Diz que é por volta dos seis anos que começamos a distinguir o bem do mal. No meu caso foi aos três, quando os meus pais finalmente me fizeram sócia do Futebol Clube do Porto (o meu irmão é sócio desde que nasceu, prova inequívoca que é o filhinho preferido). No entanto, a vida vai-nos mostrando que nem tudo é preto ou branco, que há momentos em que as noções se confundem e cabe-nos a nós aprender com isso. Um derby entre sportem e benfica parece-me um exemplo perfeito disso.
O meu corpo transpira ódio pelos dois e, geneticamente, estou disposta a torcer sempre contra ambos. Nos gloriosos tempos em que o benfica terminava campeonatos em sexto lugar, eu torcia na mesma pelo quinto, mesmo que este constituísse uma maior ameaça para o meu clube. Nestes amorosos tempos em que o nacional vai à frente do sportem, eu torcerei sempre pelo primeiro na próxima jornada, até porque continuo a acreditar que tenho uma excelente oportunidade de ver o segundo descer de divisão.
Só que, às vezes, eles jogam um contra o outro e aí impera a lei: torcer sempre pelo resultado que interessar mais ao Porto. E eu acho que não se dá o devido valor à dificuldade que um adepto doente como eu tem em fazer isto. Torcer pelos maus. Olhar para aquelas camisolas detestáveis e querer que elas corram, que elas fintem, que elas marquem. Que horror, até me custa escrever.
Os dérbis da segunda circular são porreiros porque nos dão sempre pontos, mas fazem sentir-me uma pessoa pior. Em 2000, gritei o golo do Sabry em alvalade e ainda hoje sinto o peso da vergonha na troca de olhares com os meus pais, que fizeram o mesmo. Esta semana, gritei um golo do Wolfswinkel e tive vontade de me enfiar num buraco no segundo a seguir. Ensinaram-me que estes dois são maus e eu não devia ter de fazer isto.
É um bocado como no Dexter. A série conta a história de um serial killer que canalizou a sua vontade de matar para os homicidas, os pedófilos e todos os criminosos que não são devidamente punidos pela Justiça. E eu, que sempre vi os serial killers como maus, doentes e detestáveis, dou por mim a torcer para que ele mate mais e escape à polícia e acabe feliz para sempre com outra assassina. Tudo coisas que uma criança com seis anos facilmente saberia dizer que são más.
A moral da história? Mesmo aquilo que à partida é mau pode ser bom um dia, dependendo do resultado que pretendes. O Dexter mata gente má, tem diálogos excepcionais e, bem, é apenas uma personagem fictícia que me entretém desta forma. E o sportem? Bem, o sportem é uma merda e não dá para contar com esta gente.
(Vitória muito, muito importante com o moreirense. Na verdade, se continuarmos a ganhar quando jogamos menos bem e a jogar melhor para ganharmos mais, nem precisaremos de nos distrair com isto)
Partilhamos amigos e famílias. Partilhamos almoços e jantares. Partilhamos livros e discos. Partilhamos viagens e segredos. Partilhamos uma casa e uma vida. Só não partilhamos o clube.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Apocalypse Now
Estivemos em viagem pelo Sudeste Asiático e, durante três
semanas, os nossos clubes portaram-se bem. Porto e benfica deixaram-nos fazer
turismo calmamente, sem grandes exaltações a não ser os saltos da cama às
quatro da manhã para ir ver os SMS com os resultados. Devo dizer, no entanto,
que nos foi complicado ir além dos resultados na percepção do que se foi
passando por cá. Isto porque as mensagens escritas vinham tanto dos meus pais
como do pai do M. e estas não podiam ser mais diferentes. Se uma dizia “benfica
ganhou, moreirense claramente gamado”, a que se seguia era um “benfica ganhou,
e só não foram mais por causa do árbitro”. Enfim, cada um de nós acreditou no
que quis (eu decidi basear-me na ciência e ir pela amostra mais ampla, claro).
Vivemos nesta doce harmonia até chegarmos a Portugal. O
Porto, que na sexta-feira era a única equipa invencível da Europa, a equipa com
mais pontos na Liga dos Campões e o dominador implacável do futebol português
das últimas décadas (esta continuará a ser, peço desculpa), teve a
sorte de ir jogar a Braga e perdeu. Perdeu bem, diga-se de passagem, porque não
jogou o que tinha de jogar para ganhar. E, como se o adeus prematuro a um
título não fosse suficientemente duro para os adeptos portistas mastigarem,
ainda por cima perdeu com um onze em campo claramente a léguas do melhor que
nós temos. E vamos chamar-lhe onze porque eu continuo a achar que o Kléber
conta para as estatísticas, só isso.
Vítor Pereira decidiu poupar os jogadores principais e
apostar numa equipa alternativa. E isso é sempre fatal, não só quando se perde,
mas principalmente porque é Vítor Pereira e ainda há adeptos que se dizem do
Porto que torcem contra o clube para ficarem com a barriga cheia de razão.
Fê-lo por duas razões, segundo o que percebi: por um lado, quer perceber até
onde pode ir com a rodagem do plantel, porque os tempos estão difíceis (para
alguns) e não vamos comprar um substituto para o Lucho à altura quando este
estiver de rastos; por outro, quis poupar as estrelas para o jogo desta
terça-feira em Paris.
Ora, em relação à primeira tentativa, falhou redondamente. O
plantel do Porto é curto, demasiado curto, e há poucas opções de categoria. Já
me parece assim desde a pré-época, e tenho pena que o nosso treinador tenha
demorado até ao último dia de Novembro para o ver. Mas enfim, no ano passado a direcção também
só o viu no mercado desta altura, quando foi buscar um ponta-de-lança porque
deixou de se fiar em milagres.
Quanto à segunda, falhou ainda mais escandalosamente. A sério
que me esforcei para perceber que, embora já estivéssemos classificados e me
tenha custado milhões abdicar de uma competição para isto, a Liga dos Campeões
é sempre uma prioridade, seja pelo dinheiro imediato, pelo dinheiro no futuro
ou pelo prestígio. Só que o Porto perdeu, outra vez, e perdeu bem, sem que
tenha jogado o que tinha de jogar para ganhar. Perdeu por causa de um frango
(normalmente é um por ano portanto pode ser que já estejamos safos), é certo,
mas perdeu um primeiro lugar que ainda vamos ver o quanto nos podia ajudar na
próxima fase. E, muito mais do que o dinheiro ou o prestígio, é isto que me
preocupa: que o Porto, muito provavelmente, não tenha equipa para ir além dos
oitavos.
Duas derrotas em cinco dias vão muito além do que um adepto
portista consegue suportar. Coitados dos adeptos das equipas pequenas que acham
isto normal. Imaginem como será ser adepto do sportem, meu deus.
Dizem que o fim do mundo é este mês e agora começo a
acreditar. Se o apocalipse tinha de começar por algum lado, era por aqui, pelo
mais inesperado. E é por isso que alerto os portistas que estamos numa fase
crucial da época e que não podemos perder pontos até à ida ao salão de festas.
Ainda por cima, o benfica tem o calendário facilitado, uma vez que vai a
alvalade.
Peço-vos, portanto, que não baixem os braços perante duas
batalhas perdidas. Durante a nossa viagem, olhámos para a paisagem e percebemos
claramente por que razão os americanos perderam ali uma guerra: o clima é
inóspito e traiçoeiro e as pessoas são unidas nas suas crenças e orgulhosas nos
seus ideais. Mantenhamo-nos assim: orgulhosos e unidos. E acreditemos que não será este clima inóspito e traiçoeiro, de excitação com os nossos desaires, que nos irá derrotar.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Quero dançar contigo, Jackson
Tenho imensa pena de não ter nascido com um dom. Gostava de
saber dançar, de conseguir cantar ou de aprender a tocar saxofone como a Lisa
Simpson. Mas nada. Não há arte neste mundo que me tenha caído em sorte. Nadinha
de nada. Se um dia o mundo acabar e os que fazem algo de extraordinário puderem
sobreviver numa espécie de arca, eu estou tramada.
Já aqueles que o têm cheiram-se à distância. Eu não vi Maradona jogar mas sei que tem lugar garantido. Messi tirará o lugar a Noé. Ronaldo comprará um lugar para entrar. E entre os outros, os que fazem parte deste planeta, há muitos e cada vez mais que passam por nós.
Lá na frente, onde o dom é mais decisivo, só nos últimos anos tivemos a sorte de ter Lisandro, o prazer de conhecer Falcao e o orgulho de ver Hulk de azul e branco. O primeiro continua a ser muito bom, o segundo é o melhor de todos e o terceiro é nosso e há-de ser. Mas não é deles que vos quero falar, porque no Futebol Clube do Porto não vivemos do passado.
Eu, normalmente e à semelhança da maioria dos portistas, sou uma adepta muito desconfiada. Nunca acredito em quem chega com rótulo de estrela, duvido sempre das capas de jornais espampanantes e demoro muito tempo a convencer-me que ali, naquele Lisandro, naquele Falcao ou naquele Hulk, existe um dom.
Este ano, no entanto, confesso que me sinto fácil. Não sei o que se passa, se é de mim ou dos sete jogos da Liga consecutivos a marcar, mas Jackson Martinez atingiu-me em cheio.
Talvez tenha sido aquele golo contra o sportem, embora contra estas equipas que lutam pela manutenção a tarefa de um ponta-de-lança esteja naturalmente facilitada. As costas viradas para o guarda-redes, como se o ignorasse, a bola a quase parar na coxa, com respeito, e o calcanhar que só se percebe bem à terceira repetição. Talvez tenha sido isso.
Ou talvez seja pelas inúmeras vezes em que aparece no sítio certo. Aqueles cruzamentos dos colegas que parecem todos certeiros, a bola que sobra do adversário para ele ou o leve encostar lá para dentro. Talvez seja isso também.
Ou então foi aquela bola que ele salvou num canto contra nós, ou aquela recuperação no meio-campo, ou aquela abertura para a direita (ou terá sido para a esquerda?) que enganou os defesas, ou aquela desmarcação exemplar quando os colegas trocavam a bola a mil quilómetros por hora, ou aquela calma arrepiante em frente ao guarda-redes. Pode ser isso, sim, admito.
Não sei o que se passa, mas há algo em Jackson que me faz acreditar que há ali um dom. Não sei se são golos, se são fintas, se é técnica, se é força, se é talento, se é sorte. Para já, sabe-me bem a dança.
P.S. Belo jogo na sexta, tanto da parte da equipa como dos adeptos. É mesmo assim que queremos, mister.
P.S.2 Não vou falar da arbitragem do "pode ser o João", a sério que não vou.
P.S.3 Faltam ___ dias para acabar o sportem.
Já aqueles que o têm cheiram-se à distância. Eu não vi Maradona jogar mas sei que tem lugar garantido. Messi tirará o lugar a Noé. Ronaldo comprará um lugar para entrar. E entre os outros, os que fazem parte deste planeta, há muitos e cada vez mais que passam por nós.
Lá na frente, onde o dom é mais decisivo, só nos últimos anos tivemos a sorte de ter Lisandro, o prazer de conhecer Falcao e o orgulho de ver Hulk de azul e branco. O primeiro continua a ser muito bom, o segundo é o melhor de todos e o terceiro é nosso e há-de ser. Mas não é deles que vos quero falar, porque no Futebol Clube do Porto não vivemos do passado.
Eu, normalmente e à semelhança da maioria dos portistas, sou uma adepta muito desconfiada. Nunca acredito em quem chega com rótulo de estrela, duvido sempre das capas de jornais espampanantes e demoro muito tempo a convencer-me que ali, naquele Lisandro, naquele Falcao ou naquele Hulk, existe um dom.
Este ano, no entanto, confesso que me sinto fácil. Não sei o que se passa, se é de mim ou dos sete jogos da Liga consecutivos a marcar, mas Jackson Martinez atingiu-me em cheio.
Talvez tenha sido aquele golo contra o sportem, embora contra estas equipas que lutam pela manutenção a tarefa de um ponta-de-lança esteja naturalmente facilitada. As costas viradas para o guarda-redes, como se o ignorasse, a bola a quase parar na coxa, com respeito, e o calcanhar que só se percebe bem à terceira repetição. Talvez tenha sido isso.
Ou talvez seja pelas inúmeras vezes em que aparece no sítio certo. Aqueles cruzamentos dos colegas que parecem todos certeiros, a bola que sobra do adversário para ele ou o leve encostar lá para dentro. Talvez seja isso também.
Ou então foi aquela bola que ele salvou num canto contra nós, ou aquela recuperação no meio-campo, ou aquela abertura para a direita (ou terá sido para a esquerda?) que enganou os defesas, ou aquela desmarcação exemplar quando os colegas trocavam a bola a mil quilómetros por hora, ou aquela calma arrepiante em frente ao guarda-redes. Pode ser isso, sim, admito.
Não sei o que se passa, mas há algo em Jackson que me faz acreditar que há ali um dom. Não sei se são golos, se são fintas, se é técnica, se é força, se é talento, se é sorte. Para já, sabe-me bem a dança.
P.S. Belo jogo na sexta, tanto da parte da equipa como dos adeptos. É mesmo assim que queremos, mister.
P.S.2 Não vou falar da arbitragem do "pode ser o João", a sério que não vou.
P.S.3 Faltam ___ dias para acabar o sportem.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Carta ao André Gomes
André,
Ontem estava no sofá a ver a tua estreia. Gostei. Há algo em
ti que me faz gostar de te ver jogar. Não te vou mentir: só te espreitei em 4
ou 5 jogos da equipa B, não sigo a tua carreira desde os 11 anos ou algo
parecido, mas gostei do que vi. E o que é que te interessa isso?
Sem modéstias, André, eu já estou na triste idade – 28 anos
– onde os jogadores de futebol já são, na sua maioria, mais novos do que eu. E
essa é uma idade dramática porque um tipo racional, como eu sou, percebe que o
sonho da sua vida (ser jogador de futebol, que é o sonho de todos as pessoas do
mundo com alguma noção da grandeza) já não dá. Isto é estúpido porque eu,
racionalmente, percebi que não ia ser jogador de futebol quando aos 15 anos
deixei de ser convocado no Farense porque faltava a treinos para estudar, numa
clara noção de falta de prioridades (hoje eu e a Catarina viveríamos em
Barcelona e eu trocava a bola com Messi – jogava em vez do Alexis, se te
estiveres a perguntar – e eu não tinha quase adormecido (eu disse quase) na
segunda parte por ter feito urgência de 24 horas no dia anterior).
Cheguei à idade da razão, sem ilusões. Estou consciente de
que não vou ser jogador de futebol. Mas, dado que o meu pai me treinou para
isso desde os 3 anos, estou numa fase de intelectual da bola – com blog e tudo
– convencido que a minha opinião vale muitíssimo. Já não digo que gosto de ver
a Série A, que era o que os intelectuais do futebol diziam nos anos 90 e
príncipios dos anos 2000 (e eu gostava – verdadeiramente – de ver a Série A),
mas continuo convencido – apesar deste empecilho da Medicina – de que a minha
opinião vale alguma coisa. E digo isto sem vaidade. É a coisa de que eu percebo
mais na vida e um tipo tem que ter amor próprio. Se eu tivesse que responder a
três perguntas para salvar a minha vida e me perguntassem uma categoria eu não
escolhia Medicina, eu diria: “Benfica, anos 90, se faz favor”. Portanto, isto é
a única coisa em que eu considero que a minha opinião é mesmo válida e, vamos
lá tornar as coisas interessantes, uma autoridade.
E faço-te este preâmbulo, André, para que me leves a sério.
Para que se torne importante para ti, que és mais novo do que eu (e isso
custa-me), de que eu acho que tu podes vir a ser um bom jogador de futebol.
Perguntar-te-às: posso vir a ser? Sim, ainda não o és. Prefiro entregar o meio
campo do clube do meu coração a um sérvio que mal sabe correr do que a ti. Não
porque tu não possas vir a ser melhor do que ele, mas agora não és. E eu não
quero perder pontos com o Gil Vicente para te ver crescer, André. Não és assim
tão importante. Ninguém é suficientemente importante para eu admitir que o
Benfica pode perder pontos.
E como é que eu sei que tu podes vir a ser um bom jogador,
André? Por várias coisas, a primeira pela maneira como tu corres. O Rosa, da
equipa B, também é bom jogador e seria útil no plantel, mas nunca será um
craque. É daqueles tipos que corre como se o mundo acabasse amanhã. Não
obstante a extrema utilidade de jogadores assim em qualquer plantel, é fácil
observar que nenhum génio tem pressa quando joga à bola. Xavi, Iniesta e mesmo
Messi, na sua velocidade estonteante, nunca parecem ter pressa. É óbvio que tu
nunca serás nenhum destes três, mas podes atingir um patamar que, mesmo a
mundos de distância destes extra-terrestres, pode ser de alto rendimento para o
Benfica. E isso far-me-ia muito feliz.
Dizia-te que corres sem pressa, que jogas de cabeça
levantada (daí as exageradas comparações com Rui Costa que era de uma elegância
quase absurda com a bola nos pés) e tens uma qualidade de passe
surpreendentemente madura. Explico-me: o Carlos Martins tem qualidade de passe,
mas passa a bola excessivamente “com truque”. Ora dá efeito, ora coloca o pé
por baixo, à futsal, ora tenta o passe impossível, à Zidane. Quando resulta, é
esteticamente muito bonito e vai parar ao Youtube. Mas é uma mania que custa várias
jogadas perdidas e que é um desperdício em quem tem os pés do Carlos Martins. E
isto é porque o Carlos Martins, mesmo com quase 30 anos, ainda não tem
maturidade a jogar à bola. Ainda não percebeu que já não vai ser o Maradona. Já
tu pareceste-me bater sempre a bola seca e com destino e não parecia só aquele
medo que os miúdos têm na estreia. E isso agrada-me. És pragmático, no melhor
dos sentidos possíveis.
Agradou-me, também, a recepção antes do golo. O remate
pareceu-me demasiado para cima e, pela tua linguagem corporal, percebeste
imediatamente que a bola subiu muito. Mas a recepção teve nível. Não faz – só por
si – de ti um bom jogador, mas agradou-me. Porque um tipo que é mau nunca
recebe a bola como tu recebeste. Um tipo bom, ou que tem tudo para vir a ser
bom, recebe. Acho que é das coisas mais difíceis de fazer e que é um bom
medidor da capacidade técnica de um jogador. Iniesta parece falar com a bola
para a acalmar e Zidane tinha uma recepção de veludo. Na recepção daquele passe
– que não era propriamente difícil, convenhamos – passaste o nível básico de
recepção. Se não a tivesses segurado tão redonda, não te escrevia.
Venho então dizer-te, André, que tu podes vir a ser um bom
jogador do Sport Lisboa e Benfica. E isso significa que me poderás dar
alegrias, que as minhas semanas podem ser melhores por tua causa. Significa uma
responsabilidade enorme, mas uma dignidade ainda maior.
É óbvio que a minha opinião vale o que vale. Ou seja, muitíssimo
para mim, nada para o resto do mundo. Eu já vi muitos jogadores com grande
potencial falharem. E muitos que ficaram aquém do seu valor. Mais houve em quem
o resto do mundo viu potencial e eu nunca e também falharam: o Hélio Roque, o
Rui Baião, tipos desse género.
Portanto isto agora depende de ti. Talvez seja isto seja um
bocado de projecção minha: tu és um tipo alto e com barba por fazer, e talvez
eu veja em ti quem eu poderia ter sido como jogador do Benfica e portanto
imagine este talento todo. Aí, meu caro, nem te peço desculpa pelo incómodo, e
só me resta rir de mim. Com sorte, poucos se lembrarão deste texto. Com azar,
enquanto te arrastares no Rio Ave aos 30 anos e marcares um golo, alguém me
mandará este texto por e-mail.
Mas se tu fores mesmo bom como eu acho que tu podes vir a
ser, aproveita. Corre, treina, trabalha. Dá a vida por isso, André. É que eu já
tenho 28 anos e, para mal dos meus pecados, já não posso levantar o Estádio da
Luz (até porque, quando for treinador do Glorioso, o meu génio táctico não será
aplaudido como um golo e o público baterá palmas aos idiotas úteis que eu coloquei
de forma genial em campo). Mas reconheço em ti o potencial para tal. Portanto
esfola-te e chega lá.
É que sabes, André: aos 28 anos, mesmo com uma vida perfeita
e cheio de saúde, eu ainda me imagino a ganhar um derby no último minuto, à
chuva, com 10 nossos contra 11 deles, depois de fintar 3 lagartos e picar a
bola sobre o guarda-redes. E às vezes, quase que juro, parece-me mesmo nítido
ver a Luz aos saltos e sinto a camisola vermelha carregada de suor e chuva colada
ao meu corpo enquanto levanto os braços e corro de alegria. Mas é só um sonho.
Resta-me ficar na bancada, com a mesma camisola carregada de suor e chuva, à
espera que um de vós, já mais novo do que eu, faça isso por mim.
Um abraço,
Manel
PS: já sei que foste formado e até adepto daquele clube de azul. São manchas no passado que só vários títulos de águia ao peito podem limpar.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Vota Vieira
Camaradas, está na hora de definirmos posições. Ou estamos
de um lado, ou estamos do outro. Fora o Paulo Portas, claro. Vivemos tempos
difíceis, instáveis e incertos, em que ninguém sabe qual é o melhor caminho.
Mas eu já escolhi: estou com Luís Filipe Vieira.
Vieira a primeiro-ministro
Desde logo porque, para mim, os sócios do Futebol Clube do
Porto estão sempre em primeiro lugar. Se é para entregar algo nas mãos de
alguém, que seja em quem eu já sei que vai lutar pelos mesmos interesses do que
eu.
Vieira a ministro das Finanças
Soube que Vieira era a melhor opção quando valorizou
Mantorras até aos 18 milhões de contos.
Vieira a ministro dos Assuntos Parlamentares
As pessoas já não acreditam nos mesmos de sempre, estão
fartas, precisam de uma alternativa. Com Vieira, teremos certamente “um novo
ciclo”.
Vieira a ministro da Justiça
Precisamos de alguém que conheça o sistema por dentro, por
isso nada melhor do que um condenado por roubo.
Vieira a ministro da Administração Interna
Temos de reforçar a segurança. Há malucos a atirarem
petardos em assembleias-gerais, a pintarem paredes e a denunciarem as
trafulhices cá para fora. Só Vieira pode chamar os capangas que roubaram o
Moretto ao Porto (muito obrigada, meus caros, devo-vos esta).
Vieira a ministro dos Negócios Estrangeiros
Agradeçamos ao homem que, só para dar um exemplo, descobriu
Falcao.
Vieira a ministro da Educação
Está na altura de segurar os nossos jovens, de deixarmos de
exportar o nosso melhor produto para outros países. Com Vieira, não há
conselhos à emigração (Nelson Oliveira, pára de ler o post). Queremos a “coluna
vertebral” da selecção.
Vieira a ministro da Saúde
Chega de colocar o Serviço Nacional de Saúde nas mãos dos
profissionais… de Saúde. Exigimos um gestor, alguém que possa racionar os
tratamentos. Com Vieira, o homem que não gosta da maneira de jogar de Hulk,
temos olho clínico assegurado.
Vieira a ministro da Economia
Andámos a viver acima das nossas possibilidades.
Adivinham-se tempos em que os presidentes terão de andar em cuecas e só Luís
Filipe Vieira tem experiência nisso.
Vieira a ministro da Defesa
Aqueles vândalos do Norte já fizeram tudo: deram cinco no
Dragão, foram campeões na luz e deram a volta a uma desvantagem de cinco pontos
no campeonato. Se votarem em Vieira, é difícil serem mais atacados do que isto.
Vieira a ministro da Agricultura
Estamos a semear um futuro melhor. As modalidades já ganham
títulos e a águia continua a ajudar ao bom ambiente na luz. Não fosse o Porto e
aquela coisa chamada futebol, e o mundo era lindo.
Vieira a ministro da Segurança Social
O buraco é grande, já se sabe, mas Vieira e os seus negócios
esquisitos com Madrid e Angola prometem tapá-lo, dê por onde der.
Se isto não for suficiente para vos convencer (como é possível, seus ingratos?), então têm sempre a opção de votar no outro candidato,
aquele que eu nem sabia que era lampião até há uma semana atrás.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
1-0, o empate
Não há paciência para este sportem. Acho que é a primeira vez que digo isto na vida e custa-me, porque o sportem já me deu muitas alegrias e eu não gosto de ser ingrata. Mas a minha relação com o sportem está a passar uma fase muito difícil: a indiferença.
Tornei-me numa daquelas pessoas que nem vê os jogos do sportem e só muda de canal de vez em quando para conferir o resultado, como faço com qualquer paços de ferreira-moreirense. Não é por mal, juro, mas é que já nem quero saber. Já passei muitos anos a adormecer durante jogos do sportem, mas nem querer ver é muito grave. É que eu vejo muita coisa inútil, mas o sportem não aguento.
Cheguei a pensar que tinha de procurar ajuda clínica. Precisei que alguém me desse um comprimido de anti-lagartismo, uma coisa assim do género. Ansiava pelo dia em que um Barroso qualquer tentasse discutir futebol comigo, para eu me lembrar do quanto não gosto deles. Esperei e tive sorte: o Porto-sportem chegou.
Chegou, mas ainda assim foi difícil não adormecer. Valeu-nos aquele golaço do Jackson, que me está a fazer acreditar que voltámos a descobrir um craque. Depois foi o normal contra estas equipas da segunda metade da tabela: o Porto ficou à espera que o jogo terminasse. Claro que, às vezes, estes clubes pequenos apanham-nos distraídos, arrancam em contra-ataque, sacam um livre manhoso, e marcam um golo quase sem querer. Vá lá que o sportem nem isso.
O sportem saiu do Dragão sem fazer absolutamente nada. Eu, que sinto o pânico a apoderar-se de mim de cada vez que um adversário passa o meio-campo, só me preocupei quando uma bola entrou na nossa área sem saber o que estava ali a fazer e vi aquele ao qual chamam "ponta-de-lança" do sportem praticamente desmarcado. Vá lá que ele nem acertou nela.
Se o jogo tivesse terminado ao intervalo (que tinha sido um favor que faziam aos adeptos de futebol), os lagartos nem podiam queixar-se daquela falta de sorte que tanto abunda em alvalade, aquela que os fez mandar uma bola ao poste e, na mesma jogada, sofrer o 3-1 que lhes tirou uma Taça UEFA na própria casa. Façamos uma pausa, então, para recordar esse belo dia. Pronto, adiante.
Mas não, a horrível segunda parte trouxe dois penáltis a favor do Porto e um lagarto expulso. Meu deus, que ultraje!!! Desta ninguém esperava daquela malta que já nos roubou uns quantos bem mais escandalosos do que aqueles, e ainda agora a época começou. Então eu, que como qualquer adepto que se preze nunca admito que um adversário se sinta roubado, estudei atentamente os argumentos verdes.
Ora portanto, o problema do penálti do Cedric, e isto é unânime, não é ele dar com o braço na bola. Dizem eles, baseados numa regra moral desesperada, que ele estava sozinho com a bola, portanto era completamente estúpido marcar penálti. Corrijo: marcá-lo foi correcto, porque há um jogador que, dentro da área, coloca o braço a jeito para dominar a bola; fazê-lo é que foi estúpido, mas aí, meus caros, falem com o Cedric.
Quanto ao vermelho, ainda ouvi alguns com a cassete do costume, que no Dragão é sempre assim e não sei quê. Não sei do que falam, mas sei que o Rojo (nome que, a propósito, lhe cai tão bem) devia até ter sido expulso antes. Vejam bem as entradas do menino e, depois, dêem-lhe daqueles comprimidos do Sá Pinto (paz à sua alma) para o acalmar.
E agora, minhas senhoras e meus senhores, um momento único: eu também acho que não há penálti sobre o Jackson. É verdade que a câmara não é nada esclarecedora, estamos a ver o lance por trás, mas, atendendo aos membros do jogador de verde (já vi o lance tantas vezes que deu para reparar em cada braço e em cada perna), não me parece que, além do habitual chega para lá um ao outro, tenha existido falta.
O que é certo é que, se o árbitro não tivesse roubado escandalosamente o sportem, tinham saído do Dragão com um belo empate de 1-0, subiam para um honroso 11º lugar na tabela classificativa, até à frente do portentoso estoril, e o treinador às tantas até podia continuar a ser este até mais uma ou outra humilhação com um Xiripiton qualquer. É uma vergonha isto.
Lá tive eu de lembrar-me o que é o sportem e do tanto que não gosto de um clube assim, acabado como grande, triste até para os seus rivais, e que, como diz um grande lampião, está tão morto que não percebe que aqueles pequenos e breves momentos em que se levanta, começa a esbracejar e dá uns saltinhos enquanto ganha ao gil vicente, não passam de espasmos provocados por um desfibrilhador.
Mas eles lá andam, à espera de uma santa milagrosa de um Scolari qualquer, a acreditar que o sportem ainda existe. E eu voltei ao mesmo, não quero saber, já passou, vem aí o estoril que se mostrou melhor do que eles e eu estou preocupada é com o facilitismo que a minha equipa por vezes dá.
O sportem, para mim, tornou-se um daqueles primos distantes, com quem não temos relação absolutamente nenhuma e que vemos apenas de tempos a tempos, num casamento ou num baptizado, em que lhe perguntamos, mais por simpatia do que por interesse genuíno: - Então, está tudo bem? E ele diz-nos que sim, que está bem, mesmo que o cão tenha morrido, o filho esteja doente e a mulher tenha fugido com outro.
Tornei-me numa daquelas pessoas que nem vê os jogos do sportem e só muda de canal de vez em quando para conferir o resultado, como faço com qualquer paços de ferreira-moreirense. Não é por mal, juro, mas é que já nem quero saber. Já passei muitos anos a adormecer durante jogos do sportem, mas nem querer ver é muito grave. É que eu vejo muita coisa inútil, mas o sportem não aguento.
Cheguei a pensar que tinha de procurar ajuda clínica. Precisei que alguém me desse um comprimido de anti-lagartismo, uma coisa assim do género. Ansiava pelo dia em que um Barroso qualquer tentasse discutir futebol comigo, para eu me lembrar do quanto não gosto deles. Esperei e tive sorte: o Porto-sportem chegou.
Chegou, mas ainda assim foi difícil não adormecer. Valeu-nos aquele golaço do Jackson, que me está a fazer acreditar que voltámos a descobrir um craque. Depois foi o normal contra estas equipas da segunda metade da tabela: o Porto ficou à espera que o jogo terminasse. Claro que, às vezes, estes clubes pequenos apanham-nos distraídos, arrancam em contra-ataque, sacam um livre manhoso, e marcam um golo quase sem querer. Vá lá que o sportem nem isso.
O sportem saiu do Dragão sem fazer absolutamente nada. Eu, que sinto o pânico a apoderar-se de mim de cada vez que um adversário passa o meio-campo, só me preocupei quando uma bola entrou na nossa área sem saber o que estava ali a fazer e vi aquele ao qual chamam "ponta-de-lança" do sportem praticamente desmarcado. Vá lá que ele nem acertou nela.
Se o jogo tivesse terminado ao intervalo (que tinha sido um favor que faziam aos adeptos de futebol), os lagartos nem podiam queixar-se daquela falta de sorte que tanto abunda em alvalade, aquela que os fez mandar uma bola ao poste e, na mesma jogada, sofrer o 3-1 que lhes tirou uma Taça UEFA na própria casa. Façamos uma pausa, então, para recordar esse belo dia. Pronto, adiante.
Mas não, a horrível segunda parte trouxe dois penáltis a favor do Porto e um lagarto expulso. Meu deus, que ultraje!!! Desta ninguém esperava daquela malta que já nos roubou uns quantos bem mais escandalosos do que aqueles, e ainda agora a época começou. Então eu, que como qualquer adepto que se preze nunca admito que um adversário se sinta roubado, estudei atentamente os argumentos verdes.
Ora portanto, o problema do penálti do Cedric, e isto é unânime, não é ele dar com o braço na bola. Dizem eles, baseados numa regra moral desesperada, que ele estava sozinho com a bola, portanto era completamente estúpido marcar penálti. Corrijo: marcá-lo foi correcto, porque há um jogador que, dentro da área, coloca o braço a jeito para dominar a bola; fazê-lo é que foi estúpido, mas aí, meus caros, falem com o Cedric.
Quanto ao vermelho, ainda ouvi alguns com a cassete do costume, que no Dragão é sempre assim e não sei quê. Não sei do que falam, mas sei que o Rojo (nome que, a propósito, lhe cai tão bem) devia até ter sido expulso antes. Vejam bem as entradas do menino e, depois, dêem-lhe daqueles comprimidos do Sá Pinto (paz à sua alma) para o acalmar.
E agora, minhas senhoras e meus senhores, um momento único: eu também acho que não há penálti sobre o Jackson. É verdade que a câmara não é nada esclarecedora, estamos a ver o lance por trás, mas, atendendo aos membros do jogador de verde (já vi o lance tantas vezes que deu para reparar em cada braço e em cada perna), não me parece que, além do habitual chega para lá um ao outro, tenha existido falta.
O que é certo é que, se o árbitro não tivesse roubado escandalosamente o sportem, tinham saído do Dragão com um belo empate de 1-0, subiam para um honroso 11º lugar na tabela classificativa, até à frente do portentoso estoril, e o treinador às tantas até podia continuar a ser este até mais uma ou outra humilhação com um Xiripiton qualquer. É uma vergonha isto.
Lá tive eu de lembrar-me o que é o sportem e do tanto que não gosto de um clube assim, acabado como grande, triste até para os seus rivais, e que, como diz um grande lampião, está tão morto que não percebe que aqueles pequenos e breves momentos em que se levanta, começa a esbracejar e dá uns saltinhos enquanto ganha ao gil vicente, não passam de espasmos provocados por um desfibrilhador.
Mas eles lá andam, à espera de uma santa milagrosa de um Scolari qualquer, a acreditar que o sportem ainda existe. E eu voltei ao mesmo, não quero saber, já passou, vem aí o estoril que se mostrou melhor do que eles e eu estou preocupada é com o facilitismo que a minha equipa por vezes dá.
O sportem, para mim, tornou-se um daqueles primos distantes, com quem não temos relação absolutamente nenhuma e que vemos apenas de tempos a tempos, num casamento ou num baptizado, em que lhe perguntamos, mais por simpatia do que por interesse genuíno: - Então, está tudo bem? E ele diz-nos que sim, que está bem, mesmo que o cão tenha morrido, o filho esteja doente e a mulher tenha fugido com outro.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
O amante ingénuo e sentimental
Gosto muito de futebol. Tenho respeito pelo jogo, pela sua história e pelas suas histórias. Vejo jogos antigos, procuro coisas que não conheço, sobretudo, claro, sobre o meu clube.
Acho que a única metáfora válida para isto é, lamentavelmente, a do amor. A Catarina já escreveu sobre isso acerca da saída do Villas-Boas. Talvez não qualifique como metáfora e seja isso o que é: amor. Parece duro e inconcebível: pode alguém amar um clube, um jogo? Para mim, sim.
Enervei-me há uns dias com o inacreditável Marselha-Benfica, a primeira mão, de onde saímos vivos com 2-1, depois de levarmos três lindas bolas aos ferros e tirarmos duas em cima da linha, permitindo-nos chegar vivos à Luz contra uma equipa que tinha Papin, Mozer e Waddle. E, já agora, o príncipe Francescoli. Francescoli, que tem um ar de escritor sul-americano, e jogava com a melancolia do Coronel Aureliano Buendía. Procurei esse jogo e emocionei-me como se encontrasse um álbum velho de fotografias da família. Sorri com equipamentos, como quem sorri com os velhos penteados dos anos 80. Revi caras em quem estou sempre a pensar, mas com quem não falo todos os dias, mas devia. Quando o vídeo acabou, foi como fechar o álbum e voltar a arrumá-lo. Voltar à realidade nunca é fácil depois de revisitar uma infância feliz, cheia de amor.
Vi, com o meu pai, que é a pessoa que me ensinou a ver futebol e com quem falo dez, vinte vezes por dia de futebol e dia sim dia não sobre os outros assuntos, o Benfica-Barcelona. Vimos, juntos, a melhor equipa de todos os tempos. Messi, Xavi, Iniesta, Puyol, Busquets. Só foi pena que Pep estivesse longe (tinha jantado com Woody Allen nessa semana. Como se ser treinador da melhor equipa de sempre não chegasse, Pep decidiu juntar a isso preencher-se. Incrível.), mas aquela ideia, aquele conceito que trespassará o tempo, que será visto daqui a 50, 100 anos por outro Manel, em vídeos distantes e históricos, passou no meu relvado, na minha Luz. Claro que o meu amor ao Benfica é superior ao amor ao futebol. Fico lixado de termos perdido, mas corrói-me mais perder 2 pontos largados no campeonato do que aquilo. E acho que quem gosta do Benfica e quer que o Benfica volte a ser grande como já o foi, devia observar a dimensão deste Barça, o que ali se passa. O facto de serem extraordinários semanalmente tira-nos a capacidade de admirar uma equipa de que todos teremos saudades quando acabar. E essa dimensão do Barça explana-se no respeito ao jogo. Que Messi, que é, para mim, o melhor da história, tenha sorrido como uma criança para pedir a Pablo Aimar a sua camisola, a mim, emociona-me. E emociona-me porque aquele monstro, aquele génio, aquele homem que vai superar o tempo, parecia um miúdo com 10 anos à porta do estádio, à espera que acabasse o treino do seu ídolo. E Aimar, que é um gentleman e que talvez tenha até recusado o jantar com Guardiola e Allen, sorriu também. Mais uma fotografia para o álbum. E nós com consciência disso.
Sinceramente vos digo que tenho ainda a ilusão, o sonho, de um dia conseguir falar com uma destas pessoas. Falar com um destes, que amam o jogo. Sentar-me um dia, a jantar, e contar a Maradona, ou a Aimar, ou a Valdano, ou a Pep, aquilo que eu sinto quando vejo um Marselha-Benfica. Gostava de poder conversar, com uma cerveja à frente, sobre estas coisas que se me ocorrem e que me fazem vir para aqui escrever quando vejo futebol. Gostava de lhes falar de Mozer e das fotografias do meu tio João. E sinto, e não vos sei explicar porquê, que aqueles em quem identifico este amor pelo jogo, me perceberiam.
Quando ontem ouvi o discurso de Marcelo Bielsa, treinador do Athletic de Bilbao, após a derrota contra o Barcelona na Taça do Rei, apeteceu-me convidar o senhor para jantar cá em casa. Contar-lhe que, durante o Sporting-Athletic de Bilbao, houve uma imagem sua, de cócoras, a pensar. E que a Catarina, sorrindo, disse: "Gostava de ser assim. Saber aquilo tudo de futebol. Na cabeça daquele homem está a passar montes de futebol, agora.". Gostava de partilhar isso com o senhor Bielsa e gostava de lhe servir um copo de vinho e agradecer. Um homem que, à frente do seu plantel, os acusa de serem "milionários prematuros", de não terem "feridas nem cicatrizes" percebe que os seus jogadores desrespeitaram quem ama futebol. Pior, desrespeitaram os seus adeptos, que qualifica como "ingénuos" e "extraordinários". E é bonito que Bielsa fale dos adeptos num balneário, sem ser aquele discurso politicamente correcto numa conferência de imprensa, com patrocínios atrás e só para os aplausos. Não, Bielsa falou do povo basco dentro do balneário já sem nada a ganhar. Falou por respeito. Falou por amor. Sentiu que tinha que lhes dizer aquilo.
Esta grandeza, esta humanidade toda, eu só a consigo verdadeiramente sentir no futebol. E partilho isso todos os dias com o meu pai e com a Catarina, partilho isso tantas vezes que me sinto chato, porque sei que falo disto muitas vezes, mas isto para mim é uma coisa pungente, é uma coisa forte e tenho que a dizer, tenho que a escrever.
Gostava, um dia, de poder receber o senhor Bielsa, de jantar com ele e dizer-lhe que eu, se fosse jogador de futebol, principalmente se fosse jogador de futebol do Benfica, não me permitiria rir se perdesse uma final. E teria respeito por esse povo ingénuo e extraordinário que sofre pelas cores de uma camisola. Gostava, mesmo, de um dia jantar com Guardiola ou Bielsa e ouvi-los falar. Mas, mais do que isso, mais do que beber uma cerveja com o Maradona, gostava que o meu Benfica recuperasse esta imensa dimensão humana, esta grandeza, este respeito. Gostava que houvesse no Benfica discursos destes, capazes de me prender a fala. Gostava que houvesse alguém no Benfica que nos representasse a nós, os amantes ingénuos e sentimentais.
Brindo a isso. Com amor.
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