sexta-feira, 8 de março de 2013

Então, afinal, como é que isto está a correr?

Escrevo-vos dia 8 de Março, um dia depois de um Benfica-Bordéus que acabou 1-0 para o Glorioso, após pálida exibição, que foi coroada com uma assobiadela monumental no final do jogo. Isto numa altura onde se discute a renovação ou não de Jorge Jesus. Como é que as coisas estão, afinal, a correr?
Estamos em 1º, com 2 pontos de avanço sobre o Porto. E que significa isso? Bem, é óbvio que este campeonato está em contagem decrescente para o Porto-Benfica, jogo onde os azuis são, pela história recente e por muito que nos custe, favoritos. Se o Benfica lá chegar com 4 pontos de avanço, é campeão. Se chegar com 3 ou 1 ponto de avanço, pode empatar, o que - num jogo dessa natureza - nos confere aí uns 30-40% de hipóteses (é a minha opinião). E acho que, numa situação de ter que ganhar no Dragão para ser campeão, só um alinhamento planetário muito diferente dos que eu conheci nos últimos anos daria à equipa o estofo para o fazer. Que significam estes 2 pontos, então? Que convinha ganhar mais 2 nos próximos 7 jogos. A probabilidade disso acontecer? Não sei. 

Mas sejamos honestos e recuemos até ao fatídico dia em que o Zenit veio buscar Axel Witsel. Quantos de nós julgávamos possível estar em primeiro no mês de Março? Quantos de nós não imaginámos o campeonato a perder-se de forma bastante napoleónica, com a entrada do Inverno? Eu, confesso, nem conseguia fazer o onze do Benfica na minha cabeça sem Javi Garcia e Witsel. Se me dissessem que íamos a Alvalade jogar no meio campo com Matic e um tal de André Gomes, provavelmente tinham de me impedir de saltar da ponte 25 de Abril. O que é certo é que, entretanto, Enzo, dentro de um estilo que eu detesto para médio centro, fez o lugar. 
Mais: sobrevivemos a eleições fratricidas, com o culminar numa noite com violência, com sócios virados uns contra os outros, acusações, etc. E a equipa aguentou-se. Continuou a ganhar, não cedeu. Contra todas as expectativas. Não se apurou para os oitavos da Champions, mas está a caminho dos quartos na Liga Europa. Não é mais do que estávamos à espera naquela altura? 

O mérito, quanto a mim, é quase todo de Jorge Jesus. Eu tenho várias críticas a JJ: não gosto do nosso 4-4-2 (e este modelo até é mais equilibrado), não gosto que a equipa seja tão vertical - é mais provável os jogadores do Benfica lamberem todos o cotovelo ao mesmo tempo do que conseguirem gerir um jogo com posse de bola - e acho que a planificação do plantel no início da época é muitas vezes completamente ausente. No entanto, os resultados esta época vão-me desmentindo. 
O que é que isto significa? Imaginemos o seguinte (e isto vem a propósito de um texto do Ricardo, do Ontem Vi-te no Estádio da Luz): um jogador vai marcar um penalty. Mete mal o corpo, não chuta com muita força, não coloca muito a bola. É golo. Dizemos que foi mal marcado, que este gajo não sabe penalties e que, eventualmente, vai falhar mais do que acertar. A questão é que o sacana acaba por marcar 21 penalties e só falha 4. E ninguém marca mais, em 21. Então, afinal, o gajo é bom ou é mau? 
Eu também queria que JJ não fosse teimoso, que o Benfica tivesse sempre os jogos controlados e sem sofrimento, que jogássemos em 4-3-3, de preferência a trocar a bola maravilhosamente. Mas jogamos em 4-4-2, e às vezes fazemo-lo bastante bem, e até vamos em primeiro. Confusos? Eu também.

Mais enervante ainda: pedimos que a prioridade seja o campeonato e aí está essa prioridade bem marcada. Elementos fulcrais como Matic, Enzo, Lima e Salvio, neste ciclo de 6 semanas com 2 jogos por semana, têm jogado 90 minutos + 30. Maxi joga 90. Melgarejo também já foi poupado. Cardozo joga 70 minutos e ainda teve descanso forçado com a AAC. E, mesmo no meio destas poupanças, podemos chegar aos quartos da Liga Europa e com o plantel bem rodado. Confesso-vos que acho difícil fazer melhor. Também pode acontecer não ganharmos nada. Mas até culparei mais a má gestão inicial do que a gestão com o que sobrou (houve ainda o erro de deixar sair Bruno César e Nolito - não tínhamos que andar a jogar com o Roderick...).

Concluo: é mais difícil analisar antes dos resultados do que depois deles, como é óbvio. Quer o Benfica seja campeão, ganhe a Liga Europa e Taça ou não, parece-me indesmentível que a época foi mal planeada (faltam-nos médios centro) e isso é culpa da direcção. Qualquer Vítor do Paços Ferreira seria, hoje, uma incrível mais valia na alta rotação de jogos a que estamos sujeitos. No entanto, e porque naquele dia de fecho de mercado tudo parecia tão negro que nem festejámos esta notícia: os mesmos nabos que não compraram um médio foram os génios que foram buscar o Lima.
Quanto a futebol, apesar de todos os defeitos que lhe aponto, dou o meu braço a torcer a JJ: tem feito (quase) tudo bem (faltou jogar em 4-3-3 contra o Porto, com Gaitan nas costas de Lima, lição que só aprenderia após o Natal). A equipa tem jogado bem, o plantel tem rodado com prioridade no campeonato e têm-se evitado as lesões tão comuns nesta fase da época (jogadores a fazerem 6, 7 jogos em 20 dias, sem tempo de recuperação muscular). 
Em relação à renovação de JJ: por muitos defeitos que tenha - e tem-nos, evidentes - deparo-me com uma dificuldade muito grande quando penso no seu despedimento: há alguém melhor? E, quando digo melhor, estou a falar de alguém que me garantam que, de certeza, às 21ª jornada limpou pelo menos 17 jogos. Não quero cair na esparrela que às vezes o discurso de JJ tem, que faz parecer que o Benfica acabaria sem ele. Mas, não vindo Mourinho nem Klopp, quem chegar à Luz tem uma herança mais pesada do que parece.

Quero com isto dizer que me manterei crítico de uma direcção liderada por um não-Benfiquista, que não cultiva o Benfiquismo. No entanto, mantenho-me ao lado de uma equipa que me parecia morta antes de sequer ter nascido. Criticarei aqui, criticarei no final da época se for preciso. Mas não há razões para histerias, para a Luz cair em cima da equipa num jogo miserável, mas que até ganhou. Nem falo da assobiadela final (acho que no fim os adeptos que apoiam também têm direito a assobiar), falo sobretudo da impaciência brutal em que viveu o estádio todo o jogo, assobiando cada passe falhado. Não é tempo para contar espingardas, muito menos enquanto joga o Benfica. No fim, fazemos as contas. Cá estaremos para os balanços finais, como cá estivemos para as previsões. É que, afinal, isto até está a correr bem.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Não ganhar

Os adeptos que saem do sofá sabem que os melhores jogos do ano são na casa dos rivais. O que, em teoria, se torna mais difícil dentro do campo, é compensado largamente pela bancada. Há uma razão que o explica sucintamente: quem vai a estes jogos está mais predisposto a apoiar a equipa. Do outro lado, e apesar de em maioria, estão os adeptos que gostam de sentar o rabo na cadeira, de gesticular contra o árbitro e de se manifestar apenas e só quando é golo.

Quando jogamos fora, sentimo-nos mais unidos. Estamos todos juntos, muitas vezes literalmente em cima uns dos outros, e sentimos a força da nossa voz. No FCP-sportem cantam as claques, assobia-se de vez em quando o árbitro, há uns insultos soltos aqui e acolá. No sportem-FCP cantamos todos, assobiamos todos e insultamos todos.

Nestes jogos há ainda outro aliciante. É que ao lado dos nossos 2 ou 3 mil adeptos, estão os outros. E eu sinto uma certa admiração pelas pessoas cujo lugar está ao lado da bancada dos visitantes. Sinceramente, nunca consegui perceber como é que aguentam. Espero mesmo que sejam figurantes pagos para fazer de conta que são daquele clube, porque nenhum adepto normal suportaria tal tarefa. Ora bem, imaginando que damos 5-0 a um rival em casa, eu percebo que estas pessoas até se divirtam, porque vêem os outros. Mas isso compensa mesmo todos os outros minutos a ouvi-los, a levar com insultos constantes e, às vezes, credo, até a vê-los festejar? Não me acredito.

É que nós, quando vamos ao estádio de um rival, passamos muito tempo virados para os lados. É um vício terrível: apoiar, gritar, cantar, insultar, festejar, mas para o lado. Olhar para a cara de um rival enquanto beijamos um escudo de campeão imaginário é uma coisa inexplicável de tão boa. E o jogo do último sábado, embora o adversário fosse o 11º classificado, não foi excepção.

No entanto, do outro lado estavam uma espécie de adeptos-fantasma. Não quero assim criticar quem ainda consegue ir ver jogos do 11º classificado sem ser obrigado ou pago para isso, juro, até sou daquelas pessoas que reconhece muito mérito aos adeptos das equipas pequenas. Só que nunca tinha tido a sensação de estar a provocar uma parede. Nós cantávamos que iam para a segunda, que o sportem é merda até morrer, que a juve leo coiso, e nada. Nadinha. Nenhuma reacção.

Também é verdade que entrámos demasiado cedo, quando no estádio ainda estava apenas um funcionário do sportem a fazer joguinhos com meia dúzia de pessoas que penso reconhecer daquelas imagens de adeptos a chorar com a saída do Liedson. «Quem é quem?» - é assim que se chama o jogo que basicamente consiste em desfocar uma fotografia de um jogador do sportem e tentar que os adeptos adivinhem quem é. Quem acertar, e conforme o grau de desconfiguração do dito jogador, recebe prémios como camisolas autografadas por todos os jogadores e um lugar grátis para todos os jogos em casa até ao fim do campeonato. Prémios que, em qualquer clube decente, são coisas que não se oferecem, porque os adeptos querem-nos tanto que até os compram, imaginem.

É tão deprimente, a sério... A excitação do funcionário do sportem contrasta tanto com o desânimo dos adeptos... E depois, ainda por cima, estávamos lá nós. E apareceu um jogador mulato desfocado e nós, mauzinhos: “É o Liedson! É o Liedson!”. E depois um jogador desconfigurado mas claramente muito baixinho: “É o Moutinho! Só pode ser o Moutinho!” Que horror, que sentido de humor macabro. E o senhor lá continuava, a distribuir game boxes como quem atira moedas de cinco cêntimos para as bancadas de gente rica. E os adeptos lá aceitavam, coitados, conformados a terem de ver os jogos todos até ao fim da época.

Enquanto isso, há uns adeptos do sportem no relvado, não sei bem a fazer o quê, devem ter ganho um passatempo, que azar. E são filmados e deles se espera que gritem, que abanem o cachecol, que apoiem o sportem, sei lá, essas coisas que os malucos dos adeptos fazem. E eles sorriem para a câmara, meio com vergonha de estar ali, meio com vergonha de ser do sportem. Coitados, nunca mais participam de certeza.

Isto é mau, mas continua, porque no sportem há joguinhos para entreter os adeptos! Percebo que tenham de os fazer antes do jogo, porque durante e depois não costuma ser muito divertido. O segundo jogo chama-se qualquer coisa como «O preço certo» e consiste em mostrar imagens de produtos do sportem até os adeptos adivinharem o preço ou um deles se aproximar mais do que os outros. E então lá ouvimos nós mais uns adeptos a dizer “35 euros” por um casaco que custa 68 (amigos, isto é o sportem, acham mesmo que há artigos baratos numa loja de elite?), e pronto, lá vai um casaco grátis para alguém, como se essa pessoa não tivesse vergonha de o usar fora daquele estádio. E nós, maus, muito maus, a mandar piadas que o casaco ia para o Porto por troca com o Miguel Lopes.

Bem, mas o jogo lá começa e, agora sim, isto vai aquecer. Não, não vai. Eles nem olham para nós. Estão 20 e tal mil pessoas de verde a olhar para todos os lados menos para nós, alguns assobiam para o ar, a outros já lhes dói o pescoço. E nós cantamos pelo Moutinho, pelo Izmailov, pelo Varela, pelo Liedson. E nada, coitados, nada. Uns assobios, tímidos, mas nunca o temor que habitualmente uma casa do rival provoca.

E chega o intervalo e, com ele, mais uma cena super divertida! No relvado estão mais algumas dezenas de adeptos (há algum adepto do sportem que não tenha ido ao relvado? É obrigatório? Precisam disso para nos mostrar que ainda há adeptos do sportem?). Explica o funcionário que são os novos sócios do sportem. E nós pensamos: “Porra, mas quem é que se faz sócio do sportem? Bebés obrigados pelos pais? Mulheres obrigadas pelos maridos? Idosos com Alzheimer?” Não, não, aparentemente estão ali de livre vontade. E depois percebemos porquê.

A minha memória não é das melhores mas penso que a razão é qualquer coisa como isto: qualquer sócio do sportem que inscreva outra pessoa como sócia ganha dois bilhetes para qualquer jogo, tem três meses de quotas grátis e mais não sei o quê que não me lembro (deve ser uma camisola autografada, porque aparentemente ninguém quer recordar esta época comprando camisolas do Wolfswinkel). E o novo sócio tem a inscrição gratuita, mais dois bilhetes, um benefício qualquer na banca e seis meses de quotas grátis. A sério, eu ouvia isto e a certa altura pensei: bem, às tantas compensa eu ser sócia do sportem, porque o meu bilhete custou 25 euros. Muito convincentes os senhores. Ou desesperados, depende do ponto de vista.

Com a segunda parte e um Porto precipitado, irreconhecível e desajeitado, eles começaram a acordar. Não falo das críticas ao árbitro, porque em alvalade não morre a tradição de achar que qualquer lançamento para a outra equipa significa o roubo de um título, mas dos insultos para o nosso lado. Há um livre perigoso para o Porto e inútil do Danilo (pela 12423857489572456ª vez esta época) remata ao lado. E vira-se um lagarto para nós e beija o símbolo do sportem que tem na camisola, gritando insultos que naturalmente não consigo ouvir mas dá para imaginar. Ainda hoje não percebo a relação entre um livre falhado pelo meu clube (apenas mais um entre tantos) e o aparente orgulho no clube de outra pessoa. 

Mas os últimos 10 minutos foram passados assim, virados para nós. Cantavam, batiam palmas, insultavam-nos. Ressuscitaram, portanto. Eu, confesso, estava paralisada de tão incrédula. Olhava para o ecrã constantemente, com medo que eles tivessem marcado um golo e eu nem tivesse reparado. Estão a cantar porquê? Que tipo de vitória é esta que vale 1 ponto? Como é possível que tenham chegado a isto? E aí caiu-me a ficha: o sportem estava em 11º (hoje está num honroso 10º lugar) e bem se viu pela forma como jogaram que não estavam ali para ganhar, para lutar pela manutenção ou sequer para dar o campeonato ao benfica, como o avançado prometeu. Eles apenas quiseram mostrar que estão vivos.

Apesar de visivelmente frustrados com o resultado (vamos ser novamente das poucas equipas a não ganhar em alvalade este ano), respondemos de maneira fácil. Nunca tinha reparado, porque habitualmente não me pego com adeptos das equipas pequenas, mas explicar por gestos que eles estão cheios de medo (as duas mãos com os dedos todos esticados, a convergirem na mesma direcção) de ir parar (um dedo esticado a deslocar-se de cima para baixo) à segunda divisão (dois dedos de uma mão) é bastante perceptível à distância. 

Mesmo assim, saí de alvalade com a sensação que fui goleada, que perdi um campeonato e que o Porto nem sequer por lá passou. Nem se trata de não saber perder, trata-se mesmo de não saber não ganhar. Principalmente quando do outro lado estão bancadas repletas de fantasmas, ligados a uma qualquer máquina para conseguirem respirar ainda algum orgulho, e tão habituados a não ganhar que se contentam em não perder. 

P.S. Não gostei mesmo nada do Porto. Não admito que estejam a pensar noutras coisas e não aceito desculpas como as lesões. Já tiveram a vossa falha, agora não aceitamos mais.

P.S.2 O sportem está meio morto, mas nunca podemos tratá-los como se não fossem um rival. Ter pena dá nisto: facilitar e perder pontos.

P.S.3 Tenho tido imensa dificuldade em comentar as últimas vitórias do benfica. Queria poder dizer que foram beneficiados pelo árbitro x ou y, mas aparentemente agora a regra é nomear desconhecidos para os seus jogos.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Força, 11º classificado!

Amanhã, as equipas às riscas vão jogar uma contra a outra e eu, como Benfiquista, consultando a classificação, tenho o dever de torcer contra o Porto, aqueles das riscas azuis verticais que parecem as barracas da praia de Carcavelos. Isto, trocado por miúdos, fará com que eu tenha de incentivar o Sporting, o que é, para mim, tão agradável e natural como falar bem do Relvas.
No entanto, porque o Benfiquismo a isso obriga, não nos resta senão tentar incentivar os nossos vizinhos. Em primeiro lugar, lagartos, nós sabemos que, se por um acaso do divino, os pontos que vocês roubarem amanhã ao Porto nos derem o campeonato, muitos de vós rasgarão os cartões de sócio e nunca vão conseguir digerir os nossos agradecimentos. Obviamente, que isto só nos dá mais razões para vos incentivar (talvez não seja a melhor forma de o fazer, admito): tirem-lhes lá pontos e receberão os nossos paternais e gozões obrigados.

Depois, eu não sei vos já viram a classificação, mas (como é que eu hei-de escrever isto sem me rir?) a segunda divisão não está longe. Para a evitarem, convém somar pontos. Não é que eu queira muito que vocês fiquem na primeira divisão, mas do vosso ponto de vista (no qual nunca me coloquei na vida) talvez não fosse mau evitarem descer (do ponto de vista dos patrocínios, porque desportivamente acho que a Liga Vitalis está mais ao vosso alcance). Portanto evitem aquele espírito suicida de "Vamos perder para foder os lamps" e, se por alguma réstia de orgulho o quiserem fazer, imaginem-se a jogar às onze da manhã, no Inverno, com o Covilhã, que isso vos passa. 


De seguida, e isto é dirigido aos vossos jogadores, vejam o jogo de sábado como uma oportunidade. Vejam no outro lado, de azul, Ismaylov, Moutinho, Varela e Liedson e pensem: "eu posso estar ali!". Esqueçam as vossas fraquezas e acreditem! Vejam o jogo como um treino de captação. Marquem golos e corram para o banco do Porto e mostrem-lhes, de costas voltadas e polegares apontados, os vossos nomes e números da camisola. Uma boa exibição no sábado pode levar-vos a um clube que, ao contrário do vosso, paga salários. Pensem nisso: salários! 
Não quero com isto que vocês, cepos de verde e branco, se metam com fintinhas e que num individualismo estúpido tentem só fazer pelas vossas carreiras. Não, o "jogador à Porto" é um jogador com sentido colectivo, abnegado e até com algum doping (o qual aconselho muito para sábado. Exagerem nas doses, sem medos. Vocês nunca conseguirão ir para o Porto se não suportarem as doses cavalares que o Mangala come ao pequeno almoço. Portanto, já sabem, sábado quero 11 Armstrongs!). Quero com isto dizer que se devem esquecer, apenas no sábado, daquele discurso delirante do "Grande Sporting". Sejam sérios, olhem para a classificação: vocês estão em 11º lugar em 16 equipas. Deve um 11º classificado comportar-se como um "grande"? É óbvio que não. O que se vos pede é muito simples: todos lá atrás, porrada neles e chutão para a frente para o Capel e para o Carrillo. Nada de entusiasmos, até um pontinho já é bom. Mais ainda, atirem-se para o chão, percam tempo, façam todo o anti-jogo possível. 
Há que assumir a beleza quase poética da equipa de meio da tabela (pronto, ok, fundo da tabela): um guarda redes salvador (Patrício), um caceteiro no meio campo ao bom estilo do grande Filipe Anunciação (pode ser o Rinaudo) e um coxo lá à frente que até já marcou ao Benfica, um género de Dino do Beira-Mar, que neste caso é o Van qualquer coisa. Perfeito, perfeito é deixarem de jogar em Alvalade, que é muito grande e tem um relvado muito comprido para uma equipa pequena e tentarem transferir o jogo para Rio Maior, onde jogam os vossos Bs. Embebidos desta competitividade, deste espírito meio Jaime Pacheco, meio José Mota, grandes coisas podem acontecer no sábado. 


Se, por obra do acaso ou por ordem natural das coisas, algures à meia hora estiverem a levar 0-3, aí sim, lembrem-se que são o "Grande Sporting". Vão-se ficar? Eles levam-vos jogadores, estão sempre a gozar convosco, e vocês ficam-se? Lesionem quatro ou cinco deles, que é para eles aprenderem! O Jackson em primeiro lugar! Digo-vos mais: se estiverem a perder, o que seria mesmo digno da vossa parte era uma grande invasão de campo, à antiga, acabando o espectáculo com os jogadores do Porto todos atirados para aquele vosso bonito fosso e a serem apedrejados. Aí sim, tinham-se vingado do Futre, Moutinho, Liedson (não vou continuar para vocês não chorarem).

Eu, como Benfiquista, sei da inutilidade deste meu texto. Incitar os verdes contra os azuis é como pedir a um cão, mal tratado, mas fiel, que morda o dono. Para já, o pobre animal tem um aspecto esfomeado e miserável e não pára de latir, o que torna quase insuportável torcer por ele. Por outro, sabemos que o bicho é estúpido e que nunca vai morder o dono que lhe está sempre a dar biqueiros no focinho. Mas não custa tentar. Vá lá, lagartos, façam-se úteis!



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Dá azar

Um jogo de futebol nem sempre se resolve com um remate certeiro, uma finta de estrela ou um golpe de génio. Às vezes, é a bola que bate num defesa e deixa um adversário isolado, é a excepcional defesa do guarda-redes que vai parar ao sítio errado, é o canto a nosso favor que termina num contra-ataque mortífero dos outros. A bola é assim. Teimosa. E isto é de deixar louco qualquer um de nós.

Num mundo ideal, seria possível eu antever e evitar cada surpresa destas. Por exemplo, antes de sair de casa, eu iria buscar o cachecol que dá sorte, colocá-lo-ia na posição que dá sorte e nem o tiraria no decorrer do hino, porque assim é que dá sorte. E pensam vocês: bem, Catarina, que grande chanfrada que tu és. Mas se há coisa que eu sei, caros leitores, é que se ainda estão aqui é porque são tão doentes quanto nós, por isso sabemos todos muito bem como a escolha de um cachecol pode ser determinante para uma vitória.

Antes de chegar ao estádio, porém, ainda há muito a fazer. Por exemplo, aqui há uns anos, eu e a L. descobrimos que não podíamos trocar sequer uma SMS em dia de jogo. E nós nessa altura trocávamos muitas, porque éramos jovens com imensas preocupações, por isso imaginem o enorme esforço. Caímos nesse erro uma ou duas vezes (que, como toda a gente sabe, é amostra suficiente para um adepto deixar de fazer algo) e o FCPorto não ganhou. Por nossa culpa.

Mas, infelizmente, há mais. Por exemplo, demorei a perceber que não posso gozar um adversário quando ele entra. Isto é, imaginem uma substituição da outra equipa, vocês vêem o manco a deixar de aquecer e a correr para o banco e dizem, com ar sobranceiro: - Olha, vai entrar o manco, que sorte a nossa! Errado, errado, errado. É certinho que o manco vai marcar. Acreditem, aconteceu-me uma ou duas vezes com o Mantorras e o Nuno Gomes e jurei para nunca mais.

É isso e os “olés”. Porra, quem inventou os olés não era doente por um clube de certeza. Nunca vi a minha equipa jogar melhor ou marcar mais golos por ouvir os nossos “olés” para os outros. Nunca. Pelo contrário, até parece que perdem a bola mais depressa, seja pelo peso da responsabilidade ou porque vem aí um adversário de perna esticada em modo kung-fu para acabar com aquela brincadeira. Os “olés” estragam tudo, a não ser que, vamos tentar imaginar, estejamos a dar 5-0 em casa ao benfica e eles nem se mexam. Aí sim, pronto, dou o braço a torcer, e grito uns “olés” só para os animar, coitados.

Ainda há outra coisa a não esquecer. Nunca, mas nunca, dizer que vamos ganhar de certeza, escrever isso em algum lado, provocar um adversário e prometer que vamos golear. Nunca, ouviram? Celebrar uma vitória por antecipação no futebol é tão estúpido como dizer que fomos contratados ainda antes de responder ao anúncio de emprego, e na economia actual! Pessoalmente, por exemplo, posso contar-vos que em todas as finais europeias que disse em voz alta que íamos perder as ganhámos (mais uma vez, a amostra é enorme, por isso trata-se de um dado científico). Por isso, não estranhem quando na próxima eu puser aquela minha cara triste, de quem já está a antever uma grande tragédia, e soltar um: - Já fomos… Deixem-me estar, alinhem na cena, façam bem de conta que estão convencidos. Todos juntos, seremos mais fortes.

Quando me distraio e não cumpro os habituais rituais de vitória, recorro à minha mãe. Garanto-vos que não há melhor barómetro. – Como é, vamos ganhar? Se a resposta for um “claro que sim, não tenho dúvida, estou super confiante”, então, meus caros, podemos começar todos a chorar, porque o FCPorto vai perder. No entanto, se a resposta for “estou cheia de medo, acho que eles nos vão comer, nem quero que o jogo comece”, podemos ir já para os Aliados. E não pensem que isto me descansa. Só muito raramente o pergunto, porque não tem piada saber os resultados dos jogos antes deles acontecerem.

E, quando tudo o resta nos falha, quando não há cachecol, SMS, contenção de gozo, antevisão cautelosa ou mãe-adivinha que nos safe antes de um jogo, todos sabemos muito bem qual é a única coisa a fazer: mudar de lugar no estádio. Ah pois é, não façam esse ar de surpreendidos, como se nunca tivessem trocado de lugar disfarçadamente, sem dizer nada, com alguma vergonha até, só porque aos 20 ou 30 minutos de jogo já perceberam no que vai dar o lugar onde estão. Se nunca o fizeram, então nem imaginam a dose de culpa que têm nas derrotas do vosso clube. Mudar de lugar para dar sorte devia ser o mandamento número 1 de qualquer adepto. Mais: espero não ser a única que anda a decorar cadeiras dos estádios adversários que dão sorte, procurando-as quando lá regresso, porque caso contrário o FCPorto já me deve uma estátua ou algo assim discreto como forma de agradecimento. E pensam vocês: então como é que, com tão dedicada adepta, a equipa da Catarina não ganha os jogos todos fora? E a resposta é óbvia: porque eu tenho uma memória horrível e às vezes troco as cadeiras. Desculpa-me, Porto, desculpa-me.

Só não acabem como a minha mãe, naquele terceiro ano consecutivo em que o FCPorto não foi campeão. Desesperada, sem saber o que fazer, rezou ao deus do futebol e prometeu-lhe que, se ainda fôssemos campeões, comprava um daqueles chapéus enormes que imitam um dragão e ia a todos os jogos com ele. Só deus do futebol sabe a humilhação suprema que isso seria e ainda hoje lamento que tenhamos perdido esse título, não só porque quero que o meu clube ganhe sempre, mas também porque adoraria ver a minha mãe a fazer aquela figurinha. A conclusão a tirar é que deus, mesmo o do futebol, não existe, por isso não vale a pena recorrer a ele.

Cá em casa, existem estas e outras regras no que à sorte diz respeito. Algumas, com o tempo, vão sendo contornadas porque o outro descobre um contra-feitiço fortíssimo. Como os boxers do M., por exemplo. O M. tem uns boxers do benfica. E eu podia terminar o texto aqui que vocês já iam gozá-lo o suficiente. Mas não, há mais. O M. convenceu-se que, usando aqueles boxers nos jogos, o benfica era invencível. Daí concluo que, quando ele morava com os amigos, só a preguiça em lavar a roupa não fez do benfica hexacampeão nacional e vencedor consecutivo da Liga dos Campeões. Para mal dos seus pecados, o M. veio morar comigo e, surpresa das surpresas, sou eu que trato da roupa. Curiosamente, os boxers começaram por não estar lavados nos dias de jogo e agora, sinceramente, já nem sei onde eles andam. Podem ter ido parar ao fundo do Tejo, podem ter sido queimados numa tarde de magia negra, enfim, quem pode saber?

Podem chamar-lhe superstições, manias, loucuras, o que quiserem. O que eu sei, e qualquer adepto sabe, é que funcionam. É por isso que, quando o FCPorto empatou em casa com o olhanense, eu soube logo que a culpa foi minha e de todos os que, terminado o jogo anterior, decidiram gozar o adversário. Tivéssemos ficado todos calados durante mais 90 minutos e a porcaria da bola tinha entrado.

E este domingo, quando os lampiões celebraram aquela vitória no último minuto com aquele penalty que não iremos esquecer, ficaram a pensar que devem os três pontos ao árbitro, ao Gaitan, ao defesa da académica, ao Lima, à estrelinha de campeão, sei lá. Mas não, é a mim que me devem aquela merda. É que eu, que tenho como regra não ver ou não estar atenta aos jogos do benfica, este ano vinha a notar a coincidência entre os momentos em que eu olhava para o ecrã e os golos deles. Aliás, no benfica-FCPorto, eu só estive atenta em dois lances de ataque deles e acabaram os dois em golo (depois aprendi e corrigi isso, desviando o olhar no resto do jogo e evitando mais golos… e ainda houve quem dissesse que foi a equipa do Porto a corrigir a defesa e não sei quê, em vez de me atribuírem logo essa glória suprema). Portanto, e depois de no nacional-benfica ter estado “desatenta”, decidi não ver o benfica-académica. E não vi mesmo. Nada, nadinha.

Só que isto de ser adepto não é fácil e, mesmo quando sabemos que aquele resultado só depende de nós, caímos na tentação de ver um bocadinho. Quando eu carreguei nos números “2” e “0” do comando, o Gaitan ainda estava a agarrar também o defesa da académica. Seguiu-se o apito, a confusão, o golo. Eu mudei de canal. Não vi mais nada. Ainda hoje não sei o que se passou, como foi o jogo, quem fez o quê. Naquela noite, vi apenas o suficiente para ter a certeza de uma coisa: a culpa foi minha. Que azar.

P.S. Noto agora que estes dois textos seguidos nos fazem parecer um bocadinho malucos.

P.S.2 Se decidirem internar-nos, por favor, garantam pelo menos que o manicómio tem Sporttv.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Um domingo cá em casa

Desenganem-se aqueles que verão neste texto uma coisa bonita e que imaginam alguma dose de bom senso no meio disto. Eu e a Catarina odiamos os casais que se beijam para a fotografia, cada um com o seu cachecol. Muitas vezes nos perguntam como é que vivemos um com o outro. Como é possível haver tolerância entre pessoas que, além de gostarem mais dos seus clubes do que de qualquer outra coisa, odeiam o clube do outro. Não sei. Talvez este texto vos mostre. O que não quero é que achem que há aqui qualquer dose de bom senso ou de civismo. 

São 18h e estou sozinho em casa a ver o Nacional - Glorioso, a Catarina ainda não chegou. Tive três enfartes em cinco minutos, indignei-me com as escolhas do Jesus (a prioridade tem de ser o campeonato. O c-a-m-p-e-o-n-a-to, percebeu, mister?) e quando a Catarina chegou estava 1-1 no marcador. 
Nunca vi nada no Urreta que me encantasse e não consigo perceber como é que um jogador que não entrava no plantel inicial (estando à disposição) passa a titular num jogo destes. Isto originou uma permanente pressão no nosso extremo, que, mal perdia uma bola, ouvia um bom palavrão português. Há jogadores que são nossos camaradas e puxamos por eles, a entoação do "Anda, Salvio!" como se fosse um amigo da tropa é diametralmente diferente da "Põe-te no sítio, Luisinho"  à laia de ameaça, mas o Urreta está longe disso e eu estava particularmente nervoso e verborreico.
A Catarina, como é regra da casa, vê os jogos do Benfica em silêncio, e sentou-se a fingir que estava interessada na internet (pensas que eu não te conheço, é o que é). De repente, há um livre e eu soltei um "Uuuuuurreeetaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa", com a voz fininha, meio em festa, meio em arrependimento, um misto de hooligan com rapariga adolescente a fazer as pazes com o namorado. 1-2, vamos lá segurar isto. A Catarina aproveitou a fraqueza e pediu-me para ir encher o depósito do carro entre o fim do Benfica e o início do Porto. Ainda a dizer, "Urreta, caralho, Urretaaaaatatatatatata!" disse que sim, claro. Tanso.

Ao intervalo, a Catarina, só para dar azar, diz "Vamos apostar quantos é que o Benfica hoje dá?". E eu, tanso, em vez de fazer um contra feitiço, disse só "Estás a dizer isso ao adepto certo, ao optimista por excelência...". Estúpido, Manel, estúpido.
Segunda parte e os rapazes de vermelho não tiveram o killer instinct (esta foi para si, Mr. Robson) de fazer o 1-3 e, às tantas, a Catarina, que às vezes diz assim umas alarvidades que eu até fico com vergonha (fico com vergonha de te apresentar aos meus amigos, Catarina. Imagina que estava o Eusébio cá em casa ou assim, já imaginaste a vergonha?) e diz: "Não percebo como é que tu gostas deste clube." Eu até tenho vergonha de vir escrever isto, mas pode ser que assim ganhes decência. 
Depois deu-se uma daquelas coisas inacreditáveis que é sofrermos o 2-2 em contra-ataque quando estamos a ganhar, com um frango à mistura. Não tenho tolerância a coisas destas.

A partir daqui foi uma corrente de palavrões, de insultos, com o coração aos saltos, cheio de angústia. Eu entro em desespero. A minha cabeça começa a andar à roda, a vida não faz sentido e é a puta da bola que não entra e há sempre um filho de um cabrão de um guarda redes que se lembra que é hoje que vai fazer a exibição da miserável vida dele e depois, claro, há o factor Proença, que enfim. Eu não posso dizer o que desejo ao Proença porque não violava só o Juramento de Hipócrates, mas também a Convenção de Genebra. A não ser que a Amnistia Internacional estivesse muito distraída, acho que não passava impune partir-se a boca toda a um gajo e enfiar-lhe os dentes, um a um, pela uretra. O relógio andava a mil à hora, um escândalo.

No meio de todo o meu desespero, há o enésimo centro mal medido do Salvio e eu, já esquecido da camaradagem, gritei tão alto que se deve ter ouvido na Madeira: "FODA-SE, SALVIO, MORRE!" Isto agora, lido assim, parece que eu sou maluquinho. Mas qualquer Benfiquista que viu o jogo sabe que foi uma frase assertiva, bem medida e, até, ponderada. Olhos muito arregalados, algo vermelhos, o coração aos saltos, e a Catarina a olhar para mim com ar sério, diz: "Tu sofres demais, Manel, há limites". Se isto fosse uma série, aparecia no ecrã a legenda "uma hora e tal depois..." e veríamos a Catarina deitada no chão a dar uma cabeçada no chão. Mas isto não é uma série, portanto continuemos.

Às 19.50, findo o jogo, o mundo não fazia sentido. A vida não fazia sentido. Porque é que estamos neste planeta se o Benfica não ganhou? Vesti o casaco e fui-me embora. Antes de sair, a Catarina virou-se e disse-me duas frases moralistas, do género: "Sem gozar, Manel, tu não podes sofrer assim. Faz-te mal." A verdade é que faz. A verdade é que eu nem devia ter pegado no carro depois do Benfica empatar (passou-me pela cabeça mandar-me contra a bomba de gasolina só para a explosão foder a casa do Porto em Lisboa, ali tão perto). Mas eu não consigo tolerar uma não-vitória do Benfica no campeonato, sobretudo com tantos erros próprios. 
Antes de chegar a casa, uma mensagem: "Golo do Olhanense". "Vão dar 5", pensei eu.

Eu, como é regra da casa, vejo os jogos do Porto em silêncio. Fui cozinhar e rever, mentalmente, os nossos erros. À medida que o arroz ficava pronto, notei que a Catarina passou de um "anda lá, Varela" para um "Foda-se, Varela" que escalou depois para "NEM UM CRUZAMENTO, SEU MONTE DE MERDA?", o que significava não só que o arroz estava no ponto, mas, também, que havia esperança e que, a não ser que tivesse mandado mesmo a casa do Porto em Lisboa para o inferno que merece qualquer pessoa que já lá tenha entrado, não valia a pena ter-me explodido contra a bomba de gasolina.
Na segunda parte sentei-me, a fingir que estava no twitter. No 1-1, com falta do Mangala (vejam a falta marcada ao Cardozo naquele que seria o 3-2 contra o Braga na primeira jornada e comparem), pensei: "já fomos". E lancei o contra-feitiço: "Dão 4 ou 5". E a Catarina, tansa, "Ya...." (a olhar desconfiada). Depois há penalty e a bomba de gasolina estava ali mesmo e eu, burro, não me tinha explodido e limpo a casa do Porto em Lisboa, mas o Jackson chuta por cima e há vida. E depois o jogo continua e aquela merda nunca mais acaba e os gajos estão sempre a cair na área e aos berros, e o tempo é tão, mas tão, mas tão lento. Um escândalo.

Nisto há um lance de perigo, Jackson remata, Bracalli defende, Danilo remata outra vez, Bracalli defende outra vez. E nisto, a Catarina, a Catarina do "Tu sofres demais, Manel, há limites", diz com voz baixa, solene, como quem promete: "Danilo: eu só quero que tu morras" em voz de filme de terror. Ao guarda redes do Olhanense foram prometidas coisas como "filhos a boiar no Douro". Enfim, tudo coisas razoáveis, de quem sabe, ao contrário de mim, ver bola.

Mesmo no fim, em mais um lance daquele jogo interminável (eu bem sei que o fuso horário no Porto é diferente, 15 minutos a mais, acho eu, mas não é preciso exagerar), a Catarina acaba deitada no chão e dá - leiam bem - uma cabeçada no chão e solta um "eu não acredito nesta merda". 
Lá pelas 22h, recuperei a vontade de viver. O amor da minha estava estendido no chão como se tivesse morrido alguém e eu sorria.

Foi mais um domingo cá em casa. Espero que isto vos explique, melhor ou pior, que, apesar da tolerância, cá em casa não vai haver beijinhos para a fotografia, cada um com o seu cachecol. Há ameaças de morte, um ou outro palavrão e, sobretudo, limites.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Regresso aos mercados

Estou convencida que o mercado de Inverno é apenas um teste do universo aos nossos fracos corações de adepto. De outra forma, não compreendo esta mania de, durante 31 dias, tornar possível que um craque da nossa equipa se vá embora a qualquer momento. Felizmente falamos do FCPorto, que nos habituou a não vender peças importantes do puzzle nesta altura e a aproveitar o mês de Janeiro para arrumar a casa.

No último mês, o FCPorto reforçou a minha convicção, apenas abalada por uma ou outra demonstração do poderio atacante do nosso rival: somos a melhor equipa. E andamos a jogar muito, mesmo! Tenho dado por mim a ir a todos os jogos, a voltar a fazer sacrifícios e loucuras só para os poder ver ali, no relvado, a mostrar coisas tão bonitas. O capitão do vitória (homem e clube perfeitamente insuspeitos) chama-nos o barça da Liga portuguesa. Eu não concordo, porque pelo barça eu não arriscava ir a guimarães dar 4 e ainda esperar sobreviver.

Estou apaixonada pelo nosso estilo de jogo e devo-o, claro, a Vítor Pereira. Não sei se isto é para continuar, tenho dúvidas que possa ser sempre tão perfeito e sei, de certeza, que a qualidade não ganha todos os jogos. Mas, para já, gosto de chegar a casa, sentar-me no sofá, colocar os pés em cima de alguma coisa, à lorde, esticar os braços por trás da cabeça e pensar: “Tenho um orgulho do caraças em ser portista”.

O plantel, já sabemos, é curto. Estamos sem James (que vinha a ser nada mais, nada menos, do que o melhor jogador da Liga) e olhar para o nosso banco faz tornar-me crente, rezando a todos os santos para que não seja preciso jogar ninguém. Mas, felizmente, continuamos a falar do FCPorto, que foi buscar dois reforços escolhidos a dedo.

Precisávamos de um ala/médio e de um avançado. Izmaylov e Liedson. Dirão alguns que estão velhos e cansados e lesionados e não sei o quê. Dirão outros que era preferível ir buscar dois jovens, que ganhassem menos, que pudessem crescer e ser vendidos depois. Bem, num mundo ideal, claro que iríamos buscar um James Rodriguez para cada posição. No entanto, estamos a meio da época e é preciso ser rápido, preciso e eficaz. E estou convencida que Izmaylov e Liedson são isso e apenas isso: duas garantias de qualidade para ajudar no que falta do campeonato.

Se me custa vê-los de azul? Na verdade, não me custa ver ninguém de azul, a não ser o Kléber e o Iturbe (paz às suas almas). O ex-Izmailov fez-nos mal quando estava de verde, mas nem sequer aprendeu a falar português para me chatear o suficiente. Já o outro, o ex-grande-palhaço-que-se-estava-sempre-a-atirar-para-o-chão-e-que-não-passava-de-uma-grande-merda, bem, a seguir ao Moutinho eu já estou como os lagartos: aguento tudo.

No meio disto, o FCPorto despachou três grandes inconvenientes: Rolando, Kléber e Iturbe (e nenhum deles para fazer trabalhos forçados na Sibéria, como seria normal). Quanto a Rolando, e porque a minha memória vai além de uma ou outra palhaçada, quero agradecer-lhe o que fez pela nossa equipa e avisá-lo que, se achou que aqui foi maltratado e pressionado, em Nápoles eles não são propriamente conhecidos por serem compreensivos e fofinhos.

Já Kléber e Iturbe são outra história. Não suporto meninos com a mania que são superiores ao FCPorto, quando na verdade (e pelo menos para já) não são NADA. Juro que dei o desconto ao primeiro, que me tentei sempre recordar como no marítimo me parecia um bom jogador e que tentei sempre ouvir aqueles que me diziam que ele se aplicava muito nos treinos e que nos jogos é que não se percebia o que se passava com ele. Kléber, quanto a paciência contigo e esperança que um dia te tornes num avançado decente, aliás, que te tornes em algo parecido com um jogador de futebol sequer, é como diz o outro: FUI! Do segundo já falei que chegue e até acho que pode vir a ter sucesso num continente qualquer, desde que seja longínquo.

Feitas as contas, saímos a ganhar do mercado de Inverno. O ano passado fomos buscar Janko e Lucho, fundamentais para a conquista do título. Espero poder dizer o mesmo de Izmaylov e Liedon daqui a uns meses. Se não disser, espero que seja porque este campeonato foi conquistado apenas à custa de uma equipa que joga muito à bola. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Carta ao nosso mister

Caro Jorge Jesus,

Venho por este meio dedicar-lhe algumas linhas, agora que sabemos que lê os blogs. Se realmente o  faz é porque é um homem inteligente. Perceber o que sentem os adeptos é muito saudável, mesmo que seja pela via tecnológica. Num futebol cada vez mais longe de quem verdadeiramente sente os clubes, se for verdade que vem saber o que nos abala os corações, ficamos contentes.

Estamos em primeiro empatados com o Porto e o mérito é muito seu, verdade seja dita. Com qualquer treinador menos apto, há muito que estaríamos a 10 ou mais pontos do Porto, já perdidos em guerras internas. Inventou bem Enzo Peréz a médio centro (não me agrada, mas é o que há), não deixou cair Ola John e fez de Matic um médio centro imperial, senhor do jogo, quando nos parecia um matulão louro meio copinho de leite. O mérito é seu. Mais: em Braga jogou, finalmente, com 3 médios centro, com Enzo a 8 e Gaitan a 10 e desbaratou a defesa bracarense, conseguindo, finalmente, ter algum controlo (pelo menos na primeira parte) num jogo difícil. Nota-se que o senhor aprendeu, que estudou. Reparou como fomos mais ofensivos com 3 médios e 1 avançado do que com 2 avançados lá à frente, sem a bola lhes conseguir chegar? É disso que falamos nos blogs e no Estádio da Luz.
Nota-se a diferença no discurso, que já não é tão fanfarrão e agradecemos isso. Notou-se algum assumir que é da casa, quando pediu a final no Jamor, coisa que nunca poderia fazer se treinasse o Porto. E, como é público que é dos listados horizontais, agradecemos esses pequenos gestos.

Eu não sou treinador de futebol e é vaidade minha isto de achar que me vai ler, mas se realmente lê os blogs, talvez encontre estes meus humildes conselhos. Em primeiro lugar, peço-lhe que pense quase exclusivamente no campeonato. As 14 vitórias em 17 jogos, o bom futebol, tudo isso se esquece se ficarmos em segundo. Interessa ser campeão e mais nada. Não queremos saber da Liga Europa, não queremos saber da Taça da Liga. A Taça de Portugal é, praticamente, uma obrigação e pouco chocará com as contas finais do campeonato. Mas os outros troféus podem ser uma maçada que nos distrairá do essencial. Lesões, cansaço, enfim, essas coisas. Abdique, sem vergonhas. O 11 titular é para o campeonato. Com o Leverkusen podíamos jogar com Artur (ou mesmo Paulo Lopes), Cancelo, Jardel, Miguel Vítor, Luisinho; André Almeida, André Gomes, Aimar; Urreta, Ola John e Rodrigo. Eu sei, eu sei, "olha-me para este que chega aqui, escreve no blog e já quer ditar o 11". É uma sugestão. O que lhe quero dizer, mister Jesus, é que poupe os melhores para o campeonato.

É que o campeonato está como a liga escocesa antigamente, em que o Celtic e o Rangers ficavam centenas de pontos à frente. Num campeonato assim, qualquer empate é um desastre. E com os 8 (oito!) jogos que significariam uma grande campanha na Liga Europa, seria praticamente inevitável que esses malfadados tropeços chegassem (lembra-se como chegámos o ano passado a Alvalade? De gatas.). E agora, sem Nolito e Bruno César (sim, eu sei que a culpa não é sua), torna-se tudo mais difícil e delicado de gerir. Antecipando que os azuis passam o Málaga e que a cabeça dos jogadores deles se desviará inevitavelmente para uma grande Champions (os jogadores sabem que é ali que se vendem), será nessa fase em que eles - provavelmente - poderão tropeçar. E eles não podem - é a Champions - meter os suplentes na Europa, percebe? Isso dá-nos uma vantagem. Faça-o. Descanse os nossos para o que interessa. 

Sinto a equipa cansada - e o mister referiu isso ontem. Eu sei que a nossa principal qualidade, especialmente neste campeonato, é a maneira como partimos os adversários com tanta gente na frente, com aquele frenesim todo. Mas era bom que a equipa estivesse mais trabalhada para a posse de bola. Não que seja esse o modelo, mas que usasse isso para descansar mais, para não se rasgar e para não correr tantos riscos. Somos muito verticais, percebe, mister? Eu sei que me percebe. Pense nisso, a sério. 

Mais uma coisa: quando jogamos com o Lima e o Rodrigo na frente, ponha o Rodrigo mais adiantado e o Lima mais atrás. O Rodrigo recebe e distribui mal naquela posição. Quando recebe a bola fica sempre longe do pé e normalmente nunca percebe se o extremo quer a bola no espaço ou no pé. O Lima é muito melhor nisso e o Rodrigo é muito melhor nas diagonais a rasgar a defesa, que serão mais frequentes se ele estiver mais adiantado.

Pronto, já o macei muito, deve ter outros blogs para ler e equipas adversárias para estudar. Um dia falamos sobre a sua renovação. Muito obrigado por passar por cá. Qualquer coisa, deixe um comentário. 

Um abraço, Manel