quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O copo e a ironia

Um copo está meio cheio ou meio vazio consoante a nossa sede. Frente a um rival sem James, que tem ganho 1-0 em golos de bola parada a adversários de menor nomeada, o nosso habitual optimismo (e aqui refiro-me ao Benfica, porque quem me conhece sabe que optimista vem muito longe na minha tabela de caracterização) até tinha alguma razão de ser. Eles, estranhamente, face ao passado recente, vinham pessimistas. E digo estranhamente, porque eu, sendo doente pelo meu clube, tenho um respeitinho muito grande à equipa de futebol das riscas à presidiários e gosto da sua forma de jogar calculista e controladora, ao invés da loucura constante do nosso 4-1-3-2, que tantas vezes se transforma num 2-0-8. 

Os azuis controlaram o jogo, mas não foram o Barça, que foi quase a ideia passada pelo Vítor Pereira. E nós não fomos tão meninos - não houve lances como o segundo golo deles no ano passado. Tudo bem, não havia James, mas não houve falhas dessas da nossa parte. 20 minutos de loucura e depois muito respeitinho, um empate justo.
Eu, mesmo pessimista, fico sempre lixado de não ganharmos a quem quer que seja, quanto mais ao clube do grande Martins dos Santos. Acho que entrámos nervosos, acho que o Melgarejo, mesmo superando as expectativas, depois de nos enterrar com o Braga, enterrou muito neste jogo. Ao Salvio exigia-se mais nos lances um contra um contra o Alex Sandro e Cardozo, meu amigo e camarada, responsável por tantas e tantas alegrias, falhou aquele golo (mas está perdoado. Cardozo, além de um goleador, irrita a Marta Rebelo, portanto eu perdoo-lhe tudo). 
Jorge Jesus, treinador com méritos indiscutíveis (o canto de Cardozo, com cabeceamento de Salvio à figura é uma delícia), aprendeu a ser mais cauteloso, mas ainda não lê este blog, daí que o meu desejo de jogarmos em 4-3-3 certos jogos seja só uma ilusão minha. 

Mas também tiro coisas boas: o Porto é excessivamente calculista. Especula pouco ou nada. E se isso é um seguro de vida em jogos difíceis, contra equipas de retranca (que não aquelas, tipo Setúbal, que abrem as pernas e fazem 2 faltas por jogo) e sem o seu craque, pode ver-se aflito. Num campeonato como o português, duro, faltoso e defensivo, isto poderá ser uma desvantagem. Infelizmente, têm-na contornado. Esperemos que isso acabe.
Já nós, apesar da crónica incapacidade de fazer 30 segundos que seja de posse de bola contra equipas do mesmo nível, pelo menos não jogámos com os dois laterais a extremos e os médios centro na área adversária, o que, parecendo que não, é quase novidade. E eu vi - juro! - o Gaitan fechar no meio e parar contra-ataques. 

Enfim, mais a frio, foi um bom jogo de futebol, de equipas com características muito diferentes, mas que jogam bem à bola (o golo de Matic é de bandeira e o passe de Jackson para Varela uma monstruosidade). E digo-o sem falsos desportivismos, só desejo mal ao clube do agora presidente do Belenenses e queria que o Benfica jogasse só contra adversários fáceis em que à meia hora estava 4-0, mas acho importante dizê-lo. E quem do Benfica não perceber o adversário que enfrentamos, não perceberá a importância de nos mantermos focados no campeonato, sem loucuras.
Posto isto - que toda a gente já disse, mas eu precisei de alguns dias para arrumar as ideias - segue a luta. Nada de pessimismo exagerados nem dos optimismos bacocos. É ganhar hoje em Coimbra e segunda ao Moreirense. O copo está a meio. Vamos enchê-lo?

Uma última notinha sobre árbitros, porque senão fica toda a gente a pensar que só a Catarina é que é uma fanática doente e que eu sou um tipo politicamente correcto (que é das coisas que mais me irrita, eu sou tão ou mais doente do que ela): dá-me um gozo do caraças ver os azuis a estrabucharem com árbitros. É que, para mim, ver Pinto da Costa a mandar bocas à Liga e tecer considerações sobre nomeações de árbitro em público é sempre refrescante. Ou fina ironia. Tempos houve onde tínhamos de ir ao Youtube ouvi-lo falar. Eram tempos em que ele não precisava de mandar bocas aos árbitros pela televisão, eles iam lá a casa. Ou é falta de memória ou de vergonha.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

En garde!

O futebol português está transformado num duelo. Durante semanas, afiam-se as espadas, prepara-se o jogo de cintura e estuda-se atentamente o rival. Tudo se resume a este momento, principalmente ali, naquele palco onde somos tradicionalmente felizes e onde eles já não aguentam mais humilhação. O benfica-Porto é o jogo do ano, e que pena que já passou.

Vítor Pereira VS Jesus

Antes do apito inicial, o benfica era favorito para a maioria, na qual vergonhosamente me incluo. A verdade é que todos conseguimos ver como lhes tem sido mais fácil ultrapassar os adversários. E o Porto, apesar de apresentar esta época uma solidez incrível, não é propriamente uma fábrica de avançados goleadores e médios criativos - as posições que nós, os ignorantes da bola, valorizamos mais.

Além disso, estava à espera de um grito de revolta, de quem não aguenta mais perder para o Porto, e até com um impulso gratuito de última hora: a conferência de imprensa de antevisão de Vítor Pereira, por si só, chegava e sobrava para motivar os vermelhos a entrarem em campo que nem cães (Maxi, levaste muito à letra esta expressão). Confesso que também eu caí na armadilha do nosso mister. Ao vê-lo tão confiante, pensei que estaria a dar-lhes trunfos. Mas não, ele é que sabia o que vinha aí.

Mesmo sem James (provavelmente, o melhor jogador da Liga até ao momento) e mesmo com um banco vergonhoso para o nível do FCPorto, Vítor Pereira tinha a lição mais do que estudada e deu o chamado banho de bola. Não foi um futebol espectacular durante 90 minutos, nem mereceu entrar no campo da “nota artística” do outro, mas até a mim, portista mais descrente e temerosa do mundo, me convenceu em pouco tempo que estava tudo controlado.

Vítor Pereira arrasou, mais uma vez, Jorge Jesus. Já o tinha feito no ano passado e pelos vistos não bastou. Tenho muita pena que continuem a existir os portistas que o criticam, sem tentarem sequer perceber o gigantesco trabalho que o treinador campeão tem feito. Não fiquei surpreendida, portanto, de ver o nosso mister tão nervoso durante e depois do jogo. O problema de Vítor Pereira não era só o estar em casa do rival com o “pode vir o João” a estragar-lhe o que tanto pensou e treinou; o problema de Vítor Pereira é também este estado contínuo de ansiedade que a massa assobiativa provoca, como se a qualquer empate pudessem rejubilar com o seu falhanço. E por favor não me venham com a conversa da “exigência” dos adeptos do FCPorto. Da exigência à estupidez vai um longo caminho.

Caro mister: na época passada, eu disse que a vitória no salão de festas era toda sua. Bem, este ano quero agradecer-lhe o ter tentado repetir a dose. Só peço que se acalme, porque nós estamos consigo e estamos a gostar mesmo muito do que a equipa joga. Não vale a pena andarmos chateados com isto.

Jackson VS Cardozo

No dia do jogo, as três capas dos jornais desportivos destacavam os goleadores das duas equipas. Não é caso para menos. Cardozo tem disparado golos a torto e a direito nos últimos jogos e Jackson, bem, sobre Jackson já disse tudo o que sinto. E a vitória neste duelo foi clara.

Jackson foi soberbo! Quando por vezes se diz que há jogadores que são capazes de vir atrás, receber a bola, segurá-la, passá-la, distribuir jogo, fintar, cruzar e ainda ir a tempo de estar no local certo lá na frente para criar perigo, pelos vistos é porque se está a falar de Jackson Martinez, que neste jogo também foi um bocadinho de James e até de Varela, quando este já não tinha pernas para mais. Ainda por cima marcou um golo, aquele golo, que tanto gozo me deu.

Houve até um lance da segunda parte em que Jackson me deu vontade de apagar qualquer registo deste jogo, porque ele recebeu uma bola do lado esquerdo do campo e, calmamente, com ar de quem até nem está para perder muito tempo a pensar no que vai fazer, arranca um passe com o pé direito para o Varela que ainda hoje eu não percebi como é que aconteceu. Não viram? Ainda bem, pretendo apagar isto da memória de toda a gente, para que não venha rapidamente um milionário qualquer buscá-lo.

Quanto a Cardozo, bem, eu sou daquelas que se ri quando ele é assobiado pelos próprios adeptos, que não compreendem a distância que vai de um Nuno Gomes ou de um Mantorras para este paraguaio com ar de atrasado mental que só sabe marcar golos (e agora cantos, pelos vistos, como se eu já não sofresse o suficiente com ele). Mas, deste jogo, guardo a classe com que as grandes revelações azuis e brancas (Otamendi e Mangala, que jogadores!) o conseguiram travar, à excepção daquele lance em que “Le Mur” demora um segundo a pensar e lá vai ele, lançado, sozinho, em frente ao guarda-redes e, graças a nosso senhor jesus cristo, falha.

Helton VS Artur

E, por falar nesse lance, fale-se do duelo das balizas, que o jornal “A Bola” tratou de ridicularizar na sua capa do dia seguinte ao jogo. O outro tem razão: o FCPorto nem sempre joga com um guarda-redes. Naquela noite, por exemplo, a defesa de Helton ao remate de Cardozo valeu por dois ou três.

Já do outro lado, o rei Artur esteve imparável. Já vi o lance do golo do Jackson umas 12 vezes e não consigo parar de achar piada. Melhor: já vi todas as fotos desse momento e registei na minha memória aquele olhar que é uma mistura entre “ai que já fiz merda” e um suplicar de ajuda em direcção ao fiscal-de-linha, à procura, sei lá, de um fora-de-jogo? De uma falta? De miminhos? Pobre Artur. Da maneira que a vida lhe corre, ainda vai acabar a pedir ao outro mais um ou dois guarda-redes para jogarem com ele.


Maxi Pereira VS o mundo

Sim, eu também sou daquelas que adora jogadores raçudos. Gosto dos que suam, dos que sentem a camisola, dos que vivem aquele jogo como o último das suas carreiras. E Maxi Pereira já foi assim, é um facto, compensando até alguma (e notória) falta de talento e de capacidade para se adaptar a uma posição. Só que os anos passam e, esta época, o alegado lateral direito do benfica não é mais do que um velho. Está sempre fora do sítio, é ultrapassado e enganado várias vezes pelos adversários mais fracos que possam imaginar e recorre ao último dos trunfos: a violência.

Ando há semanas a discutir com o M. sobre este assunto. Sempre que vejo um jogo do benfica, fico convencida que, com um árbitro decente (eles existem?), Maxi Pereira quase nunca acabava um jogo em campo. Contra o Porto, foi apenas mais um, e no seu melhor: completamente incompetente a defender, a chutar a bola para a frente e a distribuir paulada a quem aparecesse à frente.

Estava descansado, suponho, porque não é qualquer um que tem carta branca para isso. Mas o que me impressiona mais não é aquele golpe de kung fu aplicado ao Moutinho. É quando ele se levanta, com a mão no ar, certamente não a pedir desculpa mas antes a alegar que não foi nada – mas o quê, já não se pode espetar um pontapé noutro gajo? –, espera que o árbitro se concentre nos nossos protestos e depois, quando já sente, já sabe, que não vai ser expulso - e juro que nunca mais me vou esquecer deste momento -, ele sorri. Sorri, o grande cabrão. Maxi Pereira já não tem muito futebol para dar, mas eu só rezo para que tenha uma oportunidade de me despedir dele.

João Ferreira VS António Godinho

Muito renhido este duelo. Godinho (nome de génio) começou fortíssimo, com o fora-de-jogo assinalado ao Defour que é capaz de ir parar àqueles resumos hilariantes da Eurosport. Seguiu-se o do Alex Sandro, que está tão em linha que desconfio que o Godinho, com o jogador vermelho à frente, nem o viu, apenas levantou a bandeira porque estava uma ventania do caraças. Ainda pensei: “vá, Catarina, não sejas assim. O homem chama-se Godinho e isso é castigo que chegue nos dias de hoje. Às tantas o problema é o fumo que está no estádio, não te preocupes que ele a partir de agora vai ver tudo direitinho”. Mas não, depois ainda veio aquele do Varela, quando o céu já estava clarinho. Oh, santa ironia! Foram três foras-de-jogo, três, mas sem influência directa no resultado, claro, porque o Defour e o Varela isolados estão muito longe de contar sequer como oportunidade de golo. Ainda por cima, em nenhum dos dois lances o rei Artur chegaria a tempo de lhes passar a bola.

Mas não pensem que o Godinho se ficou a rir. O João-pode-vir tinha de fazer jus ao prémio carreira que foi apitar este clássico. O João-pode-ser não podia despedir-se do benfica num amigável (e logo ele que é chamado a apitar todos na luz). O João tinha de sair pela porta grande. 

Do Maxi já falei e só mesmo o João é que podia soltar aquele amarelo, mas a expulsão perdoada ao Matic chega a ser fofinha. O ar do rapaz – a pensar “pronto, já fui, dei demasiado nas vistas, é impossível que esta panada por trás a cortar um lance de contra-ataque não resulte em cartão” – e o pode-vir-o-João a chegar lá, com calma, a abrir o peito e a abanar a cabeça aos jogadores do FCPorto, atónitos, porque estava tudo controlado e afinal o Matic nem precisava de se preocupar. Que classe, João, que classe. Vais deixar tantas saudades naquele estádio...

Portistas VS lampionagem

Acho engraçado que, no ano passado, os jornais tenham feito capa com o golo do Maicon (esquecendo, na altura, o voleibol do Cardozo) e os telejornais tenham aberto com as imagens desse lance, mas este ano eu tenha tido imensa dificuldade em ver estes cinco lances (tive de ver aqueles programas com três comentadores e tenho vergonha disso). Nada de novo para nós, esta súbita falta de atenção mediática.

Mas do que eu quero mesmo falar é do duelo nas bancadas. E chamo-lhe duelo porque, enfim, 50 e tal mil lampiões hão-de contar para alguma coisa, mesmo que calados ou, na maior parte dos casos, com medo.

Medo, é isso. Eles têm medo de nós. Estão traumatizados, coitados. Queriam um 15-0, uma coisa histórica para se redimirem das constantes vergonhas. Esperavam por um hattrick do Cardozo, um poker do Lima e ainda um ou outro golo do Rodrigo da bancada. Meu deus, tanta confiança.

Não, não era confiança. Era esperança, que é muito diferente. Porque o apito inicial ouviu-se e eles calaram-se. Nem piaram. Ouviram-nos, lá ao longe, na jaula, a mostrar que não é só em campo que o FCPorto gosta de ser superior na luz. Foi maravilhoso, mais uma vez, e só tenho pena de aqueles três mil não serem sempre os mesmos, em todos os estádios, até no Dragão.



Foi um bom duelo, vistas as coisas. Nós ganhámos confiança, eles não perderam os habituais pontos para nós. Saí de lá convencida que temos equipa, que somos capazes de ser campeões e ainda fazer uma gracinha lá fora. Claro que somos, ninguém pode ter dúvidas. Mas calma, muita calma, porque o plantel é curto e a cabeça não se pode perder em desejos de outro mundo. Eles estão mais espertos, já o vimos, e não vão dizer o tradicional “touché” tão facilmente como estamos habituados.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Vamos a eles, rapazes!

Tenho sempre dificuldades em escrever este tipo de textos, motivacionais, antes destes jogos. E tenho dificuldade porque acho que vou sempre escrever o óbvio, aquilo que não precisava de ser escrito.
Se eu fosse jogador do Benfica não precisava de vídeos, não precisava de psicólogos a dizerem-me para acreditar em mim. Quem precisa de acreditar em si quando veste o manto sagrado? Haverá maior motivação na vida do que vestir de águia ao peito? Estou plenamente convencido que se desse consultas vestido à Benfica que ia saber as doses dos fármacos todas de cor.

Isto para mim é óbvio e pungente porque eu sinto que vivi - e vivo - toda a vida com a camisola do Benfica vestida. A minha vida, a minha existência, define-se e funde-se com este clube. Não vale a pena enganar ninguém: quando o meu olhar se ausenta, quando estou 2 minutos em silêncio, eu não estou a pensar no sentido da vida nem na defesa dos direitos dos animais, estou a pensar no Benfica.
Se vocês, que hoje entram em campo, tivessem crescido como eu e aquela classe do Valdo vos tivesse impressionado a vós como me impressionou a mim, quando era pequeno, se vocês, ao invés de serem todos sul americanos, fossem da margem sul e tivessem passado a vida a explicar aos lagartos quantas vezes o Bento foi melhor que o Damas, mesmo que não tenham visto nenhum deles jogar, eu não precisava de vos escrever isto.



Lutem, matem-se, massacrem-nos. Rompam-se, rasguem-se todos, não deixem uma gota de suor por gastar. A nossa história não é só feita de génios como Eusébio, é também feita da massa de gente cujo inevitável caminho para a mediocridade e esquecimento teve uma curva inesperada com a camisola do Benfica vestida. A história do Benfica é feita dos Jaime Graças, dos Álvaros Magalhães, desses invisíveis e incansáveis lutadores, que se transformaram em gigantes que nem em mil anos serão esquecidos. 
Queremos a glória de volta. Queremos o Benfica de volta. Tudo o que vos peço, rapazes, é que deixem a pele em campo, que mereçam o carinho de um estádio e de um clube que, embora vocês não o conhecessem quando entraram pela primeira vez numa cancha no recreio, vos pode levar a uma eternidade muito maior, ao ponto de num recreio de uma qualquer escola no interior do país, um rapaz de 6 anos levar o vosso nome - argentino, paraguaio, brasileiro - nas costas.
E agora, só para vos orientar:

Artur: cuidado com os cruzamentos, dá segurança e orienta a rapaziada aí atrás.
Maxi: não subas à doida e joga à Maxi, como se a tua vida dependesse disso.
Garay: patrão, pá! Nunca deixes o colombiano saltar sozinho. E hoje vais marcar-lhes, num canto.
Luisão: concentra-te, homem, que já tens uns anos disto.
Jardel (se jogares): confiança e calma. Não te precipites.
Melgarejo: o Rámés não joga, portanto a noite pode não ser de pesadelo. Aproveita, sobe e desequilibra, que o Danilo defende mal.
Matic: calmeirão, tens-me surpreendido e pareces o Pirlo sérvio, com 1,90m. Cuidado na transição, que estes cabrões defendem e contra-atacam bem.
Enzo: nada de carrinhos estúpidos, estou cheio de medo que sejas expulso hoje. Passa mais e corre menos. Hoje tens de ter a cabeça no sítio.
Salvio: meu pequeno tanque, tens que desfazer o miúdo que te vai marcar. Cabedal para cima dele e confiança. Calma nos cruzamentos.
Gaitan: ouve lá, rapaz. Se correres e defenderes como os outros, ficas um super jogador. Sacrifica-te. Olha para o Maxi e vê o que ele corre. Depois saca uma genialidade que os lixe, boa?
Ola John (se jogares): miúdo, isto hoje é muito duro. Espero que te tenham explicado que hoje não pode haver ingenuidades nem meninices. Tens que ser incisivo e sacar esses teus cruzamentos que me convenceram.
Lima: eu duvidei da tua contratação, mas isto é a mesma pessoa que quase apostou um orgão vital como o Coentrão nunca ia ser ninguém. Tens sido fundamental e hoje precisamos de ti. Muito. 
Cardozo: meu querido amigo, confiava tudo ao teu pé esquerdo. Melhor que ninguém, tu sabes o que é marcar a estes gajos. Dá-lhes, Tacuara.

Jorge Jesus: mister, não invente. Não invente. E que tenha preparado bolas paradas e a transição defensiva. Ganhe o jogo e traga o caneco.

Bom, já só estamos a oito horas do jogo e a inspiração não deixa sair muito mais. Rapaziada, tragam o título para casa. Da vossa glória e eternidade, tratamos nós disso depois. 



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Pelo senhor Augusto

“Eu deixava de ser eu não tendo o Porto por perto”.

Escusam de procurar mais por grandes citações de famosos filósofos do futebol. É isto, ser adepto é isto. É viver à volta de um clube, é precisar do clube para viver. Quando for grande, quero ser tão portista como quem disse isto.

Este adepto conta que, quando era pequeno, fugia da missa para ir à bola. E diz mesmo assim: “ir à bola”. Que é como os doentes dizem, como se sabe. Continua ele a contar que os seus dias giram “mais ou menos” à volta do futebol. O que, em linguagem de pessoas extremamente fanáticas, quer dizer que não pensa noutra coisa. 

Na época de 1986/1987, quando o FCPorto era apenas uma esperança de equipa europeia, este adepto fez uma aposta com um amigo. No primeiro jogo dessa edição da Taça dos Campeões Europeus, disse que íamos à final. O amigo, um portista descrente como eu, disse que com aquela equipa era impossível, que nem pensar, que até lhe pagava a viagem ao fim do mundo se o Porto fosse à final. Este adepto esteve em Viena. E de borla.

Este adepto foi a mais finais europeias e em todas elas o Porto venceu. Quando não foi, perdemos. Diz um amigo que ele tem de estar lá para ganharmos. E eu, que também estou convencida que o Porto precisa de mim, não só acredito, como proponho começarmos já a fazer uma vaquinha para ele ir à próxima. E por falar em superstições, este adepto tem uma. Quando acha que o jogo é mesmo, mesmo importante, leva um amuleto. Aos nossos olhos, é um chapéu branco, com vários símbolos do Porto e os autógrafos dos campeões europeus de 87. Mas, aos olhos dele, é aquele chapéu que marca o golo decisivo. E eu dou por mim a esperar encontrar aquele chapéu já no próximo domingo.

Este adepto é dos verdadeiros. Olho para ele durante o jogo e a cara é de sofrimento. Sempre, mesmo quando o Porto marca. Ele sofre. Não está a comer pipocas, nem a divertir-se com qualquer coisa que lhe contam. Está a sofrer, concentrado, sempre a olhar para o relvado e a comentar que o central está adaptado, que o ponta-de-lança já é melhor do que o outro que lá esteve antes e que o adversário é um palhaço que se atirou para o chão. Este adepto é, ao mesmo tempo, adepto, treinador, presidente e árbitro.

Este adepto trabalhou desde os 13 anos, e trabalhou muito, mas esta merda de país não o deixou subir na vida. Uma vez, em Sevilha, um escocês ofereceu-lhe 600 euros por um bilhete. Não aceitou, claro, porque “ir ver o FCPorto não se troca por nada”. Ir ver o Porto, para este adepto, é fundamental para ter a força para encarar as putas das dificuldades que cada vez mais nos surgem.

Este adepto tem um jornal guardado. É “A Bola” do dia seguinte à conquista da Taça Intercontinental em 1987. Diz ele que foi o único exemplar desse jornal que comprou na vida, e percebe-se bem porquê. O FCPorto preenche a capa, mas as letras são vermelhas e, na taça, o emblema que lá está não é o nosso. “A Bola” do dia 14 de Dezembro de 1987 colocou o emblema do benfica numa taça que o benfica nem sequer disputou, quanto mais venceu. Este adepto tem nas suas mãos tudo aquilo que nos faz odiar o nosso rival e, felizmente, guardou-o até agora para que nunca o esqueçamos.

Este adepto chama-se Augusto Ribeiro, tem 55 anos e está desempregado. Esta época, pela primeira vez, não tinha dinheiro para comprar o lugar anual no Estádio do Dragão. Por isso, os amigos juntaram-se e ofereceram-lho. Diz um deles que o Porto não pode viver sem o senhor Augusto. E é verdade. O Porto só é o Porto porque tem adeptos assim.

Por isso, rapazes, no domingo é para ganhar. Pelo senhor Augusto.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Em que estás a pensar?

Confesso: eu sou uma daquelas pessoas que segue todos os jogadores do F. C. Porto nas redes sociais. Não porque tenha alguma vontade de interagir com eles, mas porque, como qualquer adepto que se preze, sinto que tenho um papel a cumprir em controlá-los. Paulo Pereira Cristóvão, se me estás a ler: eu percebo-te, homem.

Não se pense, contudo, que esta é uma tarefa fácil ou até divertida. Os jogadores do F. C. Porto dão-me muito trabalho.

Primeiro, porque têm um mau gosto considerável. Abstenho-me de falar das roupas (são muito más rapazes, muito más mesmo), dos sapatos (demasiado brilho, meninos) e dos chapéus (NÃO ESTÁ SOL DENTRO DO ELEVADOR DE VOSSA CASA, CERTO?). Incomoda-me mais acharem que eu estou interessada em saber a marca de champagne caríssimo que bebem, quando na verdade a única coisa que me interessa é a que horas estão a beber álcool e se estão de folga no dia seguinte.

Depois, porque têm muitos seguidores e eu, obviamente, sinto que também os tenho de controlar. A maioria, podemos estar descansados, são meninas adolescentes apaixonadas pelo sorriso do James Rodriguez, pelos cães do Danilo (são um máximo, é verdade) e pelo cabelo do Kelvin (miúdo, um conselho muito sério: corta isso). O problema são aqueles que, em todas as mensagens e fotografias, fazem questão de lhes dizer que eles são os melhores do mundo.

Ora bem, que se entenda isto bem: para mim, os jogadores do F. C. Porto são sempre os melhores do mundo. Mas são-no pela camisola que envergam, não pela casa onde moram, pelo carro que conduzem ou pela namorada que exibem. São-no apesar dos brincos pirosos nas orelhas e apesar de não perceberem que, se o filme da vida deles é uma porcaria qualquer com o Van Damme, nós não o queremos saber. A não ser que, em caso de derrota na luz (vade retro, Satanás!), estejam a pensar matá-los a todos com uma metralhadora.

Quando o Maicon faz um jogaço, marca um golo decisivo e festeja como um dragão, acho óptimo que vão todos a correr dizer-lhe como o adoramos. Nesse dia e nos seguintes, façam-lhe tudo o que ele quiser que eu não quero saber. Agora, quando um rapazinho argentino com a mania que é o Messi usa as redes sociais para desabafar de várias maneiras que se sente muito melhor do que o Futebol Clube do Porto, então façam-me o favor de o mandar à merda em vez de lhe irem dizer que ele devia ser titular e que é um injustiçado.

Titular??? Mas porquê? É melhor do que algum dos nossos sem ser no imaginário de quem o rotulou como nova promessa entre milhares do futebol sul-americano? O que é que ele fez no FCP para merecer tanta admiração? Oh, coitadinho, porque o treinador não o mete em campo. Claro, porque dá-me imensa vontade der ver jogar um gajo que nem na segunda Liga se destaca e que passa a vida a dizer mal do clube.

Sim, Iturbe, deixei de te seguir no Twitter e no Instagram. Já não quero saber como estás vestido, onde passaste o ano ou se foste passear o animal de estimação. Aturei-te enquanto pudeste vestir a nossa camisola, mas agora não quero nada contigo, nem que venhas a ser o melhor jogador do mundo. O que, já agora, duvido muito.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Onde é que tu estavas no 4-4 em Leverkusen?

Depois do sorteio de ontem não há como não recordar Leverkusen e aquela jornada de enfarte na Taça das Taças. O Benfica de 1994 era maravilhoso e jogava à bola que se fartava. E era humano, nos seus defeitos e nas suas teimosias. Recordo-me dele com carinho e com um sorriso - agarrei-me com força a este Benfica durante 11 anos, portanto é natural. E, de tantas grandes jogatanas dessa época, lembro-me nitidamente de Leverkusen.

Eu vivia em Faro e tinha 10 anos. E agora podia continuar e dizer que "era uma criança como todas as outras". Mas não era. Tinha 10 anos, era muito bom aluno, mas muito calado. Não saltava telhados nem fazia descidas perigosas de bicicleta. Vivia no terror de me perder (era o que eu tinha mais medo, era de me perder). Enfim, era um marrão. Mas adorava futebol e o Benfica. Se havia confusão no recreio eu afastava-me. Mas se havia futebol estava sempre lá, suado e com as calças rasgadas, prontas a levar mais um remendo no joelho. Fazia as vontades todas aos meus pais e nem discutia com a minha irmã (mais velha do que eu, com interesses diferente). 

A temporada corria bem ao Benfica. Íamos em primeiro no campeonato e a caminhada europeia continuava.  O João Pinto estava numa forma inacreditável e eu estava feliz e confiante. Quando nos calhou o "Bayer de Leverkusen", só me ocorreu perguntar - eu sabia que retoricamente - que aquele não era o Bayern. O meu Pai disse-me que não, mas que eram o "fortíssimos" e, do alto do seu pessimismo habitual, que está agora irremediavelmente entranhado em mim, prognosticou logo: "Vamos ser eliminados.". Aos 10 anos eu tinha medo de muita coisa: de não ter os trabalhos de casa certos, de me perder a ir para casa, que alguém me batesse na escola, etc. Agora, de uma equipa que eu nunca tinha ouvido falar, não. E logo eu, que sabia de cor o 11 da Juventus, do Milan, do Barcelona e do Boavista do Manuel José. Enfim, um expert. Em 1994, ver um jogo de futebol em Faro podia tornar-se uma aventura (nós nem tínhamos SIC) e foi com alegria que recebi a notícia que íamos ver o jogo a casa dos Pelica, que tinham satélite e tinham a DSF (onde eu viria a ver, uns anos mais tarde, as finais dos Bulls contra os Utah Jazz). Podíamos ir ver o jogo. Em nome do manto sagrado, foi-me levantada a hora de me deitar. E lá fui eu, super confiante.
Não jogámos nada, nada, nada. E aquilo mexeu comigo. Primeiro estava controlado, mas depois, exasperado pelos estrangeiros que o Toni tinha escolhido e com a nossa incapacidade de passar o meio campo, comecei a soltar comentários. Se bem me lembro, de lágrimas nos olhos, cheios de raiva, acho que disse, inclusive, que o Toni era "um burro de merda". Recordo-vos que eu era muito bom aluno e nunca me portava mal, portanto isto deve ter sido mais bizarro do que parece. O Isaías marcou o 1-1 mesmo sob o apito final, num golo cheio de ressaltos e lá me aliviou um bocado. À ida para casa, no mais perto que o meu Pai teve que se zangar comigo uma infância inteira, ele lá me confrontou (não sei se com estas palavras exactas, a minha memória é muito boa, mas não chega a tanto. Bem, não interessa, o tom era mais ou menos este.): "Portaste-te um bocado mal. Já estavas a falar mal de toda a gente. Do Toni, do Isaías, do Paneira...". "Pois foi", anuí. "Não podes sofrer tanto. Já te tinha dito que eles eram mais fortes e que íamos ser eliminados.". E, confrontado com a fria realidade, lembrando-me das lágrimas que vertera sem parar depois de termos levado 3-0 da Juventus no ano anterior, decidi aceitar a derrota e não sofrer com o jogo da segunda mão. 

Não me lembro de nada entretanto. Não me lembro de um acontecimento. Não sei o que se passou entre 2 e 14 de Março de 1994. Mas lembro-me, com exactidão doentia, do dia 15.
Entrámos de branco em Leverkusen. O branco impoluto, à Benfica, que o Glorioso envergava quando os adversários tinham a ousadia de envergar a cor do manto sagrado. Mas eu, como era bom rapaz e já o tinha prometido ao meu Pai, entrei em campo calmo e aceitando a derrota anunciada.
Fizemos um jogo louco, brilhante. Cheio de alma, cheio de vida. A equipa jogava cada bola como se o mundo acabasse depois daquilo e trocava-a com arrogância, com uma superioridade que não era própria de quem ia enfrentar Kirsten, Schuster e Paulo Sérgio. Tabelas, fintas e graça, mas a bola não entrava. Em cada jogava, empolgava-me por dentro, mas não me queria mexer, para não mostrar ao meu Pai que, no fundo, lhe estava a mentir e que acreditava. Foi com surpresa que o ouvi gritar ao Isaías "CHUUUUTA!" e larga um "Merda" quando os alemães cortam. Afinal, ele também acreditava. 
E, apesar de descomplexados, apesar de estarmos a limpar a imagem da primeira mão, 1-0 deles, frango do Neno. Um clássico de 1994: cada cruzamento era um suplício. Um género de Roberto, mas com uma super equipa à frente e capaz das manchas mais impossíveis. Porra. Fiquei chateado, mas continuei a acreditar. Porque não? Estávamos a jogar tão bem.
Segunda parte e 2-0 deles. Schuster. Baixei os braços, desaminado. E o meu Pai desatou a insultar toda a gente. Toni, Neno, William, Abel Xavier. Tudo uma merda. E eu, feito estúpido, a acreditar. Eu achava que sim, que éramos melhores. Logo a seguir, canto nosso. O meu Pai ainda está a insultar alguém nosso, bola no Rui Costa, calcanhar e um grande berro: "MAS PORQUE É QUE ESTE GRANDE ESTÚPIDO VAI CHUTAR?" e antes da frase a acabar, já a bola entrou. Golo nosso. Um golaço inacreditável do Abel Xavier. E eu aos pulos na sala. O meu Pai a olhar para mim e para o Abel Xavier, sem saber estava mais incrédulo de eu ainda acreditar se do Xavier ter marcado aquele golo. 

Fiquei possuído. Senti que íamos virar aquilo. Canto nosso. Levanto-me, faço gestos para a televisão, mando toda a gente subir, quero ganhar a estes alemães, quero pedir desculpa a toda a gente de me ter portado mal em casa dos Pelicas, quero ganhar, quero que o Benfica ganhe. Filmam a área alemã e o meu Pai (grande noite, Pai, estavas em forma): "PORQUE É QUE O JOÃO PINTO, COM AQUELE TAMANHO, INSISTE EM SUBIR NOS CANTOS CONTRA OS ALEMÃES?!" Rui Costa bate e JVP faz o 2-2. A minha Mãe veio à sala tal era o meu estado de euforia. Almofadas pelo ar, o meu Pai em cima do sofá e uma gritaria de envergonhar o terceiro anel. No contra-ataque, quando o Kulkov fez o 3-2, eu e o meu pai abraçamo-nos no sofá como o Kulkov e o Yuran e eu já estava no céu. O Benfica não jogava, planava na relva. Rui Costa fez dos melhores jogos da sua carreira e Paneira e Isaías estavam impossíveis para os alemães. A equipa girava, encantada consigo mesma. "Ainda vamos perder isso." - a frase foi do meu Pai, mas esta é uma característica que eu hoje tenho. Estamos a ganhar 3-1 ao Marítimo, estamos com um a mais e a dar um festival, mas eu sinto sempre que algo me vai lixar a noite. Que ainda posso acabar mal disposto. Foi, claramente hereditário. Quando os alemães fizeram o 3-3, foi a primeira vez que me lembro de ter um timbre adulto e concentrado. Deixei de ser um miúdo de 10 anos, crente e iludido nos poderes divinos do Glorioso e perguntei: "Quanto tempo falta?". Esta maturidade, ganhara-a nos infantis do Farense, onde já tínhamos sido previamente ensinados a "demorar mais tempo a ajeitar as meias antes de marcar um livre quando estivéssemos a ganhar". Lembro-me de tudo ser confuso, extremamente rápido e alucinante.

Comecei a chorar convulsivamente no 4-3. Corriam-me lágrimas e lágrimas, não isoladas, mas como se uma camada de água me cobrisse a cara, ma encharcasse. Lembro-me da tristeza de tudo aquilo, do meu Pai ir acender um cigarro e afagar-me a cabeça antes. Foi uma coisa que parecia definitiva, um golpe que demoraríamos anos a sarar, uma cicatriz para a vida. E podíamos ter sido tão felizes, não podíamos? O Kulkov e o Yuran ainda há pouco estavam abraçados, como é que a vida pode ser tão miserável, tão cruel? 

E eis que o Rui parte na direcção do meio campo deles. Sem a poesia em movimento, mas com uma velocidade até inusitada. Nós levantamo-nos no sofá. E o Rui dá no JVP. E nós já estamos aos berros, e a minha Mãe já está a entrar na sala. E o JVP, da esquerda para a direita, finta um. E nós já estamos em cima do sofá, há muitos berros, há muita confusão, e não sei se sou eu que grito ou se é o meu Pai ou se a minha Mãe, mas o JVP prega o Lupescu ao chão e dá no espaço e parece que há uma força de todos nós que empurra o Kulkov, chuta Kulkov, chuta, e o meu Pai grita GOOOOOOLO e abre os olhos de espanto para a televisão e está de braços no ar, até que percebe, espantado, que eu não gritei golo, e olha para mim e eu parei de respirar. 
Não entrei em paragem cardio-respiratória, não tive de ser reanimado nem nada, mas, quando o Kulkov meteu o 4-4, estive uns bons 3 segundos sem conseguir respirar com a emoção. Quando o ar me voltou, gritei e gritei (sozinho, porque os meus pais estavam petrificados de medo que eu caísse ali para o lado) e dei voltas à casa e gritei ainda mais. Lembro-me de que, quando o jogo acabou, toda a sala era um caos. Sofás virados ao contrário, almofadas espalhadas, muita cinza no chão. Lembro-me da minha felicidade e de me rir do meu Pai e dizer-lhe que ele não acreditava e que eu sim e do sorriso dele, maior do que ele queria admitir. 

Ainda hoje, quando falamos do 4-4 em Leverkusen, recordamo-lo como o jogo em que eu parei de respirar. Acho que foi dessa vez que toda a minha família atingiu a dimensão da minha loucura, da minha devoção ao Benfica. E ainda hoje acho, ou tenho a certeza, que foi nesse jogo que também eu percebi o meu Benfiquismo. 



sábado, 15 de dezembro de 2012

Eles não sabem o que perdem

Tenho muita sorte na vida. A namorada de sonho, a família perfeita, o emprego que sempre quis. Além disso, já viajei muito para a minha idade. Já estive em Sarajevo, cheguei a ver as torres gémeas, já vi a praça vermelha em Moscovo, as pirâmides do Egipto, a grande baía dos corais na Austrália. Tenho quase vergonha de ter tanta sorte na vida. Viajar é conhecer outras coisas, é ver o mundo para além da paragem de metro onde entramos todos os dias. São outras comidas, outras gentes.
Podia continuar o resto do texto neste tom. Mas, para ser honesto, quando estou num aeroporto, a última coisa em que penso antes de embarcar é que o Benfica costuma ganhar praticamente sempre comigo no estrangeiro.

Retirando a dolorosíssima derrota com o Braga em 2010/2011 e um ou outro acidente (fora do campeonato, sempre) cito-vos de cor que ganhámos 3 jogos seguidos para o campeonato enquanto, de mochila às costas, corri a europa de Leste. Em Praga demos 4-0 ao Leiria em casa e foi com uma cerveja na mão, no City pub Sarajevo, que soube de um 2-1 ao Guimarães.
Em Roma, 2004, num périplo "ultra" com o R., ganhámos 2-0 ao Moreirense. E, mais recentemente, despachámos o Rio Ave não em Vila do Conde, mas em Banguecoque e o Olhanense no Cambodja. Às vezes acho que devia emigrar. Largar tudo. Não pela aventura, não pela procura de melhores condições de vida, mas pelo Benfica.

Isto leva-me ao último fim de semana, onde estive num congresso em Atlanta. Atlanta não é propriamente Paris, onde tudo é bonito. Não tem a luz de Lisboa, não tem a aura de Barcelona, a arte de Florença ou a calma e exoterismo de Luang Prabang, no Laos. Atlanta tem a sede da CNN e um centro de congressos muito grande. E acho que é isso.
Como é óbvio, nós, os maluquinhos, não conseguimos sair de casa sem procurar a nossa loucura. Uma pessoa não vai a Milão sem pensar em ir a San Siro, como é óbvio, senão para que é que servia ir a Milão? Na pior das hipóteses compramos um cachecol, vá. Em Tallin, num hostel preenchido por várias nacionalidades, em que acabámos todos a ir beber um copo, lembro-me de, com um alemão do 1860 Munique, perceber o quão longe estávamos de casa e sempre perto dos nossos clubes.

Em Atlanta, dada o severo atraso civilizacional do país, não procurei futebol. E contentei-me em ir ver um Atlanta Hawks - Washigton Wizards para a NBA. Dizia-vos: eu tenho muita sorte na vida e quando fui a Nova Iorque, vi um Knicks-Bucks, com o Garden cheio, o Ray Allen de um lado, o Sprewell e o Alan Houston no outrozE houve um triplo na jogada final a levar o jogo para prolongamento. Interrogo-me, à luz da minha entusiasmada e pormenorizada descrição (isto foi em 1999), se a minha memória não terá registado melhor este jogo que Times Square. Portanto, este jogo foi giro, mas bem mais desapontante. Pavilhão praticamente vazio e um jogo medíocre. Mas quantos de nós não estivémos já em estádios frios, à chuva, com meia dúzia de loucos na bancada e nos sentimos no centro do mundo? Haverá maior prazer do que o subir à rede para festejar um golo, com a chuva a cair-nos na cara e com os jogadores ali mesmo, camisola vermelha suada e punho erguido para nós?

E não precisamos dos ecrãs de altíssima definição daquele pavilhão em Atlanta, com as estatísticas a passar em tempo real.  Não queremos restaurantes com vista para o jogo. Eu quase que me esqueço de respirar quando estou a ver o Benfica, nem quero imaginar se tentasse mastigar ao mesmo tempo. Naquele pavilhão não há paixão. As pessoas entusiasmam-se mais com a "Kiss Cam", quando a câmara procura casais durante um desconto de tempo para estes se beijarem, do que com o jogo. Ninguém assobia a equipa rival e antes de todos os períodos via-se uma mensagem de um jogador da casa a apelar a que não só não houvesse linguagem imprópria, mas para que se denunciasse quem o fizesse. Os estádios de futebol são uma escola de vernáculo indispensável à sobrevivência. E, num derby, podíamos, em vez da "Kiss Cam", fazer a câmara dos piretes.

Ligado à net, nervossísmo, possuído, vibrei com a vitória em alvalade. Gritei sozinho, disse palavrões, sofri, tapei a cara, festejei como um louco. Se me tivesse comportado assim no pavilhão tinha sido denunciado e expulso. O desporto americano, uma máquina de dinheiro, é um passatempo, é um entretenimento. Ninguém sofre, ninguém se enerva. É como ir ao cinema ver um filme banal. Não há paixão, não há excessos, não há rivais, não há uma história de uma vida entre os adeptos e um emblema.
Contava Valdano (escrevi isto no meu anterior blog) que, apóso Nápoles de Maradona, um adepto napolitano faleceu e mandou escrever na campa, para os futuros napolitanos: "Vocês não sabem o que perderam". Em Atlanta, terra a que vou sempre associar Óscar Cardozo e um 1-3 em Alvalade, só eu é que gritei e só eu fui verdadeiramente feliz. Os americanos não sabem o que perdem. É que ter um clube é conhecer outras coisas, descobrir alegrias e tristezas que às vezes parecem impossíveis. Ter um clube é viajar.

Post em actualização: tenho que meter umas fotos para abrilhantar isto.