No meio das profundezas desta dor toda, com estilhaços de sonhos em todo o lado, há coisas que só o futebol me poderia dar. Farto-me de repetir: o futebol é a melhor metáfora sobre a vida. No futebol encontram-se a maior das glórias, a mais amarga das lágrimas, a devoção, a amizade. O amor. No futebol estão passado, presente e futuro, numa concepção de tempo completamente diferente, em que golos marcam eras, em que falhanços mudaram vidas. E, nos escombros das derrotas do Benfica, descobri que tenho os melhores rivais que podia desejar.
Em Amesterdão perguntaram-me, recorrentemente, como foi suportar a C. depois do clássico. Suponho que nos imaginem sempre à pancada cá em casa, mas não é assim. Gostar de futebol passa - obrigatoriamente - por saber respeitar quem sofre como nós. E sendo os nossos clubes parte da nossa vida, quase órgãos suplementares do nosso corpo, se não soubéssemos viver com a doença do outro isto era impossível.
Antes que continuem a ler a achar que isto é um texto fofinho, desenganem-se. É difícil alguém detestar tanto o Porto ou Sporting como eu. Mesmo muito difícil. Eu não considero do Benfica quem torce por eles nas competições europeias. Se eu fosse presidente do Benfica essas pessoas ficavam sem os cartões do sócio e banidas do Estádio da Luz até reverem as suas posições. Vou mais além: quando eu percebo que o interlocutor é daqueles Benfiquistas pela metade (ou às vezes nem é), sinto-me quase ofendido de mo terem apresentado como tal. É uma coisa que nos acontece, a nós fanáticos, comummente: estamos no trabalho e de repente: "Olha, M.: apresento-te fulano tal que também é grande Benfiquista!". E cinco minutos depois percebo que o "fulano tal" nem sabe com quem jogamos para a semana, quanto mais os castigados, as nuances tácticas do adversário, etc. Fico fulo. E agora, que já vos lembrei que sou uma pessoa um nadinha obcecado com o Benfica, já posso voltar a falar dos meus rivais sem me colocarem em causa.
O grande problema do fundamentalismo é que é fácil deixarmo-nos enrolar por ele. Um tipo como eu, que lê todas as notícias do Benfica ao pequeno-almoço, que confere blogs, fóruns, que tem uma lista mental das grandes discussões entre adeptos do Benfica, facilmente perde noção da realidade. Os outros são uns merdas, cheiram mal, compram árbitros, nós somos os maiores, sem defeitos, enviados de um ser divino.
É muito engraçado descobrir o outro lado. O meu pai, na primeira vez que viu a C. a ver futebol, ia-se engasgando com o primeiro pedido de falta e na segunda vez que a C. refilou com o árbitro percebeu que estava na presença de um ET, mas com comportamentos vagamente semelhantes.
No tempo que passo no Porto, com a família da C., descobri que do outro lado há gente como eu, que ama o seu clube, que também discutem tudo, que também vibram, que também viram a cara nos ataques adversários. Uma pessoa pára para pensar e fica com vontade de rir das semelhanças. Ganha-se, obviamente, empatia. Passei a partilhar com o pai da C. os documentários sobre campeonatos do mundo da ESPN e, até à data, nunca jantou lá em casa nenhum árbitro (se bem que, comparado ao meu sogro a jogar dados, o Calheiros era um anjo).
Vem isto a propósito de como tenho sido tratado após estas terríveis semanas: com respeito. Não o respeito do medo, como se eu fosse responder mal. Não com o respeito paternalista com que se tratam os maluquinhos (se bem que esse talvez fosse aplicável ao meu caso). Os meus rivais trataram-me bem porque gostam de mim.
Quem me conhece sabe que o Benfica é parte de mim, da minha vida. Quem me conhece e gosta de mim, lembra-se de mim sempre que vê o Benfica na televisão ou o jornal, mesmo que não ligue nada a futebol. A minha avó, que nem sabe quantos jogadores jogam de cada lado, diz que fica contente por mim sempre que ouve os festejos dos golos no café ("quando é do Benfica é sempre mais forte"). Gozar-me nesta altura é gozar uma pessoa de luto. Todos os que me conhecem e me são queridos, todos os que sabem o que eu vibro, sofro, choro e vivo o Benfica, tiveram a amabilidade de uma palavra de consolo ou até de um olhar que diz tudo. Mas se dos Benfiquistas não seria de esperar outra coisa, enterneceu-me sobretudo o gesto dos rivais.
Os rivais, os verdadeiros, os que são como nós, mas de outra cor, não atacam numa altura destas. Não quer dizer que fiquem tristes com as derrotas do Benfica. Pelo contrário, desejam-nas com fervor. Mas, ao me ligarem tanto ao meu clube, têm ainda a destreza de separar as águas e de não confundir o que detestam o meu clube com o que gostam de mim. Acho que uma nobreza assim só existe no futebol e no seu realismo mágico.
Este texto é para eles. Para a C., para a família dela, para os meus amigos lagartos que nem falaram do assunto. Se um dia forem vocês a passar por isto (e sabe Eusébio o que eu desejo mal aos vossos clubes), lá estarei, esperando ser igualmente nobre.



