Há uma velha anedota médica em que um doente se vira para o médico e diz: "Doutor: eu devo ter qualquer coisa de muito grave. Toco na mão esquerda e dói-me. Toco na perna e dói-me. Toco na barriga e dói-me. Toco na cabeça e dói-me." Ao que o médico lhe responde: "O senhor tem o dedo partido."
Eu podia, de memória, escrever teses sobre os erros do Benfica nas últimas décadas. Os erros crassos de gestão futebolística, entre contratações e má gestão do plantel. A política interna de relações humanas bizarra (o caso Cardozo vai ser falado nos cursos de gestão durante anos, podendo haver cadeiras só sobre o mesmo), a péssima relação com os árbitros (no sentido de sermos sempre roubados e nunca conseguirmos reagir a isso, respondendo sempre tarde e a más horas e numa forma tão confrangedora que só me dá vergonha alheia e mais vontade aos árbitros de nos roubar) e com as outras equipas. Podíamos falar do caso Luisão, da misteriosa incapacidade em ter um defesa-esquerdo, a falta de respeito com os adeptos, enfim. Eram dias a escrever, a desabafar as minhas mágoas e a mostrar-vos o meu programa eleitoral para Presidente do Sport Lisboa e Benfica, função que eu cumpriria grátis, dedicando 10000% (dez mil por cento, leram bem) do meu tempo à causa.
O que mais me custa, enquanto benfiquista doente, é o sentimento de impotência. Eu estou sempre a pensar no Benfica. Quando digo sempre, quer mesmo dizer sempre. Acordo e penso no Benfica, leio todos os jornais, todos os blogs que considero importantes, analiso a concorrência, estudo a forma do nosso plantel e faço a gestão não só dos problemas técnico-tácticos, como até emocionais (o meu discurso motivacional só para o Cardozo faria com o paraguaio batesse Messi e Ronaldo juntos em golos só na primeira volta). E, quando acabo de resolver mentalmente um destes problemas (como, sei lá, o explicar ao Djuricic que se deve posicionar atrás da primeira linha de pressão do adversário, exactamente entre o lateral e o central adversário, mas mais à frente, numa paralela ao trinco adversário, que o faça desviar da zona central onde o Cardozo depois pode aparecer), normalmente apercebo-me que todos os meus esforços foram em vão. E foram em vão porquê? Porque não só eu não trabalho no Benfica, mas sobretudo porque não há a menor possibilidade de alguém no Benfica pensar o mesmo.
E por que é que eu acho que ninguém no Benfica pensa assim? Porque no Benfica ninguém pensa. Não é no sentido literal: de certeza que as pessoas da direcção são seres pensantes. Mas pensam noutras coisas: na Benfica TV, nos dinheiros, nessas coisas que eu não percebo nada, nem quero perceber. Agora em futebol ninguém pensa. Repito: ninguém. Não é incompetência, tem que ser ausência de pensamento. Não há, quanto a mim, no Benfica, uma reunião de dez pessoas que, como eu, só pensem no Benfica e neste tipo de problemas (e que, já agora, não sejam médicas. Parecendo que não tira tempo para pensar no Benfica). No meu Benfica, no clube que eu imagino - e assim será quando eu for presidente - todas as manhãs haverá uma reunião onde dez pessoas completamente doentes e obstinadas analisam os problemas da equipa de futebol e que proponham soluções para os resolver. Por exemplo: o Enzo é um super jogador, mas é um gajo que perde a calma e claramente os adversários vão procurar expulsá-lo, sobretudo antes de jogos decisivos. Doente número 1 dos 10 no fim da reunião falava com o treinador e com o Enzo.
Escrevo-vos isto hoje a propósito da cena de Jorge Jesus ontem com a polícia. Eu, como adepto que já vi a polícia fazer o que quer e o que lhe apetece aos adeptos, passando sempre impune e alegando a habitual "força necessária" enquanto espanca quem lhe aparece à frente, tenho a maior simpatia pelo acto de Jorge Jesus. Mas eu, antes de adepto, antes de ser contra a violência policial, penso no Benfica. E o Benfica vai ser penalizado com isto, com o castigo do seu treinador. E estas coisas acontecem porque não há ninguém que pense nisto, não há ninguém que só pense no Benfica, um alguém que já teria topado a pinta de Jorge Jesus e que tinha falado com ele a explicar-lhe que depois do jogo tinha que ir directamente para o túnel, onde alguém da direcção (dessa mesa de 10 gajos como eu) lhe diria exactamente o que dizer na flash-interview. Para quem ainda não percebeu, mesmo depois do espectáculo de notícias, de ataques via comunicado, de bocas do treinador rival, o Benfica está - quer queira ou não queira - numa guerra. E não há quem tome conta do nosso exército. Ninguém pensa nisto, não há uma reunião diária de generais. E os resultados estão à vista. A equipa há 3 anos que não ganha o título, a época começou de pernas para o ar, a militância dos adeptos é quase nula e não aprendemos nada com a peitada do Luisão.
Meus caros: dói-nos tudo? Tudo funciona mal? Se calhar é porque o dedo está partido. Ou, neste caso, a cabeça.

