suspirar de cada vez que o Capucho tocava na bola (já disse muitas vezes este nome? Desculpem, aquelas pernas são mais fortes do que eu). Durante o jogo, os companheiros de bancada não iam perceber se eu atirasse um beijo ao Derlei (i-nex-pli-cá-vel, eu sei). Na faculdade, as amigas iam achar estranho que eu ainda usasse cadernos.
Mas elas continuam lá. Quando o Falcao deixou o Porto, parte de mim pensou que seria difícil arranjar um avançado tão eficaz como ele, e a outra parte olhou para aquela foto dele em tronco nu numas férias e concluiu que seria insubstituível. Eu odeio o benfica (surprise!!!), e racionalmente odiava o Javi Garcia, mas nunca consegui insultá-lo. Acho que as mulheres compreendem porquê.
É também por isto que eu e o Lucho somos amigos de longa data. Quando olho para as primeiras fotos dele no FCPorto, com aquele cabelo horrível tipo anos 80 e um bigodinho mal feito, nem sequer consigo perceber como é que isso aconteceu. Acho que foi num jogo em casa, não me lembro mesmo contra quem, em que eu estava na bancada ao lado da N.. Ele marcou um golo e, pela primeira vez, colocou a mão acima dos olhos, exactamente para o local onde eu estava. Eu e a N. ainda discutimos se ele estava à minha procura ou dela (estaria mais alguém no estádio?), mas, como duas raparigas que ainda gostariam de brincar às Barbies, decidimos que tinha sido para mim porque eu tinha dito primeiro. O Lucho fez dezenas de vezes o gesto (oficialmente é para um filho, pelos vistos), e continua a fazê-lo, e ainda hoje eu sorrio por um milésimo de segundo, como que a agradecer que ele ainda se lembre de mim.
Foi também por isto que, na terça-feira, quando soube que ele tinha pedido para jogar mesmo após saber da morte do pai, me apeteceu abraçá-lo. Porra, que coisa tão linda. Qualquer adepto do Porto, se dúvidas houvesse, deve estar convencido que Lucho, o nosso comandante, o nosso CAPITÃO, terá um lugar especial no nosso clube para sempre. Mas, para mim, que gosto tanto do que ele joga como daquele sorriso malandro, foi como voltar a ser uma menina apaixonada por um ídolo.
Gostar de futebol, para mim, foi claramente fruto de um pai e de um irmão que precisavam de mais alguém para dar uns toques. Não fazia sentido um deles ir à baliza e o outro chutar. Faltava alguém para cruzar, obviamente, e eu tive de preencher esse vazio. Mais por obrigação do que por gosto, é certo, mas a coisa lá se entranhou.
Nunca deixei, no entanto, de brincar com a Barbie, de me apaixonar loucamente por uma boys band de moços de cabelo comprido e voz fininha (THE MOFFATTS FOREVER!) e de escolher qual das Spice Girls eu era (Emma, como me parece óbvio). Só que isto foi passando, e a bola não.
Um dia, do nada, tirei os posters todos dos Moffatts da parede (agora que penso nisto, tenho de pedir desculpa ao meu irmão porque o quarto também era dele…). Decidi substituí-los por uma espectacular colecção do jornal “O Jogo” com a equipa completa do FCPorto 1998/1999. Falamos de craques como Rui Correia, Costinha, Fernando Mendes, Peixe, Chaínho e Secretário, tudo ali escarrapachado, para toda a gente ver.
Lembro-me que as minhas amigas J. e D., convidadas para uma festa de aniversário minha, entraram no quarto e perguntaram-me se não me importava que fosse o meu irmão a escolher o que ficava na parede. Corajosa, assumi que tinha sido eu. Elas não perceberam à primeira, mas depois mostrei-lhes como Capucho, Vítor Baía e até Folha tinham aptidões físicas que podiam perfeitamente ser equiparadas às dos Moffatts. (o Folha? A sério, Catarina?, perguntam vocês. Sim, o Folha. Na altura achávamos que era parecido com o Richard Gere (!) e à custa disso a J. ainda hoje é apaixonada por ele.) Elas aceitaram os meus argumentos.
Foi por volta dessa altura que comecei a usar cadernos em vez de uma capa com folhas e aqueles separadores tão giros às cores (isto está a ficar tão à gaja que os homens de certeza que já pararam de ler o post). Os cadernos dos rapazes estavam sempre cheios de coisas dos seus clubes. Os cadernos das raparigas eram decorados com rapazes giros. Os meus eram um pouco de ambos.
O caderno de Geografia, a minha disciplina preferida na altura, tinha vários Capuchos colados na capa e na contra-capa. O caderno de História só tinha Decos. O caderno de Português o Rubens Júnior (não me peçam para explicar). Não me lembro dos outros (e tenho vergonha de alguns). Eu gostava muito de futebol, mas era uma pré-adolescente em todo o seu esplendor, portanto juntava o melhor de dois mundos (mais tarde, já no secundário, foram as imagens de claques a conquistar os meus cadernos. Estava numa fase tão estranha que até tinha imagens de claques do benfica e do sportem. Era “a minha cena”, estão a ver? Os adolescentes são insuportáveis).
Com o tempo, fui aprendendo a ter um certo recato com as minhas paixões futebolísticas. Num estádio, não ficava bem suspirar de cada vez que o Capucho tocava na bola (já disse muitas vezes este nome? Desculpem, aquelas pernas são mais fortes do que eu). Durante o jogo, os companheiros de bancada não iam perceber se eu atirasse um beijo ao Derlei (i-nex-pli-cá-vel, eu sei). Na faculdade, as amigas iam achar estranho que eu ainda usasse cadernos.
Mas elas continuam lá. Quando o Falcao deixou o Porto, parte de mim pensou que seria difícil arranjar um avançado tão eficaz como ele, e a outra parte olhou para aquela foto dele em tronco nu numas férias e concluiu que seria insubstituível. Eu odeio o benfica (surprise!!!), e racionalmente odiava o Javi Garcia, mas nunca consegui insultá-lo. Acho que as mulheres compreendem porquê.
É também por isto que eu e o Lucho somos amigos de longa data. Quando olho para as primeiras fotos dele no FCPorto, com aquele cabelo horrível tipo anos 80 e um bigodinho mal feito, nem sequer consigo perceber como é que isso aconteceu. Acho que foi num jogo em casa, não me lembro mesmo contra quem, em que eu estava na bancada ao lado da N.. Ele marcou um golo e, pela primeira vez, colocou a mão acima dos olhos, exactamente para o local onde eu estava. Eu e a N. ainda discutimos se ele estava à minha procura ou dela (estaria mais alguém no estádio?), mas, como duas raparigas que ainda gostariam de brincar às Barbies, decidimos que tinha sido para mim porque eu tinha dito primeiro. O Lucho fez dezenas de vezes o gesto (oficialmente é para um filho, pelos vistos), e continua a fazê-lo, e ainda hoje eu sorrio por um milésimo de segundo, como que a agradecer que ele ainda se lembre de mim.
Foi também por isto que, na terça-feira, quando soube que ele tinha pedido para jogar mesmo após saber da morte do pai, me apeteceu abraçá-lo. Porra, que coisa tão linda. Qualquer adepto do Porto, se dúvidas houvesse, deve estar convencido que Lucho, o nosso comandante, o nosso CAPITÃO, terá um lugar especial no nosso clube para sempre. Mas, para mim, que gosto tanto do que ele joga como daquele sorriso malandro, foi como voltar a ser uma menina apaixonada por um ídolo.
Obrigada Lucho, diz ao teu pai que te educou muito bem.
P.S. No mesmo dia, cruzei-me com o Vítor Baía no meu local de trabalho. Apeteceu-me tanto fazer-lhe uma vénia e dizer-lhe que é o melhor jogador português de todos os tempos… Vá lá, controlei-me.
P.S. No mesmo dia, cruzei-me com o Vítor Baía no meu local de trabalho. Apeteceu-me tanto fazer-lhe uma vénia e dizer-lhe que é o melhor jogador português de todos os tempos… Vá lá, controlei-me.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
sábado, 8 de setembro de 2012
Uma infância feliz a ver o Benfica ganhar no Subbuteo
Num Natal, em Espinho, os meus pais e os meus tios guardaram-me uma prenda especial. Após toda a excitação da noite natalícia, não desconfiando eu que muita da alegria nas faces rosadas dos meus pais e tios eram devido ao vinho que tão bem acompanhava o bacalhau, deram-me uma caixa grande. Quando abri, era um jogo de subbuteo. Benfica e Setúbal na caixa que trazia ainda guarda-redes, bola e balizas. O meu pai explicou-me mais ou menos as regras e, de seguida, o meu Tio João (é a memória mais nítida que tenho dele), esquecido da regra "deixa o miúdo ganhar", bateu-me por 3-2, fazendo com que o Setúbal passasse a ser uma equipa odiada.
A Itália, lá atrás, fez muitas vezes de Belenenses. O Espinho e a Juventus na outra ponta e, cá à frente, o Boavista.
O subbuteo passou a ser a minha companhia, o meu mundo, um tabuleiro onde eu podia, finalmente, dar largas a todo o futebol que me fervilhava no corpo. Passei, então, a recortar d'"A Bola" todas - todas - as fichas de jogo para saber os onzes e suplentes de cada equipa. Só isso justifica que eu ainda diga de cor: Alfredo, Casaca, Nogueira, Barny, Caetano, Nelo, Tavares, Bobó, Marlon, Ricky e Artur para o Boavista de Manuel José. Era suposto o meu cérebro estar ocupado com coisas mais úteis, mas aquela prenda - mal sabiam os meus pais - mudou a minha vida.
Desde aí que, sozinho, passei a fazer os meus campeonatos, praticando a escrita (mal entrara na primária) em cadernos onde escrevia pacientemente Benfica - Chaves; Boavista - Porto; Chaves - Sporting e por aí adiante. Depois, ia para o campo. Óbvio que isto obrigou os meus pais a ter que me comprar montes de equipas, que coleccionei e que ainda guardo. Nos anos e no Natal, tios, pais e avós sabiam que escusavam de me vir com outros brindes: eu queria equipas, equipas, equipas. Óbvio que toda a gente me oferecia o Benfica - o que me aborrecia imenso, o Benfica já eu tinha, o Beira-Mar é que era difícil de encontrar. Lembro-me perfeitamente de pedir, meio culpado, meio contrariado, o Porto e o Sporting. Fomos à Rua de Santo António e lembro-me da sensação de culpa: pedir uma coisa aos meus pais que, sabíamos todos, era odiosa. Mas o Benfica tinha que ganhar a alguém, portanto havia que coleccionar essa gente.
Jogadores colados de equipas muito, muito, muito derrotadas
Jogava sempre na sala, em cima do tapete, que fazia com que a bola não fosse tão rápida como nos azulejos da sala e com que o campo não patinasse tanto. Os tempos dos jogos eram de 5 minutos por parte, marcados no relógio do velhinho VHS. Eu jogava pelas duas equipas e fazia o relato, em jeito de Gabriel Alves, dizendo imensos "aliiiiii", que era um vício de relato de Gabriel Alves (se virem o relato do 3-6 que está no Youtube, o Alves no relato do 3º do JVP, diz "E ALI, João Pinto..."). No fim, apontava o resultado no caderno e fazia a pontuação e a lista de melhores marcadores. Depois ia para o corredor com a bola e fazia o Domingo Desportivo, imitando os golos que haviam sido marcados naquele mundo mágico. atirando a bola contra o móvel e fazendo-me de guarda-redes desesperado, que não conseguia chegar àquele remate colocadíssimo, enquanto na minha cabeça ecoavam comentários à Domingo Desportivo.
As bolas iam várias vezes para baixo do sofá e eu metia a régua da escola a tapar atrás da baliza e às vezes livros e tudo o mais para impedir que as bolas fossem lá parar. É que se ficassem demasiado longe tinha que chamar alguém, porque eu não conseguia levantar o sofá sozinho, e, se chamasse muitas vezes, mais cedo ou mais tarde o jogo pararia.
Um fiscal de linha que, pisado, teve que ficar com a bandeira colada ao cotovelo
Quando eu jogava subbuteo, as equipas arrumavam-se tacticamente, exactamente na disposição que os jornalistas d'"A Bola" haviam escalado a equipa no diagrama. O Paneira, sabia eu, era aquele boneco na meia direita. E várias vezes flectia para o meio e marcava. Antes de chutar eu fazia o relato "Perde a bola o Belenenses e, ALI, Paneira a rematar... GOOOOOLOOOOOO. GOOOOOOLO DO BEN-FI-CA!" e juntava os jogadores, como se eles se abraçassem, mas não muito, porque depois tinha que os distribuir outra vez pela táctica e os minutos no VHS passavam rápido e tinha que mudar de campo.
O Benfica, nas minhas mãos, era cheio de ases e de craques, e os outros, nas minhas mãos, falhavam passes atrás de passes e passavam a bola ao Paneira e só marcavam golos ao Neno se o Benfica já tivesse 4 ou 5 de vantagem e os minutos no VHS já estivessem quase a anunciar o escaldante Beira-Mar - Estoril que se seguiria.
Uma vez uns amigos do meu pai foram jantar a nossa casa e tive que arrumar as coisas mais cedo. Estava eu, pacientemente, a arrumar um Penafiel-Sporting (3-0 Penafiel, lembro-me bem), quando o Ninito, um amigo do meu pai, Benfiquista doente - e, logo, uma pessoa fantástica - me pediu um dos meus cadernos. Lembro-me perfeitamente dos risos quando ele disse: "Isto é que é um filho: 8 jornadas e o Sporting tem 0 pontos". Eles riram-se muito e hoje eu também me rio, mas na altura lembro-me de pensar que, se calhar, mas só se calhar, eu fazia alguma batota. Mesmo com a sensação que estava a prejudicar ligeiramente os de alvalade, a época acabou por não melhorar para eles, acabando numa escandalosa descida que mereceu especial reportagem no corredor de minha sala. Como não tinha assim tantas equipas, no ano seguinte jogaram de novo o campeonato e, tragicamente, desceram mais uma vez.
Mas nem tudo foram rosas para o Glorioso. Já com 5 títulos na manga (sim, eu lembro-me de tudo isto vivamente), numa manhã de sábado, enquanto davam desenhos-animados, jogava-se o muito aguardado jogo do título. Adivinharam: Benfica-Farense (um crónico segundo lugar). Estava eu muito bem a brincar, a fazer os relatos na minha cabeça e às vezes alto e o Benfica a ganhar 2-0, quando a minha irmã, cansada de fazer os TPCs, resolve chatear-me e dizer que quer jogar. Eu lá lhe explico: quem ganhar é campeão, Benfica-Farense, está 2-0 e tal e ela diz que vai jogar pelo Farense. A minha irmã é 6 anos mais velha do que eu, portanto tive que comer e calar. Falhei o 3-0 com o Yuran (era tão mais fácil quando eu segurava o guarda redes adversário, ainda por cima com a mão esquerda...) e ela fez 2 golos (fez batota de certeza). 2-2. E agora? Agora, penalties. Perdi. Fiquei furioso, mas tive que escrever no caderno: Farense campeão. Foi, até eu deixar de jogar, a única mancha no incólume palmarés Benfiquista.
Farense campeão. Como não tinha o nome dactilografado para o placard, tive que o escrever.
Vieram depois as descobertas: as equipas na Europa, as selecções. O Espinho deixou de ser o Espinho e passou também a Juventus. O Braga a Arsenal, o Estoril a Suécia. O Chaves passou também, vejam lá, a ser o Barcelona. Torneios e torneios (às vezes sem o Benfica, para equilibrar) sucederam-se na sala. Escrevia folhas e folhas sobre Taças Uefas imaginárias, fazia sorteios, desenhava os jogos, fazia tudo. Deram-me, dois Natais mais tarde, um placard. Delirei. Folhas e folhas com nomes de equipas para eu recortar e meter no placard, dando cada vez mais verosimilhança ao meu mundo, fazendo-me aprender a escrever Tottenham Hotspur e a ver ali, magicamente dactilografado, BENFICA. Havia o Milan, a Juventus, o Real. Mas havia o Benfica. Amava aquele placard.
O campo era cada vez mais real. E as caixas onde vinham as equipas eram os autocarros para os jogos. O meu avô e o meu pai davam-me equipas e viam, deliciados, os jogos. Aliás, muitas das equipas eu nem sequer queria - estou a falar a sério - porque em princípio não jogariam com o Benfica, mas o meu avô achou um escândalo eu não ter a selecção holandesa (que viria, num torneio de Verão, em Espinho, a ser o Blackpool). E vai daí, decidiu dar-me éne selecções. Fiz um Mundial aos pés dele na casa dos meus avós, ficando ele felicíssimo pela minha alegria a comemorar o Mundial com a Argentina que ele me oferecera.
A primeira vez que viajei na vida - sou um rapaz com mesmo muita sorte - foi a Londres, com 9 anos. Lembro-me do Big Ben, do museu de História Natural, de nunca deixar de dar a mão aos meus pais. Mas do que me lembro melhor foi de entrar numa loja que só vendia subbuteo. O céu. Pessoal: o céu. Abri muito os olhos de alegria, o meu pai pegou-me no ombro, levou-me lá para fora e disse-me: "Porta-te bem. Escolhes duas equipas, é a tua prenda." Concentrei-me. Revirei a loja. Comprei o Milan (Savicevic, Boban, Maldini) e o PSG (Valdo, Ginola, Ricardo Gomes). A equipa do PSG tinha umas tiras nas mangas. Era a primeira equipa que eu via pintada assim. Pareceu-me que tinha comprado um palácio.
Reparem nas mangas. Que delícia.
JVC. Mítico.
Muitas vezes repetiram estes bonecos o 4-4 em Leverkusen.
Apesar de ter sido uma criança relativamente solitária no mundo do subbuteo, muitos clássicos partilhei com o meu grande amigo Tiago Palma. Companheiro de carteira desde os 6 anos, foi o Tiago que me explicou a regra dos golos fora nas competições europeias, distraindo-me tanto nessa aula, que ainda hoje não consigo fazer contas de dividir por números com mais de um dígito. Partilhámos muitas futeboladas no pátio da escola, no parque perto de minha casa e na rua atrás de casa dele. Farenses-Benfica e Benficas-Farense sucediam-se até à exaustão. Sem entrar nos campeonatos que até tinham direito a caderno - porque isso envolvia uma perseverança e uma rectidão que me obrigava a fazer disputar nebulosos jogos como Setúbal-Porto antes de ir dormir-, travámos duelos mortais na minha sala e na dele. Como os bonecos de subbuteo eram relativamente frágeis e os duelos entre nós aguerridos e bem disputados (quem nunca perdeu pontos no São Luís que atire a primeira pedra!), passámos a jogar com os bonecos dos bolos de anos, feitos em PVC, mais maleáveis e transportáveis. Pintámos os do Sporting de preto, o alternativo do Farense, e jogámos até ao infinito.
A rapaziada com que eu e o Tiago pontificávamos.
São os meus brinquedos que nunca deixei a minha mãe dar. Aprendi a escrever e a contar com eles. Tenho memórias vivas de jogos, de torneios, de coisas que aconteciam à minha volta enquanto o Benfica triunfava sem parar em Portugal e no estrangeiro, no tapete verde e as repetições do corredor. Não encontro subbuteos em lado nenhum e gostava de continuar a coleccioná-los.
Não gosto muito de dedicatórias, mas neste tem de ser: um abraço ao Tiago Palma pelas tardes a ver futebol a jogar futebol e a conversar sobre futebol, e um obrigado aos meus pais, por me terem feito uma criança tão feliz.
Esta é a equipa do meu coração. Vermelha e branca, altiva e humilde, com garra e técnica. O Benfica da minha infância, o Benfica que ficou, para sempre, guardado no meu coração.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Gota d'água
Não consigo perceber por que é que não temos meio campo. Até
consigo: a direcção e a equipa técnica do Benfica são atrasados mentais ou,
simplesmente, não querem saber. As duas hipóteses revelam que estão a mais. Que
Ruben Amorim esteja num rival e Nuno Coelho sabe-se lá onde são só cerejas no
topo de um bolo. Ou de um castelo de cartas prestes a ruir. A liderança com o
melhor ataque é uma ilusão que talvez nem o mais incauto dos Benfiquistas já
iluda. Adivinha-se (mais) uma intempérie.
Quando Witsel entrou contra aqueles turcos na pré-eliminatória o ano passado, qualquer pessoa com dois dedos de futebol presente na Luz percebeu que estava ali ouro. Possante e com uma técnica que várias vezes o fazia parecer um jogador de futsal (a maneira como pisava a bola e a conduzia), Witsel era o jogador “à futebol europeu” do Benfica. Tal como Ramires, era óbvio que ia sair, mais cedo ou mais tarde. Não valia a pena sonharmos com um novo Paneira, com um futuro capitão. Witsel, com o seu ar urbano e aquele futebol todo, ia sair. Só não sabíamos que tão cedo, e sem ser campeão. Desperdícios destes não se admitem. Foi um prazer vê-lo na Luz, foi um horror vê-lo desperdiçado na táctica de Jesus, foi um negócio do caraças (não estivesse o SLB falido e podíamos falar do “vender bem” do Benfica. Mas quando se vende para pagar juros…).
Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Quando Witsel entrou contra aqueles turcos na pré-eliminatória o ano passado, qualquer pessoa com dois dedos de futebol presente na Luz percebeu que estava ali ouro. Possante e com uma técnica que várias vezes o fazia parecer um jogador de futsal (a maneira como pisava a bola e a conduzia), Witsel era o jogador “à futebol europeu” do Benfica. Tal como Ramires, era óbvio que ia sair, mais cedo ou mais tarde. Não valia a pena sonharmos com um novo Paneira, com um futuro capitão. Witsel, com o seu ar urbano e aquele futebol todo, ia sair. Só não sabíamos que tão cedo, e sem ser campeão. Desperdícios destes não se admitem. Foi um prazer vê-lo na Luz, foi um horror vê-lo desperdiçado na táctica de Jesus, foi um negócio do caraças (não estivesse o SLB falido e podíamos falar do “vender bem” do Benfica. Mas quando se vende para pagar juros…).
Já Javi foi um soco na alma. Javi Garcia podia ter sido um
Paneira, podia ter sido um daqueles estrangeiros míticos, à Benfica. Podia ter
sido um Thern, um Schwartz, um Isaías. Quando Javi marcou o golo aos lagartos, o ano passado,
sorriu para a bancada como um adepto do Benfica. Tinha saltado mais alto do que um
dos de verde e cabeceou seco um delicioso centro de Aimar. Não fez os corninhos
do Isaías no 3-6, mas sorriu como ele. Para sempre já tinham ficado as imagens
de Javi, podre de bêbado, a festejar o título e a gritar juras de amor a um
clube que ele, claramente, não sabia ser tão grande. Sem os pés de Witsel, Javi
sempre foi cheio de entrega, sempre cheio de concentração. Javi Garcia foi
daqueles medíocres que, vestido à Benfica, se tornou gigante. Odiado pelos
rivais, Javi jogava sempre de dentes cerrados, sempre a suar a camisola, sempre
a dar tudo. Em Javi vi o Benfica que sonhei e que cheguei a ver. Javi Garcia empatizou imediatamente com as bancadas e as bancadas com ele. Javi parecia carregar as alegrias do passado e uma raiva nos dentes devido às derrotas do presente. Merecia o nome nas camisolas, merecia a aprovação até de um céptico como eu. Sonhei-o capitão.
Mas a vida não está para sonhos e muito menos o Benfica. Num
futebol mercantilizado, com milionários tristes e praticamente sem símbolos, não
há espaço para o coração infantil que me palpita quando o Benfica joga. Num
clube onde ninguém percebeu que haveria médios centro a menos, que é o mesmo
que não saber as vogais todas do alfabeto, poderemos nós estar preocupados com
símbolos, com mística, com magia?
Às vezes fico tão preocupado com o Benfica, com os erros
perpétuos, com degenerações, que me esqueço o quanto gosto deste clube. Acho
que essa é a maior tristeza que estas derrotas todas me deram: sofro tanto que
me esqueço do amor que tenho às camisolas vermelhas, ao terceiro anel cheio,
aos gritos BEN-FI-CA BEN-FI-CA BEN-FI-CA até não ter ar nos pulmões.
Não posso deixar que me tirem este amor. E antes de me
preocupar outra vez com o buraco no nosso meio campo, vou ficar triste por
Javi, afinal, não ser o Thern dos meus dias. O meu Benfiquismo merece isso.
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
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