sexta-feira, 24 de maio de 2013

Aos meus rivais

No meio das profundezas desta dor toda, com estilhaços de sonhos em todo o lado, há coisas que só o futebol me poderia dar. Farto-me de repetir: o futebol é a melhor metáfora sobre a vida. No futebol encontram-se a maior das glórias, a mais amarga das lágrimas, a devoção, a amizade. O amor. No futebol estão passado, presente e futuro, numa concepção de tempo completamente diferente, em que golos marcam eras, em que falhanços mudaram vidas. E, nos escombros das derrotas do Benfica, descobri que tenho os melhores rivais que podia desejar.

Em Amesterdão perguntaram-me, recorrentemente, como foi suportar a C. depois do clássico. Suponho que nos imaginem sempre à pancada cá em casa, mas não é assim. Gostar de futebol passa - obrigatoriamente - por saber respeitar quem sofre como nós. E sendo os nossos clubes parte da nossa vida, quase órgãos suplementares do nosso corpo, se não soubéssemos viver com a doença do outro isto era impossível. 
Antes que continuem a ler a achar que isto é um texto fofinho, desenganem-se. É difícil alguém detestar tanto o Porto ou Sporting como eu. Mesmo muito difícil. Eu não considero do Benfica quem torce por eles nas competições europeias. Se eu fosse presidente do Benfica essas pessoas ficavam sem os cartões do sócio e banidas do Estádio da Luz até reverem as suas posições. Vou mais além: quando eu percebo que o interlocutor é daqueles Benfiquistas pela metade (ou às vezes nem é), sinto-me quase ofendido de mo terem apresentado como tal. É uma coisa que nos acontece, a nós fanáticos, comummente: estamos no trabalho e de repente: "Olha, M.: apresento-te fulano tal que também é grande Benfiquista!". E cinco minutos depois percebo que o "fulano tal" nem sabe com quem jogamos para a semana, quanto mais os castigados, as nuances tácticas do adversário, etc. Fico fulo. E agora, que já vos lembrei que sou uma pessoa um nadinha obcecado com o Benfica, já posso voltar a falar dos meus rivais sem me colocarem em causa.

O grande problema do fundamentalismo é que é fácil deixarmo-nos enrolar por ele. Um tipo como eu, que lê todas as notícias do Benfica ao pequeno-almoço, que confere blogs, fóruns, que tem uma lista mental das grandes discussões entre adeptos do Benfica, facilmente perde noção da realidade. Os outros são uns merdas, cheiram mal, compram árbitros, nós somos os maiores, sem defeitos, enviados de um ser divino. 
É muito engraçado descobrir o outro lado. O meu pai, na primeira vez que viu a C. a ver futebol, ia-se  engasgando com o primeiro pedido de falta e na segunda vez que a C. refilou com o árbitro percebeu que estava na presença de um ET, mas com comportamentos vagamente semelhantes.
No tempo que passo no Porto, com a família da C., descobri que do outro lado há gente como eu, que ama o seu clube, que também discutem tudo, que também vibram, que também viram a cara nos ataques adversários. Uma pessoa pára para pensar e fica com vontade de rir das semelhanças. Ganha-se, obviamente, empatia. Passei a partilhar com o pai da C. os documentários sobre campeonatos do mundo da ESPN e, até à data, nunca jantou lá em casa nenhum árbitro (se bem que, comparado ao meu sogro a jogar dados, o Calheiros era um anjo).

Vem isto a propósito de como tenho sido tratado após estas terríveis semanas: com respeito. Não o respeito do medo, como se eu fosse responder mal. Não com o respeito paternalista com que se tratam os maluquinhos (se bem que esse talvez fosse aplicável ao meu caso). Os meus rivais trataram-me bem porque gostam de mim. 
Quem me conhece sabe que o Benfica é parte de mim, da minha vida. Quem me conhece e gosta de mim, lembra-se de mim sempre que vê o Benfica na televisão ou o jornal, mesmo que não ligue nada a futebol. A minha avó, que nem sabe quantos jogadores jogam de cada lado, diz que fica contente por mim sempre que ouve os festejos dos golos no café ("quando é do Benfica é sempre mais forte"). Gozar-me nesta altura é gozar uma pessoa de luto. Todos os que me conhecem e me são queridos, todos os que sabem o que eu vibro, sofro, choro e vivo o Benfica, tiveram a amabilidade de uma palavra de consolo ou até de um olhar que diz tudo. Mas se dos Benfiquistas não seria de esperar outra coisa, enterneceu-me sobretudo o gesto dos rivais. 
Os rivais, os verdadeiros, os que são como nós, mas de outra cor, não atacam numa altura destas. Não quer dizer que fiquem tristes com as derrotas do Benfica. Pelo contrário, desejam-nas com fervor. Mas, ao me ligarem tanto ao meu clube, têm ainda a destreza de separar as águas e de não confundir o que detestam o meu clube com o que gostam de mim. Acho que uma nobreza assim só existe no futebol e no seu realismo mágico. 

Este texto é para eles. Para a C., para a família dela, para os meus amigos lagartos que nem falaram do assunto. Se um dia forem vocês a passar por isto (e sabe Eusébio o que eu desejo mal aos vossos clubes), lá estarei, esperando ser igualmente nobre. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Aos jogadores do Porto (II)

Confesso: eu já não acreditava. Bem sei que ficava mais bonito vir agora dizer o contrário, mas preciso que vocês o saibam. Há mais de um ano, precisamente após um jogo em Paços de Ferreira, escrevi-vos com raiva, desesperada por um campeonato que nos parecia fugir e acabei por ser tremendamente injusta. Por isso, devo-vos a minha sinceridade neste momento. Nunca deixei de vos apoiar e tentei até calar os habituais derrotistas, mas a verdade é que me preparei para o pior.

Foi algures durante o benfica-sportem. Senti que isto estava perdido, que não havia nada a fazer. Sabia que vocês iam ser competentes até ao fim, mas duvidava que o nosso rival deixasse escapar a enorme ajuda que estava a receber. Já nem vi o jogo deles na Madeira com esperança. Só me lembro de um central a fazer um penalti idiota aos três minutos e de outro a marcar um golo na própria baliza. Só me recordo daquela sensação de impotência enquanto revia mentalmente os nossos dois penaltis falhados que iam decidir esta época.



Agora, não sei como vos agradecer. Talvez vocês nem percebam o que eu senti naquele maravilhoso minuto 92, quando o meu coração parou ao ver as redes a dançar e também eu me ajoelhei, mas de alívio. De alívio, sim, porque quando o nosso destino é ganhar nada faz sentido a não ser a vitória (ao contrário daqueles que fazem épocas brilhantes sem títulos). E que justa que ela foi! Não se deixem enganar por eles, os que se queixam do azar, os coitadinhos. O que fez a diferença num campeonato tão equilibrado foi a vossa vontade de vencer nos dois jogos contra eles. E, por isso, por quererem mais do que eles, fica aqui o meu enorme obrigada.

Obrigada por terem percebido o que é o Porto. Obrigada por terem lutado, por terem acreditado mais do que eu e por nunca terem desistido. Obrigada por, ainda por cima, terem honrado Pedroto e mostrado que o nosso rival não tinha estofo de campeão. Foi mesmo perfeito.

Daí que ontem, outra vez em Paços de Ferreira, tenha dado por mim a pensar o que é que se segue. O que é que nos falta ganhar? De que forma nos falta vencer? O que é que nós, os adeptos, vos podemos pedir mais? Só nos últimos três anos, vocês golearam-nos, ganharam-lhes um título na própria casa, brincaram com eles naquela reviravolta da Taça, recuperaram cinco pontos de distância e, agora, destruíram-nos na penúltima jornada, mesmo no último suspiro.

Por mim, está feito. Sinto-me totalmente preenchida como adepta. Se o mundo acabar hoje, levo comigo Sevilha, Gelsenkirchen e Dublin, a luz apagada e o Dragão em chamas, o Baía ou o Lucho a levantarem as taças, o punho levantado do Deco ou do Moutinho, o olhar do Pedro Emanuel no Japão e o Mourinho a pedir calma antes da Grécia, o sorriso de Robson ou de Villas Boas, o calcanhar de Madjer ou de Falcao e agora também a traquinice do Kelvin.


Se eu conseguisse desligar a tomada do futebol, já tinha vivido de tudo. Já sofri, já chorei, já saltei, já cantei até ficar sem voz, já abracei desconhecidos, já viajei muito e festejei ainda mais. Felizmente, não consigo. Para o ano há mais e vêm aí novos desafios, novas aventuras, mais sofrimento e, como falamos do FCPorto, certamente mais vitórias. Porque neste clube não há novos nem velhos ciclos, há apenas uma vontade constante de ganhar.

P.S. Os agradecimentos ao treinador ficarão para outro texto.

P.S.2 Parabéns aos campeões de andebol e hóquei (sempre contra os mesmos, que pena) e perdoem-me não ser uma boa adepta vossa.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Dor


O rei mimado está
Feliz e sem rival

É como um desgosto de amor. Falta-nos o chão, fica um nó na garganta, há um vazio muito grande cá dentro. Faltam-nos as pernas e sobram-nos as lágrimas. É como levar uma bala em cheio no coração: a vida corria bem, íamos ser felizes para sempre, e de repente há um contra-ataque, ninguém faz falta e há um baque cá dentro, e é como se ouvíssemos o tecido do nosso coração a rasgar.

E verte para mim
Cem gotas de água e sal
Aos saltos e pinotes
Percorre agora o chão
Mas pára p’ra lutar
À vista de um dragão

Por muito que eu tente, fogem-me as palavras. Ainda estou meio comatoso, incrédulo com tudo isto que se abateu sobre o meu clube e, consequentemente, sobre mim. Páro a caminho do trabalho e correm-me na cabeça milhares de frames: "E se", "E se", "E se", "E se". Páro as jogadas mortais para o meu coração de mil maneiras, melhoro as nossas, imagino-nos a ganhar ao Estoril, imagino-nos a segurar o empate no Dragão, vejo o remate do Cardozo ontem, na segunda parte, a ir ao ângulo e não à figura do Cech. Respiro fundo. Já passou, não há nada a fazer, não há volta a dar. Já foi. Inundam-se-me os olhos de lágrimas no meio da rua, suspiro e engulo em seco. Respiro devagar, as minhas expirações são forçadas e, ao contrário do que é costume, não tenho interesse nas conversas de metro, nas pequenas alegrias quotidianas. Concentra-te. Não pares tu, também, de lutar à vista de um dragão.

Batuques e tambores
Ilustram o combate sem dó
Alguém me afaga a lã
Me puxa num trenó
Me leva na manhã
Do sol-e-dó

O Benfica é o meu desgosto amoroso perpétuo. O meu amor não correspondido. Se o Benfica fosse uma mulher, há muito que os meus amigos e família já me tinham dito que havia outras, que o Benfica não me merecia. Imagino um rapaz à porta de casa de uma rapariga, de flores na mão e à chuva, uma noite inteira, sem ela abrir a porta. Se o Benfica fosse uma mulher, já me tinha cansado de ser tantas vezes desiludido, que já tinha feito contas ao dinheiro e tempo que gastei. Mas o Benfica não é uma mulher. O Benfica é o meu clube, a minha tribo. O Benfica é a minha máquina do tempo que me leva ao verão quente de 93, a brincar com o T., que me leva ao São Luís, num 1-1 para a Taça que vi com o meu pai debaixo do maior temporal de sempre (caiu uma das torres de iluminação no fim do jogo). É o Benfica que me leva ao meu avô e a um relato de um Benfica - Beira-Mar, à minha mãe e à sua paciência de santa, a levar-me o jantar ao sofá enquanto vejo um jogo qualquer. Foi num dia de um jogo do Benfica que conheci a Catarina, a mulher da minha vida.

Infelizmente, não há cura para isto. Essa mesma devoção carrega mais cicatrizes do que posso contar. E por muito que eu afague a lã, ontem não foi a última. Mas de ontem não é, ainda, uma cicatriz. É uma ferida. E sangra e arde e dói muito.

Acordam os amores
No reino da paixão
São elfos e duendes que
Nos levam pela mão
As folhas são azuis
O sol vermelho está
A relva sua e diz que
A vida é um sofá p’ra gozar

Ontem vi muitos dos meus caídos. Vi os meus rapazes de vermelho deitados no chão, soluçarem as lágrimas que eu esgotei no sábado. Vi o D. a chorar e tive que o abraçar. Vi o meu irmão, cujo Benfiquismo se lhe vai pegando, de olhar perdido e vi nos olhos do meu pai o olhar de tristeza paterna, que nos consola e nos diz que está tudo bem. Vi gente desolada, vi muitas lágrimas. A expressão corporal é uma coisa lixada e lembro-me de ontem, em plena consciência, ver que há gente que só chora com os olhos e que outros choram com o corpo inteiro. E não é justo. A todos nos doía a garganta de cantar e de puxar pelo nosso clube. De Amesterdão levamos todos uma cicatriz para a vida. 

São monstros de cordel
Histórias de encantar
No espelho de Babel
A festa não tem fim
Volteia agora o vento
E eu peço um gin

Eu prometo que vou ficar bom. Não se preocupem com os meus suspiros, com os meus silêncios, com a minha falta de sentido de humor. Perdoem-me se demorar mais do que o costume a responder, a falar. Não achem estranho que o meu olhar agora se perca tantas vezes. Por favor, não me digam que isto é só futebol, porque Shankly já explicou que o futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais do que isso. Sempre me fascinou a tristeza poética que terá trespassado o coração dos adeptos do Bayern quando o Manchester United virou aquela final da Champions. Sempre imaginei que tivesse faltado uma batida ao coração de todo o Brasil quando o Uruguai lhes tirou um campeonato do mundo em casa. Agora essa tristeza é toda minha e dos meus. Como em todos os desgostos amorosos, o segredo é o tempo. Passará esta dor toda, e, com o tempo, recuperarei o sentido de humor e o prazer de ler no metro. Mas, até lá, dêem-me um bocadinho de tempo e um bocadinho de espaço. Preciso de tempo. Cá dentro só há estilhaços, como se tivesse explodido uma granada. Se o Benfica fosse uma mulher, ia para os copos com os amigos. Mas é o meu clube, e tenho de lá estar na Luz no domingo, mesmo todo moído por dentro. 
Dói-me tudo.

sábado, 11 de maio de 2013

Lá em casa mando eu no P3

Com uma ilustração de Sara Pimenta que até em dia de clássico nos fez sorrir e depois de um convite muito simpático do P3, cá estamos nós, os dois doentes. Obrigado ao Luís Octávio Costa pela entrevista e obrigado a quem cá vem.

http://p3.publico.pt/actualidade/desporto/7886/la-em-casa-mandam-uma-portista-e-um-benfiquista




Lá em casa mandam uma portista e um benfiquista

Catarina e Manuel, inventores do blogue "Lá em casa mando eu", amam-se. E têm uma única dúvida. Não conseguem perceber como é que uma pessoa tão perfeita pode torcer por um clube tão detestável
Texto de Luís Octávio Costa • 10/05/2013 - 22:02

São os dois ateus. "Por isso não acreditamos que isto é Deus a tentar a nossa relação". Acreditam que é "apenas o futebol com as suas artes maquiavélicas" a conseguir que um FC Porto-Benfica à penúltima jornada seja decisivo. Catarina Pereira a imaginar que o Benfica pode ser campeão no Dragão, "que é a pior coisa do mundo". E Manuel Neves perseguido por um pesadelo: "O Benfica ainda pode perder este campeonato".

C. e M. são os autores do blogue "Lá em casa mando eu". Partilham amigos e famílias. Partilham almoços e jantares. Partilham livros e discos. Partilham viagens e segredos. Partilham uma casa e uma vida. Partilham nomes de futuros filhos (Jorge Nuno Pedroto Pereira Neves ou Eusébio da Silva Ferreira Pereira Neves?). Só não partilham o clube. Ela é portista. Ele é benfiquista. Aparentemente — só aparentemente — são pessoas normais. "Às vezes não parecemos pessoas saudáveis. E até somos um casal equilibrado e gostamos os dois muito um do outro. E trabalhamos. Até temos os dois emprego, algo raro em Portugal. Queixamo-nos do Gaspar... nós falamos de outras coisas... nos intervalos", resumiu M. em conversa com o P3.

"Lá em casa mando eu" é uma "revisão histórica", um "desabafo" e um "exorcismo" na vida de duas pessoas "doentes" pelos seus clubes. Catarina Pereira, 26 anos, jornalista do site TVI 24. Manuel Neves, 29 anos, médico no Hospital de Santa Maria. Diagnóstico: doentes. Muito prazer em conhecê-los.

"Acho que nunca vi o M. tão feliz. Se isto fosse uma história de amor normal, ele estaria assim porque estamos bem, gostamos muito um do outro e vamos casar. Mas enfim, o Benfica está em primeiro, vai à final da Liga Europa e ainda pode ganhar a Taça, por isso não tenho grandes ilusões quanto ao meu lugar no meio disto tudo".

Criaram o blogue porque "falar 24 horas por dia um com o outro" sobre os respectivos clubes não chega. "Nós não deixamos de ser pessoas normais. Gostamos muito das nossas famílias, dos nossos amigos, saímos à noite, vamos jantar fora, trabalhamos, temos responsabilidades, pagamos as contas da luz e da água. Fazemos isso tudo. Mas a grande base de suporte da nossa vida são os nossos clubes. As pessoas que nos conhecem já sabem que em função daquele jogo é que se vai moldar a nossa vida", explica C.

"Simpatizamos com pessoas que sejam doentes. Há um acordo tácito, um código como se fossemos ladrões. É uma patologia. O nosso grau de loucura é mesmo excessivo. A grande loucura é o tempo que nós passamos a pensar nisto e a falar um com outro sobre isto. É absurdo", completa M.

"O M. fica ofendido quando lhe digo isto, mas ele não devia ser do Benfica. Não consigo perceber como é que uma pessoa tão perfeita pode torcer por um clube tão detestável. Eu amo o M. e o M. ama o Benfica. E estar a apenas um ser humano de distância de amar o Benfica envergonha-me. Percebo que, por essa razão, nunca possa vir a ser presidenta do FC Porto, embora o facto de o Pinto da Costa ser imortal também vá contribuir para isso".

C. e M. respeitam-se. Têm memória (principalmente ele), exaltam-se (principalmente ela). São pessimistas e não são isentos ("Nunca na vida, se isso acontecer, internem-me", diz ele). Não se picam antes dos jogos ("Achamos que qualquer coisa que dissermos esta semana pode ser usado contra nós depois de sábado", diz ela) e não se picam no fim ("O Benfica-Estrela ainda não existiu nesta casa. E eu ainda não tive instintos psicopatas contra ninguém. Que fique escrito").

Entre estes doentes "há um acordo tácito". C. percebe o benfiquista: "Somos muito parecidos como adeptos e percebemos perfeitamente o que os outros estão a passar. Faz todo o sentido que ele esteja com aquela cara quando perde". M. ouve a portista: "Discutimos, eu ganho sempre porque a Catarina não tem razão, ela não admite e voltamos à nossa vida. Nós temos tanta consciência daquilo que o outro sofre, sobretudo em alturas de derrotas da equipa do outro, que nem conseguimos massacrar o outro".

Eu e a Catarina odiamos os casais que se beijam para a fotografia, cada um com o seu cachecol. Muitas vezes nos perguntam como é que vivemos um com o outro. Como é possível haver tolerância entre pessoas que, além de gostarem mais dos seus clubes do que de qualquer outra coisa, odeiam o clube do outro. Não sei.

Se na televisão passar um jogo de berlindes entre o Benfica e alguém, M. é "doentiamente pelo Benfica". "E vou dizer que aquele jogador do Benfica é o melhor jogador de berlindes do mundo". Mas nem M. nem C. percebem muito de modalidades. "Não sabemos o que é um erro de formação no voleibol", diz a portista. "Para a equipa de futebol profissional do Benfica ser campeã nacional eu não me importava que o Benfica perdesse nas restantes modalidades. Elas podiam inclusivamente acabar. Isto sem querer parecer muito doente", completa o benfiquista, cujo sonho é "ser reformado e estar sempre no pavilhão da Luz a ver os infantis de andebol a jogar" porque "os grandes, grandes adeptos são os que acompanham as modalidades".

M. trabalharia no Benfica "24 horas por dia a troco de uma sande de fiambre". Chegou a alimentar o sonho de ser médico do clube, mas "seria pouco racional e por isso um péssimo funcionário". C. gostava de ser tudo no FC Porto ("menos presidente") "inclusivamente jogar" ("há jogos em que eu tirava o lugar a um ou outro").

"Acho que somos muito bons adeptos", sublinha Catarina. "E é essa a nossa função".

Trocariam de clube em benefício da relação? M.: "Quando nos conhecemos já sabíamos ao que vínhamos". C.: "Faz parte de nós".

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Para o M., com amor

"Então é isto que se sente quando o rival vai a uma final europeia?", perguntei eu ao M., ontem, quando ele me ligou a tentar disfarçar o seu êxtase. É um querido, ele, quando põe aquele falso ar sério e diz "Ainda não ganhámos nada e o que interessa é o jogo com o estoril". Gosto tanto quando ele me quer enganar...

Acho que nunca vi o M. tão feliz. Se isto fosse uma história de amor normal, ele estaria assim porque estamos bem, gostamos muito um do outro e vamos casar. Mas enfim, o benfica está em primeiro, vai à final da Liga Europa e ainda pode ganhar a Taça, por isso não tenho grandes ilusões quanto ao meu lugar no meio disto tudo.

O M. tem 29 anos. Ainda nem sabia ler quando o clube dele perdeu a última final europeia que disputou. Nunca ganhou nada além de uns campeonatos cuja memória cabe nos dedos de uma mão. Cresceu rodeado de lagartos campeões e depois conheceu-me a mim, que em 26 anos acho que já festejei tudo o que um adepto pode sonhar.  O M. não sobreviveu a uma, mas a várias finais europeias do F. C. Porto. E, com este parágrafo, espero sinceramente ter feito o meu namorado sentir que a sua vida tem sido até agora uma enorme desilusão.

Mas o M. é um adepto do caraças. É um sofredor, um apaixonado, um lírico. É capaz de estar horas a falar em resultados e datas de jogos como se o futebol fizesse parte da disciplina de História, como logo a seguir pode exemplificar exactamente como foi a entrada do Katsouranis sobre o Anderson, jurando a pés juntos que nem falta foi. Tem piada, o gajo.

O M. fica ofendido quando lhe digo isto, mas ele não devia ser do benfica. Não consigo perceber como é que uma pessoa tão perfeita pode torcer por um clube tão detestável. Eu amo o M. e o M. ama o benfica. E estar a apenas um ser humano de distância de amar o benfica envergonha-me. Percebo que, por essa razão, nunca possa vir a ser presidenta do F. C. Porto, embora o facto de o Pinto da Costa ser imortal também vá contribuir para isso.

O pior é que eu, infelizmente, até conheço muita gente que torce pelo benfica e, ainda assim, só me apetece bater-lhes de vez em quando, mas ao M. não. Eu respeito o M. enquanto benfiquista, não lampião. Admiro-o sempre que, a meio de uma refeição, interrompe uma qualquer importante reflexão minha para me perguntar se acho que o Matic (esse grande caceteiro) pode ser considerado o jogador do ano. Rio-me dele com carinho sempre que me manda uma mensagem cheia de palavrões a insultar o adepto do benfica que filma a águia ou se veste de bispo. Apetece-me abraçá-lo sempre que estamos a ler, lado a lado, no sofá, e ele confessa que ainda teme que esta época termine como a do sportem em 2005 (oremos, senhor).

Se isto fosse uma história de amor normal, eu estaria feliz pelo M.. Mas não estou. Estou frustrada, zangada, furiosa. Estou constantemente a atirar-lhe à cara os erros de arbitragem que os beneficiam, mando-lhe várias mensagens a gozar com a sorte que têm tido em lances capitais e nunca, nunca lhes reconheço algum mérito. Agora que penso nisto assim a frio, compreendo que a única razão para estarmos bem e ele ainda gostar muito de mim e querer casar comigo seja mesmo a felicidade que o benfica lhe dá.

M., meu amor, nos próximos dias vou torcer mais do que nunca contra o teu clube. Espero que os planetas finalmente se alinhem e vocês empatem com o estoril, sejam goleados no Dragão e ainda percam com o moreirense só para eu me rir. Vou estar a ver-te pela televisão em Amesterdão enquanto beijo a minha camisola do chelsea no golo decisivo do teu amado Ramires (para te doer mais). E, depois disso tudo, só porque gosto tanto de ti e tu até mereces e, sobretudo, porque tenho receio que não sobrevivas a tamanho sofrimento, acho que até te vou deixar ir festejar a Taça para o Marquês.

domingo, 28 de abril de 2013

Benfiquista de Faro

No infantário e na primária eu tinha que me defender do J. e do T., dizendo-lhes que, apesar de viver em Faro, eu tinha nascido em Lisboa, e que portanto podia ser do Benfica à vontade. O J. simpatiza com os lagartos, mas é do Farense. O T., companheiro de carteira, é do Benfica, mas só muito depois de ser do Farense. Nenhum hesitava quando o seu “2º clube” ia lá jogar : eram farenses, eram do Farense.
Serve isto para mostrar, como diz o hino, “do que a gente de Faro é capaz”: era-me permitido ser do Benfica, não por o Benfica ser o Benfica, mas porque eu tinha nascido em Lisboa (mesmo que, aos 4 anos, Lisboa representasse para mim a casa dos meus avós – que era em Oeiras – e o Jardim Zoológico, que eu tinha visitado uma vez). 

Com os anos comecei, também, a ir ao São Luís e torcia pelo Farense contra todos – com especial fervor contra Porto e Sporting – menos, claro, contra o meu Benfica. Cresci com o Hajry, Serôdio, Mané, Pitico, Rufai, Hassan, Hugo e, claro, Paco Fortes. Não gostava do verde alternativo, mas simpatizava com o ambiente, com as tardes de sol, e com o facto de quase ninguém lá ganhar.
Lembro-me dos Farenses – Porto de 92/93 e 93/94, 1-0, com golos de Hugo e Stefanovic, respectivamente. No primeiro, não fossem Dino e os irmãos Calheiros, tinha sido a oferta de um campeonato para o Benfica, e o segundo, de noite, custou o cargo a Ivic. Era-me, portanto, difícil não simpatizar com o clube. Apesar de também o Benfica passar mal no S. Luís (eu estava lá, quando levámos 4-1), o clube tinha uma identidade, um fervor ao qual era impossível ser indiferente. O Farense era o único clube que tinha um treinador há não sei quanto tempo e as tardes de última jornada, com o estádio cheio e a precisar de uma vitória para não descer davam-lhe uma aura que os diferenciava da restante classe média-baixa do futebol português.



Quando vim para Lisboa abateu-se a desgraça sobre o Farense. De clube praticamente invencível em casa, passou às distritais, a ser forçado a jogar com os juniores porque não podia inscrever os seniores. Como Salgueiros, Boavista e Estrela da Amadora, o Farense parecia condenado. Hoje provou-o que não.
Hoje regressei ao S. Luís e tive pena que o T., cuja crise o obrigou a emigrar para longe, não pudesse ver o estádio onde tantas e tantas tardes passámos juntos à pinha, novamente local de romaria de uma terra. Um estádio com camisolas de muitas épocas, onde várias gerações (como a minha) foram recordar os tempos do S. Luís cheio, impossível para os adversários, como na vitória por 4-0 ao Marítimo em 95, que acabou com o estádio a cantar o “bailinho da Madeira”. 

Foi uma tarde à antiga, num estádio onde se pode beber cerveja, onde há tochas, fumos e bandeiras. Onde os miúdos invadem o campo para jogar à bola no intervalo. Isto, obviamente, é a minha visão de Benfiquista, que foi passar uma tarde porreira, antes de se enervar de morte com o jogo na Madeira amanhã. Mas foi uma tarde para recuperar outras memórias (”o futebol é o nosso regresso semanal à infância”) e para me lembrar de que, além do Benfica, gosto do jogo. Das suas gentes, dos seus surrealismos, dos rituais.


O Farense ganhou num jogo com duas bolas ao poste, com 3 golos anulados por fora de jogo (no terceiro um adepto despejou uma cerveja para cima do fiscal de linha. Imperdível.) e com um penalty sacado pelo estádio. A invasão de campo final, com o mítico hino do Farense a passar nos megafones envelhecidos, foi o corolário de anos de sofrimento. A vitória do Farense fez-me sorrir, mas deve ter feito chorar todos os que sofreram a bom sofrer todos estes anos.
O J., percebo pelo facebook, estava lá. O T., no Brasil, deve ter recebido mensagens de loucura. Vou dar-lhes agora os parabéns. Estes anos todos, talvez já não pegue a desculpa de ser do Benfica por ter nascido em Lisboa. Mas acho que, passado tanto tempo, e com a felicidade da subida, nenhum dos dois me vai chatear com isso hoje.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Para ti, lagarto do pano

Quando, numa noite de Dezembro (Dezembro?) de 2001, no velhinho estádio da Luz, Mário Jardel se deixou cair, sacando um penalty decisivo no caminho do título do Sporting (ganhando esse derby, o Benfica passaria para primeiro lugar), eu estava lá. Foi um jogo mágico, onde Beto defendeu um remate em cima da linha e viu amarelo, JVP agrediu um jogador do Benfica e manteve-se em campo, enfim, foi uma coisa maravilhosa. A verdade é que o Sporting tinha melhor equipa: JVP, Jardel, André Cruz, Paulo Bento, Viana, etc, enquanto nós acreditávamos no Mantorras.

Foram tempos duros, em que fui gozado que nem um cão. Que nem um cão. Ir para o liceu era um inferno, ver jogar o Benfica era um pesadelo, aturá-los era horrível. Para cúmulo, o Benfica ganhou 2-1 ao Boavista (num jogo péssimo, péssimo) e eles foram campeões. Quando cheguei ao liceu no dia seguinte, depois de dormir a ouvir buzinas lá fora, estava um pano colado no portão "OBRIGADO, 4º CLASSIFICADO". 
Foda-se, aquele pano magoou-me. Eu admito a fraqueza, aquilo chateou-me. Um tipo supera e ignora várias provocações, tenta até ser um vencido digno e de cabeça levantada, capaz de manter diálogo com amigos do inimigo, mas há limites. Claro que se comentou rapidamente no liceu quem tinha sido o artista. Era primo de uma amiga minha e andava a passear aquela camisola (horrorosa, uma coisa impressionante) com um sorriso que hoje, na minha memória, ficaria melhor num cavalo. Chateou todos os Benfiquistas que encontrou enquanto eu - que ele não conhecia - lhe dirigia insultos sentado a um canto do pátio de liceu, a fazer contas aos reforços que compraríamos com os 18 milhões de contos que íamos receber pelo Mantorras.

Eram, como vos digo, tempos duros. Serve isto para lembrar que está no ADN de um Benfiquista gozar o Sporting. Isto é uma coisa que os adeptos do Porto não percebem, mas há coisas que são genéticas, que estão enraizadas e que estão demasiado vincadas. Há uma história entre Benfica e Sporting, houve jogadores que foram roubados quando o Benfica nasce e, para a minha geração, houve o Verão de 1993, em que nos foi roubado Pacheco e o boi de Repeses (um rapaz que jogava a trinco e que quando chegou à Luz nem sabia o que eram talheres). 
Faz-me, então, confusão, que alguém tenha "pena" do Sporting. Que alguém diga que "faz falta um Sporting mais forte" e coisas dessas. Que é preciso distanciar o Sporting do Porto para fortalecer a posição estratégica do Benfica no futebol português, concordamos. Mas querer bem ao Sporting? Não me lixem.

Eu tenho grandes amigos do Sporting, pessoas de quem eu gosto e que admiro, que são sportinguistas doentes (com o desplante de acharem MESMO que ser do Sporting é bom), mas a quem desejo todas as maldades possíveis desportivamente. Agora, desejar-lhes bem? Não aproveitar para os pisar? Não gozar estar 37 pontos à frente? Não amar ver o Eduardo Barroso a estrabuchar? 
Eu, sempre que vejo um Rojo com a bola e sou assumado por um pingo de nostalgia futebolística e penso "Epá, eu já vi ali o Balakov" e até me lembro do antigo estádio de Alvalade, recordo-me daquela manhã de liceu, daquele gajo com ar de gozo, a chatear malta do Benfica. Lembro-me do inferno que era vê-los todos contentes na rua. Recordo-me também desse Verão de 1993, em que me senti adulto pela primeira vez, quando fiz, com o meu amigo T., um plano de meio campo para a época seguinte, sentados no chão cor de tijolo, à sombra, desprezando a futebolada ao sol que se jogava no infantário. Mas lembro-me, sobretudo, daquele pano. 

É por isso que desde que ganhámos ontem que me sinto maravilhosamente bem. Acordo bem disposto, o café da manhã sabe melhor, trocam-se olhares cúmplices com correlegionários pela rua. Leio os jornais, as crónicas, a imprensa nacional e internacional. Fico bem disposto. 
E lembro-me sempre daquela manhã de liceu, em que a minha adolescência ficou manchada e interrogo-me onde andará aquele lagarto. Deve andar pior que fodido. Imagino-lhe a dor, imagino-lhe a raiva e as fases todas do luto. E imagino-o a recordar-se daquela manhã de liceu, em que se sentiu o maior. E venho dizer-lhe, do alto dos meus 37 pontos de avanço, mais 41 golos marcados e menos 18 golos sofridos, que quem se ri agora é aquele puto sentado no canto do liceu e que há muito que as nossas vitórias já queimaram esse pano.

Agora, calma e concentração, que ainda falta muito.

PS: Desculpem a demora (estivemos sem computador uns tempos e dá azar escrever na semana prévia ao derby)