Zangado, frustrado e triste, presumo. Não estás a habituado
a estar em segundo lugar, ainda que isso seja o resultado de dois penaltis
falhados, arbitragens duvidosas e de um adversário que, convém ter noção disso,
está a perder ainda menos pontos do que a tua equipa invencível.
Não vou, por isso, censurar-te pelos assobios que ouvi no
Dragão na segunda-feira. Não me pareceram constantes, nem sequer suficientes
para colocar em causa o apoio dado, e houve até uma altura em que um coro mais
uníssono me pareceu útil para nos acordar a todos, dentro e fora do relvado. És
muito exigente, portista, eu sei disso, pelo que também eu não percebi por que
razão amuaram os jogadores, se por tantas outras vezes tu foste tão injusto e
eles nem se incomodaram.
Eles, que tantas vezes não te agradecem quando fazes sacrifícios
para os seguires, como se levantar as mãos no fim de um jogo para a tua bancada
fosse equiparável ao que tu pagas em bilhetes, gasolina e portagens, aos
aniversários e festas de amigos e familiares que tu perdes e às horas de
trabalho que tens de compensar para o fazer.
Não é agora, portista, que tu vais mudar. Pelo contrário: é agora, na iminência de um
título do rival, que vais tornar-te mais insuportável. Vais querer perder
pontos para dizeres lá no café que tens razão e que o treinador é mau. Vais assobiar
aquela substituição do capitão por um puto de crista que tem a mania que é o
Neymar. Vais fazer do Dragão um inferno para os vermelhos do sul, mas vais
continuar a ser um mimo para quaisquer vermelhos do norte que por aqui apareçam.
E porquê, portista? Por que razão és este adepto? Como é
que transformaste o Tribunal das Antas nesta Feira do Dragão? Como é possível
que, aos 44 minutos de um jogo com o braga que tens mesmo de vencer, haja um
livre perigoso para a tua equipa e tu te levantes da cadeira para ir à
casa-de-banho ou comprar pipocas antes dos outros? O intervalo chama-se assim
porque é isso mesmo: um intervalo naquilo que interessa. Nem um minuto antes,
nem um minuto depois deve ser desperdiçado. Aqueles jogadores que tu assobias têm
de aguentar o xixi e não podem ir para a fila da Coca-Cola, já reparaste? Se
eles, que não são do F.C. Porto como tu, não podem perder um segundo daquilo,
como é que tu achas que tens esse direito?
A que propósito é que até em Málaga, quando um golo dos teus
rapazes bastaria para passar a eliminatória, decidiste sair mais cedo da
bancada para não ficares retido? Viste ontem aquele jogaço em Dortmund? Sabes o
que tinha acontecido no Dragão se o Eliseu tivesse marcado aos 85 minutos? Tu
tinhas saído. Não aguentavas. Tinhas mais que fazer. No dia seguinte
trabalhavas e ainda nem sequer tinhas jantado. Que vida horrível terias tu se
fosses obrigado a ver aquilo até ao fim, não era? Tu podes decidir e decidias
sair mais cedo porque a equipa estava a ser dominada, o treinador não era o que
tu querias e tu não tinhas de ficar para ver aquela humilhação. Oh, que
chatice, mas a tua equipa dava a volta nos descontos e tu não vias. Deixa lá,
qual é o mal, quando a taça fosse tua ias para os Aliados gritar aos microfones
das televisões que estiveste sempre lá, que sempre acreditaste, que sempre
soubeste que ias ganhar, mesmo quando estavas a perder a cinco minutos do fim.
Pois é, portista, tu hoje és assim e nem notas. Faz hoje 10
anos que ganhaste à Lazio nas Antas, lembras-te? Chegaste ao estádio e havia um
lençol gigante a pedir para te deixarem sonhar, porque estavas nas meias-finais
da Taça UEFA e acreditavas que podias ir mais longe. Chovia imenso e eles
marcaram primeiro. Mas tu nem por um momento duvidaste da tua equipa. Sentias,
sabias, que aquela era a tua noite. E foi. Foi dos melhores jogos de sempre do
F.C. Porto, uma reviravolta histórica que marcou um percurso maravilhoso pela
Europa. Depois disso, estiveste em Sevilha e em Gelsenkirchen, repetiste o
Mónaco, regressaste a Tóquio, visitaste Dublin e, nos intervalos disso, ganhaste
tanta, tanta coisa.
Fogo, portista, tens uma sorte do caraças. Já imaginaste
como seria a tua vida se fosses de outro clube? Se no dia 3 de Abril de 2010 tivesses
batido palmas aos teus jogadores quando o rival foi campeão em tua casa? Se
tivesses ido votar no Bruno de Carvalho na esperança de garantir a manutenção?
Se achasses que eras grande só porque jogas bem durante uns anos mas não ganhas
nada (pausa na narrativa para declarar ódio ao Peseiro, que tanto ataca e tanto
quer jogar bonito, mas foi jogar ao Dragão sem ponta-de-lança e como uma equipa
muito pequenina)? Coitados deles, não é?
O teu problema, portista, é ao mesmo tempo o teu grande
orgulho: não sabes perder. Não percebes que a equipa esteja empatada mas
mantenha a calma, porque os jogadores sabem que só com paciência chegam lá. Mas
se tu estás tão nervoso como é que eles não passam os últimos 20 minutos só a
chutar para a frente? Era o que tu farias, não era? Corrias imenso, suavas a
camisola que tanto amas, comias a relva se fosse preciso. Podias não ter ganho,
como eles ganharam, mas deixavas lá tudo. Mas podias não ter ganho, nota isso.
Não sabes, nem queres, aprender que as derrotas tornam as
vitórias mais saborosas. Olha os outros, coitados, que andam há dois anos a ser
humilhados das mais variadas maneiras e mesmo assim andam tão contentes. E
aqueles, que festejam uma vitória em casa contra o moreirense treinado pelo
amigo como se fosse o fim do mundo. Que pobres, que tristes. Mas se os outros
forem campeões este ano vão festejar durante meses e vão fazer deste título uma
garrafa de oxigénio capaz de aguentar mais uns tantos anos sem ganhar. E se os
outros, imagina que isso acontece e até o vais festejar, forem sacar pontos à
luz na próxima semana, esquecerão rapidamente uma das mais vergonhosas épocas
da história de um grande.
Mas juro que não quero que percas para eu poder dizer que tenho
razão. Acredito que ainda é possível que isto se componha nas próximas semanas
e que no fim acabemos abraçados, a rir-nos daquele dia em que tu assobiaste os futuros tricampeões.
Espero sinceramente que tudo corra bem e que tu continues assim,
habituado a ganhar sempre, sem paciência para as circunstâncias e os obstáculos
do jogo. Não te quero conformado, nunca, porque no dia em que isso acontecer
será sinal que o teu clube mudou.
Vamos a eles, portista, ainda há cinco jogos para mostrares
o que vales.




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