Apesar de partilharmos uma vida e de o futebol fazer bastante parte dela, há coisas que nunca iremos partilhar. Há pessoas que eu abracei quando o Porto foi campeão na luz que eu desconheço totalmente. Podem ser as piores pessoas do mundo - homicidas, violadores, eleitores de direita – mas, como partilhamos a bancada, eu sinto que elas são as pessoas mais importantes da minha vida durante aqueles 90 minutos. E, no entanto, nunca abracei o meu marido para festejar um golo (uma vez, num Man. United-Porto, agarrei-lhe a perna num golo nosso e ele disse-me, num tom maquiavélico, “não voltes a fazer isso”. E eu não voltei).
Há, ainda assim, muito que nos une no futebol. Ainda no passado fim-de-semana a vida colocou-nos o desafio de vermos o benfica-braga e o Porto-nacional no mesmo local, e de seguida. Já sabem quais são as regras nestes momentos: eu estou calada durante o primeiro jogo, ele cala-se no segundo e tudo corre bem. Só que eu fico sempre surpreendida pela maneira como o M. vê um jogo do benfica. Para quem está de fora (e, M., na verdade tenho de admitir que eu não estava bem “de fora” porque me sentia do braga desde pequenina. Não sei se reparaste quando mandei aquele chuto no ar a acompanhar o remate do Rafa à barra. Não, não foi um espasmo, eu vi-a lá dentro), o M. é um sofredor.
Os adeptos sofredores são aquele tipo de adepto que leva tão a sério um jogo de futebol ao ponto de nunca se divertir. Não há sorrisos, não há brincadeiras, mas sempre uma enorme concentração. E, quando estou “de fora”, o M. e o pai parecem-me os adeptos mais sofredores do mundo. Durante 90 minutos, aquelas duas pessoas que eu adoro tornam-se irracionais ao ponto de, a cada ataque do adversário, partirem logo do princípio que vai ser golo e, portanto, sofrerem como se o mundo fosse acabar em dois segundos. São incontáveis as vezes que eu os ouço dizer que é óbvio que o benfica vai perder, que o árbitro os está a roubar, que o braga nunca jogou tão bem, que a vida não faz sentido. Eles sofrem, estão sempre a sofrer e, depois, é golo do benfica e eles ficam aliviados durante o tempo em que se levantam e grunhem e abraçam-se e beijam-se e dizem “foda-se” e “caralho”, como se estivesse a acontecer uma coisa má (e estava, mas para mim, não para eles. Eu é que estava a pensar muitos "foda-se" e "caralhos"!).
E depois sentam-se e ficam logo outra vez com a cara fechada, de guerreiros, e gritam que é preciso defender porque é óbvio que o braga vai marcar, e o árbitro vai roubar, e o benfica vai perder, e vem aí um meteorito que vai acabar com o planeta. E o tempo não passa, porque o tempo está contra o benfica, e vai tudo correr mal, e eles não aguentam, e isto é sofrimento a mais. E eu, que estou calada desde o início do jogo, furiosa porque o benfica não jogou nada mas vai ganhar com uma sorte descomunal, paro para olhar para ambos.
De repente, há duas pessoas numa sala algarvia à espera que um jogo de futebol termine para acabar aquele sofrimento. Essas pessoas estão a ganhar e estão com um ar desolado, porque estão fartas de sofrer. Querem ouvir aquele apito, aquele alívio, para poderem voltar às suas vidas normais, com saúde, com família, com amigos, com cultura, com emprego, essas coisas fúteis. E, ao mesmo tempo, desloco o meu olhar para a televisão e é filmado um conjunto de adeptos no estádio da luz. O jogo ainda não tinha terminado (e aquela gente já devia saber o que pode acontecer nos descontos...) mas eles estão de pé, sorriem para a câmara enquanto cantam sabe-se lá o quê e estão... esperem... felizes! O benfica está a ganhar e eles têm o desplante de estarem felizes. Há inclusive um deles que tem um enorme sombrero na cabeça. Porra, como eu gostava de ser aquele adepto. Ser feliz com aquele aspecto deve ser do caraças!
(este frame é do momento do golo porque ainda não consegui arranjar o do momento exacto que menciono no texto)
Não resisti e disse-lhes: “Reparem na diferença entre as vossas caras e a do senhor do sombrero”. A comparação foi hilariante. O M. ainda sorriu, mas só depois do fim do jogo conseguiu chorar a rir com aquela imagem. O meu sogro nem pestanejou, porque naqueles últimos segundos não era hora de fraquejar. O jogo acabou, acabou o sofrimento deles e, imagine-se, começou o meu. Suponho que tenha feito as mesmas caras, que tenha dito as mesmas coisas, que me tenha levantado da mesma poltrona até à televisão para mostrar ao Jackson como se finaliza. Eu também sofro, sofro muito, sobretudo quando não ganho, como foi o caso. E, se fôssemos do mesmo clube, talvez se tornasse perigoso não haver alguém para nos acalmar durante estes jogos: “M., não dês esses pontapés na mesa senão ela parte-se”, “C., vou distrair a nossa sobrinha de seis anos porque ela está com medo de ti”.
Parece-me óbvio: nós somos sofredores. Invejamos os adeptos de sombrero na cabeça, os felizes, os que se divertem. Mas não somos malucos. Em Maio, passei 92 minutos a sofrer mas depois rebentei de alegria. Fui mais feliz em poucos segundos do que muitos numa vida. Se me dissessem que, para passar pelo mesmo, iria ter de voltar a sofrer um campeonato inteiro, assinava logo por baixo. Sofrer é bom, sofrer faz parte, sofrer é ser adepto.
Eu e o M. vamos ser sempre de clubes diferentes, mas somos cada vez mais parecidos como adeptos. Vamos perder as idas juntos ao estádio, as cadeiras lado a lado, as longas conversas sobre tácticas, compras e vendas e substituições. Mas vamos ser sempre sofredores, porque queremos muito ganhar. E eu, que juntando a isso sou do FCPorto, exijo ganhar.


