Depois do sorteio de ontem não há como não recordar Leverkusen e aquela jornada de enfarte na Taça das Taças. O Benfica de 1994 era maravilhoso e jogava à bola que se fartava. E era humano, nos seus defeitos e nas suas teimosias. Recordo-me dele com carinho e com um sorriso - agarrei-me com força a este Benfica durante 11 anos, portanto é natural. E, de tantas grandes jogatanas dessa época, lembro-me nitidamente de Leverkusen.
Eu vivia em Faro e tinha 10 anos. E agora podia continuar e dizer que "era uma criança como todas as outras". Mas não era. Tinha 10 anos, era muito bom aluno, mas muito calado. Não saltava telhados nem fazia descidas perigosas de bicicleta. Vivia no terror de me perder (era o que eu tinha mais medo, era de me perder). Enfim, era um marrão. Mas adorava futebol e o Benfica. Se havia confusão no recreio eu afastava-me. Mas se havia futebol estava sempre lá, suado e com as calças rasgadas, prontas a levar mais um remendo no joelho. Fazia as vontades todas aos meus pais e nem discutia com a minha irmã (mais velha do que eu, com interesses diferente).
A temporada corria bem ao Benfica. Íamos em primeiro no campeonato e a caminhada europeia continuava. O João Pinto estava numa forma inacreditável e eu estava feliz e confiante. Quando nos calhou o "Bayer de Leverkusen", só me ocorreu perguntar - eu sabia que retoricamente - que aquele não era o Bayern. O meu Pai disse-me que não, mas que eram o "fortíssimos" e, do alto do seu pessimismo habitual, que está agora irremediavelmente entranhado em mim, prognosticou logo: "Vamos ser eliminados.". Aos 10 anos eu tinha medo de muita coisa: de não ter os trabalhos de casa certos, de me perder a ir para casa, que alguém me batesse na escola, etc. Agora, de uma equipa que eu nunca tinha ouvido falar, não. E logo eu, que sabia de cor o 11 da Juventus, do Milan, do Barcelona e do Boavista do Manuel José. Enfim, um expert. Em 1994, ver um jogo de futebol em Faro podia tornar-se uma aventura (nós nem tínhamos SIC) e foi com alegria que recebi a notícia que íamos ver o jogo a casa dos Pelica, que tinham satélite e tinham a DSF (onde eu viria a ver, uns anos mais tarde, as finais dos Bulls contra os Utah Jazz). Podíamos ir ver o jogo. Em nome do manto sagrado, foi-me levantada a hora de me deitar. E lá fui eu, super confiante.
Não jogámos nada, nada, nada. E aquilo mexeu comigo. Primeiro estava controlado, mas depois, exasperado pelos estrangeiros que o Toni tinha escolhido e com a nossa incapacidade de passar o meio campo, comecei a soltar comentários. Se bem me lembro, de lágrimas nos olhos, cheios de raiva, acho que disse, inclusive, que o Toni era "um burro de merda". Recordo-vos que eu era muito bom aluno e nunca me portava mal, portanto isto deve ter sido mais bizarro do que parece. O Isaías marcou o 1-1 mesmo sob o apito final, num golo cheio de ressaltos e lá me aliviou um bocado. À ida para casa, no mais perto que o meu Pai teve que se zangar comigo uma infância inteira, ele lá me confrontou (não sei se com estas palavras exactas, a minha memória é muito boa, mas não chega a tanto. Bem, não interessa, o tom era mais ou menos este.): "Portaste-te um bocado mal. Já estavas a falar mal de toda a gente. Do Toni, do Isaías, do Paneira...". "Pois foi", anuí. "Não podes sofrer tanto. Já te tinha dito que eles eram mais fortes e que íamos ser eliminados.". E, confrontado com a fria realidade, lembrando-me das lágrimas que vertera sem parar depois de termos levado 3-0 da Juventus no ano anterior, decidi aceitar a derrota e não sofrer com o jogo da segunda mão.
Não me lembro de nada entretanto. Não me lembro de um acontecimento. Não sei o que se passou entre 2 e 14 de Março de 1994. Mas lembro-me, com exactidão doentia, do dia 15.
Entrámos de branco em Leverkusen. O branco impoluto, à Benfica, que o Glorioso envergava quando os adversários tinham a ousadia de envergar a cor do manto sagrado. Mas eu, como era bom rapaz e já o tinha prometido ao meu Pai, entrei em campo calmo e aceitando a derrota anunciada.
Fizemos um jogo louco, brilhante. Cheio de alma, cheio de vida. A equipa jogava cada bola como se o mundo acabasse depois daquilo e trocava-a com arrogância, com uma superioridade que não era própria de quem ia enfrentar Kirsten, Schuster e Paulo Sérgio. Tabelas, fintas e graça, mas a bola não entrava. Em cada jogava, empolgava-me por dentro, mas não me queria mexer, para não mostrar ao meu Pai que, no fundo, lhe estava a mentir e que acreditava. Foi com surpresa que o ouvi gritar ao Isaías "CHUUUUTA!" e larga um "Merda" quando os alemães cortam. Afinal, ele também acreditava.
E, apesar de descomplexados, apesar de estarmos a limpar a imagem da primeira mão, 1-0 deles, frango do Neno. Um clássico de 1994: cada cruzamento era um suplício. Um género de Roberto, mas com uma super equipa à frente e capaz das manchas mais impossíveis. Porra. Fiquei chateado, mas continuei a acreditar. Porque não? Estávamos a jogar tão bem.
Segunda parte e 2-0 deles. Schuster. Baixei os braços, desaminado. E o meu Pai desatou a insultar toda a gente. Toni, Neno, William, Abel Xavier. Tudo uma merda. E eu, feito estúpido, a acreditar. Eu achava que sim, que éramos melhores. Logo a seguir, canto nosso. O meu Pai ainda está a insultar alguém nosso, bola no Rui Costa, calcanhar e um grande berro: "MAS PORQUE É QUE ESTE GRANDE ESTÚPIDO VAI CHUTAR?" e antes da frase a acabar, já a bola entrou. Golo nosso. Um golaço inacreditável do Abel Xavier. E eu aos pulos na sala. O meu Pai a olhar para mim e para o Abel Xavier, sem saber estava mais incrédulo de eu ainda acreditar se do Xavier ter marcado aquele golo.
Fiquei possuído. Senti que íamos virar aquilo. Canto nosso. Levanto-me, faço gestos para a televisão, mando toda a gente subir, quero ganhar a estes alemães, quero pedir desculpa a toda a gente de me ter portado mal em casa dos Pelicas, quero ganhar, quero que o Benfica ganhe. Filmam a área alemã e o meu Pai (grande noite, Pai, estavas em forma): "PORQUE É QUE O JOÃO PINTO, COM AQUELE TAMANHO, INSISTE EM SUBIR NOS CANTOS CONTRA OS ALEMÃES?!" Rui Costa bate e JVP faz o 2-2. A minha Mãe veio à sala tal era o meu estado de euforia. Almofadas pelo ar, o meu Pai em cima do sofá e uma gritaria de envergonhar o terceiro anel. No contra-ataque, quando o Kulkov fez o 3-2, eu e o meu pai abraçamo-nos no sofá como o Kulkov e o Yuran e eu já estava no céu. O Benfica não jogava, planava na relva. Rui Costa fez dos melhores jogos da sua carreira e Paneira e Isaías estavam impossíveis para os alemães. A equipa girava, encantada consigo mesma. "Ainda vamos perder isso." - a frase foi do meu Pai, mas esta é uma característica que eu hoje tenho. Estamos a ganhar 3-1 ao Marítimo, estamos com um a mais e a dar um festival, mas eu sinto sempre que algo me vai lixar a noite. Que ainda posso acabar mal disposto. Foi, claramente hereditário. Quando os alemães fizeram o 3-3, foi a primeira vez que me lembro de ter um timbre adulto e concentrado. Deixei de ser um miúdo de 10 anos, crente e iludido nos poderes divinos do Glorioso e perguntei: "Quanto tempo falta?". Esta maturidade, ganhara-a nos infantis do Farense, onde já tínhamos sido previamente ensinados a "demorar mais tempo a ajeitar as meias antes de marcar um livre quando estivéssemos a ganhar". Lembro-me de tudo ser confuso, extremamente rápido e alucinante.
Comecei a chorar convulsivamente no 4-3. Corriam-me lágrimas e lágrimas, não isoladas, mas como se uma camada de água me cobrisse a cara, ma encharcasse. Lembro-me da tristeza de tudo aquilo, do meu Pai ir acender um cigarro e afagar-me a cabeça antes. Foi uma coisa que parecia definitiva, um golpe que demoraríamos anos a sarar, uma cicatriz para a vida. E podíamos ter sido tão felizes, não podíamos? O Kulkov e o Yuran ainda há pouco estavam abraçados, como é que a vida pode ser tão miserável, tão cruel?
E eis que o Rui parte na direcção do meio campo deles. Sem a poesia em movimento, mas com uma velocidade até inusitada. Nós levantamo-nos no sofá. E o Rui dá no JVP. E nós já estamos aos berros, e a minha Mãe já está a entrar na sala. E o JVP, da esquerda para a direita, finta um. E nós já estamos em cima do sofá, há muitos berros, há muita confusão, e não sei se sou eu que grito ou se é o meu Pai ou se a minha Mãe, mas o JVP prega o Lupescu ao chão e dá no espaço e parece que há uma força de todos nós que empurra o Kulkov, chuta Kulkov, chuta, e o meu Pai grita GOOOOOOLO e abre os olhos de espanto para a televisão e está de braços no ar, até que percebe, espantado, que eu não gritei golo, e olha para mim e eu parei de respirar.
Não entrei em paragem cardio-respiratória, não tive de ser reanimado nem nada, mas, quando o Kulkov meteu o 4-4, estive uns bons 3 segundos sem conseguir respirar com a emoção. Quando o ar me voltou, gritei e gritei (sozinho, porque os meus pais estavam petrificados de medo que eu caísse ali para o lado) e dei voltas à casa e gritei ainda mais. Lembro-me de que, quando o jogo acabou, toda a sala era um caos. Sofás virados ao contrário, almofadas espalhadas, muita cinza no chão. Lembro-me da minha felicidade e de me rir do meu Pai e dizer-lhe que ele não acreditava e que eu sim e do sorriso dele, maior do que ele queria admitir.
Ainda hoje, quando falamos do 4-4 em Leverkusen, recordamo-lo como o jogo em que eu parei de respirar. Acho que foi dessa vez que toda a minha família atingiu a dimensão da minha loucura, da minha devoção ao Benfica. E ainda hoje acho, ou tenho a certeza, que foi nesse jogo que também eu percebi o meu Benfiquismo.

