O problema arrastava-se há semanas. O jovem Bruma, promessa
do futebol português, tinha brilhado no Mundial sub-20 e estava a ser
aconselhado pelos seus empresários a deixar o sportem:
-“Bruma, eles não têm dinheiro para te pagar, nem sequer vão
à Europa e estão sempre a ameaçar fazer uma época ainda pior do que a anterior.
Isto não é clube para ti”
-“Mas foi lá que eu me formei, é lá que tenho os meus amigos…
O que será de mim se deixar de treinar com o Rojo como adversário?”
-“Ok, admitimos que se tornava mais fácil brilhares no mesmo
plantel do Viola e do Rubio. Mas está na hora de dares o salto, de quereres
ganhar títulos”
-“Ganhar títulos? Oh chefe, podia ter dito logo é para ir
para o Porto. O que é que tenho de fazer então?”
A estratégia estava montada. Iriam alegar que o contrato terminou
agora e que, portanto, Bruma é um jogador livre. No entanto, do outro lado
estava Bruno de Carvalho , um negociador implacável, com dias de experiência na
matéria:
-“O Bruma é do sportem. Não tanto como eu, que sou o maior
sportinguista do mundo, mas é. Nada a fazer”
-“Mas, presidente, o contrato acabou…”
-“Desculpe, eu disse-lhe que podia falar? Convoco já uma
conferência de imprensa com adeptos presentes para discutirmos o assunto de
forma calma e ponderada”
-“Não, presidente, não faça isso… O Bruma gosta do sportem,
não é por mal… Ele só quer ganhar títulos”
-“Títulos? Então que não se queixe, este ano fomos campeões
de futsal. Não me viu nas capas dos jornais a festejar?”
-“Vi, sim… Estava muito bem…”
-“Poças, bem fiquei eu com o novo equipamento do sportem.
Viu? Que espectáculo!”
-“Sim, sim… Mas estamos a desviar-nos do assunto…”
A conversa durou dias, semanas até, porque Bruno foi
enumerando as suas provas de amor ao sportem. Numa tarde, os empresários de
Bruma descaíram-se:
-“Já percebemos que o presidente é o maior sportinguista do
mundo, já aceitámos as garrafas de água e as bolas que nos foi atirando com
carinho e até já comprámos uma camisola com o número 12 e o seu nome nas costas…
Mas ainda não nos disse que vai pagar um salário decente ao Bruma e que esta
equipa vai ganhar títulos. Assim sendo, vamos tentar encaminhá-lo para o Porto”
-“PORTO?? VOCÊ DISSE PORTO? Eu estou de relações cortadas
com essa gente!”
-“Está você, mas não estamos nós. E o Bruma gosta da ideia de
ganhar alguma coisa…”
-“Essa é a prova que ele não é do sportem como eu! No
sportem já nos habituámos à ideia de não ganhar nada!”
Os empresários foram expulsos do gabinete e fugiram a correr
de alvalade, enquanto viam o Rinaudo e o Schaars a ficar para trás, como tantas
vezes acontece. Quando perceberam que estavam em segurança, ligaram à única
pessoa no mundo capaz de salvar um jogador do sportem: Jorge Nuno Pinto da
Costa.
Enquanto isso, Bruno de Carvalho fazia uma chamada para a
bancada Sul:
“-Amigos, preciso de ajuda. O Bruma, que não é do sportem
como eu, não aceita ficar cá a ajudar-nos a lutar pela manutenção. Temos de
agir”
-“Não se preocupe, presidente, nós tratamos disso”.
Já era de noite quando chegaram à porta da casa do Bruma. Ao
longe, avistaram um vulto de costas. Tinha vestida a camisola do sportem, com o
número e nome que o presidente exigia.
-“É ele. Vamos raptá-lo”.
O vulto nem resistiu. Foi atacado por trás e pelos lados e
não teve tempo de rematar. Quando deu por si, estava com um saco na cabeça, a
ser transportado numa carrinha onde tocava religiosamente o CD “só eu sei…”. De
repente, o veículo parou e tiraram-no da mala. Sentiu que lhe encostavam um
telemóvel ao ouvido e, do outro lado, ouviu a voz rouca de Bruno de Carvalho. Decidiu
na hora:
“-Presidente, eu aceito assinar pelo esportingue. Mande-os
soltarem-me por favor”
“-Mas, Bruma, por que é que estás a falar brasileiro?”
“-Não sou o Bruma, não… Meu nome é Kléber. Pinto da Costa me
vestiu com aquela camisola e mandou-me estar calado até falar directamente com
você. Mas eu quero mesmo o esportingue, quero muito, é o clube ideal para mim!”
A 300 quilómetros dali, Bruma era apresentado no Estádio do
Dragão e já falava à campeão. No seu gabinete, Bruno de Carvalho discava o
número do presidente do FCPorto:
-“Olá, presidente. Tenho de admitir: ganhou mais uma vez.
Diga-me lá quanto quer pelo Kléber…”
