Tenho quase 30 anos. É uma sensação agridoce de contente pelas coisas que tenho (mulher de sonho, emprego que sempre quis, família perfeita) e aquela vontade de se ser sempre pequeno. Nada nos faz lembrar mais Peter Pan do que ter de ir tratar de uma burocracia qualquer à Loja do Cidadão. Gosto de ser médico, marido e tio, mas odeio o ter que tratar de uma casa, de documentos, de impostos.
Ganhámos ontem em Coimbra, 0-3. Parece que foi fácil, mas não foi. A equipa anda cabisbaixa, de birra, mãos nos bolsos, ombros caídos e a olhar para o chão como se o mundo estivesse contra ela. Como um adolescente a quem mandaram arrumar o quarto e vê nisso uma conspiração mundial. O Benfica não cresce, não ganha maturidade, não consegue arrumar o quarto sem se enervar e enervar toda a gente, quanto mais tomar conta de uma casa, arranjar mulher, tratar dos documentos da segurança social.
Sempre achei que os adultos eram super-heróis. A minha mãe sabe sempre o que fazer, o meu pai tem resposta para tudo. Achei que chegaria a uma idade em que ficaria assim, de um dia para o outro, a saber o que fazer. Não é assim, mas vai ter de ser. Tenho que tratar de coisas, de burocracias que odeio, de coisas que me tiram tempo para fazer o que gosto. Sou um péssimo adulto, mas tenho de o ser.
O Benfica ainda é mais adolescente do que eu. Deixa-se levar por qualquer moda que apareça (isto do Ivan Cavaleiro passar a titular é uma coisa que me mata, não lhe reconheço qualidade nenhuma para ser titular no Benfica), entra em casa de phones sem cumprimentar ninguém e põe-se a pensar na vida dele em vez de fazer os TPC. Vitimiza-se, entra em depressão por tudo e por nada, excita-se com qualquer vitória como aqueles adolescentes que lêem uma coisa e acham imediatamente que aquilo é a melhor coisa que já foi escrita no mundo e passam a vangloriar-se disso e a falar vezes sem conta dessa vitória. É de uma instabilidade que não dá confiança a ninguém.
Eu também sou terrível nestas coisas e a C. passa a vida a chatear-me (e cheia de razão) porque eu não pago logo as contas e me meto a estudar primeiro, porque eu demorei meses/anos para tratar da via verde, mas que demorei só uns dias a assinar a revista Panenka depois de ler o primeiro exemplar que me chegou à mão. A C. tem razão. Mas, sabes, Benfica, eu pelo menos sou bom médico e bom marido (a própria C. o reconhece), faltando-me só este último obstáculo - a capacidade para perceber que um assunto chato tem de ser resolvido e fazê-lo o mais depressa possível - para atingir o grau de adulto e a C. deixará de ter medo que eu venha a ser um daqueles pais que se esquece dos filhos na escola (não, a C. não está grávida, calma). Se calhar este último obstáculo é grande, admito, mas caramba, já não falta tudo, percebes, Benfica?
É que o Benfica não consegue encarar a mínima tarefa decentemente. O jogo em Cinfães eram favas contadas, como quem diz "estive com atenção nas aulas, não preciso de estudar" e pelos vistos foi péssimo. Com o Estoril acabámos com o credo na boca, a fazer uma directa a arrumar o quarto antes dos pais chegarem de fim-de-semana. Com o Olympiakos foi chegar a um teste sem estudar e ele foi adiado uma semana e, pelos vistos, continuamos sem estudar. No entanto, com o golo do Markovic ontem, já temos com que nos entreter para uma semana, como um adolescente que começa a ler Eça de Queiroz e deixa de estudar para o teste de Matemática ou como eu, que me esqueço sempre de deixar comida a descongelar ou que quando ponho comida a descongelar acabo a deixá-la lá sem a cozinhar.
Benfica: temos de crescer. Temos mesmo. Eu já estou quase nos 30, não estou totalmente fora de controlo, mas às vezes ainda deixo a C. à beira de um ataque de nervos. Agora tu, meu querido e amado clube, passas a vida a lixar-me a cabeça. Não há jogo que não seja uma carga de nervos, não vejo a mínima entrega, a mínima concentração. Pior, com quase 30 anos a ver-te, não te reconheço a mínima maturidade. Não sabes esconder a bola, não sabes ser menos vertical, não sabes encarar o jogo com a calma e concentração necessárias para ganhar, mas sem a sofreguidão e loucura de quem não sabe dosear nada. Tudo é difícil contigo, Benfica. Ainda és pior do que eu.
Preciso muito que tu cresças porque não há a mínima hipótese de nos separarmos, mas gostava de, um dia, conseguir ver um jogo confiante que tu vais resolvê-lo como um adulto, calma e serenamente, como quem espera numa fila da Loja do Cidadão e depois resolve tudo educadamente e tem os papéis prontos e todos certinhos, percebes? Contigo falta sempre um papel, Benfica. Falta sempre um carimbo, ou chegas com a loja quase a fechar e acabas sempre a ser multado e eu lixado contigo, aos berros.
Vá, Benfica, temos de crescer. Os dois. Mas tu mais do que eu. Vou começar por pagar a renda da casa (estás a ler, C.? Não pagues também.). Vê se ganhas na Grécia e na Luz, contra aqueles gajos. Tens de crescer, Benfica, tens de crescer.
