segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A voz

Todos nós, maluquinhos, já teremos chegado - pelo menos uma vez na vida - àquele momento em que pensamos: "Talvez eu pudesse não ter visto este jogo ao vivo, em vez de...". Isto coloca-se, porque para nós, fanáticos, o clube está automaticamente à frente. Há um aniversário de um amigo, mas é um derby, portanto ele faz anos para o ano (já os derbies são só duas vezes por ano) e de certeza que ele vai compreender. Aliás, se não compreender é porque não nos conhece e não é mesmo nosso amigo.

O problema é que este tipo de decisão se torna mesmo automático e, com o passar dos anos, e já com muitos Benfica-Gil Vicente vistos - o suficiente para conseguir, apenas e só pelo momento do Benfica, praticamente adivinhar o que se vai passar em campo-, uma pessoa mantém o automatismo de preferir o clube, mas questiona-se mais vezes e mais facilmente.

Começo a escrever-vos assim porque eu no domingo obriguei a minha família a almoçar mais cedo, sacrifiquei uma tarde com a minha irmã, mãe, cunhado, irmão e sobrinha mais nova (que podia ser passada numa praia algarvia, é importante sublinhar) porque tinha que vir mais cedo para Lisboa. Porque estava de urgência? Porque tinha trabalhos para fazer? Porque vinha ver outros familiares ou amigos? Não, porque jogava o Benfica. Pior, esta decisão foi rapidamente apoiada pela C., não por minha causa, mas porque a seguir jogava o clube dela (aquele de riscas, que devia acabar).

Assim, em pleno Estádio da Luz, perto dos 85 minutos, com a iminente segunda derrota consecutiva a chegar e um nihilismo suicida a tomar conta de mim, uma voz - tímida, mas nítida - ousou dizer no meu cérebro: "Talvez tivesse sido melhor ter ficado em Faro", enquanto a minha cabeça batia devagar e repetidamente na cadeira da frente. Era uma voz que, apesar de clara pela primeira vez, era minha conhecida. 

Foi ela que eu já ouvi, vezes sem conta, mas muito ao fundo e com muito ruído à volta (BENFICA! BENFICA! BENFICA!) quando disse já mais vezes do que consigo contar à minha mãe que não ia visitá-la e à família porque "este fim-de-semana jogamos sábado e é importante" (como se alguma vez não fosse). Foi essa voz que eu ouvi quando acordava às cinco da manhã para estudar só para não ter problemas de consciência em ir à bola com uma oral no dia a seguir. Era essa voz que me devia ter impedido de dizer ao meu pai: "Então tu marcas o jantar dos teus 50 anos para um sábado em que o Benfica joga?", passando por cima do facto de toda a família e amigos terem viajado nesse dia só para jantar connosco. Era essa voz que me devia recordar que a 16 de Março de 2005 tive uma noite épica de copos com irmãos, primos e amigos e não que foi a noite em que ganhámos 0-2 ao Setúbal, golos do Simão e Manuel Fernandes, vitória fundamental para o título.

A maior discussão que tive assim, dentro de mim, foi quando a C. foi operada. O Benfica recebia o Zenit, nos oitavos-de-final da Champions, depois de ter perdido 3-2 fora. A C. ia ser operada - cúmulo das provocações! - no Hospital da Luz. Ora, segundo a hora da operação - do interesse do próprio cirurgião e anestesista, que acabaram por ir à Luz (grandes!)-, tudo estava cronometrado ao segundo para eu ver a C. sair do bloco, perguntar se tudo tinha corrido bem, telefonar a toda a gente e correr para o meu lugar (comprei bilhete e tudo), ver o Benfica e depois voltar para ver finalmente a C. sem estar zonza da anestesia. 

Tudo isto estava a correr bem, até que eu, pela primeira vez, vacilei e não consegui deixá-la. Confesso que tenho algum orgulho nisto - foi a primeira vez que a humanidade ganhou ao hooligan - mas também admito que não foi uma vitória limpa, porque vi o jogo ao lado dela, mas um bocado lixado por ela nem sequer estar acordada e a dizer: "TU ÉS O MELHOR NAMORADO DO MUNDO" a cada dois segundos, que era o que eu merecia (a única vez que ela acordou foi para perguntar: "Quanto está o Zenit?" Nem Benfica disse, porra).

Ora, no domingo, a depressão invadia-me a um nível tal que cheguei a achar possível que a razão - era dela, a voz - pudesse finalmente tomar conta de mim. Seria um passo para a vida adulta, para os comportamentos socialmente aceites. Finalmente saberia dizer, sem ter de ir ao google, que países fazem fronteira com a Alemanha, em vez de saber todos os estádios onde foram disputadas as finais da Liga dos Campeões de 2013 para 1984 de cor. Mas, felizmente, o Benfica salvou-me. Markovic e Lima impediram-me, aos 29 anos, de escolher o lado da normalidade. E, de braços abertos, berrando loucamente nem sei o quê, festejei mais uma tarde que não passei com as pessoas que eu mais adoro no mundo.

Este texto é para essas pessoas. As que adoro tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, que, um dia, vou gostar tanto delas como do Benfica.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Quero o meu M. de volta

Estamos numa daquelas semanas em que um de nós tem horário de empregada de limpeza e o outro de guarda-nocturno, sendo que neste caso a empregada de limpeza é o M. e eu sou o guarda-nocturno, por isso talvez não devesse ter começado por aqui. O essencial a reter é que mal nos temos visto. Comunicamos por post-its do género “Tens sopa para o jantar no frigorífico” e, como já estamos juntos há muito tempo, já não perdemos tempo a escrever um termo carinhoso a seguir. Se o importante é a sopa que está no frigorífico e o outro já sabe que há aqui amor e tal, vamos directos ao assunto.

O problema é que, antigamente, durante estas semanas de horários inversos, entre as poucas palavras que trocávamos havia sempre espaço para o futebol. Por exemplo, num post-it meu para o M., a seguir a um “Deitaste o lixo fora?” podia vir perfeitamente um “Quando acordares vai ver a capa do Jogo para saberes o que o anormal do Jackson disse”. Por antigamente entenda-se o período da nossa relação pré-golo do Kelvin, tempos áureos e bonitos, em que conseguíamos equilibrar a doença que temos pelos nossos clubes com o nosso amor. Agora não é assim.

O M. não fala sobre futebol, a não ser para dizer que o Porto está muito forte e o benfica muito fraco. Não viu nenhum jogo da pré-época e vai dando apenas umas olhadelas às capas dos desportivos, mas só porque tem medo de tornar-se numa daquelas pessoas estranhas que nesta altura ainda não sabem os números na camisola dos reforços. O M. era aquele namorado que acordava às 7 da manhã, me dava um beijinho antes de ir trabalhar e ainda achava importante dizer-me, mesmo que eu me tivesse deitado às 5, que a Bola tinha na capa que o Malunivicovic estava confirmado no benfica. Para o M. pré-golo do Kelvin, era fundamental que eu interrompesse as minhas duas horas de sono para ouvir um nome que nunca iria recordar quando me levantasse às 2 da tarde, só porque era um possível reforço do benfica e eu não podia ficar nessa ignorância enquanto sonhava com sabe-se lá o quê, decerto menos importante do que isso.

Confesso que tenho saudades desse M.. Tenho saudades de levantar-me, ligar a televisão enquanto tomava o pequeno-almoço e ter de mudar de canal como um disparo do Lucky Luke, mais rápida do que a própria sombra, porque ela estava sintonizada na benfica TV (nós agora nem temos benfica TV, eu disse ao M. que me recusava a pagar e até agora ele nem a subscreveu às escondidas, consciente que iria provocar o nosso divórcio). Não era um acordar sereno, mas pelo menos ficava a saber que o meu M. tinha estado a ver um jogo dos infantis do hóquei e agora não faço a mínima ideia do que ele anda a fazer. Pode ser isso que de certeza que vocês estão a pensar: o M. pode ter uma amante porque quem fazia esse papel de o entreter enquanto eu não estava era o benfica.

Só que o benfica traiu-o, deixou-o de rastos e ele ainda não recuperou. Não sei o que posso fazer mais. Aliás, não sei o que posso fazer de todo, porque continuo a notar que quando ele olha para mim ainda me imagina com uma crista no cabelo e a marcar um golo aos 92 minutos. Eu devia estar contente, não só porque calha de eu ser do clube tricampeão que destruiu o clube dele, mas também porque, não havendo espaço para o benfica no coração do M., posso aproveitar para ganhar terreno. Só que não estou (quer dizer, até estou um bocadinho, porque futebolisticamente isto está a ser espectacular).

Eu preciso do M. normal, do M. que acha mais importante avisar-me que o Jesus não vai jogar com dois médios defensivos do que avisar-me que acabou a manteiga, do M. que me telefona para perguntar se já posso confirmar que o Malunivicovic é mesmo do benfica, porque na cabeça dele eu, como sou jornalista e trabalho a uns 20 metros de pessoas que fazem Desporto, sei tudo. Eu preciso do M. entusiasmado com o benfica, não um entusiasmado à parolo que acha o benfica o maior do mundo, mas entusiasmado como todos nós, os adeptos doentes, que estamos ansiosos que a época comece porque isto do sol e da praia é muito giro, mas não há nada como uma deslocação a Guimarães, ou à Madeira, ou a Setúbal, ou seja onde for.

Quero o meu M. de volta. Estou farta deste clima de paz, de não discutirmos a não ser quando ele arruma os panos da cozinha juntamente com os panos de limpar a casa-de-banho (são tudo panos, diz ele, porque aparentemente o cérebro masculino não percebe a enorme diferença). Estou farta de parecermos um casal normal, que faz férias sem pensar nos amigáveis, que vai jantar fora sem confirmar que o restaurante tem televisão, que fala de saúde, de política e de viagens como se não estivéssemos a pensar na adaptação do Cortez ou do Quintero.

Mas não, calma, eu não vou torcer pelo benfica para bem do M.. Ainda que esteja consciente que fui eu que criei esta espiral de humilhação e dor, espero sinceramente que ela continue. E, quando estou precisamente a escrever isto, recebo um telefonema:

- Olá. Então, estás melhor?
- Sim, já não me dói a cabeça.
- Ok, fixe. ("passemos ao que interessa", pareceu-me ouvir) Olha, finalmente consegui animar-me com o benfica (com voz de menino que recebeu uma prenda)
- Então? (por momentos imaginei que tivessem contratado o Messi, foi terrível)
- Li que podemos andar atrás do Osvaldo da Roma.
- Sim...
- ... E pode ser que eles precisem do Jackson para o substituir! Era só isto, vou trabalhar, beijinhos.          


Ufa, acho que o meu M. voltou.

sábado, 10 de agosto de 2013

Crónica de uma morte anunciada

Ainda não estou restabelecido do que aconteceu algures em Maio de 2013. Sinto que vou ter stress pós-traumático toda a minha vida e que posso num qualquer Benfica-Belenenses que estaremos a vencer por 4-0 (golos do Cardozo) atirar-me para o chão no minuto 92 e colocar-me em posição fetal.
Tentando, então, recuperar a minha sanidade mental, fiz uma coisa inovadora e pioneira na minha vida: não vi nem um jogo de pré-época do Benfica, à excepção dos primeiros 45 minutos contra o Étoile Carouge. O pior não é nem sequer ter visto os jogos, é mais grave: pela primeira vez na minha vida eu não quis, em consciência, ver o Benfica. Preferi sempre a praia, jantares e qualquer outra actividade.

Não é um corte com o Benfica porque isso me é impossível: o RedPass está renovado, as quotas continuam pagas, sigo todas as notícias e vejo os resumos dos amigáveis na internet. No entanto, é a preparação mental para a morte anunciada que será a época 2013/2014. Para suplantar o trauma do ano passado, mantendo o treinador, o Benfica tinha que fazer uma pré-época empolgante, que cortasse com a anterior época. Os problemas tinham que estar encerrados (Cardozo/Jesus, Melgarejo, a falta de um defesa esquerdo, de alternativas no meio, etc) e havia que aliviar a pressão. No entanto, por incompetência ou burrice (deixo à vossa escolha), a direcção do SL Benfica decidiu:

- arrastar a novela Cardozo tanto, tanto tempo, que parece que 2012/2013 ainda não acabou. À data que escrevo Cardozo treina fora do plantel, desvalorizando-se como negócio e não constituindo opção e, pelos vistos, foi contratado Funes Mori, que, segundo as minhas pesquisas na net, é mais odiado pelos adeptos do River Plate do que pelos rivais e marcou menos golos em quatro anos do que Cardozo na sua pior época.
- comprar a "Avenida Paulista" para defesa esquerdo. 45 minutos bastaram-me para perceber que aquela coisa que contratámos para a esquerda vai ser a delícia dos extremos adversários.
- ainda não ter vendido nenhum dos craques, o que deverá acontecer no período "Witsel/Javi Garcia", de maneira a que não haja substitutos à altura.
- comprar um médio centro (dava jeito) e colocá-lo no Dubai, esse campeonato de excelência.

O campeonato só poderá ser discutido se um dos nossos sérvios de dezanove anos se tornar, por obra e graça divina, um jogador capaz de estar a altíssimo nível num campeonato de 30 jogos onde vão ter um alvo marcado nas canelas. 
O amadorismo é tal, a falta de planeamento tão gritante e absurda, que o Benfica 2013/2014 é o primeiro Benfica em muitos anos a nascer sem, sequer, esperança. Ao primeiro mal sinal, a avalanche será inacreditável e rolarão cabeças. Lembro que jogamos nos Barreiros na 1ª jornada, Alvalade na 3ª, Guimarães na 5ª. O facto de ninguém no Benfica ter preparado a época de forma a termos um plantel pronto a enfrentar estes problemas sem termos que pôr uma velinha dá-me uma raiva e uma náusea que nem sequer sou capaz de descrever. É brincar com coisas sérias, é condenar-nos a mais um ano de merda, de frustrações, de dor, de gozo. 

Como não sou religioso e não acredito na sorte, acho que as probabilidades de sermos campeões são diminutas ou quase zero. Assim, de maneira a adiar e tentar minimizar o sofrimento inacreditável que vai ser esta época, tive que me afastar um bocadinho. Dia 18 de Agosto, começará a nossa provação. Sinto-me que, ainda em convalescença do ano passado, tenho de enfrentar um pelotão de fuzilamento. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O melhor onze

O meu clube anda a pedir aos adeptos para votarem no melhor onze da sua história. À primeira vista, pode parecer fácil clicar em bonequinhos previamente definidos, mas, para nós, os doentes, escolher o melhor onze de sempre é uma responsabilidade enorme.

Às vezes espanta-me a facilidade com que os clubes se esquecem que os adeptos são aquilo que de mais importante têm. Por exemplo, este Verão, ninguém do FCPorto me perguntou quem é que eu achava capaz de ser um bom suplente para o Jackson (disse suplente, não substituto, se o deixam sair este ano mato-vos). É incrível, não é? Felizmente, eu também achava que o Ghilas era uma óptima opção, o que diminui a gravidade de não me consultarem para este tipo de decisões importantes, nas quais tanto tempo passo a pensar durante a pré-época.

Daí que pedirem-me para escolher o melhor onze de sempre me faça sentir finalmente importante. Eu, C., simples adepta, sócia apenas desde os 3 anos (um escândalo, eu sei), posso contribuir para que onze rapazes tenham o orgulho imenso de ser escolhidos. Mas não é fácil, admito.

Desde logo porque eu tenho 26 anos. Ora, num clube com 120 anos, isso torna-se um pouco redutor. O primeiro FCPorto da minha memória tinha Domingos e Kostadinov na frente. Tinha Baía, João Pinto e Aloísio lá atrás e tinha André e Rui Barros no meio. Já não tinha Fernando Gomes, Mlynarczyk, Frasco ou Futre. O FCPorto eu vi, que eu tanto apoiei, tinha o triângulo Costinha-Maniche-Deco e teve Jardel, Lisandro e Hulk. O FCPorto da minha geração é um clube com grandes jogadores, mas a maioria chega de longe, ganha durante algumas épocas e troca-nos por outro. São craques, mas dificilmente ficarão na nossa história.

Mas o meu FCPorto não sou só eu. O meu FCPorto é o meu avô a falar do Cubillas, é o meu pai a exemplificar os livres do Branco e a minha mãe a recordar o calcanhar de Madjer. O meu FCPorto são décadas de histórias, de muitas vitórias mas também muitas derrotas, de um Pavão que faleceu muito antes de eu nascer e de um Pedroto que eu nunca conheci. O meu FCPorto é muito mais do que eu, do que tu, do que Pinto da Costa, do que Robson ou Mourinho, do que Deco ou Falcao.

Por isso, escolhi estes, mas podia ter escolhido muitos outros:

Vítor Baía, o melhor guarda-redes português de sempre
João Pinto, pelas imagens com a taça nas mãos
Aloísio, pelo estilo
Fernando Couto, pela raça
Branco, pelos tais livres
André e Frasco, por todos os jogadores à Porto
Deco, com muita pena de não poder incluir também Rui Barros
Madjer e Futre, pelo início de uma grande era
Jardel, porque queria escolher Domingos mas o M. ficou escandalizado por eu deixar de fora o ponta-de-lança que mais o fez sofrer.

E vocês? Que onze escolheram?

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Bruma, o rapto

O problema arrastava-se há semanas. O jovem Bruma, promessa do futebol português, tinha brilhado no Mundial sub-20 e estava a ser aconselhado pelos seus empresários a deixar o sportem:

-“Bruma, eles não têm dinheiro para te pagar, nem sequer vão à Europa e estão sempre a ameaçar fazer uma época ainda pior do que a anterior. Isto não é clube para ti”
-“Mas foi lá que eu me formei, é lá que tenho os meus amigos… O que será de mim se deixar de treinar com o Rojo como adversário?”
-“Ok, admitimos que se tornava mais fácil brilhares no mesmo plantel do Viola e do Rubio. Mas está na hora de dares o salto, de quereres ganhar títulos”
-“Ganhar títulos? Oh chefe, podia ter dito logo é para ir para o Porto. O que é que tenho de fazer então?”

A estratégia estava montada. Iriam alegar que o contrato terminou agora e que, portanto, Bruma é um jogador livre. No entanto, do outro lado estava Bruno de Carvalho , um negociador implacável, com dias de experiência na matéria:

-“O Bruma é do sportem. Não tanto como eu, que sou o maior sportinguista do mundo, mas é. Nada a fazer”
-“Mas, presidente, o contrato acabou…”
-“Desculpe, eu disse-lhe que podia falar? Convoco já uma conferência de imprensa com adeptos presentes para discutirmos o assunto de forma calma e ponderada”
-“Não, presidente, não faça isso… O Bruma gosta do sportem, não é por mal… Ele só quer ganhar títulos”
-“Títulos? Então que não se queixe, este ano fomos campeões de futsal. Não me viu nas capas dos jornais a festejar?”
-“Vi, sim… Estava muito bem…”
-“Poças, bem fiquei eu com o novo equipamento do sportem. Viu? Que espectáculo!”
-“Sim, sim… Mas estamos a desviar-nos do assunto…”

A conversa durou dias, semanas até, porque Bruno foi enumerando as suas provas de amor ao sportem. Numa tarde, os empresários de Bruma descaíram-se:

-“Já percebemos que o presidente é o maior sportinguista do mundo, já aceitámos as garrafas de água e as bolas que nos foi atirando com carinho e até já comprámos uma camisola com o número 12 e o seu nome nas costas… Mas ainda não nos disse que vai pagar um salário decente ao Bruma e que esta equipa vai ganhar títulos. Assim sendo, vamos tentar encaminhá-lo para o Porto”
-“PORTO?? VOCÊ DISSE PORTO? Eu estou de relações cortadas com essa gente!”
-“Está você, mas não estamos nós. E o Bruma gosta da ideia de ganhar alguma coisa…”
-“Essa é a prova que ele não é do sportem como eu! No sportem já nos habituámos à ideia de não ganhar nada!”

Os empresários foram expulsos do gabinete e fugiram a correr de alvalade, enquanto viam o Rinaudo e o Schaars a ficar para trás, como tantas vezes acontece. Quando perceberam que estavam em segurança, ligaram à única pessoa no mundo capaz de salvar um jogador do sportem: Jorge Nuno Pinto da Costa.
Enquanto isso, Bruno de Carvalho fazia uma chamada para a bancada Sul:

“-Amigos, preciso de ajuda. O Bruma, que não é do sportem como eu, não aceita ficar cá a ajudar-nos a lutar pela manutenção. Temos de agir”
-“Não se preocupe, presidente, nós tratamos disso”.

Já era de noite quando chegaram à porta da casa do Bruma. Ao longe, avistaram um vulto de costas. Tinha vestida a camisola do sportem, com o número e nome que o presidente exigia.

-“É ele. Vamos raptá-lo”.

O vulto nem resistiu. Foi atacado por trás e pelos lados e não teve tempo de rematar. Quando deu por si, estava com um saco na cabeça, a ser transportado numa carrinha onde tocava religiosamente o CD “só eu sei…”. De repente, o veículo parou e tiraram-no da mala. Sentiu que lhe encostavam um telemóvel ao ouvido e, do outro lado, ouviu a voz rouca de Bruno de Carvalho. Decidiu na hora:

“-Presidente, eu aceito assinar pelo esportingue. Mande-os soltarem-me por favor”
“-Mas, Bruma, por que é que estás a falar brasileiro?”
“-Não sou o Bruma, não… Meu nome é Kléber. Pinto da Costa me vestiu com aquela camisola e mandou-me estar calado até falar directamente com você. Mas eu quero mesmo o esportingue, quero muito, é o clube ideal para mim!”

A 300 quilómetros dali, Bruma era apresentado no Estádio do Dragão e já falava à campeão. No seu gabinete, Bruno de Carvalho discava o número do presidente do FCPorto:

-“Olá, presidente. Tenho de admitir: ganhou mais uma vez. Diga-me lá quanto quer pelo Kléber…”

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Medicina e futebol

Gosto de ser médico porque gosto de ver doentes. E não escrevo isto para me armar, para parecer mais humanista ou uma treta deste género. Ver doentes dá-me gozo: dá luta, faz-me pensar. Gosto das histórias dos doentes, dos seus dramas, das vitórias. Gosto do meu serviço, gosto dos meus doentes e  confirmarão ou não as pessoas que trabalham comigo e que são leitores do blog - acho que os doentes gostam de mim.

Os doentes do meu serviço sabem que eu sou "o médico do Benfica". Não o médico do Benfica no sentido daquele médico que corre para o relvado depois de mais uma entrada assassina sobre um dos rapazes que veste de vermelho e branco, mas o médico que representa o Benfica no serviço. Nos hospitais, como nos cafés e como nos escritórios, as guerras futebolísticas, com as suas bocas e maldições, mantêm-se. Apesar da hospitalização ser uma altura particular da vida de uma pessoa internada, a pouco e pouco - a adaptação do ser humano é extraordinária - a vida normal volta a aparecer e, mesmo no meio dos medicamentos, das dores ou da melhoria, os doentes espreitam sempre a televisão em busca do futebol e, obviamente, falam disso.

Eu falo de futebol por tudo e por nada. E sobretudo por tudo. Se os doentes estão bem e perguntam se a medicação é para continuar digo-lhes que em equipa que ganha não se mexe. Se vejo um doente várias vezes na mesma manhã digo-lhes que estou a fazer pressão alta. E estes são os exemplos banais, que até qualquer pessoa que não viva futebol pode usar. O futebol é a maneira mais fácil de meter conversa, de partilhar qualquer coisa com os doentes, de mandar umas bocas que os animem, às vezes de os distrair. Digam lá: preferiam um médico caladinho, que só vos falasse da doença ou um que, além disso (sim, eu também faço histórias clínicas e prescrevo medicação, não estou sempre a pensar em futebol) vos perguntasse o clube? Nisso sou fatal: a pergunta mais importante da consulta é saber o clube dos doentes.

A partir daqui é o caos. Quando os doentes gostam de futebol e percebem que eu sou da tribo, as metáforas são disparadas ao ritmo de relato. Mal entro nos quartos há bocas a chover. Hoje trataram-me como Dr. Kelvin, só para verem o nível. Respondo-lhes logo que para lagartos e andrades não há anestesia nos procedimentos que estamos em época de crise e outras alarvidades do género. A beleza da coisa é que os doentes, regra geral, adoram. Já não estamos no hospital, estamos na bancada. E isso, nem que seja por uns segundos, é óptimo.
Quando estou a colocar um catéter aos doentes e acerto em pouco tempo, gosto de entrar a matar: "Porra, parecia o Cardozo! Foi ao ângulo!" e a partir daí, sobretudo aos doentes dos clubes adversários, só respondo pelo nome de Tacuara. Na pediatria, disse a um miúdo cujo avô tinha levado a uma visita a ao estádio dos azuis no fim de semana anterior que ele devia mudar para o clube do Pai Natal. De seguida, a medir-lhe a tensão arterial, disse-lhe que ia medir a força (como se mede no braço, os miúdos caem todos). "Diz lá que és do Porto" "Sou do Porto!" e carreguei no parar quando aquilo ainda estava medir e mostrei-lhe um 30. "Agora diz que és do Benfica!" "Sou do Benfica" e medi a tensão normalmente, e deu qualquer coisa entre 90 a 100. "Já viste a tua força quando tu és do Benfica?" Como é obvio, aquele avô poderá não ter gostado do que o neto lhe disse nesse dia. Mas a mãe, Benfiquista, que o levou à consulta, saiu felicíssima e ele também (pudera, com quase 100 de "força").

Sei o clube de todos os meus doentes (dos que gostam de bola, óbvio). E isso agrada-me. Mas mais ainda: todos os doentes sabem o meu. Percebi isso quando, após os terríveis acontecimentos do mês de Maio, ao entrar na consulta se fez um silêncio assombroso na sala de espera quando passei, como se eu fosse a pessoa em pior estado naquela sala.

Isto vem, como muitas outras coisas em mim, do meu pai, que também é médico e que até tem um doente do Wolverhampton que ficou insultadíssimo porque ele desconhecia a fabulosa equipa dos Wanderers, três vezes campeã na década de 50. Também ele foge do bar quando o Benfica perde, também ele chateia os doentes lagartos.
Ora, o meu pai, que tem um currículo  fabuloso e é um excelente médico, já agora, tem uma única mancha no currículo, que vos passo a contar, após autorização do mesmo: correu-lhe mal um procedimento (não fatal nem nada do género) ao Otto Glória. Lixado consigo mesmo, lá foi o meu pobre pai anunciar o seu erro ao mister Otto Glória, treinador de Eusébio, Coluna e dos restantes Magriços, com quem já tinha conversado tantas horas sobre medicina (porque Otto estava doente) e futebol (porque eram os dois doentes). Após o anúncio, Otto Glória virou-se para o meu pai e disse-lhe: "Dr. P.: a equipa médica achou que você era o melhor para marcar o penalty. Veio marcar e falhou. Deixe lá, acontece. Não se preocupe com isso."

Eu já ouvi esta história mais de mil vezes, mas continua a ser sempre como a primeira. É que a resposta de Otto Glória é de medicina e é de bola. Mais: é da vida. E não é essa, afinal, que se joga nos estádios e nos hospitais?

domingo, 23 de junho de 2013

Cardozo, o anti-herói

Não tenho vontade de escrever por razões óbvias. O defeso arrasta-se com comunicados absurdos do Benfica e com a procura de jogadores sérvios e argentinos dos quais nunca ouvi falar (já lá vão, há muito, os meus tempos de jogador de Manager, conhecedor das profundezas da segunda divisão espanhola e afins) o que, sinceramente, não me atrai. É preciso que comece rapidamente o futebol a sério e que o Benfica comece bem a época para eu conseguir voltar a portar-me como uma pessoa normal, o que quer dizer deixar de estudar e trabalhar tanto e deixar de ler os policiais fabulosos que tenho lido para voltar a ficar a pensar na evolução do Ola John como jogador num campeonato onde se defende e outros assuntos de maior nomeada.

A única razão que me leva a espreitar, com terror, os jornais desportivos todas as manhãs é a novela sobre Oscar Cardozo. É uma altura da vida do Benfica muito estranha. Por exemplo: Luisão, o nosso capitão, com dez anos de casa, não sabia que a última vitória europeia do Glorioso tinha sido em Amesterdão. Numa altura assim, com tão poucas vitórias, é muito difícil ter heróis. É difícil ter um nome na camisola quando todos nos lembram recordações amargas e em nenhum sentimos uma identificação plena e convincente com o nosso clube. (Não entendam com isto que sou dos que querem mais portugueses no plantel só por que sim: eu quero bons jogadores. Portugueses como o Roderick que fiquem longe.) 
No entanto, neste tempo sem heróis, e enquanto nos distraímos com centrais com nomes menos agradáveis e não conseguimos comprar nenhum médio centro ou pelo menos comprar um avançado que por acaso tenha um irmão que jogue a médio centro (ou a lateral, já agora), podemos ver partir o melhor marcador estrangeiro da história do Sport Lisboa e Benfica.

Eu vou repetir, para o caso de alguém não ter percebido: o melhor marcador estrangeiro da instituição secular Sport Lisboa Benfica, que aceita jogadores estrangeiros desde 1979/1980, pode estar de saída. Num tempo sem heróis, sem ídolos para a vida, pode estar de saída um homem cujo nome já ficou gravado para sempre na nossa memória. Já lhe agradeci, noutro texto, e acho que os argumentos a favor de Tacuara são de sobra. Lixa-me a vida pensar que para o ano, a olhar para os onze rapazes que vestem o manto sagrado, não só não me identifique com nenhum, como não possa ver aquele matulão desengonçado que me fez gritar como um louco o terceiro golo nas meias finais da Liga Europa num hotel em Viena e que parta assim, sem honra nem glória, parte da história do Benfica. 

Gosto de policiais, sobretudo dos que acabam mal porque me parecem histórias sempre mais reais. Gosto dos anti-heróis porque são sempre as personagens mais ricas, com defeitos deliciosos. Gosto de Pepe Carvalho, o detective de Montalban, que queima livros para pensar e cuja namorada é puta em Barcelona. Tenho saudades de George Smiley, de John Le Carré, que é gordo, está sempre a suar, não tem sentido de humor e cuja mulher o traiu com a toupeira russa nos serviços secretos britânicos. Admiro Bernie Gunther, de Philip Kerr, um detective privado anti-nazi em pleno III Reich. Deliro com Sam Spade e Philip Marlowe, ambos representados por Bogart, detectives de gabardina e cigarro. Mas gosto, sobretudo, de Oscar Tacuara Cardozo. Sem grande coordenação motora, sem pé direito, sem velocidade. O anti-herói Benfiquista, com um número histórico nas costas e outro, de golos, nas botas. Safou-nos, como estas personagens, inúmeras vezes. Fartou-se de marcar golos. Em casa, fora, aos verdes, aos azuis. Lá fora e em casa. No meu tempo de vida, nunca festejei tantos golos com um jogador. 
Falhou o golo isolado frente a Helton na primeira volta, cicatriz que partilha connosco. Portou-se mal com Jesus na final da Taça, mas quantas vezes não se embebedou Marlowe?

Numa época sem heróis, leio todos os dias os jornais desportivos com medo que este policial acabe mal. 



PS: E como se isto não bastasse, o meu pai ganhou um campeonato de columbofilia este fim de semana. O nome do pombo que pontuou para a vitória? Tacuara.