segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O dedo partido

Há uma velha anedota médica em que um doente se vira para o médico e diz: "Doutor: eu devo ter qualquer coisa de muito grave. Toco na mão esquerda e dói-me. Toco na perna e dói-me. Toco na barriga e dói-me. Toco na cabeça e dói-me." Ao que o médico lhe responde: "O senhor tem o dedo partido."

Eu podia, de memória, escrever teses sobre os erros do Benfica nas últimas décadas. Os erros crassos de gestão futebolística, entre contratações e má gestão do plantel. A política interna de relações humanas bizarra (o caso Cardozo vai ser falado nos cursos de gestão durante anos, podendo haver cadeiras só sobre o mesmo), a péssima relação com os árbitros (no sentido de sermos sempre roubados e nunca conseguirmos reagir a isso, respondendo sempre tarde e a más horas e numa forma tão confrangedora que só me dá vergonha alheia e mais vontade aos árbitros de nos roubar) e com as outras equipas. Podíamos falar do caso Luisão, da misteriosa incapacidade em ter um defesa-esquerdo, a falta de respeito com os adeptos, enfim. Eram dias a escrever, a desabafar as minhas mágoas e a mostrar-vos o meu programa eleitoral para Presidente do Sport Lisboa e Benfica, função que eu cumpriria grátis, dedicando 10000% (dez mil por cento, leram bem) do meu tempo à causa. 

O que mais me custa, enquanto benfiquista doente, é o sentimento de impotência. Eu estou sempre a pensar no Benfica. Quando digo sempre, quer mesmo dizer sempre. Acordo e penso no Benfica, leio todos os jornais, todos os blogs que considero importantes, analiso a concorrência, estudo a forma do nosso plantel e faço a gestão não só dos problemas técnico-tácticos, como até emocionais (o meu discurso motivacional só para o Cardozo faria com o paraguaio batesse Messi e Ronaldo juntos em golos só na primeira volta). E, quando acabo de resolver mentalmente um destes problemas (como, sei lá, o explicar ao Djuricic que se deve posicionar atrás da primeira linha de pressão do adversário, exactamente entre o lateral e o central adversário, mas mais à frente, numa paralela ao trinco adversário, que o faça desviar da zona central onde o Cardozo depois pode aparecer), normalmente apercebo-me que todos os meus esforços foram em vão. E foram em vão porquê? Porque não só eu não trabalho no Benfica, mas sobretudo porque não há a menor possibilidade de alguém no Benfica pensar o mesmo.

E por que é que eu acho que ninguém no Benfica pensa assim? Porque no Benfica ninguém pensa. Não é no sentido literal: de certeza que as pessoas da direcção são seres pensantes. Mas pensam noutras coisas: na Benfica TV, nos dinheiros, nessas coisas que eu não percebo nada, nem quero perceber. Agora em futebol ninguém pensa. Repito: ninguém. Não é incompetência, tem que ser ausência de pensamento. Não há, quanto a mim, no Benfica, uma reunião de dez pessoas que, como eu, só pensem no Benfica e neste tipo de problemas (e que, já agora, não sejam médicas. Parecendo que não tira tempo para pensar no Benfica). No meu Benfica, no clube que eu imagino - e assim será quando eu for presidente - todas as manhãs haverá uma reunião onde dez pessoas completamente doentes e obstinadas analisam os problemas da equipa de futebol e que proponham soluções para os resolver. Por exemplo: o Enzo é um super jogador, mas é um gajo que perde a calma e claramente os adversários vão procurar expulsá-lo, sobretudo antes de jogos decisivos. Doente número 1 dos 10 no fim da reunião falava com o treinador e com o Enzo.

Escrevo-vos isto hoje a propósito da cena de Jorge Jesus ontem com a polícia. Eu, como adepto que já vi a polícia fazer o que quer e o que lhe apetece aos adeptos, passando sempre impune e alegando a habitual "força necessária" enquanto espanca quem lhe aparece à frente, tenho a maior simpatia pelo acto de Jorge Jesus. Mas eu, antes de adepto, antes de ser contra a violência policial, penso no Benfica. E o Benfica vai ser penalizado com isto, com o castigo do seu treinador. E estas coisas acontecem porque não há ninguém que pense nisto, não há ninguém que só pense no Benfica, um alguém que já teria topado a pinta de Jorge Jesus e que tinha falado com ele a explicar-lhe que depois do jogo tinha que ir directamente para o túnel, onde alguém da direcção (dessa mesa de 10 gajos como eu) lhe diria exactamente o que dizer na flash-interview. Para quem ainda não percebeu, mesmo depois do espectáculo de notícias, de ataques via comunicado, de bocas do treinador rival, o Benfica está - quer queira ou não queira - numa guerra. E não há quem tome conta do nosso exército. Ninguém pensa nisto, não há uma reunião diária de generais. E os resultados estão à vista. A equipa há 3 anos que não ganha o título, a época começou de pernas para o ar, a militância dos adeptos é quase nula e não aprendemos nada com a peitada do Luisão.

Meus caros: dói-nos tudo? Tudo funciona mal? Se calhar é porque o dedo está partido. Ou, neste caso, a cabeça.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Falta é a tua tia, pá

Às vezes gosto de pensar em como é que os leitores que não nos conhecem nos imaginam. Eu, alta, magra e com uns olhos azuis tão saudáveis que não precisam de óculos à frente. O M., bronzeado, musculado e com a barba sempre no ponto. Um casal lindo de morrer, mas extremamente selvagem. A casa com uma fila de stewards ao meio a dividir-nos, a parede cheia de cachecóis azuis e vermelhos e nós constantemente a cantar contra o clube do outro. Seria uma vida espectacular, mas não é bem assim.

A verdade é que gostamos de pautar a nossa loucura por alguma racionalidade. Quando estamos sozinhos, sem ninguém a ver ou a ouvir, longe da pressão dos nossos pais - que nunca permitiriam estes momentos de fraqueza -, somos capazes de ter conversas decentes e sinceras sobre os nossos clubes. É nestas alturas, envergonhadas mas necessárias para nos tornarem um casal mais forte, entre mimos e beijinhos para disfarçar, que confessamos os erros de arbitragem a nosso favor.

Desculpem, caros leitores, se vos choco com a simples admissão que os erros de arbitragem a favor do nosso clube existem. Não são muitos, como é óbvio, porque errar é humano e os árbitros têm de decidir muito rapidamente e às vezes nem na televisão se vê bem. Eu por acaso até não me lembro de alguma vez isso ter acontecido ao Porto. Mas às vezes, muito raramente, lá aparece uma ou outra evidência marota. E nós somos muito bons a negá-la no estádio, na cantina do trabalho ou no café lá da rua, fazemos mesmo um ar sério de quem acredita realmente no que está a dizer, mas gostamos tanto um do outro que não conseguimos escondê-la entre nós.

Porque há coisas que, numa vida a dois, não faz sentido esconder. Por exemplo, se eu um dia trair o M. com o Brad Pitt (e há mesmo essa possibilidade porque – lembrem-se – na vossa imaginação eu sou alta, magra e tenho uns olhos azuis tão saudáveis que não precisam de óculos à frente), não vou poder contar-lhe isso, porque primeiro ele até pode ficar orgulhoso por eu ter sacado o Brad Pitt, mas depois é capaz de pedir o divórcio porque o senhor do registo civil frisou bem que isso agora é proibido. No entanto, se um árbitro por acaso, sem querer e sobretudo sem grandes consequências, errar a favor do meu clube, o M. é a única pessoa no mundo a quem o posso confessar.

Claro que, sendo ele do benfica, acontece quase diariamente ele admitir-me que o árbitro errou a favor do clube dele. Às vezes até me chateia que ele esteja sempre a dizer a mesma coisa. Já percebi, M., os árbitros roubam de caraças para o benfica, escusas de estar sempre a bater na mesma tecla. Mas enfim, este fim-de-semana eu lá tive de admitir que o benfica foi prejudicado em alvalade (e só escrevo isto porque, estando o sportem à frente do benfica na classificação, eu no fundo só estou a afirmar que o Porto foi mais uma vez roubado). Fi-lo com uma decência exemplar, sem rodeios, com um porte incrível, parecia o Quintero a chutar à baliza.

No entanto, no dia seguinte, no final do jogo em Felgueiras, ainda estava eu a sair da bancada aos saltos e a cantar, com sinais evidentes de desidratação mas celebrando uma daquelas vitórias que sabemos que são mesmo, mesmo importantes, e recebi a seguinte SMS: “Golo em falta”. Porra, golo em falta. E se é o M. a dizer, é porque é mesmo. Ele não me mente, ele não me engana, ele a mim diz sempre o que pensa. Avisei o meu pai e outros que, tal como nós, ainda saíam do estádio aos saltos e a cantar. Ninguém me ligou. Vi e revi o golo na minha cabeça e não percebia o que se tinha passado, mas eu – surpresa! - como não sou alta não via bem no meio daquela multidão e ainda por cima – dupla surpresa! - estava tanto sol que eu não consegui meter os óculos com os quais vejo bem.

Estava eu nestes dramas até que cheguei a casa e vi o lance. Fiquei furiosa. Bem, na verdade primeiro fiquei aliviada. Não foi falta nenhuma, o homem fica de pé e nem se queixa e é preciso ser-se muito mal intencionado para não ver que o rapaz de amarelo vinha lançado de rabo quando o Jacksonzinho (até à meia-noite de hoje vou tratar-te bem, para ver se ficas) teve de meter os braços à frente para não levar com o movimento mais mariconço da jornada. Só depois é que fiquei furiosa. Por que é que o M. disse aquilo? Que razão o levaria a enganar-me de forma tão leviana? Ficar a cinco pontos de distância em apenas três jornadas é chato, mas o nosso amor está acima dessas picardias, certo? Fogo, M., se nós aguentámos o golo do Kelvin, aguentamos tudo.

Ainda não descobri a resposta a estas perguntas. O M. continua a dizer, sem se rir, que há falta no golo do Jackson. Pela voz dele (ainda não o vi desde o derby, espero que ele ainda exista e eu não esteja a telefonar para uma gravação), nota-se até algum gozo, como se ele fosse o Nobel da Arbitragem e eu apenas uma adepta louca e cega que nunca iria admitir essa evidência.

Na verdade, não é a primeira vez que tal acontece. Às vezes, nem o nosso amor é capaz de superar certos lances. Nem nós, que gostamos muito um do outro, conseguimos ver o que o outro quer. O golo do Jackson será sempre irregular para o M. e será sempre limpinho para mim. Não se trata de amor, trata-se de futebol, que é uma coisa mais séria. E se ainda hoje o M. é capaz de jurar que o Katsouranis não fez falta sobre o Anderson (O HOMEM PARTIU UMA PERNA, VALHA-ME DEUS, M., ÉS O ADEPTO MAIS LOUCO E CEGO QUE EU CONHEÇO!!!), acho que posso estar à vontade.

domingo, 1 de setembro de 2013

The Doors of Perceptovic

* Nota prévia: esta época promete ser uma depressão muito grande e a minha tendência seria escrever o mesmo texto de maneiras diferentes. Felizmente, a minha mulher, que é mais inteligente do que eu em tudo (excepto na escolha do clube: o dela é odioso), previu rapidamente a situação e obrigou-me a evitá-lo. Até prova em contrário, todos os meus textos são uma segunda opção, porque tudo o que me apetece escrever é deprimente. 


Eu não vi a pré-época do Benfica, mas olhando apenas para os resumos consegui catalogar logo Bruno Cortez como um pino com cabelo esquisito, com dificuldades motoras ao nível das girafas bebé. Como pessimista vitalício, recusei-me a acreditar no que a minha análise dizia sobre Markovic. Markovic é impressionantemente rápido e simples a conduzir a bola, só tem olhos para a baliza e finaliza com classe. Markovic a driblar rivais é ouvir o refrão da "Good Vibrations" dos Beach Boys.




No meio da alucinação que é o Benfica, que ontem conseguiu a proeza de empatar um derby sem fazer uma jogada de futebol (e o derby foi, embora com algumas provas contra, de futebol), Markovic é a única maneira do meu coração bater mais rápido sem ser de aflição. Eu sei que isto é infantil, que o miúdo só tem 19 anos, que o FCP já deve ter pago a qualquer central do Paços para lhe limpar o sebo, que ele não provou nada, etc. Mas eu preciso de fé, eu preciso de alguma coisa. Num Benfica em que um lateral tem um ar de quem não consegue acertar a primeira pergunta do "Quem quer ser milionário?", em que o meio-campo é um buraco maior do que o vazio na cabeça desse lateral esquerdo, ver Markovic a jogar é uma maravilhosa trip de LSD. É ver cores e magia, é uma anestesia de rara beleza, como ouvir The Doors pela primeira vez - ao vivo, em 1968 - uma maneira de esquecer a guerra, o FMI, a crise na lateral esquerda do Benfica. Markovic em direcção aos defesas do Sporting, a desviar-se deles como quem toca guitarra é o Diamantino a partir o Venâncio todo no Jamor, Paneira a enganar o traidor de Viseu pela direita, são sonhos lindos, alucinações de coisas fantásticas que sabemos ser mentira ou passado ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Marko avança e dribla e mete a bola entre as pernas de Patrício com a calma que Aimar já o sentara - foi em 2010, mas parece que foi há centenas de anos, num tempo em que o Benfica era muito diferente (e não era). Markovic será um daqueles craques fugazes, alucinações como Miccoli e Ramires, que vêm cá como quem pára numa estação de serviço. Uma visão, como ver homens gigantes ou minúsculos, formidavelmente rápidos e hábeis, capazes de tardes de magia como aquele jogo do Miccoli contra o Lille (estava em Berlim. Já foi há tanto tempo) que nos fazem duvidar da nossa memória: terá sido um jogo assim tão bom? Era Miccoli assim tão bom jogador? E é como se, vítimas de um feitiço qualquer, sentíssemos o vazio disso tudo. Que interessam Ramires, Miccoli, Coentrão e até Cardozo se o Benfica não nos faz felizes?

Mas aí vai ele, Markovic, embalado com a bola, doce acorde que nos toca no coração, simbolizando como o Benfica é e deve ser mais rápido, mais forte, com mais classe, mas ao mesmo tempo tudo isto é estúpido porque foi a única jogada de futebol do Benfica em 90 minutos, e foi só feita por um jogador - mas é futebol na mesma! - e vai Markovic!, e vais marcar e fazer entrar a bola do Cardozo na primeira parte o ano passado contra os tripeiros! E eu imagino isso e grito golo e alucino outra vez que voltaremos a ser Benfica, voltaremos a ser o Benfica, o Benfica dos meus sonhos, das minhas alucinações.



Markovic é a valsa quase anti-depressiva, ironia no meio do caos, droga para esquecer a merda em que chafurdamos sabe-se lá desde quando. Já não consigo mais. É como se só aumentando a dose pudesse esquecer isto, como se precisasse de uma distracção. Como se precisasse de futebol para me distrair do futebol, de um delírio colorido para esquecer as dores de heroinómano. Markovic será LSD, será o whisky bar dos Doors, mas o Benfica... o Benfica é uma bad trip.



Fica aqui a minha homenagem a Aldous Huxley e ao seu The Doors of Perception, onde relata as suas experiências com alucinogénicos. O livro viria a servir para o nome da mítica banda de Jim Morrison.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A voz

Todos nós, maluquinhos, já teremos chegado - pelo menos uma vez na vida - àquele momento em que pensamos: "Talvez eu pudesse não ter visto este jogo ao vivo, em vez de...". Isto coloca-se, porque para nós, fanáticos, o clube está automaticamente à frente. Há um aniversário de um amigo, mas é um derby, portanto ele faz anos para o ano (já os derbies são só duas vezes por ano) e de certeza que ele vai compreender. Aliás, se não compreender é porque não nos conhece e não é mesmo nosso amigo.

O problema é que este tipo de decisão se torna mesmo automático e, com o passar dos anos, e já com muitos Benfica-Gil Vicente vistos - o suficiente para conseguir, apenas e só pelo momento do Benfica, praticamente adivinhar o que se vai passar em campo-, uma pessoa mantém o automatismo de preferir o clube, mas questiona-se mais vezes e mais facilmente.

Começo a escrever-vos assim porque eu no domingo obriguei a minha família a almoçar mais cedo, sacrifiquei uma tarde com a minha irmã, mãe, cunhado, irmão e sobrinha mais nova (que podia ser passada numa praia algarvia, é importante sublinhar) porque tinha que vir mais cedo para Lisboa. Porque estava de urgência? Porque tinha trabalhos para fazer? Porque vinha ver outros familiares ou amigos? Não, porque jogava o Benfica. Pior, esta decisão foi rapidamente apoiada pela C., não por minha causa, mas porque a seguir jogava o clube dela (aquele de riscas, que devia acabar).

Assim, em pleno Estádio da Luz, perto dos 85 minutos, com a iminente segunda derrota consecutiva a chegar e um nihilismo suicida a tomar conta de mim, uma voz - tímida, mas nítida - ousou dizer no meu cérebro: "Talvez tivesse sido melhor ter ficado em Faro", enquanto a minha cabeça batia devagar e repetidamente na cadeira da frente. Era uma voz que, apesar de clara pela primeira vez, era minha conhecida. 

Foi ela que eu já ouvi, vezes sem conta, mas muito ao fundo e com muito ruído à volta (BENFICA! BENFICA! BENFICA!) quando disse já mais vezes do que consigo contar à minha mãe que não ia visitá-la e à família porque "este fim-de-semana jogamos sábado e é importante" (como se alguma vez não fosse). Foi essa voz que eu ouvi quando acordava às cinco da manhã para estudar só para não ter problemas de consciência em ir à bola com uma oral no dia a seguir. Era essa voz que me devia ter impedido de dizer ao meu pai: "Então tu marcas o jantar dos teus 50 anos para um sábado em que o Benfica joga?", passando por cima do facto de toda a família e amigos terem viajado nesse dia só para jantar connosco. Era essa voz que me devia recordar que a 16 de Março de 2005 tive uma noite épica de copos com irmãos, primos e amigos e não que foi a noite em que ganhámos 0-2 ao Setúbal, golos do Simão e Manuel Fernandes, vitória fundamental para o título.

A maior discussão que tive assim, dentro de mim, foi quando a C. foi operada. O Benfica recebia o Zenit, nos oitavos-de-final da Champions, depois de ter perdido 3-2 fora. A C. ia ser operada - cúmulo das provocações! - no Hospital da Luz. Ora, segundo a hora da operação - do interesse do próprio cirurgião e anestesista, que acabaram por ir à Luz (grandes!)-, tudo estava cronometrado ao segundo para eu ver a C. sair do bloco, perguntar se tudo tinha corrido bem, telefonar a toda a gente e correr para o meu lugar (comprei bilhete e tudo), ver o Benfica e depois voltar para ver finalmente a C. sem estar zonza da anestesia. 

Tudo isto estava a correr bem, até que eu, pela primeira vez, vacilei e não consegui deixá-la. Confesso que tenho algum orgulho nisto - foi a primeira vez que a humanidade ganhou ao hooligan - mas também admito que não foi uma vitória limpa, porque vi o jogo ao lado dela, mas um bocado lixado por ela nem sequer estar acordada e a dizer: "TU ÉS O MELHOR NAMORADO DO MUNDO" a cada dois segundos, que era o que eu merecia (a única vez que ela acordou foi para perguntar: "Quanto está o Zenit?" Nem Benfica disse, porra).

Ora, no domingo, a depressão invadia-me a um nível tal que cheguei a achar possível que a razão - era dela, a voz - pudesse finalmente tomar conta de mim. Seria um passo para a vida adulta, para os comportamentos socialmente aceites. Finalmente saberia dizer, sem ter de ir ao google, que países fazem fronteira com a Alemanha, em vez de saber todos os estádios onde foram disputadas as finais da Liga dos Campeões de 2013 para 1984 de cor. Mas, felizmente, o Benfica salvou-me. Markovic e Lima impediram-me, aos 29 anos, de escolher o lado da normalidade. E, de braços abertos, berrando loucamente nem sei o quê, festejei mais uma tarde que não passei com as pessoas que eu mais adoro no mundo.

Este texto é para essas pessoas. As que adoro tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, que, um dia, vou gostar tanto delas como do Benfica.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Quero o meu M. de volta

Estamos numa daquelas semanas em que um de nós tem horário de empregada de limpeza e o outro de guarda-nocturno, sendo que neste caso a empregada de limpeza é o M. e eu sou o guarda-nocturno, por isso talvez não devesse ter começado por aqui. O essencial a reter é que mal nos temos visto. Comunicamos por post-its do género “Tens sopa para o jantar no frigorífico” e, como já estamos juntos há muito tempo, já não perdemos tempo a escrever um termo carinhoso a seguir. Se o importante é a sopa que está no frigorífico e o outro já sabe que há aqui amor e tal, vamos directos ao assunto.

O problema é que, antigamente, durante estas semanas de horários inversos, entre as poucas palavras que trocávamos havia sempre espaço para o futebol. Por exemplo, num post-it meu para o M., a seguir a um “Deitaste o lixo fora?” podia vir perfeitamente um “Quando acordares vai ver a capa do Jogo para saberes o que o anormal do Jackson disse”. Por antigamente entenda-se o período da nossa relação pré-golo do Kelvin, tempos áureos e bonitos, em que conseguíamos equilibrar a doença que temos pelos nossos clubes com o nosso amor. Agora não é assim.

O M. não fala sobre futebol, a não ser para dizer que o Porto está muito forte e o benfica muito fraco. Não viu nenhum jogo da pré-época e vai dando apenas umas olhadelas às capas dos desportivos, mas só porque tem medo de tornar-se numa daquelas pessoas estranhas que nesta altura ainda não sabem os números na camisola dos reforços. O M. era aquele namorado que acordava às 7 da manhã, me dava um beijinho antes de ir trabalhar e ainda achava importante dizer-me, mesmo que eu me tivesse deitado às 5, que a Bola tinha na capa que o Malunivicovic estava confirmado no benfica. Para o M. pré-golo do Kelvin, era fundamental que eu interrompesse as minhas duas horas de sono para ouvir um nome que nunca iria recordar quando me levantasse às 2 da tarde, só porque era um possível reforço do benfica e eu não podia ficar nessa ignorância enquanto sonhava com sabe-se lá o quê, decerto menos importante do que isso.

Confesso que tenho saudades desse M.. Tenho saudades de levantar-me, ligar a televisão enquanto tomava o pequeno-almoço e ter de mudar de canal como um disparo do Lucky Luke, mais rápida do que a própria sombra, porque ela estava sintonizada na benfica TV (nós agora nem temos benfica TV, eu disse ao M. que me recusava a pagar e até agora ele nem a subscreveu às escondidas, consciente que iria provocar o nosso divórcio). Não era um acordar sereno, mas pelo menos ficava a saber que o meu M. tinha estado a ver um jogo dos infantis do hóquei e agora não faço a mínima ideia do que ele anda a fazer. Pode ser isso que de certeza que vocês estão a pensar: o M. pode ter uma amante porque quem fazia esse papel de o entreter enquanto eu não estava era o benfica.

Só que o benfica traiu-o, deixou-o de rastos e ele ainda não recuperou. Não sei o que posso fazer mais. Aliás, não sei o que posso fazer de todo, porque continuo a notar que quando ele olha para mim ainda me imagina com uma crista no cabelo e a marcar um golo aos 92 minutos. Eu devia estar contente, não só porque calha de eu ser do clube tricampeão que destruiu o clube dele, mas também porque, não havendo espaço para o benfica no coração do M., posso aproveitar para ganhar terreno. Só que não estou (quer dizer, até estou um bocadinho, porque futebolisticamente isto está a ser espectacular).

Eu preciso do M. normal, do M. que acha mais importante avisar-me que o Jesus não vai jogar com dois médios defensivos do que avisar-me que acabou a manteiga, do M. que me telefona para perguntar se já posso confirmar que o Malunivicovic é mesmo do benfica, porque na cabeça dele eu, como sou jornalista e trabalho a uns 20 metros de pessoas que fazem Desporto, sei tudo. Eu preciso do M. entusiasmado com o benfica, não um entusiasmado à parolo que acha o benfica o maior do mundo, mas entusiasmado como todos nós, os adeptos doentes, que estamos ansiosos que a época comece porque isto do sol e da praia é muito giro, mas não há nada como uma deslocação a Guimarães, ou à Madeira, ou a Setúbal, ou seja onde for.

Quero o meu M. de volta. Estou farta deste clima de paz, de não discutirmos a não ser quando ele arruma os panos da cozinha juntamente com os panos de limpar a casa-de-banho (são tudo panos, diz ele, porque aparentemente o cérebro masculino não percebe a enorme diferença). Estou farta de parecermos um casal normal, que faz férias sem pensar nos amigáveis, que vai jantar fora sem confirmar que o restaurante tem televisão, que fala de saúde, de política e de viagens como se não estivéssemos a pensar na adaptação do Cortez ou do Quintero.

Mas não, calma, eu não vou torcer pelo benfica para bem do M.. Ainda que esteja consciente que fui eu que criei esta espiral de humilhação e dor, espero sinceramente que ela continue. E, quando estou precisamente a escrever isto, recebo um telefonema:

- Olá. Então, estás melhor?
- Sim, já não me dói a cabeça.
- Ok, fixe. ("passemos ao que interessa", pareceu-me ouvir) Olha, finalmente consegui animar-me com o benfica (com voz de menino que recebeu uma prenda)
- Então? (por momentos imaginei que tivessem contratado o Messi, foi terrível)
- Li que podemos andar atrás do Osvaldo da Roma.
- Sim...
- ... E pode ser que eles precisem do Jackson para o substituir! Era só isto, vou trabalhar, beijinhos.          


Ufa, acho que o meu M. voltou.

sábado, 10 de agosto de 2013

Crónica de uma morte anunciada

Ainda não estou restabelecido do que aconteceu algures em Maio de 2013. Sinto que vou ter stress pós-traumático toda a minha vida e que posso num qualquer Benfica-Belenenses que estaremos a vencer por 4-0 (golos do Cardozo) atirar-me para o chão no minuto 92 e colocar-me em posição fetal.
Tentando, então, recuperar a minha sanidade mental, fiz uma coisa inovadora e pioneira na minha vida: não vi nem um jogo de pré-época do Benfica, à excepção dos primeiros 45 minutos contra o Étoile Carouge. O pior não é nem sequer ter visto os jogos, é mais grave: pela primeira vez na minha vida eu não quis, em consciência, ver o Benfica. Preferi sempre a praia, jantares e qualquer outra actividade.

Não é um corte com o Benfica porque isso me é impossível: o RedPass está renovado, as quotas continuam pagas, sigo todas as notícias e vejo os resumos dos amigáveis na internet. No entanto, é a preparação mental para a morte anunciada que será a época 2013/2014. Para suplantar o trauma do ano passado, mantendo o treinador, o Benfica tinha que fazer uma pré-época empolgante, que cortasse com a anterior época. Os problemas tinham que estar encerrados (Cardozo/Jesus, Melgarejo, a falta de um defesa esquerdo, de alternativas no meio, etc) e havia que aliviar a pressão. No entanto, por incompetência ou burrice (deixo à vossa escolha), a direcção do SL Benfica decidiu:

- arrastar a novela Cardozo tanto, tanto tempo, que parece que 2012/2013 ainda não acabou. À data que escrevo Cardozo treina fora do plantel, desvalorizando-se como negócio e não constituindo opção e, pelos vistos, foi contratado Funes Mori, que, segundo as minhas pesquisas na net, é mais odiado pelos adeptos do River Plate do que pelos rivais e marcou menos golos em quatro anos do que Cardozo na sua pior época.
- comprar a "Avenida Paulista" para defesa esquerdo. 45 minutos bastaram-me para perceber que aquela coisa que contratámos para a esquerda vai ser a delícia dos extremos adversários.
- ainda não ter vendido nenhum dos craques, o que deverá acontecer no período "Witsel/Javi Garcia", de maneira a que não haja substitutos à altura.
- comprar um médio centro (dava jeito) e colocá-lo no Dubai, esse campeonato de excelência.

O campeonato só poderá ser discutido se um dos nossos sérvios de dezanove anos se tornar, por obra e graça divina, um jogador capaz de estar a altíssimo nível num campeonato de 30 jogos onde vão ter um alvo marcado nas canelas. 
O amadorismo é tal, a falta de planeamento tão gritante e absurda, que o Benfica 2013/2014 é o primeiro Benfica em muitos anos a nascer sem, sequer, esperança. Ao primeiro mal sinal, a avalanche será inacreditável e rolarão cabeças. Lembro que jogamos nos Barreiros na 1ª jornada, Alvalade na 3ª, Guimarães na 5ª. O facto de ninguém no Benfica ter preparado a época de forma a termos um plantel pronto a enfrentar estes problemas sem termos que pôr uma velinha dá-me uma raiva e uma náusea que nem sequer sou capaz de descrever. É brincar com coisas sérias, é condenar-nos a mais um ano de merda, de frustrações, de dor, de gozo. 

Como não sou religioso e não acredito na sorte, acho que as probabilidades de sermos campeões são diminutas ou quase zero. Assim, de maneira a adiar e tentar minimizar o sofrimento inacreditável que vai ser esta época, tive que me afastar um bocadinho. Dia 18 de Agosto, começará a nossa provação. Sinto-me que, ainda em convalescença do ano passado, tenho de enfrentar um pelotão de fuzilamento. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O melhor onze

O meu clube anda a pedir aos adeptos para votarem no melhor onze da sua história. À primeira vista, pode parecer fácil clicar em bonequinhos previamente definidos, mas, para nós, os doentes, escolher o melhor onze de sempre é uma responsabilidade enorme.

Às vezes espanta-me a facilidade com que os clubes se esquecem que os adeptos são aquilo que de mais importante têm. Por exemplo, este Verão, ninguém do FCPorto me perguntou quem é que eu achava capaz de ser um bom suplente para o Jackson (disse suplente, não substituto, se o deixam sair este ano mato-vos). É incrível, não é? Felizmente, eu também achava que o Ghilas era uma óptima opção, o que diminui a gravidade de não me consultarem para este tipo de decisões importantes, nas quais tanto tempo passo a pensar durante a pré-época.

Daí que pedirem-me para escolher o melhor onze de sempre me faça sentir finalmente importante. Eu, C., simples adepta, sócia apenas desde os 3 anos (um escândalo, eu sei), posso contribuir para que onze rapazes tenham o orgulho imenso de ser escolhidos. Mas não é fácil, admito.

Desde logo porque eu tenho 26 anos. Ora, num clube com 120 anos, isso torna-se um pouco redutor. O primeiro FCPorto da minha memória tinha Domingos e Kostadinov na frente. Tinha Baía, João Pinto e Aloísio lá atrás e tinha André e Rui Barros no meio. Já não tinha Fernando Gomes, Mlynarczyk, Frasco ou Futre. O FCPorto eu vi, que eu tanto apoiei, tinha o triângulo Costinha-Maniche-Deco e teve Jardel, Lisandro e Hulk. O FCPorto da minha geração é um clube com grandes jogadores, mas a maioria chega de longe, ganha durante algumas épocas e troca-nos por outro. São craques, mas dificilmente ficarão na nossa história.

Mas o meu FCPorto não sou só eu. O meu FCPorto é o meu avô a falar do Cubillas, é o meu pai a exemplificar os livres do Branco e a minha mãe a recordar o calcanhar de Madjer. O meu FCPorto são décadas de histórias, de muitas vitórias mas também muitas derrotas, de um Pavão que faleceu muito antes de eu nascer e de um Pedroto que eu nunca conheci. O meu FCPorto é muito mais do que eu, do que tu, do que Pinto da Costa, do que Robson ou Mourinho, do que Deco ou Falcao.

Por isso, escolhi estes, mas podia ter escolhido muitos outros:

Vítor Baía, o melhor guarda-redes português de sempre
João Pinto, pelas imagens com a taça nas mãos
Aloísio, pelo estilo
Fernando Couto, pela raça
Branco, pelos tais livres
André e Frasco, por todos os jogadores à Porto
Deco, com muita pena de não poder incluir também Rui Barros
Madjer e Futre, pelo início de uma grande era
Jardel, porque queria escolher Domingos mas o M. ficou escandalizado por eu deixar de fora o ponta-de-lança que mais o fez sofrer.

E vocês? Que onze escolheram?