sábado, 15 de dezembro de 2012

Eles não sabem o que perdem

Tenho muita sorte na vida. A namorada de sonho, a família perfeita, o emprego que sempre quis. Além disso, já viajei muito para a minha idade. Já estive em Sarajevo, cheguei a ver as torres gémeas, já vi a praça vermelha em Moscovo, as pirâmides do Egipto, a grande baía dos corais na Austrália. Tenho quase vergonha de ter tanta sorte na vida. Viajar é conhecer outras coisas, é ver o mundo para além da paragem de metro onde entramos todos os dias. São outras comidas, outras gentes.
Podia continuar o resto do texto neste tom. Mas, para ser honesto, quando estou num aeroporto, a última coisa em que penso antes de embarcar é que o Benfica costuma ganhar praticamente sempre comigo no estrangeiro.

Retirando a dolorosíssima derrota com o Braga em 2010/2011 e um ou outro acidente (fora do campeonato, sempre) cito-vos de cor que ganhámos 3 jogos seguidos para o campeonato enquanto, de mochila às costas, corri a europa de Leste. Em Praga demos 4-0 ao Leiria em casa e foi com uma cerveja na mão, no City pub Sarajevo, que soube de um 2-1 ao Guimarães.
Em Roma, 2004, num périplo "ultra" com o R., ganhámos 2-0 ao Moreirense. E, mais recentemente, despachámos o Rio Ave não em Vila do Conde, mas em Banguecoque e o Olhanense no Cambodja. Às vezes acho que devia emigrar. Largar tudo. Não pela aventura, não pela procura de melhores condições de vida, mas pelo Benfica.

Isto leva-me ao último fim de semana, onde estive num congresso em Atlanta. Atlanta não é propriamente Paris, onde tudo é bonito. Não tem a luz de Lisboa, não tem a aura de Barcelona, a arte de Florença ou a calma e exoterismo de Luang Prabang, no Laos. Atlanta tem a sede da CNN e um centro de congressos muito grande. E acho que é isso.
Como é óbvio, nós, os maluquinhos, não conseguimos sair de casa sem procurar a nossa loucura. Uma pessoa não vai a Milão sem pensar em ir a San Siro, como é óbvio, senão para que é que servia ir a Milão? Na pior das hipóteses compramos um cachecol, vá. Em Tallin, num hostel preenchido por várias nacionalidades, em que acabámos todos a ir beber um copo, lembro-me de, com um alemão do 1860 Munique, perceber o quão longe estávamos de casa e sempre perto dos nossos clubes.

Em Atlanta, dada o severo atraso civilizacional do país, não procurei futebol. E contentei-me em ir ver um Atlanta Hawks - Washigton Wizards para a NBA. Dizia-vos: eu tenho muita sorte na vida e quando fui a Nova Iorque, vi um Knicks-Bucks, com o Garden cheio, o Ray Allen de um lado, o Sprewell e o Alan Houston no outrozE houve um triplo na jogada final a levar o jogo para prolongamento. Interrogo-me, à luz da minha entusiasmada e pormenorizada descrição (isto foi em 1999), se a minha memória não terá registado melhor este jogo que Times Square. Portanto, este jogo foi giro, mas bem mais desapontante. Pavilhão praticamente vazio e um jogo medíocre. Mas quantos de nós não estivémos já em estádios frios, à chuva, com meia dúzia de loucos na bancada e nos sentimos no centro do mundo? Haverá maior prazer do que o subir à rede para festejar um golo, com a chuva a cair-nos na cara e com os jogadores ali mesmo, camisola vermelha suada e punho erguido para nós?

E não precisamos dos ecrãs de altíssima definição daquele pavilhão em Atlanta, com as estatísticas a passar em tempo real.  Não queremos restaurantes com vista para o jogo. Eu quase que me esqueço de respirar quando estou a ver o Benfica, nem quero imaginar se tentasse mastigar ao mesmo tempo. Naquele pavilhão não há paixão. As pessoas entusiasmam-se mais com a "Kiss Cam", quando a câmara procura casais durante um desconto de tempo para estes se beijarem, do que com o jogo. Ninguém assobia a equipa rival e antes de todos os períodos via-se uma mensagem de um jogador da casa a apelar a que não só não houvesse linguagem imprópria, mas para que se denunciasse quem o fizesse. Os estádios de futebol são uma escola de vernáculo indispensável à sobrevivência. E, num derby, podíamos, em vez da "Kiss Cam", fazer a câmara dos piretes.

Ligado à net, nervossísmo, possuído, vibrei com a vitória em alvalade. Gritei sozinho, disse palavrões, sofri, tapei a cara, festejei como um louco. Se me tivesse comportado assim no pavilhão tinha sido denunciado e expulso. O desporto americano, uma máquina de dinheiro, é um passatempo, é um entretenimento. Ninguém sofre, ninguém se enerva. É como ir ao cinema ver um filme banal. Não há paixão, não há excessos, não há rivais, não há uma história de uma vida entre os adeptos e um emblema.
Contava Valdano (escrevi isto no meu anterior blog) que, apóso Nápoles de Maradona, um adepto napolitano faleceu e mandou escrever na campa, para os futuros napolitanos: "Vocês não sabem o que perderam". Em Atlanta, terra a que vou sempre associar Óscar Cardozo e um 1-3 em Alvalade, só eu é que gritei e só eu fui verdadeiramente feliz. Os americanos não sabem o que perdem. É que ter um clube é conhecer outras coisas, descobrir alegrias e tristezas que às vezes parecem impossíveis. Ter um clube é viajar.

Post em actualização: tenho que meter umas fotos para abrilhantar isto.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Torcer pelos maus

Diz que é por volta dos seis anos que começamos a distinguir o bem do mal. No meu caso foi aos três, quando os meus pais finalmente me fizeram sócia do Futebol Clube do Porto (o meu irmão é sócio desde que nasceu, prova inequívoca que é o filhinho preferido). No entanto, a vida vai-nos mostrando que nem tudo é preto ou branco, que há momentos em que as noções se confundem e cabe-nos a nós aprender com isso. Um derby entre sportem e benfica parece-me um exemplo perfeito disso.

O meu corpo transpira ódio pelos dois e, geneticamente, estou disposta a torcer sempre contra ambos. Nos gloriosos tempos em que o benfica terminava campeonatos em sexto lugar, eu torcia na mesma pelo quinto, mesmo que este constituísse uma maior ameaça para o meu clube. Nestes amorosos tempos em que o nacional vai à frente do sportem, eu torcerei sempre pelo primeiro na próxima jornada, até porque continuo a acreditar que tenho uma excelente oportunidade de ver o segundo descer de divisão.

Só que, às vezes, eles jogam um contra o outro e aí impera a lei: torcer sempre pelo resultado que interessar mais ao Porto. E eu acho que não se dá o devido valor à dificuldade que um adepto doente como eu tem em fazer isto. Torcer pelos maus. Olhar para aquelas camisolas detestáveis e querer que elas corram, que elas fintem, que elas marquem. Que horror, até me custa escrever.

Os dérbis da segunda circular são porreiros porque nos dão sempre pontos, mas fazem sentir-me uma pessoa pior. Em 2000, gritei o golo do Sabry em alvalade e ainda hoje sinto o peso da vergonha na troca de olhares com os meus pais, que fizeram o mesmo. Esta semana, gritei um golo do Wolfswinkel e tive vontade de me enfiar num buraco no segundo a seguir. Ensinaram-me que estes dois são maus e eu não devia ter de fazer isto.

É um bocado como no Dexter. A série conta a história de um serial killer que canalizou a sua vontade de matar para os homicidas, os pedófilos e todos os criminosos que não são devidamente punidos pela Justiça. E eu, que sempre vi os serial killers como maus, doentes e detestáveis, dou por mim a torcer para que ele mate mais e escape à polícia e acabe feliz para sempre com outra assassina. Tudo coisas que uma criança com seis anos facilmente saberia dizer que são más.

A moral da história? Mesmo aquilo que à partida é mau pode ser bom um dia, dependendo do resultado que pretendes. O Dexter mata gente má, tem diálogos excepcionais e, bem, é apenas uma personagem fictícia que me entretém desta forma. E o sportem? Bem, o sportem é uma merda e não dá para contar com esta gente.


(Vitória muito, muito importante com o moreirense. Na verdade, se continuarmos a ganhar quando jogamos menos bem e a jogar melhor para ganharmos mais, nem precisaremos de nos distrair com isto)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Apocalypse Now

Estivemos em viagem pelo Sudeste Asiático e, durante três semanas, os nossos clubes portaram-se bem. Porto e benfica deixaram-nos fazer turismo calmamente, sem grandes exaltações a não ser os saltos da cama às quatro da manhã para ir ver os SMS com os resultados. Devo dizer, no entanto, que nos foi complicado ir além dos resultados na percepção do que se foi passando por cá. Isto porque as mensagens escritas vinham tanto dos meus pais como do pai do M. e estas não podiam ser mais diferentes. Se uma dizia “benfica ganhou, moreirense claramente gamado”, a que se seguia era um “benfica ganhou, e só não foram mais por causa do árbitro”. Enfim, cada um de nós acreditou no que quis (eu decidi basear-me na ciência e ir pela amostra mais ampla, claro).

Vivemos nesta doce harmonia até chegarmos a Portugal. O Porto, que na sexta-feira era a única equipa invencível da Europa, a equipa com mais pontos na Liga dos Campões e o dominador implacável do futebol português das últimas décadas (esta continuará a ser, peço desculpa), teve a sorte de ir jogar a Braga e perdeu. Perdeu bem, diga-se de passagem, porque não jogou o que tinha de jogar para ganhar. E, como se o adeus prematuro a um título não fosse suficientemente duro para os adeptos portistas mastigarem, ainda por cima perdeu com um onze em campo claramente a léguas do melhor que nós temos. E vamos chamar-lhe onze porque eu continuo a achar que o Kléber conta para as estatísticas, só isso.

Vítor Pereira decidiu poupar os jogadores principais e apostar numa equipa alternativa. E isso é sempre fatal, não só quando se perde, mas principalmente porque é Vítor Pereira e ainda há adeptos que se dizem do Porto que torcem contra o clube para ficarem com a barriga cheia de razão. Fê-lo por duas razões, segundo o que percebi: por um lado, quer perceber até onde pode ir com a rodagem do plantel, porque os tempos estão difíceis (para alguns) e não vamos comprar um substituto para o Lucho à altura quando este estiver de rastos; por outro, quis poupar as estrelas para o jogo desta terça-feira em Paris.

Ora, em relação à primeira tentativa, falhou redondamente. O plantel do Porto é curto, demasiado curto, e há poucas opções de categoria. Já me parece assim desde a pré-época, e tenho pena que o nosso treinador tenha demorado até ao último dia de Novembro para o ver. Mas enfim, no ano passado a direcção também só o viu no mercado desta altura, quando foi buscar um ponta-de-lança porque deixou de se fiar em milagres.

Quanto à segunda, falhou ainda mais escandalosamente. A sério que me esforcei para perceber que, embora já estivéssemos classificados e me tenha custado milhões abdicar de uma competição para isto, a Liga dos Campeões é sempre uma prioridade, seja pelo dinheiro imediato, pelo dinheiro no futuro ou pelo prestígio. Só que o Porto perdeu, outra vez, e perdeu bem, sem que tenha jogado o que tinha de jogar para ganhar. Perdeu por causa de um frango (normalmente é um por ano portanto pode ser que já estejamos safos), é certo, mas perdeu um primeiro lugar que ainda vamos ver o quanto nos podia ajudar na próxima fase. E, muito mais do que o dinheiro ou o prestígio, é isto que me preocupa: que o Porto, muito provavelmente, não tenha equipa para ir além dos oitavos.

Duas derrotas em cinco dias vão muito além do que um adepto portista consegue suportar. Coitados dos adeptos das equipas pequenas que acham isto normal. Imaginem como será ser adepto do sportem, meu deus.

Dizem que o fim do mundo é este mês e agora começo a acreditar. Se o apocalipse tinha de começar por algum lado, era por aqui, pelo mais inesperado. E é por isso que alerto os portistas que estamos numa fase crucial da época e que não podemos perder pontos até à ida ao salão de festas. Ainda por cima, o benfica tem o calendário facilitado, uma vez que vai a alvalade.

Peço-vos, portanto, que não baixem os braços perante duas batalhas perdidas. Durante a nossa viagem, olhámos para a paisagem e percebemos claramente por que razão os americanos perderam ali uma guerra: o clima é inóspito e traiçoeiro e as pessoas são unidas nas suas crenças e orgulhosas nos seus ideais. Mantenhamo-nos assim: orgulhosos e unidos. E acreditemos que não será este clima inóspito e traiçoeiro, de excitação com os nossos desaires, que nos irá derrotar.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Quero dançar contigo, Jackson

Tenho imensa pena de não ter nascido com um dom. Gostava de saber dançar, de conseguir cantar ou de aprender a tocar saxofone como a Lisa Simpson. Mas nada. Não há arte neste mundo que me tenha caído em sorte. Nadinha de nada. Se um dia o mundo acabar e os que fazem algo de extraordinário puderem sobreviver numa espécie de arca, eu estou tramada.

Já aqueles que o têm cheiram-se à distância. Eu não vi Maradona jogar mas sei que tem lugar garantido. Messi tirará o lugar a Noé. Ronaldo comprará um lugar para entrar. E entre os outros, os que fazem parte deste planeta, há muitos e cada vez mais que passam por nós.

Lá na frente, onde o dom é mais decisivo, só nos últimos anos tivemos a sorte de ter Lisandro, o prazer de conhecer Falcao e o orgulho de ver Hulk de azul e branco. O primeiro continua a ser muito bom, o segundo é o melhor de todos e o terceiro é nosso e há-de ser. Mas não é deles que vos quero falar, porque no Futebol Clube do Porto não vivemos do passado.

Eu, normalmente e à semelhança da maioria dos portistas, sou uma adepta muito desconfiada. Nunca acredito em quem chega com rótulo de estrela, duvido sempre das capas de jornais espampanantes e demoro muito tempo a convencer-me que ali, naquele Lisandro, naquele Falcao ou naquele Hulk, existe um dom.

Este ano, no entanto, confesso que me sinto fácil. Não sei o que se passa, se é de mim ou dos sete jogos da Liga consecutivos a marcar, mas Jackson Martinez atingiu-me em cheio.

Talvez tenha sido aquele golo contra o sportem, embora contra estas equipas que lutam pela manutenção a tarefa de um ponta-de-lança esteja naturalmente facilitada. As costas viradas para o guarda-redes, como se o ignorasse, a bola a quase parar na coxa, com respeito, e o calcanhar que só se percebe bem à terceira repetição. Talvez tenha sido isso.

Ou talvez seja pelas inúmeras vezes em que aparece no sítio certo. Aqueles cruzamentos dos colegas que parecem todos certeiros, a bola que sobra do adversário para ele ou o leve encostar lá para dentro. Talvez seja isso também.

Ou então foi aquela bola que ele salvou num canto contra nós, ou aquela recuperação no meio-campo, ou aquela abertura para a direita (ou terá sido para a esquerda?) que enganou os defesas, ou aquela desmarcação exemplar quando os colegas trocavam a bola a mil quilómetros por hora, ou aquela calma arrepiante em frente ao guarda-redes. Pode ser isso, sim, admito.

Não sei o que se passa, mas há algo em Jackson que me faz acreditar que há ali um dom. Não sei se são golos, se são fintas, se é técnica, se é força, se é talento, se é sorte. Para já, sabe-me bem a dança.



P.S. Belo jogo na sexta, tanto da parte da equipa como dos adeptos. É mesmo assim que queremos, mister.

P.S.2 Não vou falar da arbitragem do "pode ser o João", a sério que não vou.

P.S.3 Faltam ___ dias para acabar o sportem.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Carta ao André Gomes

André,


Ontem estava no sofá a ver a tua estreia. Gostei. Há algo em ti que me faz gostar de te ver jogar. Não te vou mentir: só te espreitei em 4 ou 5 jogos da equipa B, não sigo a tua carreira desde os 11 anos ou algo parecido, mas gostei do que vi. E o que é que te interessa isso?

Sem modéstias, André, eu já estou na triste idade – 28 anos – onde os jogadores de futebol já são, na sua maioria, mais novos do que eu. E essa é uma idade dramática porque um tipo racional, como eu sou, percebe que o sonho da sua vida (ser jogador de futebol, que é o sonho de todos as pessoas do mundo com alguma noção da grandeza) já não dá. Isto é estúpido porque eu, racionalmente, percebi que não ia ser jogador de futebol quando aos 15 anos deixei de ser convocado no Farense porque faltava a treinos para estudar, numa clara noção de falta de prioridades (hoje eu e a Catarina viveríamos em Barcelona e eu trocava a bola com Messi – jogava em vez do Alexis, se te estiveres a perguntar – e eu não tinha quase adormecido (eu disse quase) na segunda parte por ter feito urgência de 24 horas no dia anterior).

Cheguei à idade da razão, sem ilusões. Estou consciente de que não vou ser jogador de futebol. Mas, dado que o meu pai me treinou para isso desde os 3 anos, estou numa fase de intelectual da bola – com blog e tudo – convencido que a minha opinião vale muitíssimo. Já não digo que gosto de ver a Série A, que era o que os intelectuais do futebol diziam nos anos 90 e príncipios dos anos 2000 (e eu gostava – verdadeiramente – de ver a Série A), mas continuo convencido – apesar deste empecilho da Medicina – de que a minha opinião vale alguma coisa. E digo isto sem vaidade. É a coisa de que eu percebo mais na vida e um tipo tem que ter amor próprio. Se eu tivesse que responder a três perguntas para salvar a minha vida e me perguntassem uma categoria eu não escolhia Medicina, eu diria: “Benfica, anos 90, se faz favor”. Portanto, isto é a única coisa em que eu considero que a minha opinião é mesmo válida e, vamos lá tornar as coisas interessantes, uma autoridade.

E faço-te este preâmbulo, André, para que me leves a sério. Para que se torne importante para ti, que és mais novo do que eu (e isso custa-me), de que eu acho que tu podes vir a ser um bom jogador de futebol. Perguntar-te-às: posso vir a ser? Sim, ainda não o és. Prefiro entregar o meio campo do clube do meu coração a um sérvio que mal sabe correr do que a ti. Não porque tu não possas vir a ser melhor do que ele, mas agora não és. E eu não quero perder pontos com o Gil Vicente para te ver crescer, André. Não és assim tão importante. Ninguém é suficientemente importante para eu admitir que o Benfica pode perder pontos.

E como é que eu sei que tu podes vir a ser um bom jogador, André? Por várias coisas, a primeira pela maneira como tu corres. O Rosa, da equipa B, também é bom jogador e seria útil no plantel, mas nunca será um craque. É daqueles tipos que corre como se o mundo acabasse amanhã. Não obstante a extrema utilidade de jogadores assim em qualquer plantel, é fácil observar que nenhum génio tem pressa quando joga à bola. Xavi, Iniesta e mesmo Messi, na sua velocidade estonteante, nunca parecem ter pressa. É óbvio que tu nunca serás nenhum destes três, mas podes atingir um patamar que, mesmo a mundos de distância destes extra-terrestres, pode ser de alto rendimento para o Benfica. E isso far-me-ia muito feliz.
Dizia-te que corres sem pressa, que jogas de cabeça levantada (daí as exageradas comparações com Rui Costa que era de uma elegância quase absurda com a bola nos pés) e tens uma qualidade de passe surpreendentemente madura. Explico-me: o Carlos Martins tem qualidade de passe, mas passa a bola excessivamente “com truque”. Ora dá efeito, ora coloca o pé por baixo, à futsal, ora tenta o passe impossível, à Zidane. Quando resulta, é esteticamente muito bonito e vai parar ao Youtube. Mas é uma mania que custa várias jogadas perdidas e que é um desperdício em quem tem os pés do Carlos Martins. E isto é porque o Carlos Martins, mesmo com quase 30 anos, ainda não tem maturidade a jogar à bola. Ainda não percebeu que já não vai ser o Maradona. Já tu pareceste-me bater sempre a bola seca e com destino e não parecia só aquele medo que os miúdos têm na estreia. E isso agrada-me. És pragmático, no melhor dos sentidos possíveis.
Agradou-me, também, a recepção antes do golo. O remate pareceu-me demasiado para cima e, pela tua linguagem corporal, percebeste imediatamente que a bola subiu muito. Mas a recepção teve nível. Não faz – só por si – de ti um bom jogador, mas agradou­-me. Porque um tipo que é mau nunca recebe a bola como tu recebeste. Um tipo bom, ou que tem tudo para vir a ser bom, recebe. Acho que é das coisas mais difíceis de fazer e que é um bom medidor da capacidade técnica de um jogador. Iniesta parece falar com a bola para a acalmar e Zidane tinha uma recepção de veludo. Na recepção daquele passe – que não era propriamente difícil, convenhamos – passaste o nível básico de recepção. Se não a tivesses segurado tão redonda, não te escrevia.  

Venho então dizer-te, André, que tu podes vir a ser um bom jogador do Sport Lisboa e Benfica. E isso significa que me poderás dar alegrias, que as minhas semanas podem ser melhores por tua causa. Significa uma responsabilidade enorme, mas uma dignidade ainda maior.
É óbvio que a minha opinião vale o que vale. Ou seja, muitíssimo para mim, nada para o resto do mundo. Eu já vi muitos jogadores com grande potencial falharem. E muitos que ficaram aquém do seu valor. Mais houve em quem o resto do mundo viu potencial e eu nunca e também falharam: o Hélio Roque, o Rui Baião, tipos desse género.

Portanto isto agora depende de ti. Talvez seja isto seja um bocado de projecção minha: tu és um tipo alto e com barba por fazer, e talvez eu veja em ti quem eu poderia ter sido como jogador do Benfica e portanto imagine este talento todo. Aí, meu caro, nem te peço desculpa pelo incómodo, e só me resta rir de mim. Com sorte, poucos se lembrarão deste texto. Com azar, enquanto te arrastares no Rio Ave aos 30 anos e marcares um golo, alguém me mandará este texto por e-mail.
Mas se tu fores mesmo bom como eu acho que tu podes vir a ser, aproveita. Corre, treina, trabalha. Dá a vida por isso, André. É que eu já tenho 28 anos e, para mal dos meus pecados, já não posso levantar o Estádio da Luz (até porque, quando for treinador do Glorioso, o meu génio táctico não será aplaudido como um golo e o público baterá palmas aos idiotas úteis que eu coloquei de forma genial em campo). Mas reconheço em ti o potencial para tal. Portanto esfola-te e chega lá.

É que sabes, André: aos 28 anos, mesmo com uma vida perfeita e cheio de saúde, eu ainda me imagino a ganhar um derby no último minuto, à chuva, com 10 nossos contra 11 deles, depois de fintar 3 lagartos e picar a bola sobre o guarda-redes. E às vezes, quase que juro, parece-me mesmo nítido ver a Luz aos saltos e sinto a camisola vermelha carregada de suor e chuva colada ao meu corpo enquanto levanto os braços e corro de alegria. Mas é só um sonho. Resta-me ficar na bancada, com a mesma camisola carregada de suor e chuva, à espera que um de vós, já mais novo do que eu, faça isso por mim.

Um abraço,

Manel

PS: já sei que foste formado e até adepto daquele clube de azul. São manchas no passado que só vários títulos de águia ao peito podem limpar.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vota Vieira

Camaradas, está na hora de definirmos posições. Ou estamos de um lado, ou estamos do outro. Fora o Paulo Portas, claro. Vivemos tempos difíceis, instáveis e incertos, em que ninguém sabe qual é o melhor caminho. Mas eu já escolhi: estou com Luís Filipe Vieira.

Vieira a primeiro-ministro

Desde logo porque, para mim, os sócios do Futebol Clube do Porto estão sempre em primeiro lugar. Se é para entregar algo nas mãos de alguém, que seja em quem eu já sei que vai lutar pelos mesmos interesses do que eu.

Vieira a ministro das Finanças

Soube que Vieira era a melhor opção quando valorizou Mantorras até aos 18 milhões de contos.

Vieira a ministro dos Assuntos Parlamentares

As pessoas já não acreditam nos mesmos de sempre, estão fartas, precisam de uma alternativa. Com Vieira, teremos certamente “um novo ciclo”.

Vieira a ministro da Justiça

Precisamos de alguém que conheça o sistema por dentro, por isso nada melhor do que um condenado por roubo.

Vieira a ministro da Administração Interna

Temos de reforçar a segurança. Há malucos a atirarem petardos em assembleias-gerais, a pintarem paredes e a denunciarem as trafulhices cá para fora. Só Vieira pode chamar os capangas que roubaram o Moretto ao Porto (muito obrigada, meus caros, devo-vos esta).

Vieira a ministro dos Negócios Estrangeiros

Agradeçamos ao homem que, só para dar um exemplo, descobriu Falcao.


Vieira a ministro da Educação

Está na altura de segurar os nossos jovens, de deixarmos de exportar o nosso melhor produto para outros países. Com Vieira, não há conselhos à emigração (Nelson Oliveira, pára de ler o post). Queremos a “coluna vertebral” da selecção.

Vieira a ministro da Saúde

Chega de colocar o Serviço Nacional de Saúde nas mãos dos profissionais… de Saúde. Exigimos um gestor, alguém que possa racionar os tratamentos. Com Vieira, o homem que não gosta da maneira de jogar de Hulk, temos olho clínico assegurado.

Vieira a ministro da Economia

Andámos a viver acima das nossas possibilidades. Adivinham-se tempos em que os presidentes terão de andar em cuecas e só Luís Filipe Vieira tem experiência nisso.



Vieira a ministro da Defesa

Aqueles vândalos do Norte já fizeram tudo: deram cinco no Dragão, foram campeões na luz e deram a volta a uma desvantagem de cinco pontos no campeonato. Se votarem em Vieira, é difícil serem mais atacados do que isto.

Vieira a ministro da Agricultura

Estamos a semear um futuro melhor. As modalidades já ganham títulos e a águia continua a ajudar ao bom ambiente na luz. Não fosse o Porto e aquela coisa chamada futebol, e o mundo era lindo.

Vieira a ministro da Segurança Social

O buraco é grande, já se sabe, mas Vieira e os seus negócios esquisitos com Madrid e Angola prometem tapá-lo, dê por onde der.



Se isto não for suficiente para vos convencer (como é possível, seus ingratos?), então têm sempre a opção de votar no outro candidato, aquele que eu nem sabia que era lampião até há uma semana atrás.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

1-0, o empate

Não há paciência para este sportem. Acho que é a primeira vez que digo isto na vida e custa-me, porque o sportem já me deu muitas alegrias e eu não gosto de ser ingrata. Mas a minha relação com o sportem está a passar uma fase muito difícil: a indiferença.

Tornei-me numa daquelas pessoas que nem vê os jogos do sportem e só muda de canal de vez em quando para conferir o resultado, como faço com qualquer paços de ferreira-moreirense. Não é por mal, juro, mas é que já nem quero saber. Já passei muitos anos a adormecer durante jogos do sportem, mas nem querer ver é muito grave. É que eu vejo muita coisa inútil, mas o sportem não aguento.

Cheguei a pensar que tinha de procurar ajuda clínica. Precisei que alguém me desse um comprimido de anti-lagartismo, uma coisa assim do género. Ansiava pelo dia em que um Barroso qualquer tentasse discutir futebol comigo, para eu me lembrar do quanto não gosto deles. Esperei e tive sorte: o Porto-sportem chegou.

Chegou, mas ainda assim foi difícil não adormecer. Valeu-nos aquele golaço do Jackson, que me está a fazer acreditar que voltámos a descobrir um craque. Depois foi o normal contra estas equipas da segunda metade da tabela: o Porto ficou à espera que o jogo terminasse. Claro que, às vezes, estes clubes pequenos apanham-nos distraídos, arrancam em contra-ataque, sacam um livre manhoso, e marcam um golo quase sem querer. Vá lá que o sportem nem isso.

O sportem saiu do Dragão sem fazer absolutamente nada. Eu, que sinto o pânico a apoderar-se de mim de cada vez que um adversário passa o meio-campo, só me preocupei quando uma bola entrou na nossa área sem saber o que estava ali a fazer e vi aquele ao qual chamam "ponta-de-lança" do sportem praticamente desmarcado. Vá lá que ele nem acertou nela.

Se o jogo tivesse terminado ao intervalo (que tinha sido um favor que faziam aos adeptos de futebol), os lagartos nem podiam queixar-se daquela falta de sorte que tanto abunda em alvalade, aquela que os fez mandar uma bola ao poste e, na mesma jogada, sofrer o 3-1 que lhes tirou uma Taça UEFA na própria casa. Façamos uma pausa, então, para recordar esse belo dia. Pronto, adiante.

Mas não, a horrível segunda parte trouxe dois penáltis a favor do Porto e um lagarto expulso. Meu deus, que ultraje!!! Desta ninguém esperava daquela malta que já nos roubou uns quantos bem mais escandalosos do que aqueles, e ainda agora a época começou. Então eu, que como qualquer adepto que se preze nunca admito que um adversário se sinta roubado, estudei atentamente os argumentos verdes.

Ora portanto, o problema do penálti do Cedric, e isto é unânime, não é ele dar com o braço na bola. Dizem eles, baseados numa regra moral desesperada, que ele estava sozinho com a bola, portanto era completamente estúpido marcar penálti. Corrijo: marcá-lo foi correcto, porque há um jogador que, dentro da área, coloca o braço a jeito para dominar a bola; fazê-lo é que foi estúpido, mas aí, meus caros, falem com o Cedric.

Quanto ao vermelho, ainda ouvi alguns com a cassete do costume, que no Dragão é sempre assim e não sei quê. Não sei do que falam, mas sei que o Rojo (nome que, a propósito, lhe cai tão bem) devia até ter sido expulso antes. Vejam bem as entradas do menino e, depois, dêem-lhe daqueles comprimidos do Sá Pinto (paz à sua alma) para o acalmar.

E agora, minhas senhoras e meus senhores, um momento único: eu também acho que não há penálti sobre o Jackson. É verdade que a câmara não é nada esclarecedora, estamos a ver o lance por trás, mas, atendendo aos membros do jogador de verde (já vi o lance tantas vezes que deu para reparar em cada braço e em cada perna), não me parece que, além do habitual chega para lá um ao outro, tenha existido falta.

O que é certo é que, se o árbitro não tivesse roubado escandalosamente o sportem, tinham saído do Dragão com um belo empate de 1-0, subiam para um honroso 11º lugar na tabela classificativa, até à frente do portentoso estoril, e o treinador às tantas até podia continuar a ser este até mais uma ou outra humilhação com um Xiripiton qualquer. É uma vergonha isto.

Lá tive eu de lembrar-me o que é o sportem e do tanto que não gosto de um clube assim, acabado como grande, triste até para os seus rivais, e que, como diz um grande lampião, está tão morto que não percebe que aqueles pequenos e breves momentos em que se levanta, começa a esbracejar e dá uns saltinhos enquanto ganha ao gil vicente, não passam de espasmos provocados por um desfibrilhador.

Mas eles lá andam, à espera de uma santa milagrosa de um Scolari qualquer, a acreditar que o sportem ainda existe. E eu voltei ao mesmo, não quero saber, já passou, vem aí o estoril que se mostrou melhor do que eles e eu estou preocupada é com o facilitismo que a minha equipa por vezes dá.

O sportem, para mim, tornou-se um daqueles primos distantes, com quem não temos relação absolutamente nenhuma e que vemos apenas de tempos a tempos, num casamento ou num baptizado, em que lhe perguntamos, mais por simpatia do que por interesse genuíno: - Então, está tudo bem? E ele diz-nos que sim, que está bem, mesmo que o cão tenha morrido, o filho esteja doente e a mulher tenha fugido com outro.