Quando, no Benfica-Porto do ano passado, cheguei a casa e a C. e os comentadores nacionais concordavam que Maxi Pereira merecia o cartão vermelho por uma entrada (?) sobre João Moutinho, eu, sem ver repetições, achei aquilo muito estranho. Em pleno estádio da Luz, quando esse lance aconteceu, pedi não só cartão amarelo para João Moutinho: "Nem te tocou, seu grande filho da puta! Levanta-te, cabrão!" e depois pedi cartão vermelho para Vítor Pereira e todo o banco do Porto: "Vejam-me só como é que aqueles animais falam com o árbitro! E nem cartão levam! Que filhos da puta!". Hoje, olhando para as imagens, concedo que talvez haja motivo para falta e que Vítor Pereira talvez não merecesse o vermelho, mas pelo menos o amarelo ficou por mostrar. Penso que as imagens são esclarecedoras:
E hoje venho falar sobre árbitros porque, pelo meu facebook, vejo éne amigos lagartos a partilharem vídeos e montagens sobre Duarte Gomes, numa correria de insultos e de argumentos que levam a milhares de comentários, a discussões que acabam normalmente em foras-de-jogo não assinalados em 1978 e a referências às vezes demasiado obscuras (vocês sabem do que eu estou a falar), sem qualquer lógica, mas sempre com uma convicção brutal.
Amigos lagartos: eu percebo por que é que vocês partilham isso. Eu também ainda partilho o penalty do Jardel assinalado pelo mesmo árbitro (e só tenho pena que não haja uma montagem que mostre que nesse mesmo jogo Beto, Viana e JVP tenham ficado por expulsar) e montagens com o roubo em Alvalade neste campeonato. Sabem porquê? Porque achamos todos o mesmo, porque somos todos assim. Temos todos mil argumentos guardados, repetidos e treinados, temos todos contas a ajustar e razões para desconfiar de todos os árbitros.
Isto tem a sua graça cá em casa porque para mim o Porto é o clube mais beneficiado que já existiu e desconfio que se jogasse contra a Casa Branca ia conseguir saber que árbitro era nomeado antes do Obama, mesmo com isto das escutas. Quando conheci a C. achei, do alto do meu benfiquismo militante e fanático, que ela, sendo desse clube odioso e tão escandalosamente beneficiado, ao menos teria a decência de ficar calada sobre árbitros. Mas não, também odeia todos os árbitros, sabe nomes de fiscais-de-linha e ainda fala de um jogo com o Campomaiorense que, suponho, foi a única vez que o Porto não foi beneficiado desde a invenção da regra do fora-de-jogo. Para o lado dela, as coisas são mais ou menos o mesmo. A minha sogra, mesmo já me conhecendo este tempo todo, depois de ler um texto meu, perguntou à C. "Ele diz isto do Benfica ser sempre roubado a brincar, não é?" porque achava que eu, como benfiquista, devia ter consciência que o Benfica é sempre beneficiado (o que é praticamente uma impossibilidade matemática, cara sogrinha, ainda para mais contra o seu clube. Acho que uma vez tive um lançamento mal assinalado no Dragão, mas ainda no meio-campo do Benfica).
Eu não escrevo isto numa de moralista, do género "deixem-se disso, que somos todos iguais e os erros acabam por se compensar". Para mim, o Benfica é roubado e perseguido todos os jogos e sei de cor todos os pontinhos que nos devem deste campeonato e de todos os campeonatos que me lembro. Mas escrevo isto para nós, adeptos, não nos levarmos tão a sério. Não é que nenhum de nós um dia vá admitir que o seu clube foi beneficiado (eu não posso porque isso nunca acontece, estou a falar para vós, azuis e verdes), mas convinha, de vez em quando, que nos soubéssemos rir de nós, da loucura persecutória que temos todos, do facto de nenhum árbitro ser bem-vindo, dos posts com 187 comentários, dos vídeos completamente viciados que aparecem na net.
Uma vez, a falar com um ultra do Torino, caí no erro de elogiar a maneira como o Roberto Baggio batia livres. A resposta dele foi mortal: "Esse cabrão marcava mal. Tinha era tantos, tantos, que um havia de entrar". Eu na altura, em plena curva, não me pude rir e tive que concordar. Mas hoje esta história parece-me retratar em pleno aquilo que vos queria dizer. Nenhum adepto verdadeiro admite a derrota, a superioridade do rival. Nem sequer se admite que o Baggio marca bem livres. Essa intransigência, essa cegueira e luz que eu vejo na C. e em mim (e aqui a ordem de "cegueira" e "luz", "C." e "M." não foi despropositada) é uma maravilha.
Viva nós, adeptos cegos.
PS: um grande abraço para Tacuara Cardozo, que lhe viu sonegado o poker quando Duarte Gomes não quis apitar o óbvio penalty sobre Luisão.

