quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ronaldo: és um Diogo Valente!

Num já distante fim de tarde de 2005 (caramba, estou a ficar velho), eu vi o Sport Lisboa e Benfica a bater por 2-1 o Manchester United, apesar da equipa do Benfica ter alinhado com Quim, Alcides a defesa direito, Anderson, Luisão, Leo, Nelson a médio direito, Nuno Assis à esquerda, Beto e Petit no meio e, na frente, Nuno Gomes atrás de Geovanni a ponta-de-lança. Ganhámos 2-1 contra todas as probabilidades e eu, ainda longe, muito longe, de saber o fenómeno que viria a ser Cristiano Ronaldo, jurei-me seu inimigo futebolístico para sempre. Ronaldo, afectado pela pressão do público que não esqueceu (e nunca devia esquecer) a sua ascendência verde-ranho e branca, fez-nos um sinal com o dedo que mostrava bem que nunca gostou do meu clube. Nesse dia, a partir desse momento, percebi que eu e Ronaldo estaremos sempre em campos opostos.



Eu não perdoo o anti-benfiquismo. Quando um jogador, ou um dirigente, ou uma claque de outro clube, quando qualquer interveniente no jogo mostra ser anti-benfiquista, eu registo e não esqueço. É imperdoável. E essas manifestações podem ser várias e bem mais subtis do que a de Ronaldo. Por exemplo, sente-se no olhar do Diogo Valente que ele é um andrade. E, só por isso, só por eu, com o meu olho clínico, ter detectado anti-benfiquismo no olhar desse cepo, sempre que ele vai à Luz dedico-lhe todos os insultos. Digo-lhe que ele não vale um saco de merda, que nunca há-de ser ninguém, que é tão atrasado mental que trocou as botas, que nunca vai passar da Académica ou do Leixões ou de qualquer clube em que ele jogue, grito-lhe que ele é um andrade filho da..., pronto acho que vocês percebem a ideia. Reparem: eu nem sei se ele é andrade ou não. Mas parece! Isso chega.



Colocado o nome na lista negra, rogo todas as pragas, insulto do pior na Luz  e torço sempre, sempre, sempre contra os anti-benfiquistas. Em qualquer jogo em que o Diogo Valente aparece, eu torço contra o gajo e rio-me de cada centro que acaba no Mondego. E, desde que Ronaldo mostrou à Luz o seu dedo do meio, eu torço sempre contra ele. Sempre. É óbvio que é mais fácil torcer contra o Diogo Valente do que contra o Cristiano Ronaldo: torna as probabilidades de vitória maiores. Mas é uma questão de princípio. Isto mostra que, pelo menos, na hora de escolher inimigos, eu não sou cobarde nenhum. Mas parece-me lógico que, se um gajo formado nos lagartos que fez um pirete à Luz está de um lado, eu vou estar do outro. Quero lá saber se o gajo marca três golos por jogo e está numa forma inacreditável. Não torço a favor desse gajo. É biológico, é-me impossível, nunca na vida. Não quero saber se é português, se é muito humilde e trabalhou muito. Insultou o Benfica? Então, puta que te pariu. Meus caros: não consigo. Um jogador que não gosta, ostensivamente, do Glorioso, merece todo o meu desprezo. Se, para ajudar à festa, foi formado no Sétimo Clube de Portugal, então, meus amigos, sinto que este texto é uma redundância. 
Vocês vão jantar fora com quem insulta a vossa família? Vocês dão prenda de Natal àquele colega cabrãozinho que não faz nada e vos está sempre a lixar a vida no trabalho? Então por que é que eu hei-de torcer por um gajo que insultou o meu clube? Não é isto mais grave? E a seguir? Tenho que torcer pelo Mossoró? Ora que porra.

Pode um benfiquista admirar as capacidades futebolísticas de Ronaldo? Bem, é impossível não o fazer. Ronaldo é um atleta fenomenal (praticamente sobrenatural) que escolheu jogar futebol. É uma besta de força, tem um sprint de corredor de 100 metros, salta mais alto do que toda a gente, chuta brutalmente com os dois pés. Agora, posso eu, como benfiquista torcer por este gajo? Não. Nenhum golo apaga aquele gesto (e aquelas boquinhas de querer o Braga campeão... Eu não esqueço, Ronaldo, eu não esqueço...). É que, para mim, não há atenuantes para o anti-benfiquismo. É um crime que não prescreve, é o pecado futebolístico capital. Se não gostas do meu clube, eu não gosto de ti. Nunca.

Já sei: sou um fanático, devia apreciar o futebolista brutal que ele é, os argumentos patrióticos, e o gajo é humilde e mais não sei o quê. Amigos: até podia ganhar um Nobel da Química, descobrir a cura para o cancro e escrever obras literárias melhor do que Saramago. Podia marcar ainda mais golos, fazê-lo com o Hugo Almeida às cavalitas ou jogar descalço. Insultou o Benfica, não insultou? Então ficamos por aqui. 

Para mim, Ronaldo, tu estás no saco dos anti-benfiquistas. E não há sprint ou golo teu que me faça esquecer isso. Não há maneira de eu te perdoar aquele gesto, não há maneira de eu esquecer o teu berço verde-pus e branco, não há maneira de eu, sempre que olho para o teu focinho quando marcas um golo, me esquecer que eu sou do Benfica e tu não. Tu, para mim, és só um Diogo Valente.


PS: desculpem, houve uma vez que festejei um golo dele. E muito.



terça-feira, 12 de novembro de 2013

Nós e os árbitros

Quando, no Benfica-Porto do ano passado, cheguei a casa e a C. e os comentadores nacionais concordavam que Maxi Pereira merecia o cartão vermelho por uma entrada (?) sobre João Moutinho, eu, sem ver repetições, achei aquilo muito estranho. Em pleno estádio da Luz, quando esse lance aconteceu, pedi não só cartão amarelo para João Moutinho: "Nem te tocou, seu grande filho da puta! Levanta-te, cabrão!" e depois pedi cartão vermelho para Vítor Pereira e todo o banco do Porto: "Vejam-me só como é que aqueles animais falam com o árbitro! E nem cartão levam! Que filhos da puta!". Hoje, olhando para as imagens, concedo que talvez haja motivo para falta e que Vítor Pereira talvez não merecesse o vermelho, mas pelo menos o amarelo ficou por mostrar. Penso que as imagens são esclarecedoras:




E hoje venho falar sobre árbitros porque, pelo meu facebook, vejo éne amigos lagartos a partilharem vídeos e montagens sobre Duarte Gomes, numa correria de insultos e de argumentos que levam a milhares de comentários, a discussões que acabam normalmente em foras-de-jogo não assinalados em 1978 e a referências às vezes demasiado obscuras (vocês sabem do que eu estou a falar), sem qualquer lógica, mas sempre com uma convicção brutal. 
Amigos lagartos: eu percebo por que é que vocês partilham isso. Eu também ainda partilho o penalty do Jardel assinalado pelo mesmo árbitro (e só tenho pena que não haja uma montagem que mostre que nesse mesmo jogo Beto, Viana e JVP tenham ficado por expulsar) e montagens com o roubo em Alvalade neste campeonato. Sabem porquê? Porque achamos todos o mesmo, porque somos todos assim. Temos todos mil argumentos guardados, repetidos e treinados, temos todos contas a ajustar e razões para desconfiar de todos os árbitros. 

Isto tem a sua graça cá em casa porque para mim o Porto é o clube mais beneficiado que já existiu e desconfio que se jogasse contra a Casa Branca ia conseguir saber que árbitro era nomeado antes do Obama, mesmo com isto das escutas. Quando conheci a C. achei, do alto do meu benfiquismo militante e fanático, que ela, sendo desse clube odioso e tão escandalosamente beneficiado, ao menos teria a decência de ficar calada sobre árbitros. Mas não, também odeia todos os árbitros, sabe nomes de fiscais-de-linha e ainda fala de um jogo com o Campomaiorense que, suponho, foi a única vez que o Porto não foi beneficiado desde a invenção da regra do fora-de-jogo. Para o lado dela, as coisas são mais ou menos o mesmo. A minha sogra, mesmo já me conhecendo este tempo todo, depois de ler um texto meu, perguntou à C. "Ele diz isto do Benfica ser sempre roubado a brincar, não é?" porque achava que eu, como benfiquista, devia ter consciência que o Benfica é sempre beneficiado (o que é praticamente uma impossibilidade matemática, cara sogrinha, ainda para mais contra o seu clube. Acho que uma vez tive um lançamento mal assinalado no Dragão, mas ainda no meio-campo do Benfica). 

Eu não escrevo isto numa de moralista, do género "deixem-se disso, que somos todos iguais e os erros acabam por se compensar". Para mim, o Benfica é roubado e perseguido todos os jogos e sei de cor todos os pontinhos que nos devem deste campeonato e de todos os campeonatos que me lembro.  Mas escrevo isto para nós, adeptos, não nos levarmos tão a sério. Não é que nenhum de nós um dia vá admitir que o seu clube foi beneficiado (eu não posso porque isso nunca acontece, estou a falar para vós, azuis e verdes), mas convinha, de vez em quando, que nos soubéssemos rir de nós, da loucura persecutória que temos todos, do facto de nenhum árbitro ser bem-vindo, dos posts com 187 comentários, dos vídeos completamente viciados que aparecem na net.

Uma vez, a falar com um ultra do Torino, caí no erro de elogiar a maneira como o Roberto Baggio batia livres. A resposta dele foi mortal: "Esse cabrão marcava mal. Tinha era tantos, tantos, que um havia de entrar". Eu na altura, em plena curva, não me pude rir e tive que concordar. Mas hoje esta história parece-me retratar em pleno aquilo que vos queria dizer. Nenhum adepto verdadeiro admite a derrota, a superioridade do rival. Nem sequer se admite que o Baggio marca bem livres. Essa intransigência, essa cegueira e luz que eu vejo na C. e em mim (e aqui a ordem de "cegueira" e "luz", "C." e "M." não foi despropositada) é uma maravilha.

Viva nós, adeptos cegos. 

PS: um grande abraço para Tacuara Cardozo, que lhe viu sonegado o poker quando Duarte Gomes não quis apitar o óbvio penalty sobre Luisão.

sábado, 9 de novembro de 2013

Mi casa es tu casa

Roberto,

Tenho muitas saudades tuas. O pouco tempo que passámos juntos deixou-me marcas profundas. Foi como um amor de Verão: curto, mas muito bem aproveitado. Confesso que ao início tive muitas dúvidas em relação a ti - um gigante vindo de outro gigante parece assustador. Mas depois vi a tua estreia num jogo de pré-época, quando sais da baliza desamparado, a bola bate à tua frente e entra em chapéu. Lembro-me que o M. parou uns segundos para processar e que depois disse: “Esta jabulani é lixada”. Coitado, nem te deu valor nenhum. O problema para ele era a bola. Mas eu vi logo: tu, Roberto, eras a minha solução.

A verdade é que uma pessoa passa anos a torcer para que o guarda-redes do rival seja como tu. Eu tinha o Baía, mas tinha de aturar o Preud’homme. Ainda levei com o Schmeichel, mas os deuses compensaram-me com o Ricardo. E, quando eu já sentia falta de um alvo fácil, apareceste tu. Tu, Roberto, com aquele ar de menino órfão que sofre de bullying nos relvados, provavelmente estás no top 10 de coisas boas que o futebol me deu. Por isso não penses que estou a gozar – o que sinto por ti ainda hoje é sincero.

Eu sei que nós não te facilitámos a vida no Dragão, cheio daqueles cartazes com o objectivo de te desconcentrar, e com aquele frango solto no relvado a demonstrar várias semelhanças contigo. Mas para mim, Roberto, tu foste um herói nessa noite – em cinco golos que sofreste, não tiveste culpa em nenhum!



Essa fabulosa época deu-me muitas histórias para contar mais tarde. Na nossa sala, chegámos a ter uma foto tua que saiu num jornal desportivo, quando, no jogo contra o Nacional, a bola vai tão devagar na tua direcção que até já se vê o Cardozo a correr para a frente à espera do contra-ataque. Mas era nesses momentos que tu te superavas: ficaste a olhar e a bola entrou. Foi lindo.

O culminar da nossa paixão deu-se na Luz. É verdade que o Porto era tão superior que poderia marcar em qualquer altura, de qualquer forma. Mas tu não resististe a despedir-te desse campeonato sem qualquer emoção: aquele meio remate, meio cruzamento do Guarin entrou tão elegantemente na tua baliza que soube ali que te iria ficar eternamente grata.

O problema, Roberto, é que o teu regresso à Luz trouxe-me um amargo de boca. Estava mesmo a contar que, por uma vez, cedesses à tentação de chamar a atenção e que passasses ao lado da partida mais entediante que vi este ano (e eu fui ao Restelo ver aquela merda, por isso imagina). Fiquei com aquela sensação de ser traída, por estares a dar prazer a outros que não eu. Não era justo, logo a mim que sempre te aclamei.

Mas a nossa história não podia acabar ali, tu tinhas de provar-me que ainda havia uma réstia de esperança para nós os dois. E lá, em Antenas (Jorge Jesus dixit), tu revelaste um novo Roberto que já não me deu tantas gargalhadas, é verdade, mas cujo resultado final me deixou tão satisfeita como naquelas derrotas do benfica com a tua marca.

Por isso, Roberto, quero que saibas que tens aqui uma fã. Estou-te sinceramente muito agradecida pelo que fizeste por mim e sinto que nunca te vou conseguir retribuir tamanha bondade. Se algum dia te faltar alguma coisa - um abraço, um incentivo, uma palavra querida - é só bateres à minha porta. Mi casa es tu casa. Tenta só aparecer quando o M. estiver a trabalhar porque ele está capaz de te matar. E ambos sabemos que tu não ias conseguir agarrá-lo a tempo.

sábado, 2 de novembro de 2013

Temos de crescer, Benfica

Tenho quase 30 anos. É uma sensação agridoce de contente pelas coisas que tenho (mulher de sonho, emprego que sempre quis, família perfeita) e aquela vontade de se ser sempre pequeno. Nada nos faz lembrar mais Peter Pan do que ter de ir tratar de uma burocracia qualquer à Loja do Cidadão. Gosto de ser médico, marido e tio, mas odeio o ter que tratar de uma casa, de documentos, de impostos. 

Ganhámos ontem em Coimbra, 0-3. Parece que foi fácil, mas não foi. A equipa anda cabisbaixa, de birra, mãos nos bolsos, ombros caídos e a olhar para o chão como se o mundo estivesse contra ela. Como um adolescente a quem mandaram arrumar o quarto e vê nisso uma conspiração mundial. O Benfica não cresce, não ganha maturidade, não consegue arrumar o quarto sem se enervar e enervar toda a gente, quanto mais tomar conta de uma casa, arranjar mulher, tratar dos documentos da segurança social.

Sempre achei que os adultos eram super-heróis. A minha mãe sabe sempre o que fazer, o meu pai tem resposta para tudo. Achei que chegaria a uma idade em que ficaria assim, de um dia para o outro, a saber o que fazer. Não é assim, mas vai ter de ser. Tenho que tratar de coisas, de burocracias que odeio, de coisas que me tiram tempo para fazer o que gosto. Sou um péssimo adulto, mas tenho de o ser. 

O Benfica ainda é mais adolescente do que eu. Deixa-se levar por qualquer moda que apareça (isto do Ivan Cavaleiro passar a titular é uma coisa que me mata, não lhe reconheço qualidade nenhuma para ser titular no Benfica), entra em casa de phones sem cumprimentar ninguém e põe-se a pensar na vida dele em vez de fazer os TPC. Vitimiza-se, entra em depressão por tudo e por nada, excita-se com qualquer vitória como aqueles adolescentes que lêem uma coisa e acham imediatamente que aquilo é a melhor coisa que já foi escrita no mundo e passam a vangloriar-se disso e a falar vezes sem conta dessa vitória. É de uma instabilidade que não dá confiança a ninguém.

Eu também sou terrível nestas coisas e a C. passa a vida a chatear-me (e cheia de razão) porque eu não pago logo as contas e me meto a estudar primeiro, porque eu demorei meses/anos para tratar da via verde, mas que demorei só uns dias a assinar a revista Panenka depois de ler o primeiro exemplar que me chegou à mão. A C. tem razão. Mas, sabes, Benfica, eu pelo menos sou bom médico e bom marido (a própria C. o reconhece), faltando-me só este último obstáculo - a capacidade para perceber que um assunto chato tem de ser resolvido e fazê-lo o mais depressa possível - para atingir o grau de adulto e a C. deixará de ter medo que eu venha a ser um daqueles pais que se esquece dos filhos na escola (não, a C. não está grávida, calma). Se calhar este último obstáculo é grande, admito, mas caramba, já não falta tudo, percebes, Benfica? 

É que o Benfica não consegue encarar a mínima tarefa decentemente. O jogo em Cinfães eram favas contadas, como quem diz "estive com atenção nas aulas, não preciso de estudar" e pelos vistos foi péssimo. Com o Estoril acabámos com o credo na boca, a fazer uma directa a arrumar o quarto antes dos pais chegarem de fim-de-semana. Com o Olympiakos foi chegar a um teste sem estudar e ele foi adiado uma semana e, pelos vistos, continuamos sem estudar. No entanto, com o golo do Markovic ontem, já temos com que nos entreter para uma semana, como um adolescente que começa a ler Eça de Queiroz e deixa de estudar para o teste de Matemática ou como eu, que me esqueço sempre de deixar comida a descongelar ou que quando ponho comida a descongelar acabo a deixá-la lá sem a cozinhar.

Benfica: temos de crescer. Temos mesmo. Eu já estou quase nos 30, não estou totalmente fora de controlo, mas às vezes ainda deixo a C. à beira de um ataque de nervos. Agora tu, meu querido e amado clube, passas a vida a lixar-me a cabeça. Não há jogo que não seja uma carga de nervos, não vejo a mínima entrega, a mínima concentração. Pior, com quase 30 anos a ver-te, não te reconheço a mínima maturidade. Não sabes esconder a bola, não sabes ser menos vertical, não sabes encarar o jogo com a calma e concentração necessárias para ganhar, mas sem a sofreguidão e loucura de quem não sabe dosear nada. Tudo é difícil contigo, Benfica. Ainda és pior do que eu. 
Preciso muito que tu cresças porque não há a mínima hipótese de nos separarmos, mas gostava de, um dia, conseguir ver um jogo confiante que tu vais resolvê-lo como um adulto, calma e serenamente, como quem espera numa fila da Loja do Cidadão e depois resolve tudo educadamente e tem os papéis prontos e todos certinhos, percebes? Contigo falta sempre um papel, Benfica. Falta sempre um carimbo, ou chegas com a loja quase a fechar e acabas sempre a ser multado e eu lixado contigo, aos berros.

Vá, Benfica, temos de crescer. Os dois. Mas tu mais do que eu. Vou começar por pagar a renda da casa (estás a ler, C.? Não pagues também.). Vê se ganhas na Grécia e na Luz, contra aqueles gajos. Tens de crescer, Benfica, tens de crescer.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Reportagem no Porto Canal

Reportagem "Azul e Branco" com o Lá em casa mando eu a partir dos 9.50

M. na Liga dos Campeões

A partir dos 73 minutos:

http://www.tvi.iol.pt/videos/13996812

Com uma pequena e adorável referência ao blog no programa Maisfutebol da TVI24. Obrigada!


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Polémica Blatter

Não tenho por hábito dar importância a declarações dessa pessoa, uma vez que não lhe atribuo qualquer credibilidade no mundo do futebol. Admito que devesse estar mais preocupado com um Mundial num Brasil com a revolta nas ruas, ou numa Rússia que não deixa homossexuais entrar, ou ainda num Qatar com temperaturas à volta dos 50 graus, que podem justificar muita entrada de dinheiro na FIFA, mas que ainda está difícil fazer com que um ser humano as aguente enquanto joga à bola. Mas a pessoa em causa foi questionada sobre o duelo Messi-Ronaldo, num ambiente descontraído, e achou normal esquecer-se de quem é para dar um espectáculo que me incomoda, sinceramente, pela vergonha alheia de ver alguém a tentar ter piada sem ter.

Também já não tenho paciência para a pergunta sobre Messi ou Ronaldo. Ainda no fim-de-semana vimos todos um clássico espanhol onde nem um nem outro pareceram ter estado por lá. Vimos Neymar, vimos um chapéu de Alexis, vimos um ou dois passes que só Iniesta consegue fazer (perdoem-me a visão direccionada, mas sim, sou um bocadinho do Barça). Se isso se repercutiu num futebol menos bonito? Claro que sim. Eles são os dois melhores do mundo e qualquer adepto devia querer ver os dois melhores do mundo sempre em boa forma. A não ser contra o nosso clube, claro.

Eu, como sabem, prefiro Messi. Por razões futebolísticas, claro, nem vou entrar por aí porque acho a diferença mesmo enorme, mas também humanas. Farto-me de dizer que os jogadores de futebol têm de ter noção que nos recreios da escola os putos podem querer ser como eles. Ronaldo é um jogador do caraças, um exemplo de trabalho, de rigor, de vontade de fazer sempre melhor. Se se ficasse por aqui, não teria qualquer problema em que um filho meu quisesse ser como ele (estou a exagerar, claro que tinha, um filho meu nunca há de inspirar-se num lagarto que um dia nos eliminou da Liga dos Campeões, embora à distância isso me pareça atenuado pelo gesto que fez em plena Luz e eu esteja preparada para explicar que isso não é mau ao meu tal filho).

Mas não concordo com Blatter: Ronaldo não parece um comandante em campo. Se há coisa que Portugal pode lamentar é precisamente isso, que ele não tenha a força de carácter exigida a um grande capitão. Ronaldo é ele, ele e só ele, o seu corpo, a sua cara, o seu cabelo que muda ao intervalo quando a Selecção está a perder, a sua ambição, o seu projecto, a sua vontade de ganhar a tal Bola. E dizem-me: mas ele é tão bom que pode ser assim. Admito que tenham razão, porque um homem que ganha o que ele ganha realmente não deve ter de se preocupar com nada. Mas voltamos à tal questão do exemplo: há por aí muito adolescente borbulhento que quer ser o Ronaldo. E, como não tem o talento dele, faz só figura de estúpido ao andar mal vestido, com penteados horríveis e, muito pior do que tudo isso, com uma atitude perante o mundo de “eu sou assim e ou me amam ou me odeiam”. E eu odeio-vos, putos.

Tenho pena que a filosofia de Ronaldo esteja a inspirar outros. Mas, ao contrário de Blatter, não sei bem qual é a filosofia de Messi. Parece-me que ele não está sequer preocupado com isso. O M. tem a teoria que ele é autista e que, se de um lado se torna mais anti-social, do outro compensa com uma capacidade fora do normal para uma actividade – neste caso, e com muita sorte nossa, o futebol. Mas, sinceramente, não quero saber. Não sei quem é a mulher dele, nunca lhe vi os pais, lembro-me que foi pai mas nem sequer sei o nome da criança (se é menino ou menina...). O único anúncio que me lembro dele recentemente é o de um videojogo de futebol. Nunca o ouvi a dizer “oleosidade”, pelo que a comparação é difícil de ser feita. Não sei que opinião ele tem sobre a independência da Catalunha ou os cortes na saúde e na educação. Eu quero é ver Messi a ser Messi, no campo.

E é aqui que me tenho chateado nas últimas horas. Parte da multidão admiradora de Ronaldo (nada contra, atenção) achou por bem reagir às palavras idiotas de Blatter com ataques a Messi. Que é mais feio que Ronaldo, que não tem tão bom cabelo, que é um anão, que é favorecido pela FIFA, que é isto e mais aquilo. Gente: vocês estão a falar do Messi. Um jogador como nunca verão igual. Golos, títulos e Bolas de Ouro à parte, um dia, quando vocês tirarem esses óculos vendidos pelo Jorge Mendes, vão perceber que estão a perder a oportunidade de admirar um daqueles jogadores que aparece uma vez por século.

Onde é que está escrito que para se gostar de um tem de se detestar o outro? Imaginem o quão estúpido seria alguém detestar o Maradona (muitos parabéns Deus!) só porque adorava o van Basten. Eu, por acaso, não gosto do Ronaldo, mas isso até começou antes de Messi ser Messi. O Ronaldo foi do sportem e eu, como não nutro qualquer sentimento pela Selecção, não o perdoei por isso. Aliás, quando vejo um portista louco por ele lembro-me sempre da patetice que é um lagarto que adora o Mourinho ou um lampião que admira o Falcao. Mas eu não me atiro ao Ronaldo para defender o Messi. Atiro-me quando diz coisas parvas, mas não é isso que ele quer com o “eu sou assim e ou me amam ou me odeiam”? Ainda assim, não lhe digo que, à beira de um ET do futebol, ele é demasiado humano. Messi não precisa dessa minha ajuda.

E chegamos ao ponto crucial. O país a ajudar Ronaldo. O país indignado, excitado, quase pronto a invadir o Parlamento, não para travar o Orçamento do Estado para 2014, mas para exigir a cabeça de Blatter. O país que nem quis ler bem a resposta muito baixa de Ronaldo (aquela do “muitos anos de vida”, enfim, já vi ameaças de morte em westerns onde os cowboys foram mais subtis). Exactamente o mesmo país que ignorou os ataques de Platini ao FCPorto. Pois é, senhores, eu não me esqueço que o mais alto responsável da UEFA nos quis ver fora das competições europeias e veio criticar os nossos jogadores estrangeiros. Uma ironia do caraças, uma vez que falamos de um ex-jogador francês que passou o auge da sua carreira em Itália e logo no clube arrasado por um escândalo de corrupção. Platini teria sido, então, um alvo fácil para este país revoltado. Mas não, não foi. De que interessa o FCPorto ser o melhor clube português e que tem conquistado os únicos títulos internacionais para este país condenado a perder finais em casa? De que interessa se Ronaldo nunca ganhar nada por Portugal? A diferença é que, enquanto Blatter se meteu com o melhor jogador português, Platini meteu-se com a aldeia. E eles lá na aldeia que se arranjem, não é?