domingo, 28 de abril de 2013

Benfiquista de Faro

No infantário e na primária eu tinha que me defender do J. e do T., dizendo-lhes que, apesar de viver em Faro, eu tinha nascido em Lisboa, e que portanto podia ser do Benfica à vontade. O J. simpatiza com os lagartos, mas é do Farense. O T., companheiro de carteira, é do Benfica, mas só muito depois de ser do Farense. Nenhum hesitava quando o seu “2º clube” ia lá jogar : eram farenses, eram do Farense.
Serve isto para mostrar, como diz o hino, “do que a gente de Faro é capaz”: era-me permitido ser do Benfica, não por o Benfica ser o Benfica, mas porque eu tinha nascido em Lisboa (mesmo que, aos 4 anos, Lisboa representasse para mim a casa dos meus avós – que era em Oeiras – e o Jardim Zoológico, que eu tinha visitado uma vez). 

Com os anos comecei, também, a ir ao São Luís e torcia pelo Farense contra todos – com especial fervor contra Porto e Sporting – menos, claro, contra o meu Benfica. Cresci com o Hajry, Serôdio, Mané, Pitico, Rufai, Hassan, Hugo e, claro, Paco Fortes. Não gostava do verde alternativo, mas simpatizava com o ambiente, com as tardes de sol, e com o facto de quase ninguém lá ganhar.
Lembro-me dos Farenses – Porto de 92/93 e 93/94, 1-0, com golos de Hugo e Stefanovic, respectivamente. No primeiro, não fossem Dino e os irmãos Calheiros, tinha sido a oferta de um campeonato para o Benfica, e o segundo, de noite, custou o cargo a Ivic. Era-me, portanto, difícil não simpatizar com o clube. Apesar de também o Benfica passar mal no S. Luís (eu estava lá, quando levámos 4-1), o clube tinha uma identidade, um fervor ao qual era impossível ser indiferente. O Farense era o único clube que tinha um treinador há não sei quanto tempo e as tardes de última jornada, com o estádio cheio e a precisar de uma vitória para não descer davam-lhe uma aura que os diferenciava da restante classe média-baixa do futebol português.



Quando vim para Lisboa abateu-se a desgraça sobre o Farense. De clube praticamente invencível em casa, passou às distritais, a ser forçado a jogar com os juniores porque não podia inscrever os seniores. Como Salgueiros, Boavista e Estrela da Amadora, o Farense parecia condenado. Hoje provou-o que não.
Hoje regressei ao S. Luís e tive pena que o T., cuja crise o obrigou a emigrar para longe, não pudesse ver o estádio onde tantas e tantas tardes passámos juntos à pinha, novamente local de romaria de uma terra. Um estádio com camisolas de muitas épocas, onde várias gerações (como a minha) foram recordar os tempos do S. Luís cheio, impossível para os adversários, como na vitória por 4-0 ao Marítimo em 95, que acabou com o estádio a cantar o “bailinho da Madeira”. 

Foi uma tarde à antiga, num estádio onde se pode beber cerveja, onde há tochas, fumos e bandeiras. Onde os miúdos invadem o campo para jogar à bola no intervalo. Isto, obviamente, é a minha visão de Benfiquista, que foi passar uma tarde porreira, antes de se enervar de morte com o jogo na Madeira amanhã. Mas foi uma tarde para recuperar outras memórias (”o futebol é o nosso regresso semanal à infância”) e para me lembrar de que, além do Benfica, gosto do jogo. Das suas gentes, dos seus surrealismos, dos rituais.


O Farense ganhou num jogo com duas bolas ao poste, com 3 golos anulados por fora de jogo (no terceiro um adepto despejou uma cerveja para cima do fiscal de linha. Imperdível.) e com um penalty sacado pelo estádio. A invasão de campo final, com o mítico hino do Farense a passar nos megafones envelhecidos, foi o corolário de anos de sofrimento. A vitória do Farense fez-me sorrir, mas deve ter feito chorar todos os que sofreram a bom sofrer todos estes anos.
O J., percebo pelo facebook, estava lá. O T., no Brasil, deve ter recebido mensagens de loucura. Vou dar-lhes agora os parabéns. Estes anos todos, talvez já não pegue a desculpa de ser do Benfica por ter nascido em Lisboa. Mas acho que, passado tanto tempo, e com a felicidade da subida, nenhum dos dois me vai chatear com isso hoje.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Para ti, lagarto do pano

Quando, numa noite de Dezembro (Dezembro?) de 2001, no velhinho estádio da Luz, Mário Jardel se deixou cair, sacando um penalty decisivo no caminho do título do Sporting (ganhando esse derby, o Benfica passaria para primeiro lugar), eu estava lá. Foi um jogo mágico, onde Beto defendeu um remate em cima da linha e viu amarelo, JVP agrediu um jogador do Benfica e manteve-se em campo, enfim, foi uma coisa maravilhosa. A verdade é que o Sporting tinha melhor equipa: JVP, Jardel, André Cruz, Paulo Bento, Viana, etc, enquanto nós acreditávamos no Mantorras.

Foram tempos duros, em que fui gozado que nem um cão. Que nem um cão. Ir para o liceu era um inferno, ver jogar o Benfica era um pesadelo, aturá-los era horrível. Para cúmulo, o Benfica ganhou 2-1 ao Boavista (num jogo péssimo, péssimo) e eles foram campeões. Quando cheguei ao liceu no dia seguinte, depois de dormir a ouvir buzinas lá fora, estava um pano colado no portão "OBRIGADO, 4º CLASSIFICADO". 
Foda-se, aquele pano magoou-me. Eu admito a fraqueza, aquilo chateou-me. Um tipo supera e ignora várias provocações, tenta até ser um vencido digno e de cabeça levantada, capaz de manter diálogo com amigos do inimigo, mas há limites. Claro que se comentou rapidamente no liceu quem tinha sido o artista. Era primo de uma amiga minha e andava a passear aquela camisola (horrorosa, uma coisa impressionante) com um sorriso que hoje, na minha memória, ficaria melhor num cavalo. Chateou todos os Benfiquistas que encontrou enquanto eu - que ele não conhecia - lhe dirigia insultos sentado a um canto do pátio de liceu, a fazer contas aos reforços que compraríamos com os 18 milhões de contos que íamos receber pelo Mantorras.

Eram, como vos digo, tempos duros. Serve isto para lembrar que está no ADN de um Benfiquista gozar o Sporting. Isto é uma coisa que os adeptos do Porto não percebem, mas há coisas que são genéticas, que estão enraizadas e que estão demasiado vincadas. Há uma história entre Benfica e Sporting, houve jogadores que foram roubados quando o Benfica nasce e, para a minha geração, houve o Verão de 1993, em que nos foi roubado Pacheco e o boi de Repeses (um rapaz que jogava a trinco e que quando chegou à Luz nem sabia o que eram talheres). 
Faz-me, então, confusão, que alguém tenha "pena" do Sporting. Que alguém diga que "faz falta um Sporting mais forte" e coisas dessas. Que é preciso distanciar o Sporting do Porto para fortalecer a posição estratégica do Benfica no futebol português, concordamos. Mas querer bem ao Sporting? Não me lixem.

Eu tenho grandes amigos do Sporting, pessoas de quem eu gosto e que admiro, que são sportinguistas doentes (com o desplante de acharem MESMO que ser do Sporting é bom), mas a quem desejo todas as maldades possíveis desportivamente. Agora, desejar-lhes bem? Não aproveitar para os pisar? Não gozar estar 37 pontos à frente? Não amar ver o Eduardo Barroso a estrabuchar? 
Eu, sempre que vejo um Rojo com a bola e sou assumado por um pingo de nostalgia futebolística e penso "Epá, eu já vi ali o Balakov" e até me lembro do antigo estádio de Alvalade, recordo-me daquela manhã de liceu, daquele gajo com ar de gozo, a chatear malta do Benfica. Lembro-me do inferno que era vê-los todos contentes na rua. Recordo-me também desse Verão de 1993, em que me senti adulto pela primeira vez, quando fiz, com o meu amigo T., um plano de meio campo para a época seguinte, sentados no chão cor de tijolo, à sombra, desprezando a futebolada ao sol que se jogava no infantário. Mas lembro-me, sobretudo, daquele pano. 

É por isso que desde que ganhámos ontem que me sinto maravilhosamente bem. Acordo bem disposto, o café da manhã sabe melhor, trocam-se olhares cúmplices com correlegionários pela rua. Leio os jornais, as crónicas, a imprensa nacional e internacional. Fico bem disposto. 
E lembro-me sempre daquela manhã de liceu, em que a minha adolescência ficou manchada e interrogo-me onde andará aquele lagarto. Deve andar pior que fodido. Imagino-lhe a dor, imagino-lhe a raiva e as fases todas do luto. E imagino-o a recordar-se daquela manhã de liceu, em que se sentiu o maior. E venho dizer-lhe, do alto dos meus 37 pontos de avanço, mais 41 golos marcados e menos 18 golos sofridos, que quem se ri agora é aquele puto sentado no canto do liceu e que há muito que as nossas vitórias já queimaram esse pano.

Agora, calma e concentração, que ainda falta muito.

PS: Desculpem a demora (estivemos sem computador uns tempos e dá azar escrever na semana prévia ao derby)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Aos portistas

Olá portista, como estás?

Zangado, frustrado e triste, presumo. Não estás a habituado a estar em segundo lugar, ainda que isso seja o resultado de dois penaltis falhados, arbitragens duvidosas e de um adversário que, convém ter noção disso, está a perder ainda menos pontos do que a tua equipa invencível.

Não vou, por isso, censurar-te pelos assobios que ouvi no Dragão na segunda-feira. Não me pareceram constantes, nem sequer suficientes para colocar em causa o apoio dado, e houve até uma altura em que um coro mais uníssono me pareceu útil para nos acordar a todos, dentro e fora do relvado. És muito exigente, portista, eu sei disso, pelo que também eu não percebi por que razão amuaram os jogadores, se por tantas outras vezes tu foste tão injusto e eles nem se incomodaram.

Eles, que tantas vezes não te agradecem quando fazes sacrifícios para os seguires, como se levantar as mãos no fim de um jogo para a tua bancada fosse equiparável ao que tu pagas em bilhetes, gasolina e portagens, aos aniversários e festas de amigos e familiares que tu perdes e às horas de trabalho que tens de compensar para o fazer.

Não é agora, portista, que tu vais mudar.  Pelo contrário: é agora, na iminência de um título do rival, que vais tornar-te mais insuportável. Vais querer perder pontos para dizeres lá no café que tens razão e que o treinador é mau. Vais assobiar aquela substituição do capitão por um puto de crista que tem a mania que é o Neymar. Vais fazer do Dragão um inferno para os vermelhos do sul, mas vais continuar a ser um mimo para quaisquer vermelhos do norte que por aqui apareçam.

E porquê, portista? Por que razão és este adepto? Como é que transformaste o Tribunal das Antas nesta Feira do Dragão? Como é possível que, aos 44 minutos de um jogo com o braga que tens mesmo de vencer, haja um livre perigoso para a tua equipa e tu te levantes da cadeira para ir à casa-de-banho ou comprar pipocas antes dos outros? O intervalo chama-se assim porque é isso mesmo: um intervalo naquilo que interessa. Nem um minuto antes, nem um minuto depois deve ser desperdiçado. Aqueles jogadores que tu assobias têm de aguentar o xixi e não podem ir para a fila da Coca-Cola, já reparaste? Se eles, que não são do F.C. Porto como tu, não podem perder um segundo daquilo, como é que tu achas que tens esse direito?

A que propósito é que até em Málaga, quando um golo dos teus rapazes bastaria para passar a eliminatória, decidiste sair mais cedo da bancada para não ficares retido? Viste ontem aquele jogaço em Dortmund? Sabes o que tinha acontecido no Dragão se o Eliseu tivesse marcado aos 85 minutos? Tu tinhas saído. Não aguentavas. Tinhas mais que fazer. No dia seguinte trabalhavas e ainda nem sequer tinhas jantado. Que vida horrível terias tu se fosses obrigado a ver aquilo até ao fim, não era? Tu podes decidir e decidias sair mais cedo porque a equipa estava a ser dominada, o treinador não era o que tu querias e tu não tinhas de ficar para ver aquela humilhação. Oh, que chatice, mas a tua equipa dava a volta nos descontos e tu não vias. Deixa lá, qual é o mal, quando a taça fosse tua ias para os Aliados gritar aos microfones das televisões que estiveste sempre lá, que sempre acreditaste, que sempre soubeste que ias ganhar, mesmo quando estavas a perder a cinco minutos do fim.

Pois é, portista, tu hoje és assim e nem notas. Faz hoje 10 anos que ganhaste à Lazio nas Antas, lembras-te? Chegaste ao estádio e havia um lençol gigante a pedir para te deixarem sonhar, porque estavas nas meias-finais da Taça UEFA e acreditavas que podias ir mais longe. Chovia imenso e eles marcaram primeiro. Mas tu nem por um momento duvidaste da tua equipa. Sentias, sabias, que aquela era a tua noite. E foi. Foi dos melhores jogos de sempre do F.C. Porto, uma reviravolta histórica que marcou um percurso maravilhoso pela Europa. Depois disso, estiveste em Sevilha e em Gelsenkirchen, repetiste o Mónaco, regressaste a Tóquio, visitaste Dublin e, nos intervalos disso, ganhaste tanta, tanta coisa.


Fogo, portista, tens uma sorte do caraças. Já imaginaste como seria a tua vida se fosses de outro clube? Se no dia 3 de Abril de 2010 tivesses batido palmas aos teus jogadores quando o rival foi campeão em tua casa? Se tivesses ido votar no Bruno de Carvalho na esperança de garantir a manutenção? Se achasses que eras grande só porque jogas bem durante uns anos mas não ganhas nada (pausa na narrativa para declarar ódio ao Peseiro, que tanto ataca e tanto quer jogar bonito, mas foi jogar ao Dragão sem ponta-de-lança e como uma equipa muito pequenina)? Coitados deles, não é?

O teu problema, portista, é ao mesmo tempo o teu grande orgulho: não sabes perder. Não percebes que a equipa esteja empatada mas mantenha a calma, porque os jogadores sabem que só com paciência chegam lá. Mas se tu estás tão nervoso como é que eles não passam os últimos 20 minutos só a chutar para a frente? Era o que tu farias, não era? Corrias imenso, suavas a camisola que tanto amas, comias a relva se fosse preciso. Podias não ter ganho, como eles ganharam, mas deixavas lá tudo. Mas podias não ter ganho, nota isso.

Não sabes, nem queres, aprender que as derrotas tornam as vitórias mais saborosas. Olha os outros, coitados, que andam há dois anos a ser humilhados das mais variadas maneiras e mesmo assim andam tão contentes. E aqueles, que festejam uma vitória em casa contra o moreirense treinado pelo amigo como se fosse o fim do mundo. Que pobres, que tristes. Mas se os outros forem campeões este ano vão festejar durante meses e vão fazer deste título uma garrafa de oxigénio capaz de aguentar mais uns tantos anos sem ganhar. E se os outros, imagina que isso acontece e até o vais festejar, forem sacar pontos à luz na próxima semana, esquecerão rapidamente uma das mais vergonhosas épocas da história de um grande.

Mas juro que não quero que percas para eu poder dizer que tenho razão. Acredito que ainda é possível que isto se componha nas próximas semanas e que no fim acabemos abraçados, a rir-nos daquele dia em que tu assobiaste os futuros tricampeões.  Espero sinceramente que tudo corra bem e que tu continues assim, habituado a ganhar sempre, sem paciência para as circunstâncias e os obstáculos do jogo. Não te quero conformado, nunca, porque no dia em que isso acontecer será sinal que o teu clube mudou.

Vamos a eles, portista, ainda há cinco jogos para mostrares o que vales.

terça-feira, 19 de março de 2013

O bom aluno

É agora. Estamos naquela altura da época em que já fizemos as asneiras todas e só nos resta aquela imensa vontade de ser campeão. É aqui. Nestes momentos em que o mundo parece que vai acabar, em que lembramos todas as contratações mal feitas ou por fazer, em que notamos todas as teimosias do treinador e da sua “ideia de jogo”, em que criticamos cada penalty falhado pelo nosso melhor marcador e grande revelação do campeonato, em que parece que nos faltam as forças perante a inércia, a apatia, a palidez de onze homens vestidos, mas pouco sentidos, de azul. Está na hora de acordar.

Podia fazer aqui um desabafo sentimental, apelar à união da equipa, desancar o lateral-direito que não corre e pedir-lhes, mais uma vez, que sejam campeões por nós. Mas, confesso, estou farta disso. Já não posso ouvir o “Somos Porto” e aquele discurso do “temos de acreditar até ao fim” porque “é nos momentos maus que se vêem os verdadeiros portistas”. Porra, que Somos Porto já toda a gente sabe. Ninguém se esquece do que é ser Porto só porque fomos eliminados da Liga dos Campeões e comprometemos o campeonato. Sim, sim, porque o Porto é o único clube que nas alturas más sabe unir-se e lutar contra as adversidades como ninguém, claro que sim. E claro que vamos acreditar sempre, até os lagartos ainda acreditam na Europa! Os verdadeiros portistas não precisam destas lições de moral, precisam é de gajos a correr no relvado com pelo menos metade da nossa dedicação.

Estamos em desvantagem e temos muito pouco tempo para recuperar. Jogamos mal, temos muitos jogadores cansados e lesionados e parece que aquele brilhante jogo em Guimarães foi há mil anos. Compreendo que andemos a carpir mágoas e que corram para o aeroporto para os pressionar, mas não aceito que se esqueçam outros factores que tanta influência têm tido no campeonato.

O F. C. Porto cresceu tanto nos últimos 30 anos que um adepto que acabe o jogo em Málaga a insultar o árbitro parece um maluquinho. Somos tão superiores, tão exigentes, que nos esquecemos da matreirice que é preciso ter em certas alturas. Como é possível que, perante os primeiros minutos e a distribuição de cartões amarelos pela nossa equipa, os jogadores do Porto não tenham rodeado o árbitro em cada entrada dura dos outros (e foram tantas, meu deus!)? Onde é que anda o capitão quando o Jackson é varrido por trás e é preciso lembrar o árbitro que, se expulsou o Defour, não pode ter contemplações com um tal de Iturra, que conseguiu acabar a partida sem um amarelo sequer? Terei sido a única a desejar que o Porto entrasse naquela onda e até que os jogadores caíssem mais, não só para exigir amarelos, mas também para perder tempo, porque a eliminatória estava do nosso lado? Isto não é ser Porto, claro que não, nós queremos é a equipa a jogar bem e a passar ao lado de tudo o que é feio. Pois eu queria era ter passado.

Não consigo precisar como nem quando, mas tornámo-nos o bom aluno. Vamos a todas as aulas, sentamo-nos na fila da frente e não falamos com ninguém para não aborrecer o professor. Portamo-nos muito bem e nem sequer nos divertimos, porque a escola é o nosso dever e nada mais do que isso. Durante algum tempo, achámos que isso seria suficiente para passar. E foi, e até pode continuar a ser se voltarmos a estudar para ter boas notas, mas até os melhores alunos do mundo têm dificuldades em alguma matéria. E é agora, é aqui, está na hora de acordar e assumir que não estamos a conseguir ser melhores do que o mau aluno da Amadora, que passa as aulas a mascar chiclete tão alto que não se ouve o professor, que nos atira papéis à cabeça para nos distrair do essencial e que copia nos testes para conseguir passar. Estou farta, não aguento mais calar-me e aceitar isto.

Na primeira volta, o F. C. Porto empatou três vezes. Com o gil vicente, na primeira jornada, em que o árbitro Duarte Gomes se esqueceu de marcar um penalty sobre o Kléber. Logo na quinta jornada, o árbitro Bruno Esteves copiou a ideia e esqueceu-se também de marcar um penalty sobre o Kléber, terminando o jogo com o rio ave empatado a 2. E na jornada 14, com o benfica na luz, o mesmo resultado e a dupla pode-ser-o-João e Godinho a inventar três foras-de-jogo, dois dos quais com jogadores isolados, e a não expulsar dois rapazitos de camisola vermelha.

Seis pontos perdidos em 15 jornadas não parecem nada e a equipa continuou a ir às aulas, a sentar-se na fila da frente e a não falar com ninguém para não aborrecer o professor. Até arrancou para um mês fantástico, ofereceu goleadas fáceis, jogou como poucas vezes terei visto uma equipa do Porto jogar e tudo parecia encaminhado para continuarmos a portar-nos bem, mas sem nos divertirmos muito, porque ganhar é o nosso dever e nada mais do que isso.

O empate com o olhanense, aliás, só ajudou a fortalecer a teoria do bom aluno. Após um empate do rival, o F. C. Porto perdeu dois pontos por culpa própria, com um penalty falhado que, juntamente com o de domingo, poderão vir a ser decisivos no fim do campeonato. Portanto, os adeptos começaram a desconfiar. Será que, apesar de se portar bem, o Porto não está assim tão forte? Será que, com a lesão de Moutinho, não conseguimos ter boas notas? Três vitórias seguras no campeonato (beira mar, rio ave e estoril) e uma grande exibição com o Málaga em casa adormeceram as nossas preocupações. É preciso ter calma porque basta ao Porto estudar um bocadinho e isto melhora. Mas, porra, alguém duvida que o jogo em alvalade era para ganhar? Se aquilo não foi uma enorme negativa num teste, então não percebo nada disto.

E, enquanto o bom aluno se preocupava apenas consigo, o mau aluno foi passando. Sem uma ideia, sem sequer estar no seu melhor, a ser assobiado por adeptos que aplaudiram quando o Porto foi campeão na luz. O mau aluno não tem perdoado, nem que para isso, como no teste contra a académica, tenha de ter copiado aquele penalty que tanto jeito deu no último minuto.


E nós calados. Calados, mesmo quando o golo do marítimo é marcado após um fora-de-jogo que se esqueceram de assinalar.


Caladinhos, mesmo quando, aos 91 minutos, há uma mão na grande área do marítimo e a Sporttv nem repetição mostrou (obrigada a quem mostrou o lance claríssimo). E distraídos no mesmo dia por um 0-4, com dois golos em fora-de-jogo e mais umas histórias para contar, entre elas a do Cardozo, o homem que puxa árbitros. É que eu um dia vi o Costinha a ser castigado por ter celebrado em Guimarães agarrado às suas partes íntimas. Provocação aos adeptos, foi assim que lhe chamaram. Coisa que o Cardozo certamente não fez.

Enfim, claro que eu também estou furiosa com o Porto por não querer ganhar isto. Claro que também eu os insulto e critico por não estarem à altura do nosso clube. Claro que não estaria a escrever isto se o Jackson tivesse marcado aqueles dois penalties. Claro que a equipa precisa de estudar para tirar boas notas. Agora não me peçam é para continuar a ouvir o outro mascar chicletes e a levar com papéis na cabeça sem dizer nada.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Ida à Lua

Há muita gente que me diz que lê este blog mas nem gosta de futebol, nem liga muito ao clube ou até gosta de uma equipa mas sem as loucuras que nós aqui escrevemos. E é para vocês que eu vou escrever hoje.

Vocês, os que me vêem chegar depois de um mau resultado do Porto e até o lamentam só por mim, pelo meu ar triste e desinteressado da vida, mas que na realidade não percebem como é que eu me posso deixar abater assim.

Vocês, os que antes de um jogo do Porto me perguntam quanto acho que vai ficar com uma ligeireza de quem só pensou naquilo quando me viu passar e não compreende que a minha resposta já conta com muitas horas, muitos dias a pensar naquilo.

Vocês, os meus amigos, colegas, conhecidos ou desconhecidos, que se preocupam com a minha sanidade mental após a última quarta-feira. Eu não estou bem, é certo, mas também não me atirei da bancada do La Rosaleda abaixo, e vou tentar explicar-vos como é que nós, os adeptos, sobrevivemos àquilo.

Então imaginem que o vosso sonho é ir à Lua. Tudo o que vocês querem na vida é arranjar maneira de ir à Lua. Sempre que vocês o dizem em voz alta, as pessoas à vossa volta acham-vos maluquinhos. Como é possível que alguém ache tão importante ir à Lua?, pensam essas pessoas, que não vos percebem. E vocês nem sequer pensam todos os dias nisso, claro, porque há outras coisas que, assim sozinhas, até parecem mais importantes do que ir à Lua: o amor, a saúde, a família. Mas porra, enquanto não chegarem à Lua sabem que não são totalmente felizes. E então, um dia, conseguem construir uma nave. Fazem uns testes e ela até funciona. Não sabem se vai ser suficientemente boa para chegar à Lua, mas pelo menos vocês sabem que vão ter de tentar.

Pronto, é mais ou menos isso. O F. C. Porto até já me levou à Lua umas quantas vezes, mas eu continuo a querer voltar lá. E quando, na primeira mão, vi futebol, vi equipa, vi jogadores e vi um adversário capazes de me levarem à Lua, mandei aquecer os motores da nave.

Para chegar mais perto da Lua, tinha de pagar um bilhete de 45 euros e fazer quase dois mil quilómetros de estrada. Estamos em crise, o dinheiro falta, o ânimo também, mas todos os sacrifícios são poucos quando se vai à Lua.

Acordar às 5.45 da manhã após ter trabalhado 9 dias seguidos para ter as folgas nos dias certos é fácil. Conduzir por estradas desconhecidas e apanhar uma multa de 100 euros de um conho espanhol é ultrapassável. Fazer contas às portagens, ao gasóleo e à comida é normal. Pela Lua, tudo.

E depois chegar lá e ver tantos rostos cansados, muitos sem dormir, roucos e exaustos, ouvir histórias de outros sacrifícios, lembrar os que não conseguem estar ali mesmo querendo tanto. Parece triste, mas quando os nossos rapazes entram para aquecer, é precisamente isso que nos motiva. Nós, os malucos pela Lua, não temos sono ou cansaço nenhum quando vemos aqueles 11 de azul (ou roxo, no caso). E saltamos, e cantamos, e acreditamos que, se nós fizemos tanto para ir à Lua, aqueles que são pagos para isso ainda vão fazer mais.

Não fizeram. Nada, mesmo. Muitos nem sequer tentaram. Outros foram desistindo. Eu vi-os, lá de cima, da bancada, a entregarem no relvado a nossa nave a outros tão menos capazes de lá chegar do que nós. Sem luta, sem chama, sem Porto. Em 90 minutos, tiraram-nos a nossa Lua.

Se o mundo fosse justo, aqueles rapazolas tinham ficado uma hora na bancada, entregues à tristeza, à frustração e ao frio de rachar, enquanto nós, que fizemos a nossa parte, íamos de avião para casa. Se o mundo fosse justo, aqueles rapazolas tinham que conduzir mais mil quilómetros sem dormir, e sempre a fazerem contas às portagens, ao gasóleo e à comida. Se o mundo for justo, aqueles rapazolas vão matar-se no domingo, vão correr e suar e comer a relva se for preciso, até eu me sentir compensada pela viagem de sonho que me roubaram.

E acreditem que, tal como numa daquelas manhãs a seguir a uma grande noitada em que a ressaca parece que vai durar para sempre, eu cheguei a pensar: “Nunca mais bebo”, “Nunca mais fumo”, “Nunca mais vou ver o Porto ao estrangeiro”, “Nunca mais me vou incomodar com isto do futebol”, “Nunca mais, nunca mais, nunca mais”. Mas sabemos que não será assim. Isto passa-me num instante porque no Porto estamos sempre a ganhar. No próximo domingo há mais. Há outra Lua para alcançar.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Então, afinal, como é que isto está a correr?

Escrevo-vos dia 8 de Março, um dia depois de um Benfica-Bordéus que acabou 1-0 para o Glorioso, após pálida exibição, que foi coroada com uma assobiadela monumental no final do jogo. Isto numa altura onde se discute a renovação ou não de Jorge Jesus. Como é que as coisas estão, afinal, a correr?
Estamos em 1º, com 2 pontos de avanço sobre o Porto. E que significa isso? Bem, é óbvio que este campeonato está em contagem decrescente para o Porto-Benfica, jogo onde os azuis são, pela história recente e por muito que nos custe, favoritos. Se o Benfica lá chegar com 4 pontos de avanço, é campeão. Se chegar com 3 ou 1 ponto de avanço, pode empatar, o que - num jogo dessa natureza - nos confere aí uns 30-40% de hipóteses (é a minha opinião). E acho que, numa situação de ter que ganhar no Dragão para ser campeão, só um alinhamento planetário muito diferente dos que eu conheci nos últimos anos daria à equipa o estofo para o fazer. Que significam estes 2 pontos, então? Que convinha ganhar mais 2 nos próximos 7 jogos. A probabilidade disso acontecer? Não sei. 

Mas sejamos honestos e recuemos até ao fatídico dia em que o Zenit veio buscar Axel Witsel. Quantos de nós julgávamos possível estar em primeiro no mês de Março? Quantos de nós não imaginámos o campeonato a perder-se de forma bastante napoleónica, com a entrada do Inverno? Eu, confesso, nem conseguia fazer o onze do Benfica na minha cabeça sem Javi Garcia e Witsel. Se me dissessem que íamos a Alvalade jogar no meio campo com Matic e um tal de André Gomes, provavelmente tinham de me impedir de saltar da ponte 25 de Abril. O que é certo é que, entretanto, Enzo, dentro de um estilo que eu detesto para médio centro, fez o lugar. 
Mais: sobrevivemos a eleições fratricidas, com o culminar numa noite com violência, com sócios virados uns contra os outros, acusações, etc. E a equipa aguentou-se. Continuou a ganhar, não cedeu. Contra todas as expectativas. Não se apurou para os oitavos da Champions, mas está a caminho dos quartos na Liga Europa. Não é mais do que estávamos à espera naquela altura? 

O mérito, quanto a mim, é quase todo de Jorge Jesus. Eu tenho várias críticas a JJ: não gosto do nosso 4-4-2 (e este modelo até é mais equilibrado), não gosto que a equipa seja tão vertical - é mais provável os jogadores do Benfica lamberem todos o cotovelo ao mesmo tempo do que conseguirem gerir um jogo com posse de bola - e acho que a planificação do plantel no início da época é muitas vezes completamente ausente. No entanto, os resultados esta época vão-me desmentindo. 
O que é que isto significa? Imaginemos o seguinte (e isto vem a propósito de um texto do Ricardo, do Ontem Vi-te no Estádio da Luz): um jogador vai marcar um penalty. Mete mal o corpo, não chuta com muita força, não coloca muito a bola. É golo. Dizemos que foi mal marcado, que este gajo não sabe penalties e que, eventualmente, vai falhar mais do que acertar. A questão é que o sacana acaba por marcar 21 penalties e só falha 4. E ninguém marca mais, em 21. Então, afinal, o gajo é bom ou é mau? 
Eu também queria que JJ não fosse teimoso, que o Benfica tivesse sempre os jogos controlados e sem sofrimento, que jogássemos em 4-3-3, de preferência a trocar a bola maravilhosamente. Mas jogamos em 4-4-2, e às vezes fazemo-lo bastante bem, e até vamos em primeiro. Confusos? Eu também.

Mais enervante ainda: pedimos que a prioridade seja o campeonato e aí está essa prioridade bem marcada. Elementos fulcrais como Matic, Enzo, Lima e Salvio, neste ciclo de 6 semanas com 2 jogos por semana, têm jogado 90 minutos + 30. Maxi joga 90. Melgarejo também já foi poupado. Cardozo joga 70 minutos e ainda teve descanso forçado com a AAC. E, mesmo no meio destas poupanças, podemos chegar aos quartos da Liga Europa e com o plantel bem rodado. Confesso-vos que acho difícil fazer melhor. Também pode acontecer não ganharmos nada. Mas até culparei mais a má gestão inicial do que a gestão com o que sobrou (houve ainda o erro de deixar sair Bruno César e Nolito - não tínhamos que andar a jogar com o Roderick...).

Concluo: é mais difícil analisar antes dos resultados do que depois deles, como é óbvio. Quer o Benfica seja campeão, ganhe a Liga Europa e Taça ou não, parece-me indesmentível que a época foi mal planeada (faltam-nos médios centro) e isso é culpa da direcção. Qualquer Vítor do Paços Ferreira seria, hoje, uma incrível mais valia na alta rotação de jogos a que estamos sujeitos. No entanto, e porque naquele dia de fecho de mercado tudo parecia tão negro que nem festejámos esta notícia: os mesmos nabos que não compraram um médio foram os génios que foram buscar o Lima.
Quanto a futebol, apesar de todos os defeitos que lhe aponto, dou o meu braço a torcer a JJ: tem feito (quase) tudo bem (faltou jogar em 4-3-3 contra o Porto, com Gaitan nas costas de Lima, lição que só aprenderia após o Natal). A equipa tem jogado bem, o plantel tem rodado com prioridade no campeonato e têm-se evitado as lesões tão comuns nesta fase da época (jogadores a fazerem 6, 7 jogos em 20 dias, sem tempo de recuperação muscular). 
Em relação à renovação de JJ: por muitos defeitos que tenha - e tem-nos, evidentes - deparo-me com uma dificuldade muito grande quando penso no seu despedimento: há alguém melhor? E, quando digo melhor, estou a falar de alguém que me garantam que, de certeza, às 21ª jornada limpou pelo menos 17 jogos. Não quero cair na esparrela que às vezes o discurso de JJ tem, que faz parecer que o Benfica acabaria sem ele. Mas, não vindo Mourinho nem Klopp, quem chegar à Luz tem uma herança mais pesada do que parece.

Quero com isto dizer que me manterei crítico de uma direcção liderada por um não-Benfiquista, que não cultiva o Benfiquismo. No entanto, mantenho-me ao lado de uma equipa que me parecia morta antes de sequer ter nascido. Criticarei aqui, criticarei no final da época se for preciso. Mas não há razões para histerias, para a Luz cair em cima da equipa num jogo miserável, mas que até ganhou. Nem falo da assobiadela final (acho que no fim os adeptos que apoiam também têm direito a assobiar), falo sobretudo da impaciência brutal em que viveu o estádio todo o jogo, assobiando cada passe falhado. Não é tempo para contar espingardas, muito menos enquanto joga o Benfica. No fim, fazemos as contas. Cá estaremos para os balanços finais, como cá estivemos para as previsões. É que, afinal, isto até está a correr bem.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Não ganhar

Os adeptos que saem do sofá sabem que os melhores jogos do ano são na casa dos rivais. O que, em teoria, se torna mais difícil dentro do campo, é compensado largamente pela bancada. Há uma razão que o explica sucintamente: quem vai a estes jogos está mais predisposto a apoiar a equipa. Do outro lado, e apesar de em maioria, estão os adeptos que gostam de sentar o rabo na cadeira, de gesticular contra o árbitro e de se manifestar apenas e só quando é golo.

Quando jogamos fora, sentimo-nos mais unidos. Estamos todos juntos, muitas vezes literalmente em cima uns dos outros, e sentimos a força da nossa voz. No FCP-sportem cantam as claques, assobia-se de vez em quando o árbitro, há uns insultos soltos aqui e acolá. No sportem-FCP cantamos todos, assobiamos todos e insultamos todos.

Nestes jogos há ainda outro aliciante. É que ao lado dos nossos 2 ou 3 mil adeptos, estão os outros. E eu sinto uma certa admiração pelas pessoas cujo lugar está ao lado da bancada dos visitantes. Sinceramente, nunca consegui perceber como é que aguentam. Espero mesmo que sejam figurantes pagos para fazer de conta que são daquele clube, porque nenhum adepto normal suportaria tal tarefa. Ora bem, imaginando que damos 5-0 a um rival em casa, eu percebo que estas pessoas até se divirtam, porque vêem os outros. Mas isso compensa mesmo todos os outros minutos a ouvi-los, a levar com insultos constantes e, às vezes, credo, até a vê-los festejar? Não me acredito.

É que nós, quando vamos ao estádio de um rival, passamos muito tempo virados para os lados. É um vício terrível: apoiar, gritar, cantar, insultar, festejar, mas para o lado. Olhar para a cara de um rival enquanto beijamos um escudo de campeão imaginário é uma coisa inexplicável de tão boa. E o jogo do último sábado, embora o adversário fosse o 11º classificado, não foi excepção.

No entanto, do outro lado estavam uma espécie de adeptos-fantasma. Não quero assim criticar quem ainda consegue ir ver jogos do 11º classificado sem ser obrigado ou pago para isso, juro, até sou daquelas pessoas que reconhece muito mérito aos adeptos das equipas pequenas. Só que nunca tinha tido a sensação de estar a provocar uma parede. Nós cantávamos que iam para a segunda, que o sportem é merda até morrer, que a juve leo coiso, e nada. Nadinha. Nenhuma reacção.

Também é verdade que entrámos demasiado cedo, quando no estádio ainda estava apenas um funcionário do sportem a fazer joguinhos com meia dúzia de pessoas que penso reconhecer daquelas imagens de adeptos a chorar com a saída do Liedson. «Quem é quem?» - é assim que se chama o jogo que basicamente consiste em desfocar uma fotografia de um jogador do sportem e tentar que os adeptos adivinhem quem é. Quem acertar, e conforme o grau de desconfiguração do dito jogador, recebe prémios como camisolas autografadas por todos os jogadores e um lugar grátis para todos os jogos em casa até ao fim do campeonato. Prémios que, em qualquer clube decente, são coisas que não se oferecem, porque os adeptos querem-nos tanto que até os compram, imaginem.

É tão deprimente, a sério... A excitação do funcionário do sportem contrasta tanto com o desânimo dos adeptos... E depois, ainda por cima, estávamos lá nós. E apareceu um jogador mulato desfocado e nós, mauzinhos: “É o Liedson! É o Liedson!”. E depois um jogador desconfigurado mas claramente muito baixinho: “É o Moutinho! Só pode ser o Moutinho!” Que horror, que sentido de humor macabro. E o senhor lá continuava, a distribuir game boxes como quem atira moedas de cinco cêntimos para as bancadas de gente rica. E os adeptos lá aceitavam, coitados, conformados a terem de ver os jogos todos até ao fim da época.

Enquanto isso, há uns adeptos do sportem no relvado, não sei bem a fazer o quê, devem ter ganho um passatempo, que azar. E são filmados e deles se espera que gritem, que abanem o cachecol, que apoiem o sportem, sei lá, essas coisas que os malucos dos adeptos fazem. E eles sorriem para a câmara, meio com vergonha de estar ali, meio com vergonha de ser do sportem. Coitados, nunca mais participam de certeza.

Isto é mau, mas continua, porque no sportem há joguinhos para entreter os adeptos! Percebo que tenham de os fazer antes do jogo, porque durante e depois não costuma ser muito divertido. O segundo jogo chama-se qualquer coisa como «O preço certo» e consiste em mostrar imagens de produtos do sportem até os adeptos adivinharem o preço ou um deles se aproximar mais do que os outros. E então lá ouvimos nós mais uns adeptos a dizer “35 euros” por um casaco que custa 68 (amigos, isto é o sportem, acham mesmo que há artigos baratos numa loja de elite?), e pronto, lá vai um casaco grátis para alguém, como se essa pessoa não tivesse vergonha de o usar fora daquele estádio. E nós, maus, muito maus, a mandar piadas que o casaco ia para o Porto por troca com o Miguel Lopes.

Bem, mas o jogo lá começa e, agora sim, isto vai aquecer. Não, não vai. Eles nem olham para nós. Estão 20 e tal mil pessoas de verde a olhar para todos os lados menos para nós, alguns assobiam para o ar, a outros já lhes dói o pescoço. E nós cantamos pelo Moutinho, pelo Izmailov, pelo Varela, pelo Liedson. E nada, coitados, nada. Uns assobios, tímidos, mas nunca o temor que habitualmente uma casa do rival provoca.

E chega o intervalo e, com ele, mais uma cena super divertida! No relvado estão mais algumas dezenas de adeptos (há algum adepto do sportem que não tenha ido ao relvado? É obrigatório? Precisam disso para nos mostrar que ainda há adeptos do sportem?). Explica o funcionário que são os novos sócios do sportem. E nós pensamos: “Porra, mas quem é que se faz sócio do sportem? Bebés obrigados pelos pais? Mulheres obrigadas pelos maridos? Idosos com Alzheimer?” Não, não, aparentemente estão ali de livre vontade. E depois percebemos porquê.

A minha memória não é das melhores mas penso que a razão é qualquer coisa como isto: qualquer sócio do sportem que inscreva outra pessoa como sócia ganha dois bilhetes para qualquer jogo, tem três meses de quotas grátis e mais não sei o quê que não me lembro (deve ser uma camisola autografada, porque aparentemente ninguém quer recordar esta época comprando camisolas do Wolfswinkel). E o novo sócio tem a inscrição gratuita, mais dois bilhetes, um benefício qualquer na banca e seis meses de quotas grátis. A sério, eu ouvia isto e a certa altura pensei: bem, às tantas compensa eu ser sócia do sportem, porque o meu bilhete custou 25 euros. Muito convincentes os senhores. Ou desesperados, depende do ponto de vista.

Com a segunda parte e um Porto precipitado, irreconhecível e desajeitado, eles começaram a acordar. Não falo das críticas ao árbitro, porque em alvalade não morre a tradição de achar que qualquer lançamento para a outra equipa significa o roubo de um título, mas dos insultos para o nosso lado. Há um livre perigoso para o Porto e inútil do Danilo (pela 12423857489572456ª vez esta época) remata ao lado. E vira-se um lagarto para nós e beija o símbolo do sportem que tem na camisola, gritando insultos que naturalmente não consigo ouvir mas dá para imaginar. Ainda hoje não percebo a relação entre um livre falhado pelo meu clube (apenas mais um entre tantos) e o aparente orgulho no clube de outra pessoa. 

Mas os últimos 10 minutos foram passados assim, virados para nós. Cantavam, batiam palmas, insultavam-nos. Ressuscitaram, portanto. Eu, confesso, estava paralisada de tão incrédula. Olhava para o ecrã constantemente, com medo que eles tivessem marcado um golo e eu nem tivesse reparado. Estão a cantar porquê? Que tipo de vitória é esta que vale 1 ponto? Como é possível que tenham chegado a isto? E aí caiu-me a ficha: o sportem estava em 11º (hoje está num honroso 10º lugar) e bem se viu pela forma como jogaram que não estavam ali para ganhar, para lutar pela manutenção ou sequer para dar o campeonato ao benfica, como o avançado prometeu. Eles apenas quiseram mostrar que estão vivos.

Apesar de visivelmente frustrados com o resultado (vamos ser novamente das poucas equipas a não ganhar em alvalade este ano), respondemos de maneira fácil. Nunca tinha reparado, porque habitualmente não me pego com adeptos das equipas pequenas, mas explicar por gestos que eles estão cheios de medo (as duas mãos com os dedos todos esticados, a convergirem na mesma direcção) de ir parar (um dedo esticado a deslocar-se de cima para baixo) à segunda divisão (dois dedos de uma mão) é bastante perceptível à distância. 

Mesmo assim, saí de alvalade com a sensação que fui goleada, que perdi um campeonato e que o Porto nem sequer por lá passou. Nem se trata de não saber perder, trata-se mesmo de não saber não ganhar. Principalmente quando do outro lado estão bancadas repletas de fantasmas, ligados a uma qualquer máquina para conseguirem respirar ainda algum orgulho, e tão habituados a não ganhar que se contentam em não perder. 

P.S. Não gostei mesmo nada do Porto. Não admito que estejam a pensar noutras coisas e não aceito desculpas como as lesões. Já tiveram a vossa falha, agora não aceitamos mais.

P.S.2 O sportem está meio morto, mas nunca podemos tratá-los como se não fossem um rival. Ter pena dá nisto: facilitar e perder pontos.

P.S.3 Tenho tido imensa dificuldade em comentar as últimas vitórias do benfica. Queria poder dizer que foram beneficiados pelo árbitro x ou y, mas aparentemente agora a regra é nomear desconhecidos para os seus jogos.