Num já distante fim de tarde de 2005 (caramba, estou a ficar velho), eu vi o Sport Lisboa e Benfica a bater por 2-1 o Manchester United, apesar da equipa do Benfica ter alinhado com Quim, Alcides a defesa direito, Anderson, Luisão, Leo, Nelson a médio direito, Nuno Assis à esquerda, Beto e Petit no meio e, na frente, Nuno Gomes atrás de Geovanni a ponta-de-lança. Ganhámos 2-1 contra todas as probabilidades e eu, ainda longe, muito longe, de saber o fenómeno que viria a ser Cristiano Ronaldo, jurei-me seu inimigo futebolístico para sempre. Ronaldo, afectado pela pressão do público que não esqueceu (e nunca devia esquecer) a sua ascendência verde-ranho e branca, fez-nos um sinal com o dedo que mostrava bem que nunca gostou do meu clube. Nesse dia, a partir desse momento, percebi que eu e Ronaldo estaremos sempre em campos opostos.
Eu não perdoo o anti-benfiquismo. Quando um jogador, ou um dirigente, ou uma claque de outro clube, quando qualquer interveniente no jogo mostra ser anti-benfiquista, eu registo e não esqueço. É imperdoável. E essas manifestações podem ser várias e bem mais subtis do que a de Ronaldo. Por exemplo, sente-se no olhar do Diogo Valente que ele é um andrade. E, só por isso, só por eu, com o meu olho clínico, ter detectado anti-benfiquismo no olhar desse cepo, sempre que ele vai à Luz dedico-lhe todos os insultos. Digo-lhe que ele não vale um saco de merda, que nunca há-de ser ninguém, que é tão atrasado mental que trocou as botas, que nunca vai passar da Académica ou do Leixões ou de qualquer clube em que ele jogue, grito-lhe que ele é um andrade filho da..., pronto acho que vocês percebem a ideia. Reparem: eu nem sei se ele é andrade ou não. Mas parece! Isso chega.
Colocado o nome na lista negra, rogo todas as pragas, insulto do pior na Luz e torço sempre, sempre, sempre contra os anti-benfiquistas. Em qualquer jogo em que o Diogo Valente aparece, eu torço contra o gajo e rio-me de cada centro que acaba no Mondego. E, desde que Ronaldo mostrou à Luz o seu dedo do meio, eu torço sempre contra ele. Sempre. É óbvio que é mais fácil torcer contra o Diogo Valente do que contra o Cristiano Ronaldo: torna as probabilidades de vitória maiores. Mas é uma questão de princípio. Isto mostra que, pelo menos, na hora de escolher inimigos, eu não sou cobarde nenhum. Mas parece-me lógico que, se um gajo formado nos lagartos que fez um pirete à Luz está de um lado, eu vou estar do outro. Quero lá saber se o gajo marca três golos por jogo e está numa forma inacreditável. Não torço a favor desse gajo. É biológico, é-me impossível, nunca na vida. Não quero saber se é português, se é muito humilde e trabalhou muito. Insultou o Benfica? Então, puta que te pariu. Meus caros: não consigo. Um jogador que não gosta, ostensivamente, do Glorioso, merece todo o meu desprezo. Se, para ajudar à festa, foi formado no Sétimo Clube de Portugal, então, meus amigos, sinto que este texto é uma redundância.
Vocês vão jantar fora com quem insulta a vossa família? Vocês dão prenda de Natal àquele colega cabrãozinho que não faz nada e vos está sempre a lixar a vida no trabalho? Então por que é que eu hei-de torcer por um gajo que insultou o meu clube? Não é isto mais grave? E a seguir? Tenho que torcer pelo Mossoró? Ora que porra.
Pode um benfiquista admirar as capacidades futebolísticas de Ronaldo? Bem, é impossível não o fazer. Ronaldo é um atleta fenomenal (praticamente sobrenatural) que escolheu jogar futebol. É uma besta de força, tem um sprint de corredor de 100 metros, salta mais alto do que toda a gente, chuta brutalmente com os dois pés. Agora, posso eu, como benfiquista torcer por este gajo? Não. Nenhum golo apaga aquele gesto (e aquelas boquinhas de querer o Braga campeão... Eu não esqueço, Ronaldo, eu não esqueço...). É que, para mim, não há atenuantes para o anti-benfiquismo. É um crime que não prescreve, é o pecado futebolístico capital. Se não gostas do meu clube, eu não gosto de ti. Nunca.
Já sei: sou um fanático, devia apreciar o futebolista brutal que ele é, os argumentos patrióticos, e o gajo é humilde e mais não sei o quê. Amigos: até podia ganhar um Nobel da Química, descobrir a cura para o cancro e escrever obras literárias melhor do que Saramago. Podia marcar ainda mais golos, fazê-lo com o Hugo Almeida às cavalitas ou jogar descalço. Insultou o Benfica, não insultou? Então ficamos por aqui.
Para mim, Ronaldo, tu estás no saco dos anti-benfiquistas. E não há sprint ou golo teu que me faça esquecer isso. Não há maneira de eu te perdoar aquele gesto, não há maneira de eu esquecer o teu berço verde-pus e branco, não há maneira de eu, sempre que olho para o teu focinho quando marcas um golo, me esquecer que eu sou do Benfica e tu não. Tu, para mim, és só um Diogo Valente.
PS: desculpem, houve uma vez que festejei um golo dele. E muito.



