O futebol português está transformado num duelo. Durante
semanas, afiam-se as espadas, prepara-se o jogo de cintura e
estuda-se atentamente o rival. Tudo se resume a este momento, principalmente
ali, naquele palco onde somos tradicionalmente felizes e onde eles já não
aguentam mais humilhação. O benfica-Porto é o jogo do ano, e que pena que já
passou.
Vítor Pereira VS Jesus
Antes do apito inicial, o benfica era favorito para a
maioria, na qual vergonhosamente me incluo. A verdade é que todos conseguimos
ver como lhes tem sido mais fácil ultrapassar os adversários. E o Porto, apesar
de apresentar esta época uma solidez incrível, não é propriamente uma fábrica
de avançados goleadores e médios criativos - as posições que nós, os ignorantes
da bola, valorizamos mais.
Além disso, estava à espera de um grito de revolta, de quem
não aguenta mais perder para o Porto, e até com um impulso gratuito de última
hora: a conferência de imprensa de antevisão de Vítor Pereira, por si só,
chegava e sobrava para motivar os vermelhos a entrarem em campo que nem cães
(Maxi, levaste muito à letra esta expressão). Confesso que também eu caí na
armadilha do nosso mister. Ao vê-lo tão confiante, pensei que estaria a dar-lhes trunfos. Mas não, ele é que sabia o que vinha aí.
Mesmo sem James (provavelmente, o melhor jogador da Liga até
ao momento) e mesmo com um banco vergonhoso para o nível do FCPorto, Vítor
Pereira tinha a lição mais do que estudada e deu o chamado banho de bola. Não
foi um futebol espectacular durante 90 minutos, nem mereceu entrar no campo da
“nota artística” do outro, mas até a mim, portista mais descrente e temerosa do
mundo, me convenceu em pouco tempo que estava tudo controlado.
Vítor Pereira arrasou, mais uma vez, Jorge Jesus. Já o tinha
feito no ano passado e pelos vistos não bastou. Tenho muita pena que continuem
a existir os portistas que o criticam, sem tentarem sequer perceber o
gigantesco trabalho que o treinador campeão tem feito. Não fiquei surpreendida,
portanto, de ver o nosso mister tão nervoso durante e depois do jogo. O
problema de Vítor Pereira não era só o estar em casa do rival com o “pode vir o
João” a estragar-lhe o que tanto pensou e treinou; o problema de Vítor Pereira
é também este estado contínuo de ansiedade que a massa assobiativa provoca,
como se a qualquer empate pudessem rejubilar com o seu falhanço. E por favor
não me venham com a conversa da “exigência” dos adeptos do FCPorto. Da
exigência à estupidez vai um longo caminho.
Caro mister: na época passada, eu disse que a vitória no
salão de festas era toda sua. Bem, este ano quero agradecer-lhe o ter tentado
repetir a dose. Só peço que se acalme, porque nós estamos consigo e estamos a
gostar mesmo muito do que a equipa joga. Não vale a pena andarmos chateados com
isto.
Jackson VS Cardozo
No dia do jogo, as três capas dos jornais desportivos
destacavam os goleadores das duas equipas. Não é caso para menos. Cardozo tem
disparado golos a torto e a direito nos últimos jogos e Jackson, bem, sobre
Jackson
já disse tudo o que sinto. E a vitória neste duelo foi clara.
Jackson foi soberbo! Quando por vezes se diz que há
jogadores que são capazes de vir atrás, receber a bola, segurá-la, passá-la,
distribuir jogo, fintar, cruzar e ainda ir a tempo de estar no local certo lá
na frente para criar perigo, pelos vistos é porque se está a falar de Jackson
Martinez, que neste jogo também foi um bocadinho de James e até de Varela,
quando este já não tinha pernas para mais. Ainda por cima marcou um golo,
aquele golo, que tanto gozo me deu.
Houve até um lance da segunda parte em que Jackson me deu
vontade de apagar qualquer registo deste jogo, porque ele recebeu uma bola do
lado esquerdo do campo e, calmamente, com ar de quem até nem está para perder
muito tempo a pensar no que vai fazer, arranca um passe com o pé direito para o
Varela que ainda hoje eu não percebi como é que aconteceu. Não viram? Ainda
bem, pretendo apagar isto da memória de toda a gente, para que não venha
rapidamente um milionário qualquer buscá-lo.
Quanto a Cardozo, bem, eu sou daquelas que se ri quando ele
é assobiado pelos próprios adeptos, que não compreendem a distância que vai de
um Nuno Gomes ou de um Mantorras para este paraguaio com ar de atrasado mental
que só sabe marcar golos (e agora cantos, pelos vistos, como se eu já não
sofresse o suficiente com ele). Mas, deste jogo, guardo a classe com que as
grandes revelações azuis e brancas (Otamendi e Mangala, que jogadores!) o
conseguiram travar, à excepção daquele lance em que “Le Mur” demora um segundo
a pensar e lá vai ele, lançado, sozinho, em frente ao guarda-redes e, graças a
nosso senhor jesus cristo, falha.
Helton VS Artur
E, por falar nesse lance, fale-se do duelo das balizas, que
o jornal “A Bola” tratou de ridicularizar na sua capa do dia seguinte ao jogo.
O outro tem razão: o FCPorto nem sempre joga com um guarda-redes. Naquela
noite, por exemplo, a defesa de Helton ao remate de Cardozo valeu por dois ou
três.
Já do outro lado, o rei Artur esteve imparável. Já vi o
lance do golo do Jackson umas 12 vezes e não consigo parar de achar piada.
Melhor: já vi todas as fotos desse momento e registei na minha memória aquele
olhar que é uma mistura entre “ai que já fiz merda” e um suplicar de
ajuda em direcção ao fiscal-de-linha, à procura, sei lá, de um fora-de-jogo? De
uma falta? De miminhos? Pobre Artur. Da maneira que a vida lhe corre, ainda vai
acabar a pedir ao outro mais um ou dois guarda-redes para jogarem com ele.
Maxi Pereira VS o mundo
Sim, eu também sou daquelas que adora jogadores raçudos.
Gosto dos que suam, dos que sentem a camisola, dos que vivem aquele jogo como o
último das suas carreiras. E Maxi Pereira já foi assim, é um facto, compensando
até alguma (e notória) falta de talento e de capacidade para se adaptar a uma
posição. Só que os anos passam e, esta época, o alegado lateral direito do
benfica não é mais do que um velho. Está sempre fora do sítio, é ultrapassado e
enganado várias vezes pelos adversários mais fracos que possam imaginar e
recorre ao último dos trunfos: a violência.
Ando há semanas a discutir com o M. sobre este assunto.
Sempre que vejo um jogo do benfica, fico convencida que, com um árbitro decente
(eles existem?), Maxi Pereira quase nunca acabava um jogo em campo. Contra o
Porto, foi apenas mais um, e no seu melhor: completamente incompetente a
defender, a chutar a bola para a frente e a distribuir paulada a quem
aparecesse à frente.
Estava descansado, suponho, porque não é qualquer um que tem
carta branca para isso. Mas o que me impressiona mais não é aquele golpe de
kung fu aplicado ao Moutinho. É quando ele se levanta, com a mão no ar,
certamente não a pedir desculpa mas antes a alegar que não foi nada – mas o
quê, já não se pode espetar um pontapé noutro gajo? –, espera que o árbitro se
concentre nos nossos protestos e depois, quando já sente, já sabe, que não vai
ser expulso - e juro que nunca mais me vou esquecer deste momento -, ele sorri.
Sorri, o grande cabrão. Maxi Pereira já não tem muito futebol para dar, mas eu
só rezo para que tenha uma oportunidade de me despedir dele.
João Ferreira VS António Godinho
Muito renhido este duelo. Godinho (nome de génio) começou
fortíssimo, com o fora-de-jogo assinalado ao Defour que é capaz de ir parar
àqueles resumos hilariantes da Eurosport. Seguiu-se o do Alex Sandro, que está
tão em linha que desconfio que o Godinho, com o jogador vermelho à frente, nem
o viu, apenas levantou a bandeira porque estava uma ventania do caraças. Ainda
pensei: “vá, Catarina, não sejas assim. O homem chama-se Godinho e isso é
castigo que chegue nos dias de hoje. Às tantas o problema é o fumo que está no
estádio, não te preocupes que ele a partir de agora vai ver tudo direitinho”. Mas não,
depois ainda veio aquele do Varela, quando o céu já estava clarinho. Oh, santa
ironia! Foram três foras-de-jogo, três, mas sem influência directa no
resultado, claro, porque o Defour e o Varela isolados estão muito longe de
contar sequer como oportunidade de golo. Ainda por cima, em nenhum dos dois
lances o rei Artur chegaria a tempo de lhes passar a bola.
Mas não pensem que o Godinho se ficou a rir. O João-pode-vir
tinha de fazer jus ao prémio carreira que foi apitar este clássico. O
João-pode-ser não podia despedir-se do benfica num amigável (e logo ele que é
chamado a apitar todos na luz). O João tinha de sair pela porta grande.
Do Maxi
já falei e só mesmo o João é que podia soltar aquele amarelo, mas a expulsão
perdoada ao Matic chega a ser fofinha. O ar do rapaz – a pensar “pronto, já
fui, dei demasiado nas vistas, é impossível que esta panada por trás a cortar
um lance de contra-ataque não resulte em cartão” – e o pode-vir-o-João a chegar
lá, com calma, a abrir o peito e a abanar a cabeça aos jogadores do FCPorto,
atónitos, porque estava tudo controlado e afinal o Matic nem precisava de se
preocupar. Que classe, João, que classe. Vais deixar tantas saudades naquele estádio...
Portistas VS lampionagem
Acho engraçado que, no ano passado, os jornais tenham feito
capa com o golo do Maicon (esquecendo, na altura, o voleibol do Cardozo) e os
telejornais tenham aberto com as imagens desse lance, mas este ano eu tenha
tido imensa dificuldade em ver estes cinco lances (tive de ver aqueles programas
com três comentadores e tenho vergonha disso). Nada de novo para nós, esta súbita
falta de atenção mediática.
Mas do que eu quero mesmo falar é do duelo nas bancadas. E
chamo-lhe duelo porque, enfim, 50 e tal mil lampiões hão-de contar para alguma
coisa, mesmo que calados ou, na maior parte dos casos, com medo.
Medo, é isso. Eles têm medo de nós. Estão traumatizados,
coitados. Queriam um 15-0, uma coisa histórica para se redimirem das constantes
vergonhas. Esperavam por um hattrick do Cardozo, um poker do Lima e ainda um ou
outro golo do Rodrigo da bancada. Meu deus, tanta confiança.
Não, não era confiança. Era esperança, que é muito
diferente. Porque o apito inicial ouviu-se e eles calaram-se. Nem piaram.
Ouviram-nos, lá ao longe, na jaula, a mostrar que não é só em campo que o
FCPorto gosta de ser superior na luz. Foi maravilhoso, mais uma vez, e só tenho
pena de aqueles três mil não serem sempre os mesmos, em todos os estádios, até
no Dragão.
Foi um bom duelo, vistas as coisas. Nós ganhámos confiança,
eles não perderam os habituais pontos para nós. Saí de lá convencida que temos
equipa, que somos capazes de ser campeões e ainda fazer uma gracinha lá fora. Claro
que somos, ninguém pode ter dúvidas. Mas calma, muita calma, porque o plantel é
curto e a cabeça não se pode perder em desejos de outro mundo. Eles estão mais
espertos, já o vimos, e não vão dizer o tradicional “touché” tão facilmente
como estamos habituados.