Num mundo ideal, seria possível eu antever e evitar cada
surpresa destas. Por exemplo, antes de sair de casa, eu iria buscar o cachecol
que dá sorte, colocá-lo-ia na posição que dá sorte e nem o tiraria no decorrer
do hino, porque assim é que dá sorte. E pensam vocês: bem, Catarina, que grande
chanfrada que tu és. Mas se há coisa que eu sei, caros leitores, é que se ainda
estão aqui é porque são tão doentes quanto nós, por isso sabemos todos muito
bem como a escolha de um cachecol pode ser determinante para uma vitória.
Antes de chegar ao estádio, porém, ainda há muito a fazer.
Por exemplo, aqui há uns anos, eu e a L. descobrimos que não podíamos trocar
sequer uma SMS em dia de jogo. E nós nessa altura trocávamos muitas, porque
éramos jovens com imensas preocupações, por isso imaginem o enorme esforço. Caímos
nesse erro uma ou duas vezes (que, como toda a gente sabe, é amostra suficiente
para um adepto deixar de fazer algo) e o FCPorto não ganhou. Por nossa culpa.
Mas, infelizmente, há mais. Por exemplo, demorei a perceber que não posso gozar um adversário quando ele entra. Isto é,
imaginem uma substituição da outra equipa, vocês vêem o manco a deixar de
aquecer e a correr para o banco e dizem, com ar sobranceiro: - Olha, vai entrar
o manco, que sorte a nossa! Errado, errado, errado. É certinho que o manco vai
marcar. Acreditem, aconteceu-me uma ou duas vezes com o Mantorras e o Nuno
Gomes e jurei para nunca mais.
É isso e os “olés”. Porra, quem inventou os olés não era
doente por um clube de certeza. Nunca vi a minha equipa jogar melhor ou marcar
mais golos por ouvir os nossos “olés” para os outros. Nunca. Pelo contrário,
até parece que perdem a bola mais depressa, seja pelo peso da responsabilidade
ou porque vem aí um adversário de perna esticada em modo kung-fu para acabar
com aquela brincadeira. Os “olés” estragam tudo, a não ser que, vamos tentar
imaginar, estejamos a dar 5-0 em casa ao benfica e eles nem se mexam. Aí sim,
pronto, dou o braço a torcer, e grito uns “olés” só para os animar, coitados.
Ainda há outra coisa a não esquecer. Nunca, mas nunca, dizer
que vamos ganhar de certeza, escrever isso em algum lado, provocar um
adversário e prometer que vamos golear. Nunca, ouviram? Celebrar uma vitória
por antecipação no futebol é tão estúpido como dizer que fomos contratados
ainda antes de responder ao anúncio de emprego, e na economia actual! Pessoalmente,
por exemplo, posso contar-vos que em todas as finais europeias que disse em voz
alta que íamos perder as ganhámos (mais uma vez, a amostra é enorme, por isso trata-se de um dado científico). Por isso, não estranhem quando na próxima eu
puser aquela minha cara triste, de quem já está a antever uma grande tragédia,
e soltar um: - Já fomos… Deixem-me estar, alinhem na cena, façam bem de conta
que estão convencidos. Todos juntos, seremos mais fortes.
Quando me distraio e não cumpro os habituais rituais de
vitória, recorro à minha mãe. Garanto-vos que não há melhor barómetro. – Como
é, vamos ganhar? Se a resposta for um “claro que sim, não tenho dúvida, estou
super confiante”, então, meus caros, podemos começar todos a chorar, porque o
FCPorto vai perder. No entanto, se a resposta for “estou cheia de medo, acho
que eles nos vão comer, nem quero que o jogo comece”, podemos ir já para os
Aliados. E não pensem que isto me descansa. Só muito raramente o pergunto,
porque não tem piada saber os resultados dos jogos antes deles acontecerem.
E, quando tudo o resta nos falha, quando não há cachecol,
SMS, contenção de gozo, antevisão cautelosa ou mãe-adivinha que nos safe antes
de um jogo, todos sabemos muito bem qual é a única coisa a fazer: mudar de
lugar no estádio. Ah pois é, não façam esse ar de surpreendidos, como se nunca
tivessem trocado de lugar disfarçadamente, sem dizer nada, com alguma vergonha
até, só porque aos 20 ou 30 minutos de jogo já perceberam no que vai dar o
lugar onde estão. Se nunca o fizeram, então nem imaginam a dose de culpa que
têm nas derrotas do vosso clube. Mudar de lugar para dar sorte devia ser o
mandamento número 1 de qualquer adepto. Mais: espero não ser a única que anda a
decorar cadeiras dos estádios adversários que dão sorte, procurando-as quando
lá regresso, porque caso contrário o FCPorto já me deve uma estátua ou algo
assim discreto como forma de agradecimento. E pensam vocês: então como é que,
com tão dedicada adepta, a equipa da Catarina não ganha os jogos todos fora? E
a resposta é óbvia: porque eu tenho uma memória horrível e às vezes troco as
cadeiras. Desculpa-me, Porto, desculpa-me.
Só não acabem como a minha mãe, naquele terceiro ano
consecutivo em que o FCPorto não foi campeão. Desesperada, sem saber o que
fazer, rezou ao deus do futebol e prometeu-lhe que, se ainda fôssemos campeões,
comprava um daqueles chapéus enormes que imitam um dragão e ia a todos os jogos
com ele. Só deus do futebol sabe a humilhação suprema que isso seria e ainda
hoje lamento que tenhamos perdido esse título, não só porque quero que o meu
clube ganhe sempre, mas também porque adoraria ver a minha mãe a fazer aquela
figurinha. A conclusão a tirar é que deus, mesmo o do futebol, não existe, por
isso não vale a pena recorrer a ele.
Cá em casa, existem estas e outras regras no que à sorte diz
respeito. Algumas, com o tempo, vão sendo contornadas porque o outro descobre
um contra-feitiço fortíssimo. Como os boxers do M., por exemplo. O M. tem uns
boxers do benfica. E eu podia terminar o texto aqui que vocês já iam gozá-lo o
suficiente. Mas não, há mais. O M. convenceu-se que, usando aqueles boxers nos
jogos, o benfica era invencível. Daí concluo que, quando ele morava com os
amigos, só a preguiça em lavar a roupa não fez do benfica hexacampeão nacional
e vencedor consecutivo da Liga dos Campeões. Para mal dos seus pecados, o M.
veio morar comigo e, surpresa das surpresas, sou eu que trato da roupa.
Curiosamente, os boxers começaram por não estar lavados nos dias de jogo e
agora, sinceramente, já nem sei onde eles andam. Podem ter ido parar ao fundo
do Tejo, podem ter sido queimados numa tarde de magia negra, enfim, quem pode
saber?
Podem chamar-lhe superstições, manias, loucuras, o que
quiserem. O que eu sei, e qualquer adepto sabe, é que funcionam. É por isso
que, quando o FCPorto empatou em casa com o olhanense, eu soube logo que a
culpa foi minha e de todos os que, terminado o jogo anterior, decidiram gozar o
adversário. Tivéssemos ficado todos calados durante mais 90 minutos e a
porcaria da bola tinha entrado.
E este domingo, quando os lampiões celebraram aquela vitória
no último minuto com aquele penalty que não iremos esquecer, ficaram a pensar
que devem os três pontos ao árbitro, ao Gaitan, ao defesa da académica, ao
Lima, à estrelinha de campeão, sei lá. Mas não, é a mim que me devem aquela
merda. É que eu, que tenho como regra não ver ou não estar atenta aos jogos do
benfica, este ano vinha a notar a coincidência entre os momentos em que eu
olhava para o ecrã e os golos deles. Aliás, no benfica-FCPorto, eu só estive
atenta em dois lances de ataque deles e acabaram os dois em golo (depois
aprendi e corrigi isso, desviando o olhar no resto do jogo e evitando mais
golos… e ainda houve quem dissesse que foi a equipa do Porto a corrigir a
defesa e não sei quê, em vez de me atribuírem logo essa glória suprema).
Portanto, e depois de no nacional-benfica ter estado “desatenta”, decidi não
ver o benfica-académica. E não vi mesmo. Nada, nadinha.
Só que isto de ser adepto não é fácil e, mesmo quando
sabemos que aquele resultado só depende de nós, caímos na tentação de ver um
bocadinho. Quando eu carreguei nos números “2” e “0” do comando, o Gaitan ainda
estava a agarrar também o defesa da académica. Seguiu-se o apito, a confusão, o
golo. Eu mudei de canal. Não vi mais nada. Ainda hoje não sei o que se passou,
como foi o jogo, quem fez o quê. Naquela noite, vi apenas o suficiente para ter
a certeza de uma coisa: a culpa foi minha. Que azar.
P.S. Noto agora que estes dois textos seguidos nos fazem parecer um bocadinho malucos.
P.S.2 Se decidirem internar-nos, por favor, garantam pelo menos que o manicómio tem Sporttv.




