quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O melhor onze

O meu clube anda a pedir aos adeptos para votarem no melhor onze da sua história. À primeira vista, pode parecer fácil clicar em bonequinhos previamente definidos, mas, para nós, os doentes, escolher o melhor onze de sempre é uma responsabilidade enorme.

Às vezes espanta-me a facilidade com que os clubes se esquecem que os adeptos são aquilo que de mais importante têm. Por exemplo, este Verão, ninguém do FCPorto me perguntou quem é que eu achava capaz de ser um bom suplente para o Jackson (disse suplente, não substituto, se o deixam sair este ano mato-vos). É incrível, não é? Felizmente, eu também achava que o Ghilas era uma óptima opção, o que diminui a gravidade de não me consultarem para este tipo de decisões importantes, nas quais tanto tempo passo a pensar durante a pré-época.

Daí que pedirem-me para escolher o melhor onze de sempre me faça sentir finalmente importante. Eu, C., simples adepta, sócia apenas desde os 3 anos (um escândalo, eu sei), posso contribuir para que onze rapazes tenham o orgulho imenso de ser escolhidos. Mas não é fácil, admito.

Desde logo porque eu tenho 26 anos. Ora, num clube com 120 anos, isso torna-se um pouco redutor. O primeiro FCPorto da minha memória tinha Domingos e Kostadinov na frente. Tinha Baía, João Pinto e Aloísio lá atrás e tinha André e Rui Barros no meio. Já não tinha Fernando Gomes, Mlynarczyk, Frasco ou Futre. O FCPorto eu vi, que eu tanto apoiei, tinha o triângulo Costinha-Maniche-Deco e teve Jardel, Lisandro e Hulk. O FCPorto da minha geração é um clube com grandes jogadores, mas a maioria chega de longe, ganha durante algumas épocas e troca-nos por outro. São craques, mas dificilmente ficarão na nossa história.

Mas o meu FCPorto não sou só eu. O meu FCPorto é o meu avô a falar do Cubillas, é o meu pai a exemplificar os livres do Branco e a minha mãe a recordar o calcanhar de Madjer. O meu FCPorto são décadas de histórias, de muitas vitórias mas também muitas derrotas, de um Pavão que faleceu muito antes de eu nascer e de um Pedroto que eu nunca conheci. O meu FCPorto é muito mais do que eu, do que tu, do que Pinto da Costa, do que Robson ou Mourinho, do que Deco ou Falcao.

Por isso, escolhi estes, mas podia ter escolhido muitos outros:

Vítor Baía, o melhor guarda-redes português de sempre
João Pinto, pelas imagens com a taça nas mãos
Aloísio, pelo estilo
Fernando Couto, pela raça
Branco, pelos tais livres
André e Frasco, por todos os jogadores à Porto
Deco, com muita pena de não poder incluir também Rui Barros
Madjer e Futre, pelo início de uma grande era
Jardel, porque queria escolher Domingos mas o M. ficou escandalizado por eu deixar de fora o ponta-de-lança que mais o fez sofrer.

E vocês? Que onze escolheram?

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Bruma, o rapto

O problema arrastava-se há semanas. O jovem Bruma, promessa do futebol português, tinha brilhado no Mundial sub-20 e estava a ser aconselhado pelos seus empresários a deixar o sportem:

-“Bruma, eles não têm dinheiro para te pagar, nem sequer vão à Europa e estão sempre a ameaçar fazer uma época ainda pior do que a anterior. Isto não é clube para ti”
-“Mas foi lá que eu me formei, é lá que tenho os meus amigos… O que será de mim se deixar de treinar com o Rojo como adversário?”
-“Ok, admitimos que se tornava mais fácil brilhares no mesmo plantel do Viola e do Rubio. Mas está na hora de dares o salto, de quereres ganhar títulos”
-“Ganhar títulos? Oh chefe, podia ter dito logo é para ir para o Porto. O que é que tenho de fazer então?”

A estratégia estava montada. Iriam alegar que o contrato terminou agora e que, portanto, Bruma é um jogador livre. No entanto, do outro lado estava Bruno de Carvalho , um negociador implacável, com dias de experiência na matéria:

-“O Bruma é do sportem. Não tanto como eu, que sou o maior sportinguista do mundo, mas é. Nada a fazer”
-“Mas, presidente, o contrato acabou…”
-“Desculpe, eu disse-lhe que podia falar? Convoco já uma conferência de imprensa com adeptos presentes para discutirmos o assunto de forma calma e ponderada”
-“Não, presidente, não faça isso… O Bruma gosta do sportem, não é por mal… Ele só quer ganhar títulos”
-“Títulos? Então que não se queixe, este ano fomos campeões de futsal. Não me viu nas capas dos jornais a festejar?”
-“Vi, sim… Estava muito bem…”
-“Poças, bem fiquei eu com o novo equipamento do sportem. Viu? Que espectáculo!”
-“Sim, sim… Mas estamos a desviar-nos do assunto…”

A conversa durou dias, semanas até, porque Bruno foi enumerando as suas provas de amor ao sportem. Numa tarde, os empresários de Bruma descaíram-se:

-“Já percebemos que o presidente é o maior sportinguista do mundo, já aceitámos as garrafas de água e as bolas que nos foi atirando com carinho e até já comprámos uma camisola com o número 12 e o seu nome nas costas… Mas ainda não nos disse que vai pagar um salário decente ao Bruma e que esta equipa vai ganhar títulos. Assim sendo, vamos tentar encaminhá-lo para o Porto”
-“PORTO?? VOCÊ DISSE PORTO? Eu estou de relações cortadas com essa gente!”
-“Está você, mas não estamos nós. E o Bruma gosta da ideia de ganhar alguma coisa…”
-“Essa é a prova que ele não é do sportem como eu! No sportem já nos habituámos à ideia de não ganhar nada!”

Os empresários foram expulsos do gabinete e fugiram a correr de alvalade, enquanto viam o Rinaudo e o Schaars a ficar para trás, como tantas vezes acontece. Quando perceberam que estavam em segurança, ligaram à única pessoa no mundo capaz de salvar um jogador do sportem: Jorge Nuno Pinto da Costa.
Enquanto isso, Bruno de Carvalho fazia uma chamada para a bancada Sul:

“-Amigos, preciso de ajuda. O Bruma, que não é do sportem como eu, não aceita ficar cá a ajudar-nos a lutar pela manutenção. Temos de agir”
-“Não se preocupe, presidente, nós tratamos disso”.

Já era de noite quando chegaram à porta da casa do Bruma. Ao longe, avistaram um vulto de costas. Tinha vestida a camisola do sportem, com o número e nome que o presidente exigia.

-“É ele. Vamos raptá-lo”.

O vulto nem resistiu. Foi atacado por trás e pelos lados e não teve tempo de rematar. Quando deu por si, estava com um saco na cabeça, a ser transportado numa carrinha onde tocava religiosamente o CD “só eu sei…”. De repente, o veículo parou e tiraram-no da mala. Sentiu que lhe encostavam um telemóvel ao ouvido e, do outro lado, ouviu a voz rouca de Bruno de Carvalho. Decidiu na hora:

“-Presidente, eu aceito assinar pelo esportingue. Mande-os soltarem-me por favor”
“-Mas, Bruma, por que é que estás a falar brasileiro?”
“-Não sou o Bruma, não… Meu nome é Kléber. Pinto da Costa me vestiu com aquela camisola e mandou-me estar calado até falar directamente com você. Mas eu quero mesmo o esportingue, quero muito, é o clube ideal para mim!”

A 300 quilómetros dali, Bruma era apresentado no Estádio do Dragão e já falava à campeão. No seu gabinete, Bruno de Carvalho discava o número do presidente do FCPorto:

-“Olá, presidente. Tenho de admitir: ganhou mais uma vez. Diga-me lá quanto quer pelo Kléber…”

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Medicina e futebol

Gosto de ser médico porque gosto de ver doentes. E não escrevo isto para me armar, para parecer mais humanista ou uma treta deste género. Ver doentes dá-me gozo: dá luta, faz-me pensar. Gosto das histórias dos doentes, dos seus dramas, das vitórias. Gosto do meu serviço, gosto dos meus doentes e  confirmarão ou não as pessoas que trabalham comigo e que são leitores do blog - acho que os doentes gostam de mim.

Os doentes do meu serviço sabem que eu sou "o médico do Benfica". Não o médico do Benfica no sentido daquele médico que corre para o relvado depois de mais uma entrada assassina sobre um dos rapazes que veste de vermelho e branco, mas o médico que representa o Benfica no serviço. Nos hospitais, como nos cafés e como nos escritórios, as guerras futebolísticas, com as suas bocas e maldições, mantêm-se. Apesar da hospitalização ser uma altura particular da vida de uma pessoa internada, a pouco e pouco - a adaptação do ser humano é extraordinária - a vida normal volta a aparecer e, mesmo no meio dos medicamentos, das dores ou da melhoria, os doentes espreitam sempre a televisão em busca do futebol e, obviamente, falam disso.

Eu falo de futebol por tudo e por nada. E sobretudo por tudo. Se os doentes estão bem e perguntam se a medicação é para continuar digo-lhes que em equipa que ganha não se mexe. Se vejo um doente várias vezes na mesma manhã digo-lhes que estou a fazer pressão alta. E estes são os exemplos banais, que até qualquer pessoa que não viva futebol pode usar. O futebol é a maneira mais fácil de meter conversa, de partilhar qualquer coisa com os doentes, de mandar umas bocas que os animem, às vezes de os distrair. Digam lá: preferiam um médico caladinho, que só vos falasse da doença ou um que, além disso (sim, eu também faço histórias clínicas e prescrevo medicação, não estou sempre a pensar em futebol) vos perguntasse o clube? Nisso sou fatal: a pergunta mais importante da consulta é saber o clube dos doentes.

A partir daqui é o caos. Quando os doentes gostam de futebol e percebem que eu sou da tribo, as metáforas são disparadas ao ritmo de relato. Mal entro nos quartos há bocas a chover. Hoje trataram-me como Dr. Kelvin, só para verem o nível. Respondo-lhes logo que para lagartos e andrades não há anestesia nos procedimentos que estamos em época de crise e outras alarvidades do género. A beleza da coisa é que os doentes, regra geral, adoram. Já não estamos no hospital, estamos na bancada. E isso, nem que seja por uns segundos, é óptimo.
Quando estou a colocar um catéter aos doentes e acerto em pouco tempo, gosto de entrar a matar: "Porra, parecia o Cardozo! Foi ao ângulo!" e a partir daí, sobretudo aos doentes dos clubes adversários, só respondo pelo nome de Tacuara. Na pediatria, disse a um miúdo cujo avô tinha levado a uma visita a ao estádio dos azuis no fim de semana anterior que ele devia mudar para o clube do Pai Natal. De seguida, a medir-lhe a tensão arterial, disse-lhe que ia medir a força (como se mede no braço, os miúdos caem todos). "Diz lá que és do Porto" "Sou do Porto!" e carreguei no parar quando aquilo ainda estava medir e mostrei-lhe um 30. "Agora diz que és do Benfica!" "Sou do Benfica" e medi a tensão normalmente, e deu qualquer coisa entre 90 a 100. "Já viste a tua força quando tu és do Benfica?" Como é obvio, aquele avô poderá não ter gostado do que o neto lhe disse nesse dia. Mas a mãe, Benfiquista, que o levou à consulta, saiu felicíssima e ele também (pudera, com quase 100 de "força").

Sei o clube de todos os meus doentes (dos que gostam de bola, óbvio). E isso agrada-me. Mas mais ainda: todos os doentes sabem o meu. Percebi isso quando, após os terríveis acontecimentos do mês de Maio, ao entrar na consulta se fez um silêncio assombroso na sala de espera quando passei, como se eu fosse a pessoa em pior estado naquela sala.

Isto vem, como muitas outras coisas em mim, do meu pai, que também é médico e que até tem um doente do Wolverhampton que ficou insultadíssimo porque ele desconhecia a fabulosa equipa dos Wanderers, três vezes campeã na década de 50. Também ele foge do bar quando o Benfica perde, também ele chateia os doentes lagartos.
Ora, o meu pai, que tem um currículo  fabuloso e é um excelente médico, já agora, tem uma única mancha no currículo, que vos passo a contar, após autorização do mesmo: correu-lhe mal um procedimento (não fatal nem nada do género) ao Otto Glória. Lixado consigo mesmo, lá foi o meu pobre pai anunciar o seu erro ao mister Otto Glória, treinador de Eusébio, Coluna e dos restantes Magriços, com quem já tinha conversado tantas horas sobre medicina (porque Otto estava doente) e futebol (porque eram os dois doentes). Após o anúncio, Otto Glória virou-se para o meu pai e disse-lhe: "Dr. P.: a equipa médica achou que você era o melhor para marcar o penalty. Veio marcar e falhou. Deixe lá, acontece. Não se preocupe com isso."

Eu já ouvi esta história mais de mil vezes, mas continua a ser sempre como a primeira. É que a resposta de Otto Glória é de medicina e é de bola. Mais: é da vida. E não é essa, afinal, que se joga nos estádios e nos hospitais?

domingo, 23 de junho de 2013

Cardozo, o anti-herói

Não tenho vontade de escrever por razões óbvias. O defeso arrasta-se com comunicados absurdos do Benfica e com a procura de jogadores sérvios e argentinos dos quais nunca ouvi falar (já lá vão, há muito, os meus tempos de jogador de Manager, conhecedor das profundezas da segunda divisão espanhola e afins) o que, sinceramente, não me atrai. É preciso que comece rapidamente o futebol a sério e que o Benfica comece bem a época para eu conseguir voltar a portar-me como uma pessoa normal, o que quer dizer deixar de estudar e trabalhar tanto e deixar de ler os policiais fabulosos que tenho lido para voltar a ficar a pensar na evolução do Ola John como jogador num campeonato onde se defende e outros assuntos de maior nomeada.

A única razão que me leva a espreitar, com terror, os jornais desportivos todas as manhãs é a novela sobre Oscar Cardozo. É uma altura da vida do Benfica muito estranha. Por exemplo: Luisão, o nosso capitão, com dez anos de casa, não sabia que a última vitória europeia do Glorioso tinha sido em Amesterdão. Numa altura assim, com tão poucas vitórias, é muito difícil ter heróis. É difícil ter um nome na camisola quando todos nos lembram recordações amargas e em nenhum sentimos uma identificação plena e convincente com o nosso clube. (Não entendam com isto que sou dos que querem mais portugueses no plantel só por que sim: eu quero bons jogadores. Portugueses como o Roderick que fiquem longe.) 
No entanto, neste tempo sem heróis, e enquanto nos distraímos com centrais com nomes menos agradáveis e não conseguimos comprar nenhum médio centro ou pelo menos comprar um avançado que por acaso tenha um irmão que jogue a médio centro (ou a lateral, já agora), podemos ver partir o melhor marcador estrangeiro da história do Sport Lisboa e Benfica.

Eu vou repetir, para o caso de alguém não ter percebido: o melhor marcador estrangeiro da instituição secular Sport Lisboa Benfica, que aceita jogadores estrangeiros desde 1979/1980, pode estar de saída. Num tempo sem heróis, sem ídolos para a vida, pode estar de saída um homem cujo nome já ficou gravado para sempre na nossa memória. Já lhe agradeci, noutro texto, e acho que os argumentos a favor de Tacuara são de sobra. Lixa-me a vida pensar que para o ano, a olhar para os onze rapazes que vestem o manto sagrado, não só não me identifique com nenhum, como não possa ver aquele matulão desengonçado que me fez gritar como um louco o terceiro golo nas meias finais da Liga Europa num hotel em Viena e que parta assim, sem honra nem glória, parte da história do Benfica. 

Gosto de policiais, sobretudo dos que acabam mal porque me parecem histórias sempre mais reais. Gosto dos anti-heróis porque são sempre as personagens mais ricas, com defeitos deliciosos. Gosto de Pepe Carvalho, o detective de Montalban, que queima livros para pensar e cuja namorada é puta em Barcelona. Tenho saudades de George Smiley, de John Le Carré, que é gordo, está sempre a suar, não tem sentido de humor e cuja mulher o traiu com a toupeira russa nos serviços secretos britânicos. Admiro Bernie Gunther, de Philip Kerr, um detective privado anti-nazi em pleno III Reich. Deliro com Sam Spade e Philip Marlowe, ambos representados por Bogart, detectives de gabardina e cigarro. Mas gosto, sobretudo, de Oscar Tacuara Cardozo. Sem grande coordenação motora, sem pé direito, sem velocidade. O anti-herói Benfiquista, com um número histórico nas costas e outro, de golos, nas botas. Safou-nos, como estas personagens, inúmeras vezes. Fartou-se de marcar golos. Em casa, fora, aos verdes, aos azuis. Lá fora e em casa. No meu tempo de vida, nunca festejei tantos golos com um jogador. 
Falhou o golo isolado frente a Helton na primeira volta, cicatriz que partilha connosco. Portou-se mal com Jesus na final da Taça, mas quantas vezes não se embebedou Marlowe?

Numa época sem heróis, leio todos os dias os jornais desportivos com medo que este policial acabe mal. 



PS: E como se isto não bastasse, o meu pai ganhou um campeonato de columbofilia este fim de semana. O nome do pombo que pontuou para a vitória? Tacuara.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A Guerra dos Tronos

O FCPorto é um clube estável há 30 anos. Ganhamos mais do que os outros porque somos melhores e porque os outros teimam, felizmente, em não aprender com os erros. Somos mais unidos, mais ambiciosos e mais exigentes. Temos altos e baixos como todos, mas, na hora da verdade, seja na última jornada ou ao minuto 92, olhamos nos olhos dos rivais e sentimos que somos mais fortes.

benfica e sportem mudaram muito em 30 anos. De presidentes, treinadores e equipas, de adeptos que, sem antecedentes familiares, passaram a usar tons de azul, de objectivos e conquistas diminuídos e também de mentalidade. Hoje, ambos têm uma certeza: o alvo a abater somos nós.

Do benfica já sabemos o que esperar. Não precisamos de grande motivação para alimentar esta guerra. Esta rivalidade está entranhada nos nossos avós, que viram como nos faziam pequenos à beira deles, nos nossos pais, que aguentaram tantos anos sem ganhar, e em nós, que, apesar das grandes humilhações que lhes temos proporcionado, sabemos como é difícil lutar contra eles.

Com o sportem, no entanto, parece que precisamos que alguém nos lembre que a guerra não acaba quando o adversário está caído no chão, a definhar. Desta vez foi o novo presidente, rapaz de voz rouca e ego maior do que o buraco financeiro do clube, que anunciou o corte de relações com o FCPorto. Portanto, resumindo, o sétimo classificado do campeonato não quer nada com o primeiro.

A guerra dos tronos no futebol português é isto: enquanto nós continuamos a dominar, os outros insistem em tentar derrubar-nos. E, de vez em quando, lá aparece um «lord» qualquer a mostrar serviço aos seus seguidores, que exigem o ódio ao Porto como ponto de partida para «o novo ciclo» de batalhas que aí vêm. Vestem as armaduras, exibem os seus estandartes ao alto com orgulho e gritam que estão prontos.

Na ficção, uma música foi escrita para eternizar o fim da «casa» Reyne de Castamere. No fundo, serve de aviso para todos aqueles que declaram guerra aos mais fortes quando não estão notoriamente preparados para a travar. Na realidade, tentem não esquecer-se disto, lagartos:



And who are you, the proud lord said,
that I must bow so low?
Only a cat of a different coat,
that's all the truth I know.
In a coat of gold or a coat of red,
a lion still has claws,
And mine are long and sharp, my lord,
as long and sharp as yours.
And so he spoke, and so he spoke,
that lord of Castamere,
But now the rains weep o'er his hall,
with no one there to hear.
Yes now the rains weep o'er his hall,
and not a soul to hear.

domingo, 2 de junho de 2013

Vamos ao hóquei

Não percebo como é que alguém pode estar contente com o que se está a passar no hóquei em patins. Não sei se já repararam, mas parece estar a tornar-se um hábito que, além da época futebolística já de si cheia de episódios de clubite duvidosa, surjam depois as modalidades como braço armado da guerra comprada entre os nossos dois clubes.

Antes que eu pareça politicamente correcta, deixem-me lembrar-vos que eu odeio o benfica. Não sou grande fã de hóquei em patins mas, se o Porto puder ser campeão contra eles com um 7-3 humilhante, por mim tudo bem. Tudo óptimo, aliás. Admito ainda que, para um lampião, seja melhor nem comparecer a mais uma final. Mas isto que se está a passar não é nada disso: não é um clube a tentar derrotar o outro, não é rivalidade, não são as picardias normais entre adeptos. É uma vergonha. E para todos.

O que vos peço ao lerem este texto é para despirem a camisola por uns segundos, por muito horrível que isso possa soar. Se são do FCPorto, lembrem-se como nos sentimos quando, com os bilhetes na mão, nos impediram de passar as portagens de Alverca porque não nos garantiam a segurança no pavilhão da luz. Ficámos indignados, certo? Como era possível que a organização de um jogo (clube anfitrião e polícia) estivesse a admitir, à partida, que não era capaz de o fazer?  O que seria feito de uma modalidade cujos adeptos estavam proibidos de ir ver os jogos fora? Por que não se sentam todos à mesa e discutem como melhorar os pavilhões, a actuação da polícia e afins, para que isso não se repita? Se não aceitámos isso na altura, não podemos agora encher o peito e chamar-lhes mariquinhas (que eles até são, como está provado cientificamente, mas adiante).

Se são do benfica, lembrem-se que , antes de nos chamarem animais e selvagens, terão de enumerar mentalmente o autocarro incendiado, os jogadores agredidos, o very-light, etc, etc. Não gostaram que isso acontecesse, certo? Não passaram a achar o vosso clube diferente porque alguém com quem partilham uma bancada o fez, pois não? E, sobretudo, se além de serem do benfica andam nisto a sério e há muito tempo, não podem aceitar que os nossos clubes achem que há adeptos e polícias diferentes.

Porque não há. Lamento o choque, mas não há mesmo. Se, no meio destas guerrinhas de dirigentes, conseguirem perceber isso, então podemos ir ao que interessa e o que interessa é o que se passa no local para onde as bancadas olham. Aí, peço-vos desculpa pelo fim da imparcialidade, mas acredito que somos melhores. E é isso que eu ainda espero ver esta tarde: um jogo entre dois rivais, muita garra, muita vontade, mais alegrias para nós e mais tristezas para os outros e o meu Porto a ser campeão europeu de hóquei em patins. Força rapazes!