sexta-feira, 1 de março de 2013

Força, 11º classificado!

Amanhã, as equipas às riscas vão jogar uma contra a outra e eu, como Benfiquista, consultando a classificação, tenho o dever de torcer contra o Porto, aqueles das riscas azuis verticais que parecem as barracas da praia de Carcavelos. Isto, trocado por miúdos, fará com que eu tenha de incentivar o Sporting, o que é, para mim, tão agradável e natural como falar bem do Relvas.
No entanto, porque o Benfiquismo a isso obriga, não nos resta senão tentar incentivar os nossos vizinhos. Em primeiro lugar, lagartos, nós sabemos que, se por um acaso do divino, os pontos que vocês roubarem amanhã ao Porto nos derem o campeonato, muitos de vós rasgarão os cartões de sócio e nunca vão conseguir digerir os nossos agradecimentos. Obviamente, que isto só nos dá mais razões para vos incentivar (talvez não seja a melhor forma de o fazer, admito): tirem-lhes lá pontos e receberão os nossos paternais e gozões obrigados.

Depois, eu não sei vos já viram a classificação, mas (como é que eu hei-de escrever isto sem me rir?) a segunda divisão não está longe. Para a evitarem, convém somar pontos. Não é que eu queira muito que vocês fiquem na primeira divisão, mas do vosso ponto de vista (no qual nunca me coloquei na vida) talvez não fosse mau evitarem descer (do ponto de vista dos patrocínios, porque desportivamente acho que a Liga Vitalis está mais ao vosso alcance). Portanto evitem aquele espírito suicida de "Vamos perder para foder os lamps" e, se por alguma réstia de orgulho o quiserem fazer, imaginem-se a jogar às onze da manhã, no Inverno, com o Covilhã, que isso vos passa. 


De seguida, e isto é dirigido aos vossos jogadores, vejam o jogo de sábado como uma oportunidade. Vejam no outro lado, de azul, Ismaylov, Moutinho, Varela e Liedson e pensem: "eu posso estar ali!". Esqueçam as vossas fraquezas e acreditem! Vejam o jogo como um treino de captação. Marquem golos e corram para o banco do Porto e mostrem-lhes, de costas voltadas e polegares apontados, os vossos nomes e números da camisola. Uma boa exibição no sábado pode levar-vos a um clube que, ao contrário do vosso, paga salários. Pensem nisso: salários! 
Não quero com isto que vocês, cepos de verde e branco, se metam com fintinhas e que num individualismo estúpido tentem só fazer pelas vossas carreiras. Não, o "jogador à Porto" é um jogador com sentido colectivo, abnegado e até com algum doping (o qual aconselho muito para sábado. Exagerem nas doses, sem medos. Vocês nunca conseguirão ir para o Porto se não suportarem as doses cavalares que o Mangala come ao pequeno almoço. Portanto, já sabem, sábado quero 11 Armstrongs!). Quero com isto dizer que se devem esquecer, apenas no sábado, daquele discurso delirante do "Grande Sporting". Sejam sérios, olhem para a classificação: vocês estão em 11º lugar em 16 equipas. Deve um 11º classificado comportar-se como um "grande"? É óbvio que não. O que se vos pede é muito simples: todos lá atrás, porrada neles e chutão para a frente para o Capel e para o Carrillo. Nada de entusiasmos, até um pontinho já é bom. Mais ainda, atirem-se para o chão, percam tempo, façam todo o anti-jogo possível. 
Há que assumir a beleza quase poética da equipa de meio da tabela (pronto, ok, fundo da tabela): um guarda redes salvador (Patrício), um caceteiro no meio campo ao bom estilo do grande Filipe Anunciação (pode ser o Rinaudo) e um coxo lá à frente que até já marcou ao Benfica, um género de Dino do Beira-Mar, que neste caso é o Van qualquer coisa. Perfeito, perfeito é deixarem de jogar em Alvalade, que é muito grande e tem um relvado muito comprido para uma equipa pequena e tentarem transferir o jogo para Rio Maior, onde jogam os vossos Bs. Embebidos desta competitividade, deste espírito meio Jaime Pacheco, meio José Mota, grandes coisas podem acontecer no sábado. 


Se, por obra do acaso ou por ordem natural das coisas, algures à meia hora estiverem a levar 0-3, aí sim, lembrem-se que são o "Grande Sporting". Vão-se ficar? Eles levam-vos jogadores, estão sempre a gozar convosco, e vocês ficam-se? Lesionem quatro ou cinco deles, que é para eles aprenderem! O Jackson em primeiro lugar! Digo-vos mais: se estiverem a perder, o que seria mesmo digno da vossa parte era uma grande invasão de campo, à antiga, acabando o espectáculo com os jogadores do Porto todos atirados para aquele vosso bonito fosso e a serem apedrejados. Aí sim, tinham-se vingado do Futre, Moutinho, Liedson (não vou continuar para vocês não chorarem).

Eu, como Benfiquista, sei da inutilidade deste meu texto. Incitar os verdes contra os azuis é como pedir a um cão, mal tratado, mas fiel, que morda o dono. Para já, o pobre animal tem um aspecto esfomeado e miserável e não pára de latir, o que torna quase insuportável torcer por ele. Por outro, sabemos que o bicho é estúpido e que nunca vai morder o dono que lhe está sempre a dar biqueiros no focinho. Mas não custa tentar. Vá lá, lagartos, façam-se úteis!



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Dá azar

Um jogo de futebol nem sempre se resolve com um remate certeiro, uma finta de estrela ou um golpe de génio. Às vezes, é a bola que bate num defesa e deixa um adversário isolado, é a excepcional defesa do guarda-redes que vai parar ao sítio errado, é o canto a nosso favor que termina num contra-ataque mortífero dos outros. A bola é assim. Teimosa. E isto é de deixar louco qualquer um de nós.

Num mundo ideal, seria possível eu antever e evitar cada surpresa destas. Por exemplo, antes de sair de casa, eu iria buscar o cachecol que dá sorte, colocá-lo-ia na posição que dá sorte e nem o tiraria no decorrer do hino, porque assim é que dá sorte. E pensam vocês: bem, Catarina, que grande chanfrada que tu és. Mas se há coisa que eu sei, caros leitores, é que se ainda estão aqui é porque são tão doentes quanto nós, por isso sabemos todos muito bem como a escolha de um cachecol pode ser determinante para uma vitória.

Antes de chegar ao estádio, porém, ainda há muito a fazer. Por exemplo, aqui há uns anos, eu e a L. descobrimos que não podíamos trocar sequer uma SMS em dia de jogo. E nós nessa altura trocávamos muitas, porque éramos jovens com imensas preocupações, por isso imaginem o enorme esforço. Caímos nesse erro uma ou duas vezes (que, como toda a gente sabe, é amostra suficiente para um adepto deixar de fazer algo) e o FCPorto não ganhou. Por nossa culpa.

Mas, infelizmente, há mais. Por exemplo, demorei a perceber que não posso gozar um adversário quando ele entra. Isto é, imaginem uma substituição da outra equipa, vocês vêem o manco a deixar de aquecer e a correr para o banco e dizem, com ar sobranceiro: - Olha, vai entrar o manco, que sorte a nossa! Errado, errado, errado. É certinho que o manco vai marcar. Acreditem, aconteceu-me uma ou duas vezes com o Mantorras e o Nuno Gomes e jurei para nunca mais.

É isso e os “olés”. Porra, quem inventou os olés não era doente por um clube de certeza. Nunca vi a minha equipa jogar melhor ou marcar mais golos por ouvir os nossos “olés” para os outros. Nunca. Pelo contrário, até parece que perdem a bola mais depressa, seja pelo peso da responsabilidade ou porque vem aí um adversário de perna esticada em modo kung-fu para acabar com aquela brincadeira. Os “olés” estragam tudo, a não ser que, vamos tentar imaginar, estejamos a dar 5-0 em casa ao benfica e eles nem se mexam. Aí sim, pronto, dou o braço a torcer, e grito uns “olés” só para os animar, coitados.

Ainda há outra coisa a não esquecer. Nunca, mas nunca, dizer que vamos ganhar de certeza, escrever isso em algum lado, provocar um adversário e prometer que vamos golear. Nunca, ouviram? Celebrar uma vitória por antecipação no futebol é tão estúpido como dizer que fomos contratados ainda antes de responder ao anúncio de emprego, e na economia actual! Pessoalmente, por exemplo, posso contar-vos que em todas as finais europeias que disse em voz alta que íamos perder as ganhámos (mais uma vez, a amostra é enorme, por isso trata-se de um dado científico). Por isso, não estranhem quando na próxima eu puser aquela minha cara triste, de quem já está a antever uma grande tragédia, e soltar um: - Já fomos… Deixem-me estar, alinhem na cena, façam bem de conta que estão convencidos. Todos juntos, seremos mais fortes.

Quando me distraio e não cumpro os habituais rituais de vitória, recorro à minha mãe. Garanto-vos que não há melhor barómetro. – Como é, vamos ganhar? Se a resposta for um “claro que sim, não tenho dúvida, estou super confiante”, então, meus caros, podemos começar todos a chorar, porque o FCPorto vai perder. No entanto, se a resposta for “estou cheia de medo, acho que eles nos vão comer, nem quero que o jogo comece”, podemos ir já para os Aliados. E não pensem que isto me descansa. Só muito raramente o pergunto, porque não tem piada saber os resultados dos jogos antes deles acontecerem.

E, quando tudo o resta nos falha, quando não há cachecol, SMS, contenção de gozo, antevisão cautelosa ou mãe-adivinha que nos safe antes de um jogo, todos sabemos muito bem qual é a única coisa a fazer: mudar de lugar no estádio. Ah pois é, não façam esse ar de surpreendidos, como se nunca tivessem trocado de lugar disfarçadamente, sem dizer nada, com alguma vergonha até, só porque aos 20 ou 30 minutos de jogo já perceberam no que vai dar o lugar onde estão. Se nunca o fizeram, então nem imaginam a dose de culpa que têm nas derrotas do vosso clube. Mudar de lugar para dar sorte devia ser o mandamento número 1 de qualquer adepto. Mais: espero não ser a única que anda a decorar cadeiras dos estádios adversários que dão sorte, procurando-as quando lá regresso, porque caso contrário o FCPorto já me deve uma estátua ou algo assim discreto como forma de agradecimento. E pensam vocês: então como é que, com tão dedicada adepta, a equipa da Catarina não ganha os jogos todos fora? E a resposta é óbvia: porque eu tenho uma memória horrível e às vezes troco as cadeiras. Desculpa-me, Porto, desculpa-me.

Só não acabem como a minha mãe, naquele terceiro ano consecutivo em que o FCPorto não foi campeão. Desesperada, sem saber o que fazer, rezou ao deus do futebol e prometeu-lhe que, se ainda fôssemos campeões, comprava um daqueles chapéus enormes que imitam um dragão e ia a todos os jogos com ele. Só deus do futebol sabe a humilhação suprema que isso seria e ainda hoje lamento que tenhamos perdido esse título, não só porque quero que o meu clube ganhe sempre, mas também porque adoraria ver a minha mãe a fazer aquela figurinha. A conclusão a tirar é que deus, mesmo o do futebol, não existe, por isso não vale a pena recorrer a ele.

Cá em casa, existem estas e outras regras no que à sorte diz respeito. Algumas, com o tempo, vão sendo contornadas porque o outro descobre um contra-feitiço fortíssimo. Como os boxers do M., por exemplo. O M. tem uns boxers do benfica. E eu podia terminar o texto aqui que vocês já iam gozá-lo o suficiente. Mas não, há mais. O M. convenceu-se que, usando aqueles boxers nos jogos, o benfica era invencível. Daí concluo que, quando ele morava com os amigos, só a preguiça em lavar a roupa não fez do benfica hexacampeão nacional e vencedor consecutivo da Liga dos Campeões. Para mal dos seus pecados, o M. veio morar comigo e, surpresa das surpresas, sou eu que trato da roupa. Curiosamente, os boxers começaram por não estar lavados nos dias de jogo e agora, sinceramente, já nem sei onde eles andam. Podem ter ido parar ao fundo do Tejo, podem ter sido queimados numa tarde de magia negra, enfim, quem pode saber?

Podem chamar-lhe superstições, manias, loucuras, o que quiserem. O que eu sei, e qualquer adepto sabe, é que funcionam. É por isso que, quando o FCPorto empatou em casa com o olhanense, eu soube logo que a culpa foi minha e de todos os que, terminado o jogo anterior, decidiram gozar o adversário. Tivéssemos ficado todos calados durante mais 90 minutos e a porcaria da bola tinha entrado.

E este domingo, quando os lampiões celebraram aquela vitória no último minuto com aquele penalty que não iremos esquecer, ficaram a pensar que devem os três pontos ao árbitro, ao Gaitan, ao defesa da académica, ao Lima, à estrelinha de campeão, sei lá. Mas não, é a mim que me devem aquela merda. É que eu, que tenho como regra não ver ou não estar atenta aos jogos do benfica, este ano vinha a notar a coincidência entre os momentos em que eu olhava para o ecrã e os golos deles. Aliás, no benfica-FCPorto, eu só estive atenta em dois lances de ataque deles e acabaram os dois em golo (depois aprendi e corrigi isso, desviando o olhar no resto do jogo e evitando mais golos… e ainda houve quem dissesse que foi a equipa do Porto a corrigir a defesa e não sei quê, em vez de me atribuírem logo essa glória suprema). Portanto, e depois de no nacional-benfica ter estado “desatenta”, decidi não ver o benfica-académica. E não vi mesmo. Nada, nadinha.

Só que isto de ser adepto não é fácil e, mesmo quando sabemos que aquele resultado só depende de nós, caímos na tentação de ver um bocadinho. Quando eu carreguei nos números “2” e “0” do comando, o Gaitan ainda estava a agarrar também o defesa da académica. Seguiu-se o apito, a confusão, o golo. Eu mudei de canal. Não vi mais nada. Ainda hoje não sei o que se passou, como foi o jogo, quem fez o quê. Naquela noite, vi apenas o suficiente para ter a certeza de uma coisa: a culpa foi minha. Que azar.

P.S. Noto agora que estes dois textos seguidos nos fazem parecer um bocadinho malucos.

P.S.2 Se decidirem internar-nos, por favor, garantam pelo menos que o manicómio tem Sporttv.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Um domingo cá em casa

Desenganem-se aqueles que verão neste texto uma coisa bonita e que imaginam alguma dose de bom senso no meio disto. Eu e a Catarina odiamos os casais que se beijam para a fotografia, cada um com o seu cachecol. Muitas vezes nos perguntam como é que vivemos um com o outro. Como é possível haver tolerância entre pessoas que, além de gostarem mais dos seus clubes do que de qualquer outra coisa, odeiam o clube do outro. Não sei. Talvez este texto vos mostre. O que não quero é que achem que há aqui qualquer dose de bom senso ou de civismo. 

São 18h e estou sozinho em casa a ver o Nacional - Glorioso, a Catarina ainda não chegou. Tive três enfartes em cinco minutos, indignei-me com as escolhas do Jesus (a prioridade tem de ser o campeonato. O c-a-m-p-e-o-n-a-to, percebeu, mister?) e quando a Catarina chegou estava 1-1 no marcador. 
Nunca vi nada no Urreta que me encantasse e não consigo perceber como é que um jogador que não entrava no plantel inicial (estando à disposição) passa a titular num jogo destes. Isto originou uma permanente pressão no nosso extremo, que, mal perdia uma bola, ouvia um bom palavrão português. Há jogadores que são nossos camaradas e puxamos por eles, a entoação do "Anda, Salvio!" como se fosse um amigo da tropa é diametralmente diferente da "Põe-te no sítio, Luisinho"  à laia de ameaça, mas o Urreta está longe disso e eu estava particularmente nervoso e verborreico.
A Catarina, como é regra da casa, vê os jogos do Benfica em silêncio, e sentou-se a fingir que estava interessada na internet (pensas que eu não te conheço, é o que é). De repente, há um livre e eu soltei um "Uuuuuurreeetaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa", com a voz fininha, meio em festa, meio em arrependimento, um misto de hooligan com rapariga adolescente a fazer as pazes com o namorado. 1-2, vamos lá segurar isto. A Catarina aproveitou a fraqueza e pediu-me para ir encher o depósito do carro entre o fim do Benfica e o início do Porto. Ainda a dizer, "Urreta, caralho, Urretaaaaatatatatatata!" disse que sim, claro. Tanso.

Ao intervalo, a Catarina, só para dar azar, diz "Vamos apostar quantos é que o Benfica hoje dá?". E eu, tanso, em vez de fazer um contra feitiço, disse só "Estás a dizer isso ao adepto certo, ao optimista por excelência...". Estúpido, Manel, estúpido.
Segunda parte e os rapazes de vermelho não tiveram o killer instinct (esta foi para si, Mr. Robson) de fazer o 1-3 e, às tantas, a Catarina, que às vezes diz assim umas alarvidades que eu até fico com vergonha (fico com vergonha de te apresentar aos meus amigos, Catarina. Imagina que estava o Eusébio cá em casa ou assim, já imaginaste a vergonha?) e diz: "Não percebo como é que tu gostas deste clube." Eu até tenho vergonha de vir escrever isto, mas pode ser que assim ganhes decência. 
Depois deu-se uma daquelas coisas inacreditáveis que é sofrermos o 2-2 em contra-ataque quando estamos a ganhar, com um frango à mistura. Não tenho tolerância a coisas destas.

A partir daqui foi uma corrente de palavrões, de insultos, com o coração aos saltos, cheio de angústia. Eu entro em desespero. A minha cabeça começa a andar à roda, a vida não faz sentido e é a puta da bola que não entra e há sempre um filho de um cabrão de um guarda redes que se lembra que é hoje que vai fazer a exibição da miserável vida dele e depois, claro, há o factor Proença, que enfim. Eu não posso dizer o que desejo ao Proença porque não violava só o Juramento de Hipócrates, mas também a Convenção de Genebra. A não ser que a Amnistia Internacional estivesse muito distraída, acho que não passava impune partir-se a boca toda a um gajo e enfiar-lhe os dentes, um a um, pela uretra. O relógio andava a mil à hora, um escândalo.

No meio de todo o meu desespero, há o enésimo centro mal medido do Salvio e eu, já esquecido da camaradagem, gritei tão alto que se deve ter ouvido na Madeira: "FODA-SE, SALVIO, MORRE!" Isto agora, lido assim, parece que eu sou maluquinho. Mas qualquer Benfiquista que viu o jogo sabe que foi uma frase assertiva, bem medida e, até, ponderada. Olhos muito arregalados, algo vermelhos, o coração aos saltos, e a Catarina a olhar para mim com ar sério, diz: "Tu sofres demais, Manel, há limites". Se isto fosse uma série, aparecia no ecrã a legenda "uma hora e tal depois..." e veríamos a Catarina deitada no chão a dar uma cabeçada no chão. Mas isto não é uma série, portanto continuemos.

Às 19.50, findo o jogo, o mundo não fazia sentido. A vida não fazia sentido. Porque é que estamos neste planeta se o Benfica não ganhou? Vesti o casaco e fui-me embora. Antes de sair, a Catarina virou-se e disse-me duas frases moralistas, do género: "Sem gozar, Manel, tu não podes sofrer assim. Faz-te mal." A verdade é que faz. A verdade é que eu nem devia ter pegado no carro depois do Benfica empatar (passou-me pela cabeça mandar-me contra a bomba de gasolina só para a explosão foder a casa do Porto em Lisboa, ali tão perto). Mas eu não consigo tolerar uma não-vitória do Benfica no campeonato, sobretudo com tantos erros próprios. 
Antes de chegar a casa, uma mensagem: "Golo do Olhanense". "Vão dar 5", pensei eu.

Eu, como é regra da casa, vejo os jogos do Porto em silêncio. Fui cozinhar e rever, mentalmente, os nossos erros. À medida que o arroz ficava pronto, notei que a Catarina passou de um "anda lá, Varela" para um "Foda-se, Varela" que escalou depois para "NEM UM CRUZAMENTO, SEU MONTE DE MERDA?", o que significava não só que o arroz estava no ponto, mas, também, que havia esperança e que, a não ser que tivesse mandado mesmo a casa do Porto em Lisboa para o inferno que merece qualquer pessoa que já lá tenha entrado, não valia a pena ter-me explodido contra a bomba de gasolina.
Na segunda parte sentei-me, a fingir que estava no twitter. No 1-1, com falta do Mangala (vejam a falta marcada ao Cardozo naquele que seria o 3-2 contra o Braga na primeira jornada e comparem), pensei: "já fomos". E lancei o contra-feitiço: "Dão 4 ou 5". E a Catarina, tansa, "Ya...." (a olhar desconfiada). Depois há penalty e a bomba de gasolina estava ali mesmo e eu, burro, não me tinha explodido e limpo a casa do Porto em Lisboa, mas o Jackson chuta por cima e há vida. E depois o jogo continua e aquela merda nunca mais acaba e os gajos estão sempre a cair na área e aos berros, e o tempo é tão, mas tão, mas tão lento. Um escândalo.

Nisto há um lance de perigo, Jackson remata, Bracalli defende, Danilo remata outra vez, Bracalli defende outra vez. E nisto, a Catarina, a Catarina do "Tu sofres demais, Manel, há limites", diz com voz baixa, solene, como quem promete: "Danilo: eu só quero que tu morras" em voz de filme de terror. Ao guarda redes do Olhanense foram prometidas coisas como "filhos a boiar no Douro". Enfim, tudo coisas razoáveis, de quem sabe, ao contrário de mim, ver bola.

Mesmo no fim, em mais um lance daquele jogo interminável (eu bem sei que o fuso horário no Porto é diferente, 15 minutos a mais, acho eu, mas não é preciso exagerar), a Catarina acaba deitada no chão e dá - leiam bem - uma cabeçada no chão e solta um "eu não acredito nesta merda". 
Lá pelas 22h, recuperei a vontade de viver. O amor da minha estava estendido no chão como se tivesse morrido alguém e eu sorria.

Foi mais um domingo cá em casa. Espero que isto vos explique, melhor ou pior, que, apesar da tolerância, cá em casa não vai haver beijinhos para a fotografia, cada um com o seu cachecol. Há ameaças de morte, um ou outro palavrão e, sobretudo, limites.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Regresso aos mercados

Estou convencida que o mercado de Inverno é apenas um teste do universo aos nossos fracos corações de adepto. De outra forma, não compreendo esta mania de, durante 31 dias, tornar possível que um craque da nossa equipa se vá embora a qualquer momento. Felizmente falamos do FCPorto, que nos habituou a não vender peças importantes do puzzle nesta altura e a aproveitar o mês de Janeiro para arrumar a casa.

No último mês, o FCPorto reforçou a minha convicção, apenas abalada por uma ou outra demonstração do poderio atacante do nosso rival: somos a melhor equipa. E andamos a jogar muito, mesmo! Tenho dado por mim a ir a todos os jogos, a voltar a fazer sacrifícios e loucuras só para os poder ver ali, no relvado, a mostrar coisas tão bonitas. O capitão do vitória (homem e clube perfeitamente insuspeitos) chama-nos o barça da Liga portuguesa. Eu não concordo, porque pelo barça eu não arriscava ir a guimarães dar 4 e ainda esperar sobreviver.

Estou apaixonada pelo nosso estilo de jogo e devo-o, claro, a Vítor Pereira. Não sei se isto é para continuar, tenho dúvidas que possa ser sempre tão perfeito e sei, de certeza, que a qualidade não ganha todos os jogos. Mas, para já, gosto de chegar a casa, sentar-me no sofá, colocar os pés em cima de alguma coisa, à lorde, esticar os braços por trás da cabeça e pensar: “Tenho um orgulho do caraças em ser portista”.

O plantel, já sabemos, é curto. Estamos sem James (que vinha a ser nada mais, nada menos, do que o melhor jogador da Liga) e olhar para o nosso banco faz tornar-me crente, rezando a todos os santos para que não seja preciso jogar ninguém. Mas, felizmente, continuamos a falar do FCPorto, que foi buscar dois reforços escolhidos a dedo.

Precisávamos de um ala/médio e de um avançado. Izmaylov e Liedson. Dirão alguns que estão velhos e cansados e lesionados e não sei o quê. Dirão outros que era preferível ir buscar dois jovens, que ganhassem menos, que pudessem crescer e ser vendidos depois. Bem, num mundo ideal, claro que iríamos buscar um James Rodriguez para cada posição. No entanto, estamos a meio da época e é preciso ser rápido, preciso e eficaz. E estou convencida que Izmaylov e Liedson são isso e apenas isso: duas garantias de qualidade para ajudar no que falta do campeonato.

Se me custa vê-los de azul? Na verdade, não me custa ver ninguém de azul, a não ser o Kléber e o Iturbe (paz às suas almas). O ex-Izmailov fez-nos mal quando estava de verde, mas nem sequer aprendeu a falar português para me chatear o suficiente. Já o outro, o ex-grande-palhaço-que-se-estava-sempre-a-atirar-para-o-chão-e-que-não-passava-de-uma-grande-merda, bem, a seguir ao Moutinho eu já estou como os lagartos: aguento tudo.

No meio disto, o FCPorto despachou três grandes inconvenientes: Rolando, Kléber e Iturbe (e nenhum deles para fazer trabalhos forçados na Sibéria, como seria normal). Quanto a Rolando, e porque a minha memória vai além de uma ou outra palhaçada, quero agradecer-lhe o que fez pela nossa equipa e avisá-lo que, se achou que aqui foi maltratado e pressionado, em Nápoles eles não são propriamente conhecidos por serem compreensivos e fofinhos.

Já Kléber e Iturbe são outra história. Não suporto meninos com a mania que são superiores ao FCPorto, quando na verdade (e pelo menos para já) não são NADA. Juro que dei o desconto ao primeiro, que me tentei sempre recordar como no marítimo me parecia um bom jogador e que tentei sempre ouvir aqueles que me diziam que ele se aplicava muito nos treinos e que nos jogos é que não se percebia o que se passava com ele. Kléber, quanto a paciência contigo e esperança que um dia te tornes num avançado decente, aliás, que te tornes em algo parecido com um jogador de futebol sequer, é como diz o outro: FUI! Do segundo já falei que chegue e até acho que pode vir a ter sucesso num continente qualquer, desde que seja longínquo.

Feitas as contas, saímos a ganhar do mercado de Inverno. O ano passado fomos buscar Janko e Lucho, fundamentais para a conquista do título. Espero poder dizer o mesmo de Izmaylov e Liedon daqui a uns meses. Se não disser, espero que seja porque este campeonato foi conquistado apenas à custa de uma equipa que joga muito à bola. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Carta ao nosso mister

Caro Jorge Jesus,

Venho por este meio dedicar-lhe algumas linhas, agora que sabemos que lê os blogs. Se realmente o  faz é porque é um homem inteligente. Perceber o que sentem os adeptos é muito saudável, mesmo que seja pela via tecnológica. Num futebol cada vez mais longe de quem verdadeiramente sente os clubes, se for verdade que vem saber o que nos abala os corações, ficamos contentes.

Estamos em primeiro empatados com o Porto e o mérito é muito seu, verdade seja dita. Com qualquer treinador menos apto, há muito que estaríamos a 10 ou mais pontos do Porto, já perdidos em guerras internas. Inventou bem Enzo Peréz a médio centro (não me agrada, mas é o que há), não deixou cair Ola John e fez de Matic um médio centro imperial, senhor do jogo, quando nos parecia um matulão louro meio copinho de leite. O mérito é seu. Mais: em Braga jogou, finalmente, com 3 médios centro, com Enzo a 8 e Gaitan a 10 e desbaratou a defesa bracarense, conseguindo, finalmente, ter algum controlo (pelo menos na primeira parte) num jogo difícil. Nota-se que o senhor aprendeu, que estudou. Reparou como fomos mais ofensivos com 3 médios e 1 avançado do que com 2 avançados lá à frente, sem a bola lhes conseguir chegar? É disso que falamos nos blogs e no Estádio da Luz.
Nota-se a diferença no discurso, que já não é tão fanfarrão e agradecemos isso. Notou-se algum assumir que é da casa, quando pediu a final no Jamor, coisa que nunca poderia fazer se treinasse o Porto. E, como é público que é dos listados horizontais, agradecemos esses pequenos gestos.

Eu não sou treinador de futebol e é vaidade minha isto de achar que me vai ler, mas se realmente lê os blogs, talvez encontre estes meus humildes conselhos. Em primeiro lugar, peço-lhe que pense quase exclusivamente no campeonato. As 14 vitórias em 17 jogos, o bom futebol, tudo isso se esquece se ficarmos em segundo. Interessa ser campeão e mais nada. Não queremos saber da Liga Europa, não queremos saber da Taça da Liga. A Taça de Portugal é, praticamente, uma obrigação e pouco chocará com as contas finais do campeonato. Mas os outros troféus podem ser uma maçada que nos distrairá do essencial. Lesões, cansaço, enfim, essas coisas. Abdique, sem vergonhas. O 11 titular é para o campeonato. Com o Leverkusen podíamos jogar com Artur (ou mesmo Paulo Lopes), Cancelo, Jardel, Miguel Vítor, Luisinho; André Almeida, André Gomes, Aimar; Urreta, Ola John e Rodrigo. Eu sei, eu sei, "olha-me para este que chega aqui, escreve no blog e já quer ditar o 11". É uma sugestão. O que lhe quero dizer, mister Jesus, é que poupe os melhores para o campeonato.

É que o campeonato está como a liga escocesa antigamente, em que o Celtic e o Rangers ficavam centenas de pontos à frente. Num campeonato assim, qualquer empate é um desastre. E com os 8 (oito!) jogos que significariam uma grande campanha na Liga Europa, seria praticamente inevitável que esses malfadados tropeços chegassem (lembra-se como chegámos o ano passado a Alvalade? De gatas.). E agora, sem Nolito e Bruno César (sim, eu sei que a culpa não é sua), torna-se tudo mais difícil e delicado de gerir. Antecipando que os azuis passam o Málaga e que a cabeça dos jogadores deles se desviará inevitavelmente para uma grande Champions (os jogadores sabem que é ali que se vendem), será nessa fase em que eles - provavelmente - poderão tropeçar. E eles não podem - é a Champions - meter os suplentes na Europa, percebe? Isso dá-nos uma vantagem. Faça-o. Descanse os nossos para o que interessa. 

Sinto a equipa cansada - e o mister referiu isso ontem. Eu sei que a nossa principal qualidade, especialmente neste campeonato, é a maneira como partimos os adversários com tanta gente na frente, com aquele frenesim todo. Mas era bom que a equipa estivesse mais trabalhada para a posse de bola. Não que seja esse o modelo, mas que usasse isso para descansar mais, para não se rasgar e para não correr tantos riscos. Somos muito verticais, percebe, mister? Eu sei que me percebe. Pense nisso, a sério. 

Mais uma coisa: quando jogamos com o Lima e o Rodrigo na frente, ponha o Rodrigo mais adiantado e o Lima mais atrás. O Rodrigo recebe e distribui mal naquela posição. Quando recebe a bola fica sempre longe do pé e normalmente nunca percebe se o extremo quer a bola no espaço ou no pé. O Lima é muito melhor nisso e o Rodrigo é muito melhor nas diagonais a rasgar a defesa, que serão mais frequentes se ele estiver mais adiantado.

Pronto, já o macei muito, deve ter outros blogs para ler e equipas adversárias para estudar. Um dia falamos sobre a sua renovação. Muito obrigado por passar por cá. Qualquer coisa, deixe um comentário. 

Um abraço, Manel

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O copo e a ironia

Um copo está meio cheio ou meio vazio consoante a nossa sede. Frente a um rival sem James, que tem ganho 1-0 em golos de bola parada a adversários de menor nomeada, o nosso habitual optimismo (e aqui refiro-me ao Benfica, porque quem me conhece sabe que optimista vem muito longe na minha tabela de caracterização) até tinha alguma razão de ser. Eles, estranhamente, face ao passado recente, vinham pessimistas. E digo estranhamente, porque eu, sendo doente pelo meu clube, tenho um respeitinho muito grande à equipa de futebol das riscas à presidiários e gosto da sua forma de jogar calculista e controladora, ao invés da loucura constante do nosso 4-1-3-2, que tantas vezes se transforma num 2-0-8. 

Os azuis controlaram o jogo, mas não foram o Barça, que foi quase a ideia passada pelo Vítor Pereira. E nós não fomos tão meninos - não houve lances como o segundo golo deles no ano passado. Tudo bem, não havia James, mas não houve falhas dessas da nossa parte. 20 minutos de loucura e depois muito respeitinho, um empate justo.
Eu, mesmo pessimista, fico sempre lixado de não ganharmos a quem quer que seja, quanto mais ao clube do grande Martins dos Santos. Acho que entrámos nervosos, acho que o Melgarejo, mesmo superando as expectativas, depois de nos enterrar com o Braga, enterrou muito neste jogo. Ao Salvio exigia-se mais nos lances um contra um contra o Alex Sandro e Cardozo, meu amigo e camarada, responsável por tantas e tantas alegrias, falhou aquele golo (mas está perdoado. Cardozo, além de um goleador, irrita a Marta Rebelo, portanto eu perdoo-lhe tudo). 
Jorge Jesus, treinador com méritos indiscutíveis (o canto de Cardozo, com cabeceamento de Salvio à figura é uma delícia), aprendeu a ser mais cauteloso, mas ainda não lê este blog, daí que o meu desejo de jogarmos em 4-3-3 certos jogos seja só uma ilusão minha. 

Mas também tiro coisas boas: o Porto é excessivamente calculista. Especula pouco ou nada. E se isso é um seguro de vida em jogos difíceis, contra equipas de retranca (que não aquelas, tipo Setúbal, que abrem as pernas e fazem 2 faltas por jogo) e sem o seu craque, pode ver-se aflito. Num campeonato como o português, duro, faltoso e defensivo, isto poderá ser uma desvantagem. Infelizmente, têm-na contornado. Esperemos que isso acabe.
Já nós, apesar da crónica incapacidade de fazer 30 segundos que seja de posse de bola contra equipas do mesmo nível, pelo menos não jogámos com os dois laterais a extremos e os médios centro na área adversária, o que, parecendo que não, é quase novidade. E eu vi - juro! - o Gaitan fechar no meio e parar contra-ataques. 

Enfim, mais a frio, foi um bom jogo de futebol, de equipas com características muito diferentes, mas que jogam bem à bola (o golo de Matic é de bandeira e o passe de Jackson para Varela uma monstruosidade). E digo-o sem falsos desportivismos, só desejo mal ao clube do agora presidente do Belenenses e queria que o Benfica jogasse só contra adversários fáceis em que à meia hora estava 4-0, mas acho importante dizê-lo. E quem do Benfica não perceber o adversário que enfrentamos, não perceberá a importância de nos mantermos focados no campeonato, sem loucuras.
Posto isto - que toda a gente já disse, mas eu precisei de alguns dias para arrumar as ideias - segue a luta. Nada de pessimismo exagerados nem dos optimismos bacocos. É ganhar hoje em Coimbra e segunda ao Moreirense. O copo está a meio. Vamos enchê-lo?

Uma última notinha sobre árbitros, porque senão fica toda a gente a pensar que só a Catarina é que é uma fanática doente e que eu sou um tipo politicamente correcto (que é das coisas que mais me irrita, eu sou tão ou mais doente do que ela): dá-me um gozo do caraças ver os azuis a estrabucharem com árbitros. É que, para mim, ver Pinto da Costa a mandar bocas à Liga e tecer considerações sobre nomeações de árbitro em público é sempre refrescante. Ou fina ironia. Tempos houve onde tínhamos de ir ao Youtube ouvi-lo falar. Eram tempos em que ele não precisava de mandar bocas aos árbitros pela televisão, eles iam lá a casa. Ou é falta de memória ou de vergonha.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

En garde!

O futebol português está transformado num duelo. Durante semanas, afiam-se as espadas, prepara-se o jogo de cintura e estuda-se atentamente o rival. Tudo se resume a este momento, principalmente ali, naquele palco onde somos tradicionalmente felizes e onde eles já não aguentam mais humilhação. O benfica-Porto é o jogo do ano, e que pena que já passou.

Vítor Pereira VS Jesus

Antes do apito inicial, o benfica era favorito para a maioria, na qual vergonhosamente me incluo. A verdade é que todos conseguimos ver como lhes tem sido mais fácil ultrapassar os adversários. E o Porto, apesar de apresentar esta época uma solidez incrível, não é propriamente uma fábrica de avançados goleadores e médios criativos - as posições que nós, os ignorantes da bola, valorizamos mais.

Além disso, estava à espera de um grito de revolta, de quem não aguenta mais perder para o Porto, e até com um impulso gratuito de última hora: a conferência de imprensa de antevisão de Vítor Pereira, por si só, chegava e sobrava para motivar os vermelhos a entrarem em campo que nem cães (Maxi, levaste muito à letra esta expressão). Confesso que também eu caí na armadilha do nosso mister. Ao vê-lo tão confiante, pensei que estaria a dar-lhes trunfos. Mas não, ele é que sabia o que vinha aí.

Mesmo sem James (provavelmente, o melhor jogador da Liga até ao momento) e mesmo com um banco vergonhoso para o nível do FCPorto, Vítor Pereira tinha a lição mais do que estudada e deu o chamado banho de bola. Não foi um futebol espectacular durante 90 minutos, nem mereceu entrar no campo da “nota artística” do outro, mas até a mim, portista mais descrente e temerosa do mundo, me convenceu em pouco tempo que estava tudo controlado.

Vítor Pereira arrasou, mais uma vez, Jorge Jesus. Já o tinha feito no ano passado e pelos vistos não bastou. Tenho muita pena que continuem a existir os portistas que o criticam, sem tentarem sequer perceber o gigantesco trabalho que o treinador campeão tem feito. Não fiquei surpreendida, portanto, de ver o nosso mister tão nervoso durante e depois do jogo. O problema de Vítor Pereira não era só o estar em casa do rival com o “pode vir o João” a estragar-lhe o que tanto pensou e treinou; o problema de Vítor Pereira é também este estado contínuo de ansiedade que a massa assobiativa provoca, como se a qualquer empate pudessem rejubilar com o seu falhanço. E por favor não me venham com a conversa da “exigência” dos adeptos do FCPorto. Da exigência à estupidez vai um longo caminho.

Caro mister: na época passada, eu disse que a vitória no salão de festas era toda sua. Bem, este ano quero agradecer-lhe o ter tentado repetir a dose. Só peço que se acalme, porque nós estamos consigo e estamos a gostar mesmo muito do que a equipa joga. Não vale a pena andarmos chateados com isto.

Jackson VS Cardozo

No dia do jogo, as três capas dos jornais desportivos destacavam os goleadores das duas equipas. Não é caso para menos. Cardozo tem disparado golos a torto e a direito nos últimos jogos e Jackson, bem, sobre Jackson já disse tudo o que sinto. E a vitória neste duelo foi clara.

Jackson foi soberbo! Quando por vezes se diz que há jogadores que são capazes de vir atrás, receber a bola, segurá-la, passá-la, distribuir jogo, fintar, cruzar e ainda ir a tempo de estar no local certo lá na frente para criar perigo, pelos vistos é porque se está a falar de Jackson Martinez, que neste jogo também foi um bocadinho de James e até de Varela, quando este já não tinha pernas para mais. Ainda por cima marcou um golo, aquele golo, que tanto gozo me deu.

Houve até um lance da segunda parte em que Jackson me deu vontade de apagar qualquer registo deste jogo, porque ele recebeu uma bola do lado esquerdo do campo e, calmamente, com ar de quem até nem está para perder muito tempo a pensar no que vai fazer, arranca um passe com o pé direito para o Varela que ainda hoje eu não percebi como é que aconteceu. Não viram? Ainda bem, pretendo apagar isto da memória de toda a gente, para que não venha rapidamente um milionário qualquer buscá-lo.

Quanto a Cardozo, bem, eu sou daquelas que se ri quando ele é assobiado pelos próprios adeptos, que não compreendem a distância que vai de um Nuno Gomes ou de um Mantorras para este paraguaio com ar de atrasado mental que só sabe marcar golos (e agora cantos, pelos vistos, como se eu já não sofresse o suficiente com ele). Mas, deste jogo, guardo a classe com que as grandes revelações azuis e brancas (Otamendi e Mangala, que jogadores!) o conseguiram travar, à excepção daquele lance em que “Le Mur” demora um segundo a pensar e lá vai ele, lançado, sozinho, em frente ao guarda-redes e, graças a nosso senhor jesus cristo, falha.

Helton VS Artur

E, por falar nesse lance, fale-se do duelo das balizas, que o jornal “A Bola” tratou de ridicularizar na sua capa do dia seguinte ao jogo. O outro tem razão: o FCPorto nem sempre joga com um guarda-redes. Naquela noite, por exemplo, a defesa de Helton ao remate de Cardozo valeu por dois ou três.

Já do outro lado, o rei Artur esteve imparável. Já vi o lance do golo do Jackson umas 12 vezes e não consigo parar de achar piada. Melhor: já vi todas as fotos desse momento e registei na minha memória aquele olhar que é uma mistura entre “ai que já fiz merda” e um suplicar de ajuda em direcção ao fiscal-de-linha, à procura, sei lá, de um fora-de-jogo? De uma falta? De miminhos? Pobre Artur. Da maneira que a vida lhe corre, ainda vai acabar a pedir ao outro mais um ou dois guarda-redes para jogarem com ele.


Maxi Pereira VS o mundo

Sim, eu também sou daquelas que adora jogadores raçudos. Gosto dos que suam, dos que sentem a camisola, dos que vivem aquele jogo como o último das suas carreiras. E Maxi Pereira já foi assim, é um facto, compensando até alguma (e notória) falta de talento e de capacidade para se adaptar a uma posição. Só que os anos passam e, esta época, o alegado lateral direito do benfica não é mais do que um velho. Está sempre fora do sítio, é ultrapassado e enganado várias vezes pelos adversários mais fracos que possam imaginar e recorre ao último dos trunfos: a violência.

Ando há semanas a discutir com o M. sobre este assunto. Sempre que vejo um jogo do benfica, fico convencida que, com um árbitro decente (eles existem?), Maxi Pereira quase nunca acabava um jogo em campo. Contra o Porto, foi apenas mais um, e no seu melhor: completamente incompetente a defender, a chutar a bola para a frente e a distribuir paulada a quem aparecesse à frente.

Estava descansado, suponho, porque não é qualquer um que tem carta branca para isso. Mas o que me impressiona mais não é aquele golpe de kung fu aplicado ao Moutinho. É quando ele se levanta, com a mão no ar, certamente não a pedir desculpa mas antes a alegar que não foi nada – mas o quê, já não se pode espetar um pontapé noutro gajo? –, espera que o árbitro se concentre nos nossos protestos e depois, quando já sente, já sabe, que não vai ser expulso - e juro que nunca mais me vou esquecer deste momento -, ele sorri. Sorri, o grande cabrão. Maxi Pereira já não tem muito futebol para dar, mas eu só rezo para que tenha uma oportunidade de me despedir dele.

João Ferreira VS António Godinho

Muito renhido este duelo. Godinho (nome de génio) começou fortíssimo, com o fora-de-jogo assinalado ao Defour que é capaz de ir parar àqueles resumos hilariantes da Eurosport. Seguiu-se o do Alex Sandro, que está tão em linha que desconfio que o Godinho, com o jogador vermelho à frente, nem o viu, apenas levantou a bandeira porque estava uma ventania do caraças. Ainda pensei: “vá, Catarina, não sejas assim. O homem chama-se Godinho e isso é castigo que chegue nos dias de hoje. Às tantas o problema é o fumo que está no estádio, não te preocupes que ele a partir de agora vai ver tudo direitinho”. Mas não, depois ainda veio aquele do Varela, quando o céu já estava clarinho. Oh, santa ironia! Foram três foras-de-jogo, três, mas sem influência directa no resultado, claro, porque o Defour e o Varela isolados estão muito longe de contar sequer como oportunidade de golo. Ainda por cima, em nenhum dos dois lances o rei Artur chegaria a tempo de lhes passar a bola.

Mas não pensem que o Godinho se ficou a rir. O João-pode-vir tinha de fazer jus ao prémio carreira que foi apitar este clássico. O João-pode-ser não podia despedir-se do benfica num amigável (e logo ele que é chamado a apitar todos na luz). O João tinha de sair pela porta grande. 

Do Maxi já falei e só mesmo o João é que podia soltar aquele amarelo, mas a expulsão perdoada ao Matic chega a ser fofinha. O ar do rapaz – a pensar “pronto, já fui, dei demasiado nas vistas, é impossível que esta panada por trás a cortar um lance de contra-ataque não resulte em cartão” – e o pode-vir-o-João a chegar lá, com calma, a abrir o peito e a abanar a cabeça aos jogadores do FCPorto, atónitos, porque estava tudo controlado e afinal o Matic nem precisava de se preocupar. Que classe, João, que classe. Vais deixar tantas saudades naquele estádio...

Portistas VS lampionagem

Acho engraçado que, no ano passado, os jornais tenham feito capa com o golo do Maicon (esquecendo, na altura, o voleibol do Cardozo) e os telejornais tenham aberto com as imagens desse lance, mas este ano eu tenha tido imensa dificuldade em ver estes cinco lances (tive de ver aqueles programas com três comentadores e tenho vergonha disso). Nada de novo para nós, esta súbita falta de atenção mediática.

Mas do que eu quero mesmo falar é do duelo nas bancadas. E chamo-lhe duelo porque, enfim, 50 e tal mil lampiões hão-de contar para alguma coisa, mesmo que calados ou, na maior parte dos casos, com medo.

Medo, é isso. Eles têm medo de nós. Estão traumatizados, coitados. Queriam um 15-0, uma coisa histórica para se redimirem das constantes vergonhas. Esperavam por um hattrick do Cardozo, um poker do Lima e ainda um ou outro golo do Rodrigo da bancada. Meu deus, tanta confiança.

Não, não era confiança. Era esperança, que é muito diferente. Porque o apito inicial ouviu-se e eles calaram-se. Nem piaram. Ouviram-nos, lá ao longe, na jaula, a mostrar que não é só em campo que o FCPorto gosta de ser superior na luz. Foi maravilhoso, mais uma vez, e só tenho pena de aqueles três mil não serem sempre os mesmos, em todos os estádios, até no Dragão.



Foi um bom duelo, vistas as coisas. Nós ganhámos confiança, eles não perderam os habituais pontos para nós. Saí de lá convencida que temos equipa, que somos capazes de ser campeões e ainda fazer uma gracinha lá fora. Claro que somos, ninguém pode ter dúvidas. Mas calma, muita calma, porque o plantel é curto e a cabeça não se pode perder em desejos de outro mundo. Eles estão mais espertos, já o vimos, e não vão dizer o tradicional “touché” tão facilmente como estamos habituados.