Tenho imensa pena de não ter nascido com um dom. Gostava de
saber dançar, de conseguir cantar ou de aprender a tocar saxofone como a Lisa
Simpson. Mas nada. Não há arte neste mundo que me tenha caído em sorte. Nadinha
de nada. Se um dia o mundo acabar e os que fazem algo de extraordinário puderem
sobreviver numa espécie de arca, eu estou tramada.
Já aqueles que o têm cheiram-se à distância. Eu não vi
Maradona jogar mas sei que tem lugar garantido. Messi tirará o lugar a Noé.
Ronaldo comprará um lugar para entrar. E entre os outros, os que fazem parte
deste planeta, há muitos e cada vez mais que passam por nós.
Lá na frente, onde o dom é mais decisivo, só nos últimos
anos tivemos a sorte de ter Lisandro, o prazer de conhecer Falcao e o orgulho de
ver Hulk de azul e branco. O primeiro continua a ser muito bom, o segundo é o
melhor de todos e o terceiro é nosso e há-de ser. Mas não é deles que vos quero
falar, porque no Futebol Clube do Porto não vivemos do passado.
Eu, normalmente e à semelhança da maioria dos portistas,
sou uma adepta muito desconfiada. Nunca acredito em quem chega com rótulo de
estrela, duvido sempre das capas de jornais espampanantes e demoro muito tempo
a convencer-me que ali, naquele Lisandro, naquele Falcao ou naquele Hulk,
existe um dom.
Este ano, no entanto, confesso que me sinto fácil. Não sei o
que se passa, se é de mim ou dos sete jogos da Liga consecutivos a marcar, mas
Jackson Martinez atingiu-me em cheio.
Talvez tenha sido aquele golo contra o sportem, embora contra
estas equipas que lutam pela manutenção a tarefa de um ponta-de-lança esteja
naturalmente facilitada. As costas viradas para o guarda-redes, como se o
ignorasse, a bola a quase parar na coxa, com respeito, e o calcanhar que só se percebe bem à
terceira repetição. Talvez tenha sido isso.
Ou talvez seja pelas inúmeras vezes em que aparece no sítio
certo. Aqueles cruzamentos dos colegas que parecem todos certeiros, a bola que
sobra do adversário para ele ou o leve encostar lá para dentro. Talvez seja
isso também.
Ou então foi aquela bola que ele salvou num canto contra
nós, ou aquela recuperação no meio-campo, ou aquela abertura para a direita (ou
terá sido para a esquerda?) que enganou os defesas, ou aquela desmarcação
exemplar quando os colegas trocavam a bola a mil quilómetros por hora, ou
aquela calma arrepiante em frente ao guarda-redes. Pode ser isso, sim, admito.
Não sei o que se passa, mas há algo em Jackson que me faz
acreditar que há ali um dom. Não sei se são golos, se são fintas, se é técnica,
se é força, se é talento, se é sorte. Para já, sabe-me bem a dança.
P.S. Belo jogo na sexta, tanto da parte da equipa como dos adeptos. É mesmo assim que queremos, mister.
P.S.2 Não vou falar da arbitragem do "pode ser o João", a sério que não vou.
P.S.3 Faltam ___ dias para acabar o sportem.
Partilhamos amigos e famílias. Partilhamos almoços e jantares. Partilhamos livros e discos. Partilhamos viagens e segredos. Partilhamos uma casa e uma vida. Só não partilhamos o clube.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Carta ao André Gomes
André,
Ontem estava no sofá a ver a tua estreia. Gostei. Há algo em
ti que me faz gostar de te ver jogar. Não te vou mentir: só te espreitei em 4
ou 5 jogos da equipa B, não sigo a tua carreira desde os 11 anos ou algo
parecido, mas gostei do que vi. E o que é que te interessa isso?
Sem modéstias, André, eu já estou na triste idade – 28 anos
– onde os jogadores de futebol já são, na sua maioria, mais novos do que eu. E
essa é uma idade dramática porque um tipo racional, como eu sou, percebe que o
sonho da sua vida (ser jogador de futebol, que é o sonho de todos as pessoas do
mundo com alguma noção da grandeza) já não dá. Isto é estúpido porque eu,
racionalmente, percebi que não ia ser jogador de futebol quando aos 15 anos
deixei de ser convocado no Farense porque faltava a treinos para estudar, numa
clara noção de falta de prioridades (hoje eu e a Catarina viveríamos em
Barcelona e eu trocava a bola com Messi – jogava em vez do Alexis, se te
estiveres a perguntar – e eu não tinha quase adormecido (eu disse quase) na
segunda parte por ter feito urgência de 24 horas no dia anterior).
Cheguei à idade da razão, sem ilusões. Estou consciente de
que não vou ser jogador de futebol. Mas, dado que o meu pai me treinou para
isso desde os 3 anos, estou numa fase de intelectual da bola – com blog e tudo
– convencido que a minha opinião vale muitíssimo. Já não digo que gosto de ver
a Série A, que era o que os intelectuais do futebol diziam nos anos 90 e
príncipios dos anos 2000 (e eu gostava – verdadeiramente – de ver a Série A),
mas continuo convencido – apesar deste empecilho da Medicina – de que a minha
opinião vale alguma coisa. E digo isto sem vaidade. É a coisa de que eu percebo
mais na vida e um tipo tem que ter amor próprio. Se eu tivesse que responder a
três perguntas para salvar a minha vida e me perguntassem uma categoria eu não
escolhia Medicina, eu diria: “Benfica, anos 90, se faz favor”. Portanto, isto é
a única coisa em que eu considero que a minha opinião é mesmo válida e, vamos
lá tornar as coisas interessantes, uma autoridade.
E faço-te este preâmbulo, André, para que me leves a sério.
Para que se torne importante para ti, que és mais novo do que eu (e isso
custa-me), de que eu acho que tu podes vir a ser um bom jogador de futebol.
Perguntar-te-às: posso vir a ser? Sim, ainda não o és. Prefiro entregar o meio
campo do clube do meu coração a um sérvio que mal sabe correr do que a ti. Não
porque tu não possas vir a ser melhor do que ele, mas agora não és. E eu não
quero perder pontos com o Gil Vicente para te ver crescer, André. Não és assim
tão importante. Ninguém é suficientemente importante para eu admitir que o
Benfica pode perder pontos.
E como é que eu sei que tu podes vir a ser um bom jogador,
André? Por várias coisas, a primeira pela maneira como tu corres. O Rosa, da
equipa B, também é bom jogador e seria útil no plantel, mas nunca será um
craque. É daqueles tipos que corre como se o mundo acabasse amanhã. Não
obstante a extrema utilidade de jogadores assim em qualquer plantel, é fácil
observar que nenhum génio tem pressa quando joga à bola. Xavi, Iniesta e mesmo
Messi, na sua velocidade estonteante, nunca parecem ter pressa. É óbvio que tu
nunca serás nenhum destes três, mas podes atingir um patamar que, mesmo a
mundos de distância destes extra-terrestres, pode ser de alto rendimento para o
Benfica. E isso far-me-ia muito feliz.
Dizia-te que corres sem pressa, que jogas de cabeça
levantada (daí as exageradas comparações com Rui Costa que era de uma elegância
quase absurda com a bola nos pés) e tens uma qualidade de passe
surpreendentemente madura. Explico-me: o Carlos Martins tem qualidade de passe,
mas passa a bola excessivamente “com truque”. Ora dá efeito, ora coloca o pé
por baixo, à futsal, ora tenta o passe impossível, à Zidane. Quando resulta, é
esteticamente muito bonito e vai parar ao Youtube. Mas é uma mania que custa várias
jogadas perdidas e que é um desperdício em quem tem os pés do Carlos Martins. E
isto é porque o Carlos Martins, mesmo com quase 30 anos, ainda não tem
maturidade a jogar à bola. Ainda não percebeu que já não vai ser o Maradona. Já
tu pareceste-me bater sempre a bola seca e com destino e não parecia só aquele
medo que os miúdos têm na estreia. E isso agrada-me. És pragmático, no melhor
dos sentidos possíveis.
Agradou-me, também, a recepção antes do golo. O remate
pareceu-me demasiado para cima e, pela tua linguagem corporal, percebeste
imediatamente que a bola subiu muito. Mas a recepção teve nível. Não faz – só por
si – de ti um bom jogador, mas agradou-me. Porque um tipo que é mau nunca
recebe a bola como tu recebeste. Um tipo bom, ou que tem tudo para vir a ser
bom, recebe. Acho que é das coisas mais difíceis de fazer e que é um bom
medidor da capacidade técnica de um jogador. Iniesta parece falar com a bola
para a acalmar e Zidane tinha uma recepção de veludo. Na recepção daquele passe
– que não era propriamente difícil, convenhamos – passaste o nível básico de
recepção. Se não a tivesses segurado tão redonda, não te escrevia.
Venho então dizer-te, André, que tu podes vir a ser um bom
jogador do Sport Lisboa e Benfica. E isso significa que me poderás dar
alegrias, que as minhas semanas podem ser melhores por tua causa. Significa uma
responsabilidade enorme, mas uma dignidade ainda maior.
É óbvio que a minha opinião vale o que vale. Ou seja, muitíssimo
para mim, nada para o resto do mundo. Eu já vi muitos jogadores com grande
potencial falharem. E muitos que ficaram aquém do seu valor. Mais houve em quem
o resto do mundo viu potencial e eu nunca e também falharam: o Hélio Roque, o
Rui Baião, tipos desse género.
Portanto isto agora depende de ti. Talvez seja isto seja um
bocado de projecção minha: tu és um tipo alto e com barba por fazer, e talvez
eu veja em ti quem eu poderia ter sido como jogador do Benfica e portanto
imagine este talento todo. Aí, meu caro, nem te peço desculpa pelo incómodo, e
só me resta rir de mim. Com sorte, poucos se lembrarão deste texto. Com azar,
enquanto te arrastares no Rio Ave aos 30 anos e marcares um golo, alguém me
mandará este texto por e-mail.
Mas se tu fores mesmo bom como eu acho que tu podes vir a
ser, aproveita. Corre, treina, trabalha. Dá a vida por isso, André. É que eu já
tenho 28 anos e, para mal dos meus pecados, já não posso levantar o Estádio da
Luz (até porque, quando for treinador do Glorioso, o meu génio táctico não será
aplaudido como um golo e o público baterá palmas aos idiotas úteis que eu coloquei
de forma genial em campo). Mas reconheço em ti o potencial para tal. Portanto
esfola-te e chega lá.
É que sabes, André: aos 28 anos, mesmo com uma vida perfeita
e cheio de saúde, eu ainda me imagino a ganhar um derby no último minuto, à
chuva, com 10 nossos contra 11 deles, depois de fintar 3 lagartos e picar a
bola sobre o guarda-redes. E às vezes, quase que juro, parece-me mesmo nítido
ver a Luz aos saltos e sinto a camisola vermelha carregada de suor e chuva colada
ao meu corpo enquanto levanto os braços e corro de alegria. Mas é só um sonho.
Resta-me ficar na bancada, com a mesma camisola carregada de suor e chuva, à
espera que um de vós, já mais novo do que eu, faça isso por mim.
Um abraço,
Manel
PS: já sei que foste formado e até adepto daquele clube de azul. São manchas no passado que só vários títulos de águia ao peito podem limpar.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Vota Vieira
Camaradas, está na hora de definirmos posições. Ou estamos
de um lado, ou estamos do outro. Fora o Paulo Portas, claro. Vivemos tempos
difíceis, instáveis e incertos, em que ninguém sabe qual é o melhor caminho.
Mas eu já escolhi: estou com Luís Filipe Vieira.
Vieira a primeiro-ministro
Desde logo porque, para mim, os sócios do Futebol Clube do
Porto estão sempre em primeiro lugar. Se é para entregar algo nas mãos de
alguém, que seja em quem eu já sei que vai lutar pelos mesmos interesses do que
eu.
Vieira a ministro das Finanças
Soube que Vieira era a melhor opção quando valorizou
Mantorras até aos 18 milhões de contos.
Vieira a ministro dos Assuntos Parlamentares
As pessoas já não acreditam nos mesmos de sempre, estão
fartas, precisam de uma alternativa. Com Vieira, teremos certamente “um novo
ciclo”.
Vieira a ministro da Justiça
Precisamos de alguém que conheça o sistema por dentro, por
isso nada melhor do que um condenado por roubo.
Vieira a ministro da Administração Interna
Temos de reforçar a segurança. Há malucos a atirarem
petardos em assembleias-gerais, a pintarem paredes e a denunciarem as
trafulhices cá para fora. Só Vieira pode chamar os capangas que roubaram o
Moretto ao Porto (muito obrigada, meus caros, devo-vos esta).
Vieira a ministro dos Negócios Estrangeiros
Agradeçamos ao homem que, só para dar um exemplo, descobriu
Falcao.
Vieira a ministro da Educação
Está na altura de segurar os nossos jovens, de deixarmos de
exportar o nosso melhor produto para outros países. Com Vieira, não há
conselhos à emigração (Nelson Oliveira, pára de ler o post). Queremos a “coluna
vertebral” da selecção.
Vieira a ministro da Saúde
Chega de colocar o Serviço Nacional de Saúde nas mãos dos
profissionais… de Saúde. Exigimos um gestor, alguém que possa racionar os
tratamentos. Com Vieira, o homem que não gosta da maneira de jogar de Hulk,
temos olho clínico assegurado.
Vieira a ministro da Economia
Andámos a viver acima das nossas possibilidades.
Adivinham-se tempos em que os presidentes terão de andar em cuecas e só Luís
Filipe Vieira tem experiência nisso.
Vieira a ministro da Defesa
Aqueles vândalos do Norte já fizeram tudo: deram cinco no
Dragão, foram campeões na luz e deram a volta a uma desvantagem de cinco pontos
no campeonato. Se votarem em Vieira, é difícil serem mais atacados do que isto.
Vieira a ministro da Agricultura
Estamos a semear um futuro melhor. As modalidades já ganham
títulos e a águia continua a ajudar ao bom ambiente na luz. Não fosse o Porto e
aquela coisa chamada futebol, e o mundo era lindo.
Vieira a ministro da Segurança Social
O buraco é grande, já se sabe, mas Vieira e os seus negócios
esquisitos com Madrid e Angola prometem tapá-lo, dê por onde der.
Se isto não for suficiente para vos convencer (como é possível, seus ingratos?), então têm sempre a opção de votar no outro candidato,
aquele que eu nem sabia que era lampião até há uma semana atrás.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
1-0, o empate
Não há paciência para este sportem. Acho que é a primeira vez que digo isto na vida e custa-me, porque o sportem já me deu muitas alegrias e eu não gosto de ser ingrata. Mas a minha relação com o sportem está a passar uma fase muito difícil: a indiferença.
Tornei-me numa daquelas pessoas que nem vê os jogos do sportem e só muda de canal de vez em quando para conferir o resultado, como faço com qualquer paços de ferreira-moreirense. Não é por mal, juro, mas é que já nem quero saber. Já passei muitos anos a adormecer durante jogos do sportem, mas nem querer ver é muito grave. É que eu vejo muita coisa inútil, mas o sportem não aguento.
Cheguei a pensar que tinha de procurar ajuda clínica. Precisei que alguém me desse um comprimido de anti-lagartismo, uma coisa assim do género. Ansiava pelo dia em que um Barroso qualquer tentasse discutir futebol comigo, para eu me lembrar do quanto não gosto deles. Esperei e tive sorte: o Porto-sportem chegou.
Chegou, mas ainda assim foi difícil não adormecer. Valeu-nos aquele golaço do Jackson, que me está a fazer acreditar que voltámos a descobrir um craque. Depois foi o normal contra estas equipas da segunda metade da tabela: o Porto ficou à espera que o jogo terminasse. Claro que, às vezes, estes clubes pequenos apanham-nos distraídos, arrancam em contra-ataque, sacam um livre manhoso, e marcam um golo quase sem querer. Vá lá que o sportem nem isso.
O sportem saiu do Dragão sem fazer absolutamente nada. Eu, que sinto o pânico a apoderar-se de mim de cada vez que um adversário passa o meio-campo, só me preocupei quando uma bola entrou na nossa área sem saber o que estava ali a fazer e vi aquele ao qual chamam "ponta-de-lança" do sportem praticamente desmarcado. Vá lá que ele nem acertou nela.
Se o jogo tivesse terminado ao intervalo (que tinha sido um favor que faziam aos adeptos de futebol), os lagartos nem podiam queixar-se daquela falta de sorte que tanto abunda em alvalade, aquela que os fez mandar uma bola ao poste e, na mesma jogada, sofrer o 3-1 que lhes tirou uma Taça UEFA na própria casa. Façamos uma pausa, então, para recordar esse belo dia. Pronto, adiante.
Mas não, a horrível segunda parte trouxe dois penáltis a favor do Porto e um lagarto expulso. Meu deus, que ultraje!!! Desta ninguém esperava daquela malta que já nos roubou uns quantos bem mais escandalosos do que aqueles, e ainda agora a época começou. Então eu, que como qualquer adepto que se preze nunca admito que um adversário se sinta roubado, estudei atentamente os argumentos verdes.
Ora portanto, o problema do penálti do Cedric, e isto é unânime, não é ele dar com o braço na bola. Dizem eles, baseados numa regra moral desesperada, que ele estava sozinho com a bola, portanto era completamente estúpido marcar penálti. Corrijo: marcá-lo foi correcto, porque há um jogador que, dentro da área, coloca o braço a jeito para dominar a bola; fazê-lo é que foi estúpido, mas aí, meus caros, falem com o Cedric.
Quanto ao vermelho, ainda ouvi alguns com a cassete do costume, que no Dragão é sempre assim e não sei quê. Não sei do que falam, mas sei que o Rojo (nome que, a propósito, lhe cai tão bem) devia até ter sido expulso antes. Vejam bem as entradas do menino e, depois, dêem-lhe daqueles comprimidos do Sá Pinto (paz à sua alma) para o acalmar.
E agora, minhas senhoras e meus senhores, um momento único: eu também acho que não há penálti sobre o Jackson. É verdade que a câmara não é nada esclarecedora, estamos a ver o lance por trás, mas, atendendo aos membros do jogador de verde (já vi o lance tantas vezes que deu para reparar em cada braço e em cada perna), não me parece que, além do habitual chega para lá um ao outro, tenha existido falta.
O que é certo é que, se o árbitro não tivesse roubado escandalosamente o sportem, tinham saído do Dragão com um belo empate de 1-0, subiam para um honroso 11º lugar na tabela classificativa, até à frente do portentoso estoril, e o treinador às tantas até podia continuar a ser este até mais uma ou outra humilhação com um Xiripiton qualquer. É uma vergonha isto.
Lá tive eu de lembrar-me o que é o sportem e do tanto que não gosto de um clube assim, acabado como grande, triste até para os seus rivais, e que, como diz um grande lampião, está tão morto que não percebe que aqueles pequenos e breves momentos em que se levanta, começa a esbracejar e dá uns saltinhos enquanto ganha ao gil vicente, não passam de espasmos provocados por um desfibrilhador.
Mas eles lá andam, à espera de uma santa milagrosa de um Scolari qualquer, a acreditar que o sportem ainda existe. E eu voltei ao mesmo, não quero saber, já passou, vem aí o estoril que se mostrou melhor do que eles e eu estou preocupada é com o facilitismo que a minha equipa por vezes dá.
O sportem, para mim, tornou-se um daqueles primos distantes, com quem não temos relação absolutamente nenhuma e que vemos apenas de tempos a tempos, num casamento ou num baptizado, em que lhe perguntamos, mais por simpatia do que por interesse genuíno: - Então, está tudo bem? E ele diz-nos que sim, que está bem, mesmo que o cão tenha morrido, o filho esteja doente e a mulher tenha fugido com outro.
Tornei-me numa daquelas pessoas que nem vê os jogos do sportem e só muda de canal de vez em quando para conferir o resultado, como faço com qualquer paços de ferreira-moreirense. Não é por mal, juro, mas é que já nem quero saber. Já passei muitos anos a adormecer durante jogos do sportem, mas nem querer ver é muito grave. É que eu vejo muita coisa inútil, mas o sportem não aguento.
Cheguei a pensar que tinha de procurar ajuda clínica. Precisei que alguém me desse um comprimido de anti-lagartismo, uma coisa assim do género. Ansiava pelo dia em que um Barroso qualquer tentasse discutir futebol comigo, para eu me lembrar do quanto não gosto deles. Esperei e tive sorte: o Porto-sportem chegou.
Chegou, mas ainda assim foi difícil não adormecer. Valeu-nos aquele golaço do Jackson, que me está a fazer acreditar que voltámos a descobrir um craque. Depois foi o normal contra estas equipas da segunda metade da tabela: o Porto ficou à espera que o jogo terminasse. Claro que, às vezes, estes clubes pequenos apanham-nos distraídos, arrancam em contra-ataque, sacam um livre manhoso, e marcam um golo quase sem querer. Vá lá que o sportem nem isso.
O sportem saiu do Dragão sem fazer absolutamente nada. Eu, que sinto o pânico a apoderar-se de mim de cada vez que um adversário passa o meio-campo, só me preocupei quando uma bola entrou na nossa área sem saber o que estava ali a fazer e vi aquele ao qual chamam "ponta-de-lança" do sportem praticamente desmarcado. Vá lá que ele nem acertou nela.
Se o jogo tivesse terminado ao intervalo (que tinha sido um favor que faziam aos adeptos de futebol), os lagartos nem podiam queixar-se daquela falta de sorte que tanto abunda em alvalade, aquela que os fez mandar uma bola ao poste e, na mesma jogada, sofrer o 3-1 que lhes tirou uma Taça UEFA na própria casa. Façamos uma pausa, então, para recordar esse belo dia. Pronto, adiante.
Mas não, a horrível segunda parte trouxe dois penáltis a favor do Porto e um lagarto expulso. Meu deus, que ultraje!!! Desta ninguém esperava daquela malta que já nos roubou uns quantos bem mais escandalosos do que aqueles, e ainda agora a época começou. Então eu, que como qualquer adepto que se preze nunca admito que um adversário se sinta roubado, estudei atentamente os argumentos verdes.
Ora portanto, o problema do penálti do Cedric, e isto é unânime, não é ele dar com o braço na bola. Dizem eles, baseados numa regra moral desesperada, que ele estava sozinho com a bola, portanto era completamente estúpido marcar penálti. Corrijo: marcá-lo foi correcto, porque há um jogador que, dentro da área, coloca o braço a jeito para dominar a bola; fazê-lo é que foi estúpido, mas aí, meus caros, falem com o Cedric.
Quanto ao vermelho, ainda ouvi alguns com a cassete do costume, que no Dragão é sempre assim e não sei quê. Não sei do que falam, mas sei que o Rojo (nome que, a propósito, lhe cai tão bem) devia até ter sido expulso antes. Vejam bem as entradas do menino e, depois, dêem-lhe daqueles comprimidos do Sá Pinto (paz à sua alma) para o acalmar.
E agora, minhas senhoras e meus senhores, um momento único: eu também acho que não há penálti sobre o Jackson. É verdade que a câmara não é nada esclarecedora, estamos a ver o lance por trás, mas, atendendo aos membros do jogador de verde (já vi o lance tantas vezes que deu para reparar em cada braço e em cada perna), não me parece que, além do habitual chega para lá um ao outro, tenha existido falta.
O que é certo é que, se o árbitro não tivesse roubado escandalosamente o sportem, tinham saído do Dragão com um belo empate de 1-0, subiam para um honroso 11º lugar na tabela classificativa, até à frente do portentoso estoril, e o treinador às tantas até podia continuar a ser este até mais uma ou outra humilhação com um Xiripiton qualquer. É uma vergonha isto.
Lá tive eu de lembrar-me o que é o sportem e do tanto que não gosto de um clube assim, acabado como grande, triste até para os seus rivais, e que, como diz um grande lampião, está tão morto que não percebe que aqueles pequenos e breves momentos em que se levanta, começa a esbracejar e dá uns saltinhos enquanto ganha ao gil vicente, não passam de espasmos provocados por um desfibrilhador.
Mas eles lá andam, à espera de uma santa milagrosa de um Scolari qualquer, a acreditar que o sportem ainda existe. E eu voltei ao mesmo, não quero saber, já passou, vem aí o estoril que se mostrou melhor do que eles e eu estou preocupada é com o facilitismo que a minha equipa por vezes dá.
O sportem, para mim, tornou-se um daqueles primos distantes, com quem não temos relação absolutamente nenhuma e que vemos apenas de tempos a tempos, num casamento ou num baptizado, em que lhe perguntamos, mais por simpatia do que por interesse genuíno: - Então, está tudo bem? E ele diz-nos que sim, que está bem, mesmo que o cão tenha morrido, o filho esteja doente e a mulher tenha fugido com outro.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
O amante ingénuo e sentimental
Gosto muito de futebol. Tenho respeito pelo jogo, pela sua história e pelas suas histórias. Vejo jogos antigos, procuro coisas que não conheço, sobretudo, claro, sobre o meu clube.
Acho que a única metáfora válida para isto é, lamentavelmente, a do amor. A Catarina já escreveu sobre isso acerca da saída do Villas-Boas. Talvez não qualifique como metáfora e seja isso o que é: amor. Parece duro e inconcebível: pode alguém amar um clube, um jogo? Para mim, sim.
Enervei-me há uns dias com o inacreditável Marselha-Benfica, a primeira mão, de onde saímos vivos com 2-1, depois de levarmos três lindas bolas aos ferros e tirarmos duas em cima da linha, permitindo-nos chegar vivos à Luz contra uma equipa que tinha Papin, Mozer e Waddle. E, já agora, o príncipe Francescoli. Francescoli, que tem um ar de escritor sul-americano, e jogava com a melancolia do Coronel Aureliano Buendía. Procurei esse jogo e emocionei-me como se encontrasse um álbum velho de fotografias da família. Sorri com equipamentos, como quem sorri com os velhos penteados dos anos 80. Revi caras em quem estou sempre a pensar, mas com quem não falo todos os dias, mas devia. Quando o vídeo acabou, foi como fechar o álbum e voltar a arrumá-lo. Voltar à realidade nunca é fácil depois de revisitar uma infância feliz, cheia de amor.
Vi, com o meu pai, que é a pessoa que me ensinou a ver futebol e com quem falo dez, vinte vezes por dia de futebol e dia sim dia não sobre os outros assuntos, o Benfica-Barcelona. Vimos, juntos, a melhor equipa de todos os tempos. Messi, Xavi, Iniesta, Puyol, Busquets. Só foi pena que Pep estivesse longe (tinha jantado com Woody Allen nessa semana. Como se ser treinador da melhor equipa de sempre não chegasse, Pep decidiu juntar a isso preencher-se. Incrível.), mas aquela ideia, aquele conceito que trespassará o tempo, que será visto daqui a 50, 100 anos por outro Manel, em vídeos distantes e históricos, passou no meu relvado, na minha Luz. Claro que o meu amor ao Benfica é superior ao amor ao futebol. Fico lixado de termos perdido, mas corrói-me mais perder 2 pontos largados no campeonato do que aquilo. E acho que quem gosta do Benfica e quer que o Benfica volte a ser grande como já o foi, devia observar a dimensão deste Barça, o que ali se passa. O facto de serem extraordinários semanalmente tira-nos a capacidade de admirar uma equipa de que todos teremos saudades quando acabar. E essa dimensão do Barça explana-se no respeito ao jogo. Que Messi, que é, para mim, o melhor da história, tenha sorrido como uma criança para pedir a Pablo Aimar a sua camisola, a mim, emociona-me. E emociona-me porque aquele monstro, aquele génio, aquele homem que vai superar o tempo, parecia um miúdo com 10 anos à porta do estádio, à espera que acabasse o treino do seu ídolo. E Aimar, que é um gentleman e que talvez tenha até recusado o jantar com Guardiola e Allen, sorriu também. Mais uma fotografia para o álbum. E nós com consciência disso.
Sinceramente vos digo que tenho ainda a ilusão, o sonho, de um dia conseguir falar com uma destas pessoas. Falar com um destes, que amam o jogo. Sentar-me um dia, a jantar, e contar a Maradona, ou a Aimar, ou a Valdano, ou a Pep, aquilo que eu sinto quando vejo um Marselha-Benfica. Gostava de poder conversar, com uma cerveja à frente, sobre estas coisas que se me ocorrem e que me fazem vir para aqui escrever quando vejo futebol. Gostava de lhes falar de Mozer e das fotografias do meu tio João. E sinto, e não vos sei explicar porquê, que aqueles em quem identifico este amor pelo jogo, me perceberiam.
Quando ontem ouvi o discurso de Marcelo Bielsa, treinador do Athletic de Bilbao, após a derrota contra o Barcelona na Taça do Rei, apeteceu-me convidar o senhor para jantar cá em casa. Contar-lhe que, durante o Sporting-Athletic de Bilbao, houve uma imagem sua, de cócoras, a pensar. E que a Catarina, sorrindo, disse: "Gostava de ser assim. Saber aquilo tudo de futebol. Na cabeça daquele homem está a passar montes de futebol, agora.". Gostava de partilhar isso com o senhor Bielsa e gostava de lhe servir um copo de vinho e agradecer. Um homem que, à frente do seu plantel, os acusa de serem "milionários prematuros", de não terem "feridas nem cicatrizes" percebe que os seus jogadores desrespeitaram quem ama futebol. Pior, desrespeitaram os seus adeptos, que qualifica como "ingénuos" e "extraordinários". E é bonito que Bielsa fale dos adeptos num balneário, sem ser aquele discurso politicamente correcto numa conferência de imprensa, com patrocínios atrás e só para os aplausos. Não, Bielsa falou do povo basco dentro do balneário já sem nada a ganhar. Falou por respeito. Falou por amor. Sentiu que tinha que lhes dizer aquilo.
Esta grandeza, esta humanidade toda, eu só a consigo verdadeiramente sentir no futebol. E partilho isso todos os dias com o meu pai e com a Catarina, partilho isso tantas vezes que me sinto chato, porque sei que falo disto muitas vezes, mas isto para mim é uma coisa pungente, é uma coisa forte e tenho que a dizer, tenho que a escrever.
Gostava, um dia, de poder receber o senhor Bielsa, de jantar com ele e dizer-lhe que eu, se fosse jogador de futebol, principalmente se fosse jogador de futebol do Benfica, não me permitiria rir se perdesse uma final. E teria respeito por esse povo ingénuo e extraordinário que sofre pelas cores de uma camisola. Gostava, mesmo, de um dia jantar com Guardiola ou Bielsa e ouvi-los falar. Mas, mais do que isso, mais do que beber uma cerveja com o Maradona, gostava que o meu Benfica recuperasse esta imensa dimensão humana, esta grandeza, este respeito. Gostava que houvesse no Benfica discursos destes, capazes de me prender a fala. Gostava que houvesse alguém no Benfica que nos representasse a nós, os amantes ingénuos e sentimentais.
Brindo a isso. Com amor.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
O FCPorto de Bruxelas
A questão impôs-se às primeiras horas em Bruxelas.
- Onde é que se pode ver o Porto?
A resposta foi imediata.
- Na casa do Futebol Clube do Porto de Bruxelas, claro.
Foi assim que fomos parar ao restaurante "O Castiço", quase cheio para ver a bola. Na televisão, o sportem acabava de arrancar um glorioso empate com o estoril em alvalade (tenho de escrever sobre eles, estou só à espera que o luto pelo Sá Pinto passe). O dono, Z. C., pensou que nós, quatro mulheres, estávamos enganadas. Após alguma insistência, arranjou-nos uma mesa, mesmo em frente a um Dragão de Ouro orgulhosamente exposto. À volta, novos e velhos, homens e mulheres, portugueses emigrados há 30 anos ou há três meses, todos com alguma coisa azul e branca.
As equipas estão a entrar em campo e há um homem que se senta mesmo à minha frente, a tapar-me a visão para o ecrã (no Castiço há duas televisões enormes e ainda uma projecção numa parede, o futebol é para se ver bem). Peço-lhe para se desviar e ele pergunta-me, com rasteira:
- É portista?
À resposta afirmativa, seguiu-se um sorriso e um desviar essencial para que eu possa ver. Detesto comer e beber durante um jogo, mas tem de ser. O pedido é registado com apreço, já que todas bebemos Super Bock. Nesta casa, a Sagres não é bem-vinda, claro. Na mesa atrás de nós, há uma criança equipada à FCP que diz uma asneira quando o árbitro não marca uma falta evidente a nosso favor. A mãe repreende-o, o pai repreende a mãe, e muito bem. Atsu cai na área e pede-se, em uníssono, penalty. Um idoso, mais calmo e ponderado, solta um "parece que foi". O Z. C. grita-lhe que, a favor do Porto, nunca parece; é sempre penalty.
O golo chega e, com ele, a habitual descontracção de adeptos muito habituados a ganhar. A malta distrai-se, começa a conversar e nem nota que o Porto adormeceu em campo. Conto às minhas colegas que, lá em casa, brinco com o M. porque acho que ele tem uns ares de Tarantini. Ele espeta-nos dois de seguida e o M. não pára de me mandar mensagens a lembrar isso mesmo. Desligo-me da conversa, o restaurante de repente parece o Estádio do Dragão e entramos numa transe colectiva à espera da reviravolta.
Quando Kléber cai, caem também umas cervejas, tal é o vigor com que se insulta o árbitro. O penalty, posso garantir-vos, foi tão grande que se viu perfeitamente em Bruxelas. Jackson acaba por empatar, mas para os portistas, estejam eles onde estiverem, um ponto nunca sabe a vitória. Para salvar a noite, quisemos saber mais sobre aquela gente empurrada para fora deste triste país. Contaram-nos como vivem melhor, como não querem voltar, e até nos tentaram convencer a fazer o mesmo.
Pelo meio, o mais importante: o F.C. Porto de Bruxelas é TETRACAMPEÃO do campeonato de amadores de Bruxelas, disputado por várias equipas de imigrantes de todo o mundo. O Z. C., por esta altura já carinhosamente tratado por "presidente", recebeu o Dragão de Ouro de melhor casa internacional das mãos de Pinto da Costa. O A., mais conhecido como "o capitão", é aconselhado a não beber mais Super Bock, porque há jogo no dia seguinte. O segredo do F.C. Porto de Bruxelas é este: mesmo a milhares de quilómetros de distância, são a equipa mais organizada e têm o balneário mais unido. E ganham.
O empate custou menos graças ao "Castiço". É tão bonito saber que o meu clube também é vivido, sentido, ali tão longe. É tão emocionante ver como o futebol liga este país às suas pessoas. É tão arrepiante constatar como o meu Porto, o clube da minha cidade, já é um clube tão grande.
Aos portistas de Bruxelas e aos portistas de todo mundo: sim, claro que fomos roubados. Mas todos sabemos que temos de ganhar mesmo assim.
- Onde é que se pode ver o Porto?
A resposta foi imediata.
- Na casa do Futebol Clube do Porto de Bruxelas, claro.
Foi assim que fomos parar ao restaurante "O Castiço", quase cheio para ver a bola. Na televisão, o sportem acabava de arrancar um glorioso empate com o estoril em alvalade (tenho de escrever sobre eles, estou só à espera que o luto pelo Sá Pinto passe). O dono, Z. C., pensou que nós, quatro mulheres, estávamos enganadas. Após alguma insistência, arranjou-nos uma mesa, mesmo em frente a um Dragão de Ouro orgulhosamente exposto. À volta, novos e velhos, homens e mulheres, portugueses emigrados há 30 anos ou há três meses, todos com alguma coisa azul e branca.
As equipas estão a entrar em campo e há um homem que se senta mesmo à minha frente, a tapar-me a visão para o ecrã (no Castiço há duas televisões enormes e ainda uma projecção numa parede, o futebol é para se ver bem). Peço-lhe para se desviar e ele pergunta-me, com rasteira:
- É portista?
À resposta afirmativa, seguiu-se um sorriso e um desviar essencial para que eu possa ver. Detesto comer e beber durante um jogo, mas tem de ser. O pedido é registado com apreço, já que todas bebemos Super Bock. Nesta casa, a Sagres não é bem-vinda, claro. Na mesa atrás de nós, há uma criança equipada à FCP que diz uma asneira quando o árbitro não marca uma falta evidente a nosso favor. A mãe repreende-o, o pai repreende a mãe, e muito bem. Atsu cai na área e pede-se, em uníssono, penalty. Um idoso, mais calmo e ponderado, solta um "parece que foi". O Z. C. grita-lhe que, a favor do Porto, nunca parece; é sempre penalty.
O golo chega e, com ele, a habitual descontracção de adeptos muito habituados a ganhar. A malta distrai-se, começa a conversar e nem nota que o Porto adormeceu em campo. Conto às minhas colegas que, lá em casa, brinco com o M. porque acho que ele tem uns ares de Tarantini. Ele espeta-nos dois de seguida e o M. não pára de me mandar mensagens a lembrar isso mesmo. Desligo-me da conversa, o restaurante de repente parece o Estádio do Dragão e entramos numa transe colectiva à espera da reviravolta.
Quando Kléber cai, caem também umas cervejas, tal é o vigor com que se insulta o árbitro. O penalty, posso garantir-vos, foi tão grande que se viu perfeitamente em Bruxelas. Jackson acaba por empatar, mas para os portistas, estejam eles onde estiverem, um ponto nunca sabe a vitória. Para salvar a noite, quisemos saber mais sobre aquela gente empurrada para fora deste triste país. Contaram-nos como vivem melhor, como não querem voltar, e até nos tentaram convencer a fazer o mesmo.
Pelo meio, o mais importante: o F.C. Porto de Bruxelas é TETRACAMPEÃO do campeonato de amadores de Bruxelas, disputado por várias equipas de imigrantes de todo o mundo. O Z. C., por esta altura já carinhosamente tratado por "presidente", recebeu o Dragão de Ouro de melhor casa internacional das mãos de Pinto da Costa. O A., mais conhecido como "o capitão", é aconselhado a não beber mais Super Bock, porque há jogo no dia seguinte. O segredo do F.C. Porto de Bruxelas é este: mesmo a milhares de quilómetros de distância, são a equipa mais organizada e têm o balneário mais unido. E ganham.
O empate custou menos graças ao "Castiço". É tão bonito saber que o meu clube também é vivido, sentido, ali tão longe. É tão emocionante ver como o futebol liga este país às suas pessoas. É tão arrepiante constatar como o meu Porto, o clube da minha cidade, já é um clube tão grande.
Aos portistas de Bruxelas e aos portistas de todo mundo: sim, claro que fomos roubados. Mas todos sabemos que temos de ganhar mesmo assim.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
O futebol das meninas
Gostar de futebol não foi, para mim, uma opção. Não houve um
dia em que acordei e, por acaso, pedi à minha mãe para me calçar umas chuteiras
em vez de me vestir uma saia. Não fui para o infantário e gostei mais de brincar à bola
com os rapazes, esses seres nojentos com ranho a sair do nariz, em vez de ir
trocar roupas da Barbie com as raparigas, esse sexo tão civilizado. Nada disso.
Gostar de futebol, para mim, foi claramente fruto de um pai e de um irmão que precisavam de mais alguém para dar uns toques. Não fazia sentido um deles ir à baliza e o outro chutar. Faltava alguém para cruzar, obviamente, e eu tive de preencher esse vazio. Mais por obrigação do que por gosto, é certo, mas a coisa lá se entranhou.
Nunca deixei, no entanto, de brincar com a Barbie, de me apaixonar loucamente por uma boys band de moços de cabelo comprido e voz fininha (THE MOFFATTS FOREVER!) e de escolher qual das Spice Girls eu era (Emma, como me parece óbvio). Só que isto foi passando, e a bola não.
Um dia, do nada, tirei os posters todos dos Moffatts da parede (agora que penso nisto, tenho de pedir desculpa ao meu irmão porque o quarto também era dele…). Decidi substituí-los por uma espectacular colecção do jornal “O Jogo” com a equipa completa do FCPorto 1998/1999. Falamos de craques como Rui Correia, Costinha, Fernando Mendes, Peixe, Chaínho e Secretário, tudo ali escarrapachado, para toda a gente ver.
Lembro-me que as minhas amigas J. e D., convidadas para uma festa de aniversário minha, entraram no quarto e perguntaram-me se não me importava que fosse o meu irmão a escolher o que ficava na parede. Corajosa, assumi que tinha sido eu. Elas não perceberam à primeira, mas depois mostrei-lhes como Capucho, Vítor Baía e até Folha tinham aptidões físicas que podiam perfeitamente ser equiparadas às dos Moffatts. (o Folha? A sério, Catarina?, perguntam vocês. Sim, o Folha. Na altura achávamos que era parecido com o Richard Gere (!) e à custa disso a J. ainda hoje é apaixonada por ele.) Elas aceitaram os meus argumentos.
Foi por volta dessa altura que comecei a usar cadernos em vez de uma capa com folhas e aqueles separadores tão giros às cores (isto está a ficar tão à gaja que os homens de certeza que já pararam de ler o post). Os cadernos dos rapazes estavam sempre cheios de coisas dos seus clubes. Os cadernos das raparigas eram decorados com rapazes giros. Os meus eram um pouco de ambos.
O caderno de Geografia, a minha disciplina preferida na altura, tinha vários Capuchos colados na capa e na contra-capa. O caderno de História só tinha Decos. O caderno de Português o Rubens Júnior (não me peçam para explicar). Não me lembro dos outros (e tenho vergonha de alguns). Eu gostava muito de futebol, mas era uma pré-adolescente em todo o seu esplendor, portanto juntava o melhor de dois mundos (mais tarde, já no secundário, foram as imagens de claques a conquistar os meus cadernos. Estava numa fase tão estranha que até tinha imagens de claques do benfica e do sportem. Era “a minha cena”, estão a ver? Os adolescentes são insuportáveis).
Com o tempo, fui aprendendo a ter um certo recato com as minhas paixões futebolísticas. Num estádio, não ficava bem suspirar de cada vez que o Capucho tocava na bola (já disse muitas vezes este nome? Desculpem, aquelas pernas são mais fortes do que eu). Durante o jogo, os companheiros de bancada não iam perceber se eu atirasse um beijo ao Derlei (i-nex-pli-cá-vel, eu sei). Na faculdade, as amigas iam achar estranho que eu ainda usasse cadernos.
Mas elas continuam lá. Quando o Falcao deixou o Porto, parte de mim pensou que seria difícil arranjar um avançado tão eficaz como ele, e a outra parte olhou para aquela foto dele em tronco nu numas férias e concluiu que seria insubstituível. Eu odeio o benfica (surprise!!!), e racionalmente odiava o Javi Garcia, mas nunca consegui insultá-lo. Acho que as mulheres compreendem porquê.
É também por isto que eu e o Lucho somos amigos de longa data. Quando olho para as primeiras fotos dele no FCPorto, com aquele cabelo horrível tipo anos 80 e um bigodinho mal feito, nem sequer consigo perceber como é que isso aconteceu. Acho que foi num jogo em casa, não me lembro mesmo contra quem, em que eu estava na bancada ao lado da N.. Ele marcou um golo e, pela primeira vez, colocou a mão acima dos olhos, exactamente para o local onde eu estava. Eu e a N. ainda discutimos se ele estava à minha procura ou dela (estaria mais alguém no estádio?), mas, como duas raparigas que ainda gostariam de brincar às Barbies, decidimos que tinha sido para mim porque eu tinha dito primeiro. O Lucho fez dezenas de vezes o gesto (oficialmente é para um filho, pelos vistos), e continua a fazê-lo, e ainda hoje eu sorrio por um milésimo de segundo, como que a agradecer que ele ainda se lembre de mim.
Foi também por isto que, na terça-feira, quando soube que ele tinha pedido para jogar mesmo após saber da morte do pai, me apeteceu abraçá-lo. Porra, que coisa tão linda. Qualquer adepto do Porto, se dúvidas houvesse, deve estar convencido que Lucho, o nosso comandante, o nosso CAPITÃO, terá um lugar especial no nosso clube para sempre. Mas, para mim, que gosto tanto do que ele joga como daquele sorriso malandro, foi como voltar a ser uma menina apaixonada por um ídolo.
Gostar de futebol, para mim, foi claramente fruto de um pai e de um irmão que precisavam de mais alguém para dar uns toques. Não fazia sentido um deles ir à baliza e o outro chutar. Faltava alguém para cruzar, obviamente, e eu tive de preencher esse vazio. Mais por obrigação do que por gosto, é certo, mas a coisa lá se entranhou.
Nunca deixei, no entanto, de brincar com a Barbie, de me apaixonar loucamente por uma boys band de moços de cabelo comprido e voz fininha (THE MOFFATTS FOREVER!) e de escolher qual das Spice Girls eu era (Emma, como me parece óbvio). Só que isto foi passando, e a bola não.
Um dia, do nada, tirei os posters todos dos Moffatts da parede (agora que penso nisto, tenho de pedir desculpa ao meu irmão porque o quarto também era dele…). Decidi substituí-los por uma espectacular colecção do jornal “O Jogo” com a equipa completa do FCPorto 1998/1999. Falamos de craques como Rui Correia, Costinha, Fernando Mendes, Peixe, Chaínho e Secretário, tudo ali escarrapachado, para toda a gente ver.
Lembro-me que as minhas amigas J. e D., convidadas para uma festa de aniversário minha, entraram no quarto e perguntaram-me se não me importava que fosse o meu irmão a escolher o que ficava na parede. Corajosa, assumi que tinha sido eu. Elas não perceberam à primeira, mas depois mostrei-lhes como Capucho, Vítor Baía e até Folha tinham aptidões físicas que podiam perfeitamente ser equiparadas às dos Moffatts. (o Folha? A sério, Catarina?, perguntam vocês. Sim, o Folha. Na altura achávamos que era parecido com o Richard Gere (!) e à custa disso a J. ainda hoje é apaixonada por ele.) Elas aceitaram os meus argumentos.
Foi por volta dessa altura que comecei a usar cadernos em vez de uma capa com folhas e aqueles separadores tão giros às cores (isto está a ficar tão à gaja que os homens de certeza que já pararam de ler o post). Os cadernos dos rapazes estavam sempre cheios de coisas dos seus clubes. Os cadernos das raparigas eram decorados com rapazes giros. Os meus eram um pouco de ambos.
O caderno de Geografia, a minha disciplina preferida na altura, tinha vários Capuchos colados na capa e na contra-capa. O caderno de História só tinha Decos. O caderno de Português o Rubens Júnior (não me peçam para explicar). Não me lembro dos outros (e tenho vergonha de alguns). Eu gostava muito de futebol, mas era uma pré-adolescente em todo o seu esplendor, portanto juntava o melhor de dois mundos (mais tarde, já no secundário, foram as imagens de claques a conquistar os meus cadernos. Estava numa fase tão estranha que até tinha imagens de claques do benfica e do sportem. Era “a minha cena”, estão a ver? Os adolescentes são insuportáveis).
Com o tempo, fui aprendendo a ter um certo recato com as minhas paixões futebolísticas. Num estádio, não ficava bem suspirar de cada vez que o Capucho tocava na bola (já disse muitas vezes este nome? Desculpem, aquelas pernas são mais fortes do que eu). Durante o jogo, os companheiros de bancada não iam perceber se eu atirasse um beijo ao Derlei (i-nex-pli-cá-vel, eu sei). Na faculdade, as amigas iam achar estranho que eu ainda usasse cadernos.
Mas elas continuam lá. Quando o Falcao deixou o Porto, parte de mim pensou que seria difícil arranjar um avançado tão eficaz como ele, e a outra parte olhou para aquela foto dele em tronco nu numas férias e concluiu que seria insubstituível. Eu odeio o benfica (surprise!!!), e racionalmente odiava o Javi Garcia, mas nunca consegui insultá-lo. Acho que as mulheres compreendem porquê.
É também por isto que eu e o Lucho somos amigos de longa data. Quando olho para as primeiras fotos dele no FCPorto, com aquele cabelo horrível tipo anos 80 e um bigodinho mal feito, nem sequer consigo perceber como é que isso aconteceu. Acho que foi num jogo em casa, não me lembro mesmo contra quem, em que eu estava na bancada ao lado da N.. Ele marcou um golo e, pela primeira vez, colocou a mão acima dos olhos, exactamente para o local onde eu estava. Eu e a N. ainda discutimos se ele estava à minha procura ou dela (estaria mais alguém no estádio?), mas, como duas raparigas que ainda gostariam de brincar às Barbies, decidimos que tinha sido para mim porque eu tinha dito primeiro. O Lucho fez dezenas de vezes o gesto (oficialmente é para um filho, pelos vistos), e continua a fazê-lo, e ainda hoje eu sorrio por um milésimo de segundo, como que a agradecer que ele ainda se lembre de mim.
Foi também por isto que, na terça-feira, quando soube que ele tinha pedido para jogar mesmo após saber da morte do pai, me apeteceu abraçá-lo. Porra, que coisa tão linda. Qualquer adepto do Porto, se dúvidas houvesse, deve estar convencido que Lucho, o nosso comandante, o nosso CAPITÃO, terá um lugar especial no nosso clube para sempre. Mas, para mim, que gosto tanto do que ele joga como daquele sorriso malandro, foi como voltar a ser uma menina apaixonada por um ídolo.
Obrigada Lucho, diz ao teu pai que te educou muito bem.
P.S. No mesmo dia, cruzei-me com o Vítor Baía no meu local de trabalho. Apeteceu-me tanto fazer-lhe uma vénia e dizer-lhe que é o melhor jogador português de todos os tempos… Vá lá, controlei-me.
P.S. No mesmo dia, cruzei-me com o Vítor Baía no meu local de trabalho. Apeteceu-me tanto fazer-lhe uma vénia e dizer-lhe que é o melhor jogador português de todos os tempos… Vá lá, controlei-me.
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