Podia fazer aqui um desabafo sentimental, apelar à união da
equipa, desancar o lateral-direito que não corre e pedir-lhes, mais uma vez,
que sejam campeões por nós. Mas, confesso, estou farta disso. Já não posso
ouvir o “Somos Porto” e aquele discurso do “temos de acreditar até ao fim”
porque “é nos momentos maus que se vêem os verdadeiros portistas”. Porra, que
Somos Porto já toda a gente sabe. Ninguém se esquece do que é ser Porto só
porque fomos eliminados da Liga dos Campeões e comprometemos o campeonato. Sim,
sim, porque o Porto é o único clube que nas alturas más sabe unir-se e lutar
contra as adversidades como ninguém, claro que sim. E claro que vamos acreditar
sempre, até os lagartos ainda acreditam na Europa! Os verdadeiros portistas não
precisam destas lições de moral, precisam é de gajos a correr no relvado com
pelo menos metade da nossa dedicação.
Estamos em desvantagem e temos muito pouco tempo para
recuperar. Jogamos mal, temos muitos jogadores cansados e lesionados e parece
que aquele brilhante jogo em Guimarães foi há mil anos. Compreendo que andemos
a carpir mágoas e que corram para o aeroporto para os pressionar, mas não
aceito que se esqueçam outros factores que tanta influência têm tido no
campeonato.
O F. C. Porto cresceu tanto nos últimos 30 anos que um
adepto que acabe o jogo em Málaga a insultar o árbitro parece um maluquinho.
Somos tão superiores, tão exigentes, que nos esquecemos da matreirice que é
preciso ter em certas alturas. Como é possível que, perante os primeiros
minutos e a distribuição de cartões amarelos pela nossa equipa, os jogadores do
Porto não tenham rodeado o árbitro em cada entrada dura dos outros (e foram
tantas, meu deus!)? Onde é que anda o capitão quando o Jackson é varrido por
trás e é preciso lembrar o árbitro que, se expulsou o Defour, não pode ter
contemplações com um tal de Iturra, que conseguiu acabar a partida sem um
amarelo sequer? Terei sido a única a desejar que o Porto entrasse naquela onda
e até que os jogadores caíssem mais, não só para exigir amarelos, mas também
para perder tempo, porque a eliminatória estava do nosso lado? Isto não é ser
Porto, claro que não, nós queremos é a equipa a jogar bem e a passar ao lado de
tudo o que é feio. Pois eu queria era ter passado.
Não consigo precisar como nem quando, mas tornámo-nos o bom
aluno. Vamos a todas as aulas, sentamo-nos na fila da frente e não falamos com
ninguém para não aborrecer o professor. Portamo-nos muito bem e nem sequer nos
divertimos, porque a escola é o nosso dever e nada mais do que isso. Durante
algum tempo, achámos que isso seria suficiente para passar. E foi, e até pode
continuar a ser se voltarmos a estudar para ter boas notas, mas até os melhores
alunos do mundo têm dificuldades em alguma matéria. E é agora, é aqui, está na
hora de acordar e assumir que não estamos a conseguir ser melhores do que o mau
aluno da Amadora, que passa as aulas a mascar chiclete tão alto que não se ouve
o professor, que nos atira papéis à cabeça para nos distrair do essencial e que
copia nos testes para conseguir passar. Estou farta, não aguento mais calar-me
e aceitar isto.
Na primeira volta, o F. C. Porto empatou três vezes. Com o
gil vicente, na primeira jornada, em que o árbitro Duarte Gomes se esqueceu de
marcar um penalty sobre o Kléber. Logo na quinta jornada, o árbitro Bruno
Esteves copiou a ideia e esqueceu-se também de marcar um penalty sobre o
Kléber, terminando o jogo com o rio ave empatado a 2. E na jornada 14, com o
benfica na luz, o mesmo resultado e a dupla pode-ser-o-João e Godinho a
inventar três foras-de-jogo, dois dos quais com jogadores isolados, e a não
expulsar dois rapazitos de camisola vermelha.
Seis pontos perdidos em 15 jornadas não parecem nada e a
equipa continuou a ir às aulas, a sentar-se na fila da frente e a não falar com
ninguém para não aborrecer o professor. Até arrancou para um mês fantástico,
ofereceu goleadas fáceis, jogou como poucas vezes terei visto uma equipa do
Porto jogar e tudo parecia encaminhado para continuarmos a portar-nos bem, mas sem
nos divertirmos muito, porque ganhar é o nosso dever e nada mais do que isso.
O empate com o olhanense, aliás, só ajudou a fortalecer a
teoria do bom aluno. Após um empate do rival, o F. C. Porto perdeu dois pontos
por culpa própria, com um penalty falhado que, juntamente com o de domingo,
poderão vir a ser decisivos no fim do campeonato. Portanto, os adeptos
começaram a desconfiar. Será que, apesar de se portar bem, o Porto não está
assim tão forte? Será que, com a lesão de Moutinho, não conseguimos ter boas
notas? Três vitórias seguras no campeonato (beira mar, rio ave e estoril) e uma
grande exibição com o Málaga em casa adormeceram as nossas preocupações. É
preciso ter calma porque basta ao Porto estudar um bocadinho e isto melhora. Mas,
porra, alguém duvida que o jogo em alvalade era para ganhar? Se aquilo não foi
uma enorme negativa num teste, então não percebo nada disto.
E, enquanto o bom aluno se preocupava apenas consigo, o mau
aluno foi passando. Sem uma ideia, sem sequer estar no seu melhor, a ser
assobiado por adeptos que aplaudiram quando o Porto foi campeão na luz. O mau
aluno não tem perdoado, nem que para isso, como no teste contra a académica, tenha
de ter copiado aquele penalty que tanto jeito deu no último minuto.
E nós calados. Calados, mesmo quando o golo do marítimo é
marcado após um fora-de-jogo que se esqueceram de assinalar.
Caladinhos, mesmo quando, aos 91 minutos, há uma mão na
grande área do marítimo e a Sporttv nem repetição mostrou (obrigada a quem mostrou o lance claríssimo). E distraídos no mesmo dia por um 0-4, com dois golos em fora-de-jogo e mais umas histórias para contar, entre elas a do Cardozo, o homem que puxa árbitros. É que eu um dia vi o Costinha a ser castigado por ter celebrado em Guimarães agarrado às suas partes íntimas. Provocação aos adeptos, foi assim que lhe chamaram. Coisa que o Cardozo certamente não fez.
Enfim, claro que eu também estou furiosa com o Porto por não
querer ganhar isto. Claro que também eu os insulto e critico por não estarem à
altura do nosso clube. Claro que não estaria a escrever isto se o Jackson
tivesse marcado aqueles dois penalties. Claro que a equipa precisa de estudar
para tirar boas notas. Agora não me peçam é para continuar a ouvir o outro
mascar chicletes e a levar com papéis na cabeça sem dizer nada.



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