quarta-feira, 5 de junho de 2013

A Guerra dos Tronos

O FCPorto é um clube estável há 30 anos. Ganhamos mais do que os outros porque somos melhores e porque os outros teimam, felizmente, em não aprender com os erros. Somos mais unidos, mais ambiciosos e mais exigentes. Temos altos e baixos como todos, mas, na hora da verdade, seja na última jornada ou ao minuto 92, olhamos nos olhos dos rivais e sentimos que somos mais fortes.

benfica e sportem mudaram muito em 30 anos. De presidentes, treinadores e equipas, de adeptos que, sem antecedentes familiares, passaram a usar tons de azul, de objectivos e conquistas diminuídos e também de mentalidade. Hoje, ambos têm uma certeza: o alvo a abater somos nós.

Do benfica já sabemos o que esperar. Não precisamos de grande motivação para alimentar esta guerra. Esta rivalidade está entranhada nos nossos avós, que viram como nos faziam pequenos à beira deles, nos nossos pais, que aguentaram tantos anos sem ganhar, e em nós, que, apesar das grandes humilhações que lhes temos proporcionado, sabemos como é difícil lutar contra eles.

Com o sportem, no entanto, parece que precisamos que alguém nos lembre que a guerra não acaba quando o adversário está caído no chão, a definhar. Desta vez foi o novo presidente, rapaz de voz rouca e ego maior do que o buraco financeiro do clube, que anunciou o corte de relações com o FCPorto. Portanto, resumindo, o sétimo classificado do campeonato não quer nada com o primeiro.

A guerra dos tronos no futebol português é isto: enquanto nós continuamos a dominar, os outros insistem em tentar derrubar-nos. E, de vez em quando, lá aparece um «lord» qualquer a mostrar serviço aos seus seguidores, que exigem o ódio ao Porto como ponto de partida para «o novo ciclo» de batalhas que aí vêm. Vestem as armaduras, exibem os seus estandartes ao alto com orgulho e gritam que estão prontos.

Na ficção, uma música foi escrita para eternizar o fim da «casa» Reyne de Castamere. No fundo, serve de aviso para todos aqueles que declaram guerra aos mais fortes quando não estão notoriamente preparados para a travar. Na realidade, tentem não esquecer-se disto, lagartos:



And who are you, the proud lord said,
that I must bow so low?
Only a cat of a different coat,
that's all the truth I know.
In a coat of gold or a coat of red,
a lion still has claws,
And mine are long and sharp, my lord,
as long and sharp as yours.
And so he spoke, and so he spoke,
that lord of Castamere,
But now the rains weep o'er his hall,
with no one there to hear.
Yes now the rains weep o'er his hall,
and not a soul to hear.

domingo, 2 de junho de 2013

Vamos ao hóquei

Não percebo como é que alguém pode estar contente com o que se está a passar no hóquei em patins. Não sei se já repararam, mas parece estar a tornar-se um hábito que, além da época futebolística já de si cheia de episódios de clubite duvidosa, surjam depois as modalidades como braço armado da guerra comprada entre os nossos dois clubes.

Antes que eu pareça politicamente correcta, deixem-me lembrar-vos que eu odeio o benfica. Não sou grande fã de hóquei em patins mas, se o Porto puder ser campeão contra eles com um 7-3 humilhante, por mim tudo bem. Tudo óptimo, aliás. Admito ainda que, para um lampião, seja melhor nem comparecer a mais uma final. Mas isto que se está a passar não é nada disso: não é um clube a tentar derrotar o outro, não é rivalidade, não são as picardias normais entre adeptos. É uma vergonha. E para todos.

O que vos peço ao lerem este texto é para despirem a camisola por uns segundos, por muito horrível que isso possa soar. Se são do FCPorto, lembrem-se como nos sentimos quando, com os bilhetes na mão, nos impediram de passar as portagens de Alverca porque não nos garantiam a segurança no pavilhão da luz. Ficámos indignados, certo? Como era possível que a organização de um jogo (clube anfitrião e polícia) estivesse a admitir, à partida, que não era capaz de o fazer?  O que seria feito de uma modalidade cujos adeptos estavam proibidos de ir ver os jogos fora? Por que não se sentam todos à mesa e discutem como melhorar os pavilhões, a actuação da polícia e afins, para que isso não se repita? Se não aceitámos isso na altura, não podemos agora encher o peito e chamar-lhes mariquinhas (que eles até são, como está provado cientificamente, mas adiante).

Se são do benfica, lembrem-se que , antes de nos chamarem animais e selvagens, terão de enumerar mentalmente o autocarro incendiado, os jogadores agredidos, o very-light, etc, etc. Não gostaram que isso acontecesse, certo? Não passaram a achar o vosso clube diferente porque alguém com quem partilham uma bancada o fez, pois não? E, sobretudo, se além de serem do benfica andam nisto a sério e há muito tempo, não podem aceitar que os nossos clubes achem que há adeptos e polícias diferentes.

Porque não há. Lamento o choque, mas não há mesmo. Se, no meio destas guerrinhas de dirigentes, conseguirem perceber isso, então podemos ir ao que interessa e o que interessa é o que se passa no local para onde as bancadas olham. Aí, peço-vos desculpa pelo fim da imparcialidade, mas acredito que somos melhores. E é isso que eu ainda espero ver esta tarde: um jogo entre dois rivais, muita garra, muita vontade, mais alegrias para nós e mais tristezas para os outros e o meu Porto a ser campeão europeu de hóquei em patins. Força rapazes!

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Treinadores

O que mais me custou no Jamor foi aquele fim. Não só o desrespeito ao Vitória, mas perceber que o plantel pode estar já voltado contra Jesus. Isso significa deitar fora o que de bom foi feito este ano (não, não fiquei contente com a época, mas começar tudo do zero não me parece ser o caminho mais curto para os títulos). Não tenho medo que Jesus vá para o Porto. O Porto, caso ainda não tenham reparado, já era fortíssimo com Vítor Pereira. O que me mete mesmo medo é o Benfica não ter substituto à altura. Um substituto que ponha o Benfica a jogar como jogava. O Benfica não acaba se Jorge Jesus sair. Mas se não vier alguém tão ou mais competente, o Benfica acaba comigo. E quem é que eu vejo como treinador do Benfica?

1. Hipóteses impossíveis, irrealistas, mas tão boas que há que escrever sobre elas

1. José Mourinho
Recebido na Luz em apoteose, Mourinho começaria a abrir a dizer que todos os seus títulos nos azuis tinham sido comprados. Mostraria provas irrefutáveis e diria que nem tocou na Champions de 2004 "porque tinha sido o título mais sujo de sempre". A UEFA, com provas tão concretas, suspenderia o Porto das provas da UEFA por 25 anos, e os azuis desceriam à 2ª distrital. Na Luz, Mourinho mostra-se-ia um Benfiquista à antiga, chorando em cada golo e conferência de imprensa. Os jogadores tatuariam o emblema de tão ligados ao treinador. 
Mourinho levantaria a Champions na Luz, dizendo que era o seu sonho. 

2. Jurgen Klopp
O Benfica torna-se, em menos de um mês, no clube mais cool da Europa. A banda sonora na Luz passa a ser rock n`roll e a equipa joga como os Doors tocavam. A Europa fica rendida aos rapazes da Luz, que em cada entrevista mostram irreverência, criatividade e futebol. A águia vitória entraria na Luz no braço de Klopp, ambos de óculos escuros. Quando a equipa chega ao Dragão, saem do autocarro impávidos e serenos, todos de fato e óculos escuros, à Reservoir Dogs, ignorando as pedras que chovem de todo o lado. Banda sonora: "Little Green Bag". 
Quando Enzo senta Helton e faz o 0-3, finge cortar-lhe a orelha. Klopp, bebâdo, mija na campa de Bella Guttman nos festejos da Champions.


A C., como o resto do mundo, deseja, no seu íntimo,  ter nascido Benfiquista e eu seria visto nu a correr por Lisboa.

2. Hipóteses reais e boas, que me deixariam tão nervoso como contente com a mudança

Marcelo Bielsa e Pellegrini

Treinadores sul-americanos com aquela filosofia "Guardiola" de pôr os jogadores a passarem a bola a outros com a camisola igual, com uma filosofia de ataque, mas que dariam ao Benfica uma aura à Gabriel Garcia Marquez. As palavras de Bielsa antes de cada derby seriam eternas. Os jogadores do Benfica deixariam de ser milionários mimados e dedicariam todas as vitórias ao povo português que sofre. Bielsa diria que Gaspar só era Benfiquista nas palavras, não nos actos. Quando entrássemos no D. Afonso Henriques, faríamos guarda de honra ao Vitória, para nos limparmos da vergonha de não os termos visto levantar a Taça.
Pellegrini manter-se-ia low profile e demasiado educado para festejar as 30 vitórias consecutivas no campeonato. 
O Benfica seria um exemplo de ética, honra e futebol e a C. deixaria de poder dizer fosse o que fosse sobre o Benfica. Eu e todos os Benfiquistas festejaríamos as vitórias calma e melancolicamente, a ler os 100 anos de Solidão.

3. Hipótese portuguesa que me deixaria nervoso mas ainda longe do suicídio

Paulo Fonseca

Ao contrário de Marco Silva, treinador do Estoril, Paulo Fonseca praticamente não tinha jogadores de futebol quando chegou a Paços. Ao contrário de Marco, que bastava saber soletrar "Li-cá" e "Ste-ven" no 11 inicial todas as semanas para acabar o ano à frente do Sporting, Paulo Fonseca começou o primeiro treino na Mata Real sabendo que havia ali jogadores com muitos anos de José Mota. Começou por explicar o que era a bola, as suas utilidades e objectivos no jogo, e acabou com uma equipa que jogava muito à bola para os padrões lusos.
Além disso, topa-se à légua que Paulo é do Benfica. E da margem sul. Com Fonseca, o Benfica reencarnaria o espírito da margem sul dos anos 80 e até as tochas iam ser permitidas na Luz. Enzo Perez e Cardozo ficariam com bigode. 
O Benfica seria campeão à rasca, mas as nossas vitórias sofridas seriam "à Benfica" e "com mística" segundo "A Bola". A C. continuaria a detestar o Benfica e eu seria visto, de bigode, a invadir o Jamor depois de darmos 7-0 ao Sporting.

4. Hipóteses estrangeiras que me deixam muito nervoso

Pochettino, Djukic, Laudrup e afins

Mais ou menos conhecidos pelas suas carreiras futebolísticas, qualquer um destes seria engolido por qualquer Setúbal que se apresentasse na Luz com 1398248634 defesas e um brasileiro a correr lá à frente. Olhariam intrigados para os jogos, a tentar perceber por que é que os métodos que utilizavam nos seus futebóis não funcionam cá no burgo. Lá pelo Natal já estariam nas suas terras, com o Benfica a 12 pontos do Porto e a 3 do Braga. Em desespero, a direcção ia buscar Paulo Fonseca ou a temível hipótese 5.
A C. festejaria o tetra campeonato lá para Fevereiro e os meus amigos salvavam-me à última de me atirar da ponte. 

5. Hipótese portuguesa que me deixa muito nervoso

Rui Vitória

Rui Vitória tem ar de bom rapaz, Benfiquista e até já tem currículo. Mas não é treinador para o Benfica. E deixa-me nervoso que o seu ar de bom rapaz, o seu Benfiquismo e agora currículo enganem alguém a pensar que sim.
Eu jogo, com a C. e mais uns loucos, Egolo, um jogo do maisfutebol. Isso obriga-me a, por vezes, ter que perguntar quanto ficou um Moreirense-Gil Vicente, quem fez golos, assistências, etc. Isso leva-me a já ter passado algumas tardes da minha vida a ver jogos do Vitória como desculpa para não estudar. Como Paulo Fonseca, Rui Vitória não tinha ninguém no plantel capaz de fazer qualquer coisa parecida com jogar bom futebol. No entanto, nunca, em vários jogos que eu vi do Vitória, vi mais estratégia do que "Chuta para a frente e espera que o Baldé segure e avançamos". Reparem: eu simpatizo com o Vitória, com os seus adeptos e, no meio de toda a merda que é perder uma Taça, até dou de barato que seja para eles. Mas não há ali nada. Não há "dedo de treinador". Houve um milagre (que já tinha acontecido nos quartos-de-final com o Braga). 
Com Rui Vitória, perderemos o campeonato em Novembro, mas um tropeção do Porto na Choupana (já com o campeonato ganho, pagando anos de favores) fará a nação Benfiquista acreditar. A equipa joga um futebol horrível, mas o efeito Mário Wilson continuará no ar. 
Acabaremos a lutar com o Sporting pelo 3º lugar na última jornada. A C. nem sequer festeja o tetra porque a hora do jogo coincide com a hora das visitas à Psiquiatria e os médicos dizem que eu estou melhor.

Memórias

Adoro fotografias. Adoro pegar nos nossos álbuns de vez em quando e recordar-me dos sítios que já visitámos, dos momentos que já passámos, das pessoas que já conhecemos. Admito, contudo, que não somos um casal lá muito fotogénico. Sempre que estamos à frente de um monumento e nos sentimos obrigados a tirar uma fotografia os dois, começamos logo a sorrir, com vergonha daqueles dois segundos entre a pose e o clique. É estúpido, não faz sentido e acabamos por ficar basicamente sempre mal.

Mas sabemos que aquela fotografia vai ser um dia fundamental. Para nós, que vamos achar que éramos lindos quando éramos novos. Para os nossos filhos, que vão achar que os pais se vestiam de maneira ridícula. Para os nossos amigos, que vão contar aos nossos filhos que estávamos bêbados quando tirámos aquela fotografia. As imagens nas quais ficamos tão feios hoje vão contar a nossa bonita história um dia.

E também é assim no futebol. Eu tinha poucos meses de idade, mas na minha cabeça está aquele frame exacto do calcanhar de Madjer, visto uns anos mais tarde. Tinha 16 anos e alguém me tirou uma fotografia a festejar o 3-2 em Sevilha como uma alucinada. Sempre que o FCPorto ganha um título, ou seja, várias vezes ao ano, guardo os jornais do dia seguinte para eternizar aquelas capas.

Daqui a umas décadas, sei que vou olhar para aquelas imagens e vou poder dizer aos nossos netos:

- E aqui está o João Pinto a roubar a Taça dos Campeões Europeus só para ele. Aquilo é que era um jogador à Porto
- E nesta temos o Vítor Baía e o Jorge Costa a levantarem a mesma taça a meias. Aquilo é que eram uns campeões
- Estão a ver este moço cheio de acne a beijar a taça? Chamava-se Deco e era um mágico
- Olha, querido neto, é por causa deste rapaz com este penteado estúpido que te chamas Kelvin.

Enfim, há muitas razões para eu recordar estes jogadores. Uns sentiram o Porto, outros brilharam no Porto, outros as duas coisas ao mesmo tempo. Todos ganharam no Porto. Mas, admitindo que a minha memória não será a mesma, e que os nossos netos, portistas fanáticos, vão querer saber tudo, também ouvirão respostas destas:

- Ui, esse era o Quim, só sei o nome dele porque decorei o 11 que entrou em campo em Viena
- Esse acho que era o Carlos Alberto ou um nome qualquer de duo brasileiro, um anormal com mania de estrela que marcou o primeiro golo em Gelsenkirchen
- Postiga. Esqueçam...
- Não me lembro do nome. Era um super-herói qualquer... Vai perguntar ao teu avô que ele sabe porque o gajo humilhou o benfica.

A memória de um adepto é a coisa mais justa do futebol. Dos grandes, dos únicos, dos nossos, vamos lembrar-nos sempre. Também nos vamos recordar do colombiano que marcou de calcanhar ao benfica, nos deu uma Liga Europa e depois trocou-nos por um clube pequenino. Também não esqueceremos o russo que marcou nas finais europeias. Até o Jorginho continuará vivo na minha memória enquanto durar o efeito daquele campeonato ganho em alvalade.



De vocês, James e Moutinho, não prometo que vá lembrar-me. Não levem a mal. Eu sei que deram tudo no Porto, que são jogadores excepcionais e que irem para um clube de merda não tem mal nenhum desde que vos paguem bem. Hoje ainda sou capaz de lembrar-me do golo do Moutinho na reviravolta da Taça em 2010/2011 ou da cavalgada do James para o segundo golo na luz de 2011/2012. Daqui a 20 anos, esses foram só pequenos momentos na história do meu grande clube.

Quando mostrar aos nossos netos as fotografias que guardei dos últimos três anos, vou contar-lhes tudo sobre o Lucho, por exemplo. Vou rir-me com eles do Helton e vou fazer questão que saibam a importância do Fernando. Vocês, quando muito, serão “aqueles dois morcões que nos valeram 70 milhões de euros”. Os nossos netos nunca saberão os vossos nomes.

domingo, 26 de maio de 2013

Por mim, fica

Estava no 6º ano e, portanto, no auge da estupidez da pré-adolescência, quando a professora de Educação Física decidiu organizar um torneio de interturmas de basquetebol feminino. Não percebi a ideia dela: juntar um desporto que claramente sai prejudicado com atletas que teriam uma média de 1,40 metros, com miúdas cuja única competição de interesse era o duelo Backstreet Boys VS Hanson. Às tantas, o facto de a escola só ter um bom campo de basquetebol, quase sem buracos no chão e apenas com um dos cestos tortos, influenciou a decisão.

A minha equipa era fortíssima. Eu, a D. e a S. éramos o habitual trio titular, mas tínhamos três suplentes de qualidade, que faziam todas as posições (não faço ideia quais): a J., a A.L. e a C.. Eu e a D. éramos muito baixinhas e, portanto, a equipa adversária começava por ganhar confiança só de olhar para nós. Mind games, se é que me entendem. A S., no entanto, tinha centímetros por todas. Era a que conseguia ficar mais perto do cesto: saltando, só lhe faltava para aí um metro.

O primeiro jogo foi o mais renhido. Não me lembro ao certo do resultado, mas sei que andou perto de um 44-6. Um massacre.  Não facilitámos nem um bocadinho. Sentimo-nos uma equipa da NBA a jogar contra os infantis do Carcavelinhos. No final, a professora avisou-nos que aquele ímpeto todo não nos serviria de nada contra uma equipa que conseguisse fazer dois passes seguidos. Era chata, a mulher.

O segundo jogo foi hilariante. 54-0. Estávamos num dia mau e falhámos muitos cestos, mas as outras nem passavam do meio-campo. Recordo que falamos de basquetebol, pelo que, provavelmente, esta foi a única partida de sempre a terminar com uma das equipas a zero. E pensam vocês: mas qual foi a piada de bater em ceguinhos (expressão que faz todo o sentido se as vissem a tentar acertar no cesto)? É que a “estrela” da outra equipa era uma super-beta irritante, que acabou a fingir um ataque de asma na iminência daquela que espero ter sido a derrota mais humilhante da sua vida. A professora não gostou da nossa atitude, porque devíamos ter mais calma, ser melhores desportistas, enfim, coisas sem sentido para quem tinha acabado de espetar 54-0 às betinhas que entravam em campo bem vestidas.

Apesar da nossa irreverência, a professora decidiu inscrever-nos num torneio interescolar. Ela sabia que podíamos ir mais longe. Foi uma excitação imensa, e lá fomos nós, as meninas de 1,40 m, de peito aberto. Sem medo. Para cima delas. As adversárias eram a escola da Torrinha e, embora tenha consciência que os anos as possam ter tornado maiores na minha cabeça, o trio titular tinha ar de quem já devia andar na faculdade. Eram enormes, porra. Mas força, temos de acreditar em nós, dizia a professora, tentem ter a bola o mais possível e não falhem cestos. Era tudo muito bonito, mas a rapariga que me estava a marcar tinha ar de quem podia ser minha mãe.

Perdemos, claro, mas em nossa defesa devo especificar que fomos roubadíssimas. Levámos empurrões, cotoveladas, pisadelas e algumas de nós até passaram pelo chão. Note-se, mais uma vez, que o desporto em causa ainda é o basquetebol, onde praticamente não é suposto os atletas tocarem-se. Mas o árbitro era o maior anormal da história e “deixava jogar” à Capela para que nós nos divertíssemos. Como se houvesse alguma diversão em sentir um braço suado e forte a ir contra a minha barriga, ou cara, ou mão.

Saímos do campo em lágrimas. Corremos para a professora em busca de um ombro amigo e revoltado com tamanha injustiça. E ela, com toda a calma do mundo, disse-nos apenas que tínhamos conseguido pontos suficientes para sermos repescadas. Ok, não parece mau, mas é que logo a seguir soubemos que, nas meias-finais, íamos enfrentar exactamente a mesma equipa. A sério, o mundo é mesmo uma merda. Bem, restava-nos pedir que fosse outro árbitro a apitar a partida. Mas a professora, mais interessada em ensinar-nos uma lição de vida do que em vencer um torneio de basquetebol feminino do 6º ano - vá-se lá entender isso! -, recusou. Creio que este terá sido o momento definidor da minha forma de estar no desporto: nunca mais quis saber do fair-play, do desportivismo e dessas tretas todas; só quero mesmo é ganhar.

Naquela altura não percebi a professora , tal como não percebi Vítor Pereira durante muito tempo.  No primeiro ano, notou-se logo que havia uma certa ideia, mas confundia-me a aparente lentidão da equipa, o pensar 500 vezes antes de executar, a calma, a paciência, a falta de ímpeto. Não gostava também da aparente apatia fora do campo, da falta de garra e de palavras de incentivo ou que criassem receio nos adversários. Era chato, o homem. No jogo da luz comecei a perceber que estava errada. Nesta época, vi o meu Porto fazer jogos impressionantes e, ainda mais importante do que isso, ganhámos outra vez e arrasámos o nosso rival. Com uma ideia, com paciência, com lágrimas arrepiantes aos 92 minutos e um treinador que foi uma peça fundamental no sucesso.





Hoje, mais distanciada da vergonha que foi chegar à escola e dizer aos colegas que perdemos duas vezes com a mesma equipa, percebo que a professora teve um enorme gesto no sentido de nos formar como pessoas. Hoje, ainda na euforia de três épocas incríveis, quero agradecer a Vítor Pereira por ter aguentado todos os empurrões, cotoveladas e pisadelas e por ter conseguido não só levantar-se do chão, mas também levar este clube ainda mais longe.

Obrigada, mister. Por mim, é para ficar.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Aos meus rivais

No meio das profundezas desta dor toda, com estilhaços de sonhos em todo o lado, há coisas que só o futebol me poderia dar. Farto-me de repetir: o futebol é a melhor metáfora sobre a vida. No futebol encontram-se a maior das glórias, a mais amarga das lágrimas, a devoção, a amizade. O amor. No futebol estão passado, presente e futuro, numa concepção de tempo completamente diferente, em que golos marcam eras, em que falhanços mudaram vidas. E, nos escombros das derrotas do Benfica, descobri que tenho os melhores rivais que podia desejar.

Em Amesterdão perguntaram-me, recorrentemente, como foi suportar a C. depois do clássico. Suponho que nos imaginem sempre à pancada cá em casa, mas não é assim. Gostar de futebol passa - obrigatoriamente - por saber respeitar quem sofre como nós. E sendo os nossos clubes parte da nossa vida, quase órgãos suplementares do nosso corpo, se não soubéssemos viver com a doença do outro isto era impossível. 
Antes que continuem a ler a achar que isto é um texto fofinho, desenganem-se. É difícil alguém detestar tanto o Porto ou Sporting como eu. Mesmo muito difícil. Eu não considero do Benfica quem torce por eles nas competições europeias. Se eu fosse presidente do Benfica essas pessoas ficavam sem os cartões do sócio e banidas do Estádio da Luz até reverem as suas posições. Vou mais além: quando eu percebo que o interlocutor é daqueles Benfiquistas pela metade (ou às vezes nem é), sinto-me quase ofendido de mo terem apresentado como tal. É uma coisa que nos acontece, a nós fanáticos, comummente: estamos no trabalho e de repente: "Olha, M.: apresento-te fulano tal que também é grande Benfiquista!". E cinco minutos depois percebo que o "fulano tal" nem sabe com quem jogamos para a semana, quanto mais os castigados, as nuances tácticas do adversário, etc. Fico fulo. E agora, que já vos lembrei que sou uma pessoa um nadinha obcecado com o Benfica, já posso voltar a falar dos meus rivais sem me colocarem em causa.

O grande problema do fundamentalismo é que é fácil deixarmo-nos enrolar por ele. Um tipo como eu, que lê todas as notícias do Benfica ao pequeno-almoço, que confere blogs, fóruns, que tem uma lista mental das grandes discussões entre adeptos do Benfica, facilmente perde noção da realidade. Os outros são uns merdas, cheiram mal, compram árbitros, nós somos os maiores, sem defeitos, enviados de um ser divino. 
É muito engraçado descobrir o outro lado. O meu pai, na primeira vez que viu a C. a ver futebol, ia-se  engasgando com o primeiro pedido de falta e na segunda vez que a C. refilou com o árbitro percebeu que estava na presença de um ET, mas com comportamentos vagamente semelhantes.
No tempo que passo no Porto, com a família da C., descobri que do outro lado há gente como eu, que ama o seu clube, que também discutem tudo, que também vibram, que também viram a cara nos ataques adversários. Uma pessoa pára para pensar e fica com vontade de rir das semelhanças. Ganha-se, obviamente, empatia. Passei a partilhar com o pai da C. os documentários sobre campeonatos do mundo da ESPN e, até à data, nunca jantou lá em casa nenhum árbitro (se bem que, comparado ao meu sogro a jogar dados, o Calheiros era um anjo).

Vem isto a propósito de como tenho sido tratado após estas terríveis semanas: com respeito. Não o respeito do medo, como se eu fosse responder mal. Não com o respeito paternalista com que se tratam os maluquinhos (se bem que esse talvez fosse aplicável ao meu caso). Os meus rivais trataram-me bem porque gostam de mim. 
Quem me conhece sabe que o Benfica é parte de mim, da minha vida. Quem me conhece e gosta de mim, lembra-se de mim sempre que vê o Benfica na televisão ou o jornal, mesmo que não ligue nada a futebol. A minha avó, que nem sabe quantos jogadores jogam de cada lado, diz que fica contente por mim sempre que ouve os festejos dos golos no café ("quando é do Benfica é sempre mais forte"). Gozar-me nesta altura é gozar uma pessoa de luto. Todos os que me conhecem e me são queridos, todos os que sabem o que eu vibro, sofro, choro e vivo o Benfica, tiveram a amabilidade de uma palavra de consolo ou até de um olhar que diz tudo. Mas se dos Benfiquistas não seria de esperar outra coisa, enterneceu-me sobretudo o gesto dos rivais. 
Os rivais, os verdadeiros, os que são como nós, mas de outra cor, não atacam numa altura destas. Não quer dizer que fiquem tristes com as derrotas do Benfica. Pelo contrário, desejam-nas com fervor. Mas, ao me ligarem tanto ao meu clube, têm ainda a destreza de separar as águas e de não confundir o que detestam o meu clube com o que gostam de mim. Acho que uma nobreza assim só existe no futebol e no seu realismo mágico. 

Este texto é para eles. Para a C., para a família dela, para os meus amigos lagartos que nem falaram do assunto. Se um dia forem vocês a passar por isto (e sabe Eusébio o que eu desejo mal aos vossos clubes), lá estarei, esperando ser igualmente nobre. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Aos jogadores do Porto (II)

Confesso: eu já não acreditava. Bem sei que ficava mais bonito vir agora dizer o contrário, mas preciso que vocês o saibam. Há mais de um ano, precisamente após um jogo em Paços de Ferreira, escrevi-vos com raiva, desesperada por um campeonato que nos parecia fugir e acabei por ser tremendamente injusta. Por isso, devo-vos a minha sinceridade neste momento. Nunca deixei de vos apoiar e tentei até calar os habituais derrotistas, mas a verdade é que me preparei para o pior.

Foi algures durante o benfica-sportem. Senti que isto estava perdido, que não havia nada a fazer. Sabia que vocês iam ser competentes até ao fim, mas duvidava que o nosso rival deixasse escapar a enorme ajuda que estava a receber. Já nem vi o jogo deles na Madeira com esperança. Só me lembro de um central a fazer um penalti idiota aos três minutos e de outro a marcar um golo na própria baliza. Só me recordo daquela sensação de impotência enquanto revia mentalmente os nossos dois penaltis falhados que iam decidir esta época.



Agora, não sei como vos agradecer. Talvez vocês nem percebam o que eu senti naquele maravilhoso minuto 92, quando o meu coração parou ao ver as redes a dançar e também eu me ajoelhei, mas de alívio. De alívio, sim, porque quando o nosso destino é ganhar nada faz sentido a não ser a vitória (ao contrário daqueles que fazem épocas brilhantes sem títulos). E que justa que ela foi! Não se deixem enganar por eles, os que se queixam do azar, os coitadinhos. O que fez a diferença num campeonato tão equilibrado foi a vossa vontade de vencer nos dois jogos contra eles. E, por isso, por quererem mais do que eles, fica aqui o meu enorme obrigada.

Obrigada por terem percebido o que é o Porto. Obrigada por terem lutado, por terem acreditado mais do que eu e por nunca terem desistido. Obrigada por, ainda por cima, terem honrado Pedroto e mostrado que o nosso rival não tinha estofo de campeão. Foi mesmo perfeito.

Daí que ontem, outra vez em Paços de Ferreira, tenha dado por mim a pensar o que é que se segue. O que é que nos falta ganhar? De que forma nos falta vencer? O que é que nós, os adeptos, vos podemos pedir mais? Só nos últimos três anos, vocês golearam-nos, ganharam-lhes um título na própria casa, brincaram com eles naquela reviravolta da Taça, recuperaram cinco pontos de distância e, agora, destruíram-nos na penúltima jornada, mesmo no último suspiro.

Por mim, está feito. Sinto-me totalmente preenchida como adepta. Se o mundo acabar hoje, levo comigo Sevilha, Gelsenkirchen e Dublin, a luz apagada e o Dragão em chamas, o Baía ou o Lucho a levantarem as taças, o punho levantado do Deco ou do Moutinho, o olhar do Pedro Emanuel no Japão e o Mourinho a pedir calma antes da Grécia, o sorriso de Robson ou de Villas Boas, o calcanhar de Madjer ou de Falcao e agora também a traquinice do Kelvin.


Se eu conseguisse desligar a tomada do futebol, já tinha vivido de tudo. Já sofri, já chorei, já saltei, já cantei até ficar sem voz, já abracei desconhecidos, já viajei muito e festejei ainda mais. Felizmente, não consigo. Para o ano há mais e vêm aí novos desafios, novas aventuras, mais sofrimento e, como falamos do FCPorto, certamente mais vitórias. Porque neste clube não há novos nem velhos ciclos, há apenas uma vontade constante de ganhar.

P.S. Os agradecimentos ao treinador ficarão para outro texto.

P.S.2 Parabéns aos campeões de andebol e hóquei (sempre contra os mesmos, que pena) e perdoem-me não ser uma boa adepta vossa.