Aviso desde já os leitores mais sensíveis para o conteúdo explícito deste texto. Qualquer pessoa que nunca tenha insultado um adversário com palavrões inexistentes, que nunca tenha desejado uma doença sem cura a um jogador ou que nunca tenha imaginado os filhos de um árbitro perseguidos na escola, é melhor fechar já esta página. Ah, e se por acaso for familiar ou amigo do Fonseca, do Licá ou do Herrera, também.
Tive a sorte de crescer numa família que me ensinou os pilares essenciais da vida em sociedade, como o respeito pelos outros, a boa educação, a igualdade, a liberdade e a solidariedade. Confesso mesmo que me tenho em boa conta em relação a estes valores. Sou uma pessoa calma, não me meto em confusões e espero contribuir para um mundo melhor.
Dito isto, vamos à bola. Eu tenho um problema. Parece que admiti-lo é o primeiro passo para o curar, mas neste caso acredito que será mesmo difícil eu algum dia mudar. Acreditem que até me custa escrevê-lo porque, como já referi, eu considero-me uma pessoa extremamente normal fora do futebol. E agora, que já passaram umas horas desde o sportem-FCPorto, custa-me recordar as coisas que eu sou capaz de dizer durante 90 minutos.
Quando eu sou uma pessoa normal, não insulto ninguém, a não ser os automobilistas que fazem rotundas inteiras pela faixa mais à direita, mas acho esta uma excepção perfeitamente tolerável. A ver um jogo do meu clube, ninguém é poupado. O adepto verde é um filho da puta, claro, porque o amor da minha vida nem é um adepto adversário nem nada. O árbitro é um grande cabrão, obviamente, mas não é nada pessoal, porque qualquer ser humano vestido de amarelo ou de preto num jogo de futebol o é. O jogador deles é corno, porque aparentemente naquela altura eu acredito que ser enganado pela mulher é motivo de gozo, mas atenção que um dos meus jogadores também o pode ser quando falha um passe. O treinador deles é um madeirense do caralho - e notem que eu não tenho nada contra a Madeira, até sou descendente de um madeirense -, mas o meu treinador já é um burro do caralho, o que é muito pior.
Quando eu sou uma pessoa normal, não tolero sentimentos racistas ou homofóbicos. No entanto, no futebol há expressões que se enraizaram nos adeptos e que me envergonham sempre que ganho consciência do que acabei de dizer. Ontem, por exemplo, quando o melhor médio do mundo e arredores William Carvalho entrou a matar ao Varela (o cabrão do árbitro só deu amarelo, agora digam que eu não tenho razão ao insultá-lo logo à partida) eu pedi cartão vermelho para “o preto de merda”. E esta é uma frase que não só me dá nojo, como tem a sua piada, porque acho que o Varela é bem mais negro do que o rapaz. Outra vez, quando o Capel veio ao nosso canto, chamei-lhe “paneleiro”. Eu não faço ideia qual é a orientação sexual dele, mas notem que isso não tem nada a ver com o assunto. Ele é do sportem e está ali perto de mim, tenho que dizer-lhe alguma coisa. E logo eu, que não só não tenho nada contra os homossexuais, como luto todos os dias para que não sejam discriminados. Só que nem é uma coisa que eu só chame a um adversário, porque digam lá: quando o Herrera entrega a 20ª bola a um adversário, ele não merece ser um “paneleiro do caralho”?
Quando eu sou uma pessoa normal, abomino a violência. Não faço mal a uma mosca, nem desejo que alguém o faça, a não ser que a mosca tenha alguma vez votado Cavaco. O Adrien, no entanto, merece partir uma perna de cada vez que se atira para o chão. E o Cedric, se levasse um murro nos dentes de cada vez que fica indignado porque o cabrão do árbitro lhe marca uma falta evidente, não lhe faria nada mal. É óbvio que, em consciência, eu não desejo nada de mal aos meninos, mas em consciência eu também não acho que o Licá merece ir “para a puta que o pariu” de cada vez que… bem, de cada vez que entra em campo com a camisola do meu clube.
Enfim, desculpem-me por estas coisas. Na verdade acho que só o faço porque sei que eles não me ouvem, embora as pessoas que não me conhecem e ficam ao meu lado possam ficar convencidas que eu sou uma selvagem. Não sou. Eu não sinto nada disto, não penso nada disto. Nenhum ser humano é melhor ou pior por ser adepto de um clube, por ser árbitro, por ser jogador ou treinador. Aliás, muitos destes seres humanos que ontem foram estas coisas horríveis que eu lhes chamo e desejo, amanhã podem marcar um golo e passam logo a ser o “Varelinha do meu coração”, podem fazer uma boa exibição e viram “Licázinho, meu amor” e podem ainda ser contratados pelo meu clube e deixar de ser automaticamente o “anão, pigmeu e etc” para entrarem na minha vida como “Moutinho, meu filho”.
Se é justo, racional, se me orgulho disto? Claro que não. Mas isto é futebol, não é para ser levado muito a sério. A não ser quando os filhos da puta dos verdes aplaudem o preto de merda do William Carvalho, a seguir a este não ter sido expulso pelo cabrão do árbitro quando quase matava o estúpido do Varela, que falhou tantos cruzamentos como o paneleiro do Licá, que não tem culpa porque o burro do caralho do nosso treinador não teve tomates para jogar à Porto e calar aquele presidente deles que havia de apanhar uma doença sem cura qualquer.
Partilhamos amigos e famílias. Partilhamos almoços e jantares. Partilhamos livros e discos. Partilhamos viagens e segredos. Partilhamos uma casa e uma vida. Só não partilhamos o clube.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
domingo, 29 de dezembro de 2013
Nunca mais acaba 2013?
24 de Dezembro de 2013, 11.30h da manhã, comboio para Faro
Acordo de repente e quase grito no meio da carruagem. Tinha acabado de sonhar que abria o site do Manchester City e via Matic, satisfeito e de óculos escuros, a sorrir com o contrato assinado. E eu desesperado, acordei a pensar como seria o jogo com o Porto dia 12 de Janeiro sem ele. Acordo assustado. Matic afinal (ainda) não saiu. Mas esta amargura está-me entranhada, agarrada ao espírito. São muitos empates com o Arouca em casa na pele.
13 de Janeiro de 2013, Estádio da Luz
Cardozo isola-se, Mangala falha o fora-de-jogo. Tacuara remata, mas Helton faz uma super-defesa. Lembro-me de pensar que tinha ido um campeonato ao ar naquele lance. Só me lembrei disso hoje outra vez. A memória, mesmo que nos minta de vez em quando, tem uma capacidade fenomenal para nos ferir.
11 de Abril de 2013, Hospital de Santa Maria
O Newcastle aperta o cerco e o 2-0 está na cabeça de toda a gente. Estou no gabinete 2 a ver doentes e a olhar sempre para o canto do olho para o telemóvel. Nada acontece e as meias-finais estão ali mesmo. Meço a tensão a uma senhora e espreito o livescore. Nada. 1-0. Quanto tempo faltará? A senhora sai do gabinete e dou a mim mesmo uma pausa para ver os últimos 5 minutos. Golo do Salvio e grito no meio do banco. Faço o banco feliz, descontraído, a ver doentes sem parar, alegre. Não quero saber se vou estar a noite toda acordado, se tenho de ir a pé até ao fim do mundo. O Benfica caminha para um sonho europeu e eu, ao fim de 29 anos de vida, sinto-me realizado, capaz de entender o sentido da vida, como se o Benfica a ganhar fosse toda a metafísica do mundo.
1 de Janeiro de 2013, 00.01, cá em casa
Estou doente, tenho febre e estou sozinho em casa com a C., que é a melhor pessoa do mundo e ficou em casa comigo. Não me lembro ao certo do que pedi para 2013, mas sei ao certo o que queria. Tive saúde, amor e muitos amigos. Mas aquilo que peço todos os anos primeiro não tive. Não sei se foi da febre, se me esqueci mesmo (não que isso realmente interesse, porque peço todos os anos Benfica Campeão, com ou sem passas e não tem resultado). Se pudesse voltar atrás dizia a mim mesmo para voltar para a cama e para me preparar.
4 de Dezembro de 2013, 02.00h (?) Lisboa
Telefonema cá para casa, nasceu o J., o nosso terceiro sobrinho. Eu e a C. sorrimos, desejamos-lhe tudo de bom e passamos um bom bocado de tempo a discutir o clube de uma criança com minutos de vida. Isto pode parecer estúpido, mas tendo em conta Maio de 2013 e a dicotomia que se viveu cá em casa, essa decisão pode ser das mais importantes da vida do J. Se o J. viver o futebol como os tios, a decisão do clube dele marcar-lhe-á a vida e o tempo. Os anos e as épocas serão melhores ou piores consoante o clube. Jogadores serão heróis ou vilões. Bolas ao poste, azares monstruosos ou um bocadinho de sorte. Mas, mais do que isso, o J. será uma pessoa diferente consoante o clube que tiver. É só perguntar-lhe, daqui a 20 anos, e se fosses do .... ? e ver a reacção dele, se ele não sente que lhe estão a perguntar se queria ser outra pessoa, com outra noção da vida e do tempo.
6 de Novembro, 19.00h, Hospital da Luz, Lisboa
A C. faz anos e está internada. A mesma pessoa que em Maio tinha os olhos a brilhar, que chorou no Porto Canal a lembrar-se do telefonema do FCP a perguntar-lhe porque não renovara o cativo em 2009, junta as poucas forças que tem para insultar o seu treinador e a defesa que, com a sua absurda segurança, conquistou o título de 2012/2013. Lembrei-me daquele trava-línguas: "O tempo perguntou ao tempo quanto tempo é que o tempo tem" para chamar nomes às mães dos jogadores que há uns meses eram os melhores do mundo. É extraordinária a capacidade de regeneração dos adeptos de futebol. A capacidade de esquecer e de, ao mesmo tempo, nunca esquecer. É como se tivéssemos uma linha temporal só nossa, que medimos em épocas e torna estas semanas sem campeonato um vazio sem nada que o preencha e aquelas semanas decisivas de Maio uma tempestade de emoções em que mil coisas acontecem num segundo. Dou-lhe a mão e calo o meu contentamento com mais uma asneira da defesa deles. Afinal, ela faz anos.
2 de Maio de 2013, 22.00h
O Benfica joga uma meia-final europeia e eu estou em Viena num congresso. Senti o golo do Cardozo como marcado por mim. Estou num conto de fadas. A solidão permite-me, pelo menos, chorar um bocadinho de alegria sem ninguém me ver. Parece-me que isto se passou noutra vida, há mais de mil anos, como se fosse uma lenda, uma história de encantar para adormecer.
Já não acredito em contos de fadas.
22 de Julho de 2013, Mondim de Basto
Basta-me a C. para ser feliz. Não preciso do futebol para nada.
9 de Novembro de 2013, Estádio da Luz
Sou visto a descer lugares no Estádio da Luz a gritar "AMO-TE, TACUARA! AMO-TE!" quando Cardozo fuzilou Rui Patrício no terceiro golo. Nem por uma fracção de segundo me lembrei daquele falhanço contra Helton, 10 meses antes. Pareceu-me que, pela primeira vez em mesmo muito tempo, o futebol podia fazer-me feliz.
15 de Maio de 2013, Amesterdão
A vida não faz sentido absolutamente nenhum.
29 de Dezembro, 2013, cá em casa.
C. : "2013 está a acabar. Como é que achas que correu o ano?"
M. : "Uma merda, perdemos tudo em Maio."
C. : "Mas também casámos."
M. : "Ah, pois foi."
C: "E tivemos um sobrinho."
M. : "Pois foi. Mas foi uma merda de ano na mesma"
E abraçamo-nos, prontos para mais um ano.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Tonta de Porto
Ando triste. O M. vai andar longe por uns tempos, vou estar a trabalhar no Natal e parece que não há nada que me anime nos últimos tempos. Acho que, em parte, a culpa é do Futebol Clube do Porto. Bem, na verdade suspeito que até é por causa do Porto que eu estou assim. Pronto, vá, admito: ando triste com o meu clube.
O futebol tem este dom ao mesmo tempo maravilhoso e assustador de controlar a nossa felicidade. Os fins-de-semana podem ser bons ou maus consoante vou a casa ou fico a trabalhar, mas influenciam realmente o meu estado de espírito durante toda a semana consoante o Porto ganha ou perde. E, ultimamente, sabemos qual das duas hipóteses tem acontecido recorrentemente (pode ser chocante para adeptos de outros clubes mas para nós, portistas, empatar é perder). É inacreditável como ainda há uns meses eu pensava que era impossível estar mais contente enquanto o M. batia com a cabeça na parede e agora está tudo trocado.
É que nem consigo disfarçar. O M. - que tenta controlar-se não só porque me ama, mas sobretudo porque sabe que dá azar cantar de galo - bem tenta puxar-me para as nuvens, que é onde ele anda. Enche-me de chocolates, que normalmente resolvem todos os meus problemas. Repete que fico gira com o cabelo mais curto, e até notou logo quando o cortei, que é o sonho de muitas mulheres. Abraça-me com mais força, que pode ser mesmo verdade porque ele tem saudades minhas ou então é a minha cabeça a imaginar que os braços dele ficam mais fortes consoante o benfica ganha ou perde.
É muito giro isto de eu ser do Porto e ele do benfica, mas depois acontecem estas coisas. Eu chego a casa e só quero comer chocolates e ir dormir; ele quer ir passear, jantar fora, aproveitar a vida. Eu de vez em quando deixo de falar porque estou a pensar que mal fiz eu para merecer ir ver aquele jogo em Coimbra; ele fala, fala, fala, e de repente está a falar de como foi espectacular ir a Vila do Conde, como se eu quisesse saber. Eu durmo mal, viro-me na cama tantas vezes como o Paulo Fonseca muda o meio-campo e tenho sonhos tão maus que envolvem o Josué, o Licá e o Ricardo na mesma equipa; ele adormece em segundos, ressona de prazer e sou capaz de jurar que às vezes, mesmo no escuro, o vejo a sorrir e o ouço a chamar "Cardozo".
O futebol tem este dom ao mesmo tempo maravilhoso e assustador de controlar a nossa felicidade. Os fins-de-semana podem ser bons ou maus consoante vou a casa ou fico a trabalhar, mas influenciam realmente o meu estado de espírito durante toda a semana consoante o Porto ganha ou perde. E, ultimamente, sabemos qual das duas hipóteses tem acontecido recorrentemente (pode ser chocante para adeptos de outros clubes mas para nós, portistas, empatar é perder). É inacreditável como ainda há uns meses eu pensava que era impossível estar mais contente enquanto o M. batia com a cabeça na parede e agora está tudo trocado.
É que nem consigo disfarçar. O M. - que tenta controlar-se não só porque me ama, mas sobretudo porque sabe que dá azar cantar de galo - bem tenta puxar-me para as nuvens, que é onde ele anda. Enche-me de chocolates, que normalmente resolvem todos os meus problemas. Repete que fico gira com o cabelo mais curto, e até notou logo quando o cortei, que é o sonho de muitas mulheres. Abraça-me com mais força, que pode ser mesmo verdade porque ele tem saudades minhas ou então é a minha cabeça a imaginar que os braços dele ficam mais fortes consoante o benfica ganha ou perde.
É muito giro isto de eu ser do Porto e ele do benfica, mas depois acontecem estas coisas. Eu chego a casa e só quero comer chocolates e ir dormir; ele quer ir passear, jantar fora, aproveitar a vida. Eu de vez em quando deixo de falar porque estou a pensar que mal fiz eu para merecer ir ver aquele jogo em Coimbra; ele fala, fala, fala, e de repente está a falar de como foi espectacular ir a Vila do Conde, como se eu quisesse saber. Eu durmo mal, viro-me na cama tantas vezes como o Paulo Fonseca muda o meio-campo e tenho sonhos tão maus que envolvem o Josué, o Licá e o Ricardo na mesma equipa; ele adormece em segundos, ressona de prazer e sou capaz de jurar que às vezes, mesmo no escuro, o vejo a sorrir e o ouço a chamar "Cardozo".
Claro que estamos conscientes que vai ser sempre assim: nós nunca estaremos igualmente felizes ao mesmo tempo. Pronto, eu sei que isto parece exagero, porque é óbvio que há momentos em que estamos felizes ao mesmo tempo. No entanto, os nossos clubes definem quem está mais e quem está menos. E isso é determinante. Não imaginam as vezes que já pensámos que, se um filho nosso nascer em Maio, vai ter o azar de ter uma mãe ou um pai bastante triste a segurá-lo, com um sorriso mais ou menos sincero para a fotografia que captará o momento eternamente. E, sempre que olharmos para essa imagem, dois ou 20 anos depois, um de nós lembrará o outro: “Olha C./M., estavas com aquela cara porque o Porto/benfica tinha perdido o campeonato!”. Ou, pior, estaremos ambos miseravelmente infelizes se um filho nosso tiver um daqueles raros e enormes azares de nascer em ano de sportem campeão (porra, futuro filho, isso tem quase a mesma probabilidade de um dia o Maxi Pereira se tornar escuteiro, por isso vê lá se te orientas e não nos desiludes logo à partida).
Estou triste e, como não estou habituada a isto, não sei o que fazer. Como é que se ultrapassa isto? Como é que se deixa de pensar no que correu mal? Como é que paro de ouvir na minha cabeça aquele “e se...” que me atormenta? Como é que se dorme bem enquanto o Quaresma está a caminho? Como é que se deixa de sonhar com o negócio Ghilas? Tentei as tochas e nada. Tentei a solução racional, aquela lengalenga de “isto é só futebol e não se pode ganhar sempre” e só fico ainda mais irritada (isto não é só futebol, nunca é só futebol e já não era pouco se fosse só futebol). Tentei tudo, até ver um jogo de andebol com o M. porque grande parte do que sei desta modalidade é que o Porto é melhor do que o benfica, e até isso falhou (fomos roubados, claro, mas vocês percebem o sentido).
Tem dó de mim, Porto. Pára de me fazer mal. Pára, já chega, não dá mais. Imagina como me sinto, como se sentem tantos portistas que dependem de ti para andarem felizes. Nem sabes o quanto nos magoa quando desapareces e nem chegas a entrar em campo para tentar ganhar. É um desespero olhar para ti e não te reconhecer. Nós não estamos habituados a isto, nós não queremos isto. Precisamos tanto e mesmo de ti. Estamos tristes, estamos tontos de falta de Porto.
Estou triste e, como não estou habituada a isto, não sei o que fazer. Como é que se ultrapassa isto? Como é que se deixa de pensar no que correu mal? Como é que paro de ouvir na minha cabeça aquele “e se...” que me atormenta? Como é que se dorme bem enquanto o Quaresma está a caminho? Como é que se deixa de sonhar com o negócio Ghilas? Tentei as tochas e nada. Tentei a solução racional, aquela lengalenga de “isto é só futebol e não se pode ganhar sempre” e só fico ainda mais irritada (isto não é só futebol, nunca é só futebol e já não era pouco se fosse só futebol). Tentei tudo, até ver um jogo de andebol com o M. porque grande parte do que sei desta modalidade é que o Porto é melhor do que o benfica, e até isso falhou (fomos roubados, claro, mas vocês percebem o sentido).
Tem dó de mim, Porto. Pára de me fazer mal. Pára, já chega, não dá mais. Imagina como me sinto, como se sentem tantos portistas que dependem de ti para andarem felizes. Nem sabes o quanto nos magoa quando desapareces e nem chegas a entrar em campo para tentar ganhar. É um desespero olhar para ti e não te reconhecer. Nós não estamos habituados a isto, nós não queremos isto. Precisamos tanto e mesmo de ti. Estamos tristes, estamos tontos de falta de Porto.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
M. e Vítor Paneira na Benfica TV
Foi um almoço maravilhoso, com uma prenda para a vida. Muito obrigado ao João, que me encontrou no facebook e à Ivone, que chamou a Benfica TV para registar o momento. E, sobretudo, a Vítor Paneira. Por tudo.
Escusas de levantar os braços, Goetze
Quando, no passado sábado, Goetze marcou ao Borussia e levantou os
braços a pedir desculpa, foi-me impossível não pensar no Verão quente de 1993,
quando o T. me anunciou que Paulo Sousa tinha saído do Benfica e emigrado para os
verdes. Mario Goetze, talentoso e virtuoso médio alemão, estava no Borussia
desde os 9 anos e, aos 21, escolheu rumar ao rival Bayern, em vésperas de uma
final da Liga dos Campeões entre os dois clubes. Não sei se se chateou com alguém,
não sei se foi ganhar muito mais, mas não vejo qualquer justificação válida.
Goetze não merece um aperto de mão, nem sequer que lhe olhem nos olhos. Goetze
merece ser um pária até ao fim dos seus dias.
Sentei-me no degrau cor de tijolo e, acompanhado pelo T., de cotovelos
nos joelhos e mãos nos queixos, passei uma tarde de sol farense a tentar
imaginar como seria o meio-campo do Benfica nesse ano, se Kulkov seria
suficientemente consistente ou não para a posição e, pior, se o Sporting não
nos ia cilindrar e comprar todo o nosso plantel. Talvez o discurso fosse mais
simples na minha cabeça - eu tinha 9 anos - mas recordo-me bem do vazio, do
sentimento de traição, de não querer ir brincar, de não querer ir jogar à bola
como jogávamos sempre.
Talvez Mario Goetze e a nata futebolística passem demasiado tempo
fechados em casa, sem qualquer contacto com a realidade. Entre playstations,
plasmas de dimensões surreais e penteados que envergonham qualquer pessoa com o
mínimo de sentido estético, o mundo dos futebolistas parece uma coisa desligada
da realidade, do mundo real onde vivem os adeptos, as pessoas normais que trabalham
durante toda a semana e que ao fim-de-semana riem e
choram, festejam e fumam cigarro de desespero. A Goetze e à trupe de futebolistas
que se acha acima de tudo, fazia falta passarem tempo nos cafés onde se discute
futebol, nas roulottes depois do jogo, onde se nota um silêncio gélido depois
das derrotas e onde a cerveja sabe melhor quando se ganha. Faz-lhes falta irem
ver miúdos a jogar, a gritarem que querem ser como eles e que ficam loucos de
felicidade quando vestem uma camisola que, para esses miúdos, é mágica e que
para os Goetzes é um emprego.
Quinze anos depois daquele degrau cor de tijolo, mais crescido e
com maior capacidade de encaixe face às amarguras do futebol, numa tarde
algarvia fui à praia com a C. e amigos. Depois do sol, do mar, das bolas de
Berlim, fomos para o carro e eu vi-o. “Está ali o Paulo Sousa.” Não conseguimos
chegar com o carro suficientemente perto dele e, por momentos, achámos que o
tínhamos perdido. No carro, eu e dois amigos benfiquistas falámos do que sentimos naquele
dia das nossas infâncias, quando Sousa, que tinha chegado ao Benfica com 13
anos, desertou. A mágoa e raiva eram tais que até a C. concordava e anuía. Para
nossa surpresa, uns metros depois, vimos Sousa na berma da estrada, a arrumar
qualquer coisa na mala. F. pôs a cabeça de fora e gritou-lhe, raivoso: TRAIDOR!
Não sei se Sousa, um número seis absolutamente fabuloso, chegou a olhar para
mim. Se tivesse olhado, veria o desprezo que lhe nutro desde que, naquela
tarde, me deixou sem vontade de brincar.
É muito difícil explicar a ligação de um adepto a um clube
sem recorrer à metáfora do amor. Talvez (de certeza?) o amor nem seja uma
metáfora, mas sim a expressão a usar. Somos incondicionais, irracionais,
apaixonados. Sofremos com coisas pequenas, fazemos birras com jogadores,
quilómetros para ver finais ou jogos do campeonato. Passamos dias, tardes,
noites a pensar nisto. Vamos ao café e defendemos o nosso clube contra amigos
ou contra aquele senhor irritante do clube rival. Abraçamos desconhecidos na
bancada, trocamos opiniões tácticas com o senhor do bar do trabalho. Estamos
preparados para tudo. Choramos sem vergonha nas derrotas, cumprimos promessas
absurdas nas vitórias. Às vezes passamos
por tanta coisa num jogo de futebol que parece que passou uma vida. Tudo pelo
amor. Pelo amor à camisola. Pela lealdade. A lealdade que Sousa e Goetze não
respeitaram. Nem todos os jogadores têm de ser Francesco Totti, Paolo Maldini,
Paneira, Baía. Gente que se confunde com a camisola. Esses são os excepcionais.
O que nós pedimos aos outros é que tenham o mínimo de decência, a consideração
mínima por tudo o que nós vivemos, que é não nos trair para ir jogar no rival.
Quando isso não é respeitado, quando jogadores que sempre
foram nossos deixam de o ser, pouco podemos fazer. Não temos milhões para os
convencer a ficar (e não devíamos oferecer um euro que fosse a quem quer ir
jogar para um rival) e eles vão voltar para os seus mundos, com plasmas do
tamanho de ecrãs de cinema e penteados bizarros. Lá, fechados, vão achar tudo
normal, que não fizeram nada de mal.
Cabe-nos, sempre que eles se dignam a vir ao mundo real, ao
mundo das pessoas que vão às roulottes, das pessoas que choram e riem com os
seus clubes, lembrar-lhes que não os perdoamos. Que não esquecemos. Que nos
tiraram a vontade de brincar numa tarde.
Goetze terá tudo, terá um ordenado muito maior do que o meu,
uma casa gigante, um ecrã que nem cabia no nosso T1. Mas nunca terá o nosso
respeito. Talvez em várias circunstâncias o perceba. Quando for filmar um
anúncio milionário, talvez estranhe a raiva nos olhos do cameraman. Quando for
ao quiosque comprar um jornal para comemorar um título do Bayern, talvez tenha
o azar do senhor do quiosque lhe mandar os trocos para o chão. Se um dia for à
praia, um grupo de jovens pode gritar-lhe umas barbaridades. Sempre que
desceres à terra, vamos lembrar-te que não te queremos cá.
Escusas de levantar os braços, Goetze. Ainda perdes as tuas
trinta moedas, Judas.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Os sofredores
Às vezes penso como seria se o M. e eu fôssemos do mesmo clube. Imagino-nos a ir de mão dada para o estádio comigo a reclamar que o cachecol e a camisola dele não combinam, enquanto ele me pergunta se devemos jogar com um ou dois médios defensivos. Vejo-nos ao lado um do outro, de pé nas cadeiras e a gritar insultos para os adeptos do outro lado. Crio diálogos na minha cabeça sobre o que pensaríamos do treinador, que substituição faríamos e qual o jogador que ambos iríamos venerar. É um sonho bonito, confesso, mas rapidamente me lembro que não faz qualquer sentido.
Apesar de partilharmos uma vida e de o futebol fazer bastante parte dela, há coisas que nunca iremos partilhar. Há pessoas que eu abracei quando o Porto foi campeão na luz que eu desconheço totalmente. Podem ser as piores pessoas do mundo - homicidas, violadores, eleitores de direita – mas, como partilhamos a bancada, eu sinto que elas são as pessoas mais importantes da minha vida durante aqueles 90 minutos. E, no entanto, nunca abracei o meu marido para festejar um golo (uma vez, num Man. United-Porto, agarrei-lhe a perna num golo nosso e ele disse-me, num tom maquiavélico, “não voltes a fazer isso”. E eu não voltei).
Há, ainda assim, muito que nos une no futebol. Ainda no passado fim-de-semana a vida colocou-nos o desafio de vermos o benfica-braga e o Porto-nacional no mesmo local, e de seguida. Já sabem quais são as regras nestes momentos: eu estou calada durante o primeiro jogo, ele cala-se no segundo e tudo corre bem. Só que eu fico sempre surpreendida pela maneira como o M. vê um jogo do benfica. Para quem está de fora (e, M., na verdade tenho de admitir que eu não estava bem “de fora” porque me sentia do braga desde pequenina. Não sei se reparaste quando mandei aquele chuto no ar a acompanhar o remate do Rafa à barra. Não, não foi um espasmo, eu vi-a lá dentro), o M. é um sofredor.
Os adeptos sofredores são aquele tipo de adepto que leva tão a sério um jogo de futebol ao ponto de nunca se divertir. Não há sorrisos, não há brincadeiras, mas sempre uma enorme concentração. E, quando estou “de fora”, o M. e o pai parecem-me os adeptos mais sofredores do mundo. Durante 90 minutos, aquelas duas pessoas que eu adoro tornam-se irracionais ao ponto de, a cada ataque do adversário, partirem logo do princípio que vai ser golo e, portanto, sofrerem como se o mundo fosse acabar em dois segundos. São incontáveis as vezes que eu os ouço dizer que é óbvio que o benfica vai perder, que o árbitro os está a roubar, que o braga nunca jogou tão bem, que a vida não faz sentido. Eles sofrem, estão sempre a sofrer e, depois, é golo do benfica e eles ficam aliviados durante o tempo em que se levantam e grunhem e abraçam-se e beijam-se e dizem “foda-se” e “caralho”, como se estivesse a acontecer uma coisa má (e estava, mas para mim, não para eles. Eu é que estava a pensar muitos "foda-se" e "caralhos"!).
E depois sentam-se e ficam logo outra vez com a cara fechada, de guerreiros, e gritam que é preciso defender porque é óbvio que o braga vai marcar, e o árbitro vai roubar, e o benfica vai perder, e vem aí um meteorito que vai acabar com o planeta. E o tempo não passa, porque o tempo está contra o benfica, e vai tudo correr mal, e eles não aguentam, e isto é sofrimento a mais. E eu, que estou calada desde o início do jogo, furiosa porque o benfica não jogou nada mas vai ganhar com uma sorte descomunal, paro para olhar para ambos.
De repente, há duas pessoas numa sala algarvia à espera que um jogo de futebol termine para acabar aquele sofrimento. Essas pessoas estão a ganhar e estão com um ar desolado, porque estão fartas de sofrer. Querem ouvir aquele apito, aquele alívio, para poderem voltar às suas vidas normais, com saúde, com família, com amigos, com cultura, com emprego, essas coisas fúteis. E, ao mesmo tempo, desloco o meu olhar para a televisão e é filmado um conjunto de adeptos no estádio da luz. O jogo ainda não tinha terminado (e aquela gente já devia saber o que pode acontecer nos descontos...) mas eles estão de pé, sorriem para a câmara enquanto cantam sabe-se lá o quê e estão... esperem... felizes! O benfica está a ganhar e eles têm o desplante de estarem felizes. Há inclusive um deles que tem um enorme sombrero na cabeça. Porra, como eu gostava de ser aquele adepto. Ser feliz com aquele aspecto deve ser do caraças!

(este frame é do momento do golo porque ainda não consegui arranjar o do momento exacto que menciono no texto)
Não resisti e disse-lhes: “Reparem na diferença entre as vossas caras e a do senhor do sombrero”. A comparação foi hilariante. O M. ainda sorriu, mas só depois do fim do jogo conseguiu chorar a rir com aquela imagem. O meu sogro nem pestanejou, porque naqueles últimos segundos não era hora de fraquejar. O jogo acabou, acabou o sofrimento deles e, imagine-se, começou o meu. Suponho que tenha feito as mesmas caras, que tenha dito as mesmas coisas, que me tenha levantado da mesma poltrona até à televisão para mostrar ao Jackson como se finaliza. Eu também sofro, sofro muito, sobretudo quando não ganho, como foi o caso. E, se fôssemos do mesmo clube, talvez se tornasse perigoso não haver alguém para nos acalmar durante estes jogos: “M., não dês esses pontapés na mesa senão ela parte-se”, “C., vou distrair a nossa sobrinha de seis anos porque ela está com medo de ti”.
Parece-me óbvio: nós somos sofredores. Invejamos os adeptos de sombrero na cabeça, os felizes, os que se divertem. Mas não somos malucos. Em Maio, passei 92 minutos a sofrer mas depois rebentei de alegria. Fui mais feliz em poucos segundos do que muitos numa vida. Se me dissessem que, para passar pelo mesmo, iria ter de voltar a sofrer um campeonato inteiro, assinava logo por baixo. Sofrer é bom, sofrer faz parte, sofrer é ser adepto.
Eu e o M. vamos ser sempre de clubes diferentes, mas somos cada vez mais parecidos como adeptos. Vamos perder as idas juntos ao estádio, as cadeiras lado a lado, as longas conversas sobre tácticas, compras e vendas e substituições. Mas vamos ser sempre sofredores, porque queremos muito ganhar. E eu, que juntando a isso sou do FCPorto, exijo ganhar.
Apesar de partilharmos uma vida e de o futebol fazer bastante parte dela, há coisas que nunca iremos partilhar. Há pessoas que eu abracei quando o Porto foi campeão na luz que eu desconheço totalmente. Podem ser as piores pessoas do mundo - homicidas, violadores, eleitores de direita – mas, como partilhamos a bancada, eu sinto que elas são as pessoas mais importantes da minha vida durante aqueles 90 minutos. E, no entanto, nunca abracei o meu marido para festejar um golo (uma vez, num Man. United-Porto, agarrei-lhe a perna num golo nosso e ele disse-me, num tom maquiavélico, “não voltes a fazer isso”. E eu não voltei).
Há, ainda assim, muito que nos une no futebol. Ainda no passado fim-de-semana a vida colocou-nos o desafio de vermos o benfica-braga e o Porto-nacional no mesmo local, e de seguida. Já sabem quais são as regras nestes momentos: eu estou calada durante o primeiro jogo, ele cala-se no segundo e tudo corre bem. Só que eu fico sempre surpreendida pela maneira como o M. vê um jogo do benfica. Para quem está de fora (e, M., na verdade tenho de admitir que eu não estava bem “de fora” porque me sentia do braga desde pequenina. Não sei se reparaste quando mandei aquele chuto no ar a acompanhar o remate do Rafa à barra. Não, não foi um espasmo, eu vi-a lá dentro), o M. é um sofredor.
Os adeptos sofredores são aquele tipo de adepto que leva tão a sério um jogo de futebol ao ponto de nunca se divertir. Não há sorrisos, não há brincadeiras, mas sempre uma enorme concentração. E, quando estou “de fora”, o M. e o pai parecem-me os adeptos mais sofredores do mundo. Durante 90 minutos, aquelas duas pessoas que eu adoro tornam-se irracionais ao ponto de, a cada ataque do adversário, partirem logo do princípio que vai ser golo e, portanto, sofrerem como se o mundo fosse acabar em dois segundos. São incontáveis as vezes que eu os ouço dizer que é óbvio que o benfica vai perder, que o árbitro os está a roubar, que o braga nunca jogou tão bem, que a vida não faz sentido. Eles sofrem, estão sempre a sofrer e, depois, é golo do benfica e eles ficam aliviados durante o tempo em que se levantam e grunhem e abraçam-se e beijam-se e dizem “foda-se” e “caralho”, como se estivesse a acontecer uma coisa má (e estava, mas para mim, não para eles. Eu é que estava a pensar muitos "foda-se" e "caralhos"!).
E depois sentam-se e ficam logo outra vez com a cara fechada, de guerreiros, e gritam que é preciso defender porque é óbvio que o braga vai marcar, e o árbitro vai roubar, e o benfica vai perder, e vem aí um meteorito que vai acabar com o planeta. E o tempo não passa, porque o tempo está contra o benfica, e vai tudo correr mal, e eles não aguentam, e isto é sofrimento a mais. E eu, que estou calada desde o início do jogo, furiosa porque o benfica não jogou nada mas vai ganhar com uma sorte descomunal, paro para olhar para ambos.
De repente, há duas pessoas numa sala algarvia à espera que um jogo de futebol termine para acabar aquele sofrimento. Essas pessoas estão a ganhar e estão com um ar desolado, porque estão fartas de sofrer. Querem ouvir aquele apito, aquele alívio, para poderem voltar às suas vidas normais, com saúde, com família, com amigos, com cultura, com emprego, essas coisas fúteis. E, ao mesmo tempo, desloco o meu olhar para a televisão e é filmado um conjunto de adeptos no estádio da luz. O jogo ainda não tinha terminado (e aquela gente já devia saber o que pode acontecer nos descontos...) mas eles estão de pé, sorriem para a câmara enquanto cantam sabe-se lá o quê e estão... esperem... felizes! O benfica está a ganhar e eles têm o desplante de estarem felizes. Há inclusive um deles que tem um enorme sombrero na cabeça. Porra, como eu gostava de ser aquele adepto. Ser feliz com aquele aspecto deve ser do caraças!
(este frame é do momento do golo porque ainda não consegui arranjar o do momento exacto que menciono no texto)
Não resisti e disse-lhes: “Reparem na diferença entre as vossas caras e a do senhor do sombrero”. A comparação foi hilariante. O M. ainda sorriu, mas só depois do fim do jogo conseguiu chorar a rir com aquela imagem. O meu sogro nem pestanejou, porque naqueles últimos segundos não era hora de fraquejar. O jogo acabou, acabou o sofrimento deles e, imagine-se, começou o meu. Suponho que tenha feito as mesmas caras, que tenha dito as mesmas coisas, que me tenha levantado da mesma poltrona até à televisão para mostrar ao Jackson como se finaliza. Eu também sofro, sofro muito, sobretudo quando não ganho, como foi o caso. E, se fôssemos do mesmo clube, talvez se tornasse perigoso não haver alguém para nos acalmar durante estes jogos: “M., não dês esses pontapés na mesa senão ela parte-se”, “C., vou distrair a nossa sobrinha de seis anos porque ela está com medo de ti”.
Parece-me óbvio: nós somos sofredores. Invejamos os adeptos de sombrero na cabeça, os felizes, os que se divertem. Mas não somos malucos. Em Maio, passei 92 minutos a sofrer mas depois rebentei de alegria. Fui mais feliz em poucos segundos do que muitos numa vida. Se me dissessem que, para passar pelo mesmo, iria ter de voltar a sofrer um campeonato inteiro, assinava logo por baixo. Sofrer é bom, sofrer faz parte, sofrer é ser adepto.
Eu e o M. vamos ser sempre de clubes diferentes, mas somos cada vez mais parecidos como adeptos. Vamos perder as idas juntos ao estádio, as cadeiras lado a lado, as longas conversas sobre tácticas, compras e vendas e substituições. Mas vamos ser sempre sofredores, porque queremos muito ganhar. E eu, que juntando a isso sou do FCPorto, exijo ganhar.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
De Dortmund a Coimbra
No fim-de-semana jogou-se um Dortmund-Bayern em que Klopp foi derrotado por Guardiola por 3-0. No final, os adeptos do Borussia fizeram isto:
Não sei se sou eu que sou muito fácil (eu choro com os livros de Nicholas Sparks e com aqueles episódios da Anatomia de Grey em que morre alguém muito especial), mas isto emociona-me. Há qualquer coisa neste vídeo que me deixa arrepiada, sem palavras, com vontade de ir a correr para ali.
Ora bem, situemo-nos. A equipa destes adeptos acaba de levar três secos do rival em casa, rival esse que ainda há uns meses os derrotou na final da Liga dos Campeões. Portanto, estamos a falar de uma das maiores humilhações de sempre. Qualquer adepto, dado a escolher entre isto ou uma queda do Everest sem qualquer equipamento de protecção, prefere a segunda, sem hesitações. Mas os adeptos do Dortmund não puderam escolher e aconteceu-lhes o pior. No entanto, no fim, fizeram isto à sua equipa.
Posso ser eu que sou muito violenta (eu torcia para que o Harry Potter fizesse feitiços Avada Kedavra a todos os Devoradores da Morte que o atacavam, mas ele era um menino e ficava-se pelo Expelliarmus. Explicando isto para muggles como o M., significa que há um grupo de pessoas muito más que vos está a tentar matar e tudo o que vocês fazem é tirar-lhes a varinha mágica da mão... Não ajudou muito à credibilidade do meu texto eu falar em varinha mágica e feitiços e mostrar que ainda penso nisto, pois não? Enfim, adiante), mas se um dia me acontecesse semelhante desastre (vade retro Voldemort!) tenho a certeza que no fim não faria isto. Poderia imolar-me pelo fogo para tentar apagar qualquer vestígio de tal resultado, mas isto não.
Mas os adeptos do Dortmund não o fizeram por serem uns totós como o Harry Potter. Os alemães não são propriamente conhecidos pelo seu lado doce e sentimental, capaz de perdoar a dívida de países em ruínas. O que aqueles adeptos sentiram, aquela gratidão mesmo perante um resultado tão mau, foi que aqueles jogadores fizeram o melhor que podiam. Não ganharam porque os outros foram superiores. Mas jogaram muito bem, correram, suaram, tentaram, nunca desistiram. Não ganharam porque isto é futebol. E quem tem visto estas duas equipas a jogar sabe do que se trata: do melhor futebol do mundo. Que mais pode um adepto pedir?
Espero que tal vídeo sirva não só para nos questionarmos enquanto adeptos (quantos não irão a Coimbra no sábado porque estamos a jogar mal, porque está frio, porque é de noite, porque a Terra é redonda, enfim?), mas sobretudo para que a nossa equipa se questione enquanto Porto.
Da nossa parte, peço-vos que notem que estamos em primeiro e que, apesar da confusão, da falta de consistência depois da meia hora, das vantagens que nunca conseguimos segurar e de mais uns assuntos que não vou abordar para isto não se tornar uma palestra à Paulo Fonseca e vocês adormecerem, estamos a jogar melhor – ou menos mal, para ser exacta. Os últimos dois empates foram fruto de erros individuais gravíssimos (e não falo só dos defesas, porque um ponta-de-lança de categoria também não pode falhar um lance isolado no último minuto) e nem toda a gente pode ganhar jogos levando duas bolas na barra e marcando através de um falhanço do adversário.
Não sei se sou eu que sou muito fácil (eu choro com os livros de Nicholas Sparks e com aqueles episódios da Anatomia de Grey em que morre alguém muito especial), mas isto emociona-me. Há qualquer coisa neste vídeo que me deixa arrepiada, sem palavras, com vontade de ir a correr para ali.
Ora bem, situemo-nos. A equipa destes adeptos acaba de levar três secos do rival em casa, rival esse que ainda há uns meses os derrotou na final da Liga dos Campeões. Portanto, estamos a falar de uma das maiores humilhações de sempre. Qualquer adepto, dado a escolher entre isto ou uma queda do Everest sem qualquer equipamento de protecção, prefere a segunda, sem hesitações. Mas os adeptos do Dortmund não puderam escolher e aconteceu-lhes o pior. No entanto, no fim, fizeram isto à sua equipa.
Posso ser eu que sou muito violenta (eu torcia para que o Harry Potter fizesse feitiços Avada Kedavra a todos os Devoradores da Morte que o atacavam, mas ele era um menino e ficava-se pelo Expelliarmus. Explicando isto para muggles como o M., significa que há um grupo de pessoas muito más que vos está a tentar matar e tudo o que vocês fazem é tirar-lhes a varinha mágica da mão... Não ajudou muito à credibilidade do meu texto eu falar em varinha mágica e feitiços e mostrar que ainda penso nisto, pois não? Enfim, adiante), mas se um dia me acontecesse semelhante desastre (vade retro Voldemort!) tenho a certeza que no fim não faria isto. Poderia imolar-me pelo fogo para tentar apagar qualquer vestígio de tal resultado, mas isto não.
Mas os adeptos do Dortmund não o fizeram por serem uns totós como o Harry Potter. Os alemães não são propriamente conhecidos pelo seu lado doce e sentimental, capaz de perdoar a dívida de países em ruínas. O que aqueles adeptos sentiram, aquela gratidão mesmo perante um resultado tão mau, foi que aqueles jogadores fizeram o melhor que podiam. Não ganharam porque os outros foram superiores. Mas jogaram muito bem, correram, suaram, tentaram, nunca desistiram. Não ganharam porque isto é futebol. E quem tem visto estas duas equipas a jogar sabe do que se trata: do melhor futebol do mundo. Que mais pode um adepto pedir?
Espero que tal vídeo sirva não só para nos questionarmos enquanto adeptos (quantos não irão a Coimbra no sábado porque estamos a jogar mal, porque está frio, porque é de noite, porque a Terra é redonda, enfim?), mas sobretudo para que a nossa equipa se questione enquanto Porto.
Da nossa parte, peço-vos que notem que estamos em primeiro e que, apesar da confusão, da falta de consistência depois da meia hora, das vantagens que nunca conseguimos segurar e de mais uns assuntos que não vou abordar para isto não se tornar uma palestra à Paulo Fonseca e vocês adormecerem, estamos a jogar melhor – ou menos mal, para ser exacta. Os últimos dois empates foram fruto de erros individuais gravíssimos (e não falo só dos defesas, porque um ponta-de-lança de categoria também não pode falhar um lance isolado no último minuto) e nem toda a gente pode ganhar jogos levando duas bolas na barra e marcando através de um falhanço do adversário.
Não quero pintar um cenário cor-de-rosa. É óbvio que isto está a correr mal e que, se continuar assim, vamos ter problemas. Mas os que só querem sangue – o treinador na rua, a contratação devolvida, o extremo crucificado, o central esventrado – esses são sempre os mesmos. Já o ano passado e há dois anos e há três e há dez o queriam. E não iam a Coimbra na mesma, mas acabavam a festejar os títulos.
À equipa, peço-vos que joguem o vosso melhor, que corram, que suem, que tentem, que nunca desistam. Só assim, fazendo a vossa parte, me terão na bancada como os adeptos do Dortmund: com a certeza de que não se pode ganhar sempre, mas grata por terem feito o melhor que podiam. Não é o caso, meus caros, e espero que isso acabe já no sábado. Lá estaremos.
À equipa, peço-vos que joguem o vosso melhor, que corram, que suem, que tentem, que nunca desistam. Só assim, fazendo a vossa parte, me terão na bancada como os adeptos do Dortmund: com a certeza de que não se pode ganhar sempre, mas grata por terem feito o melhor que podiam. Não é o caso, meus caros, e espero que isso acabe já no sábado. Lá estaremos.
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