terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Eusébio (o lado azul)

O telefone nunca toca ao domingo de manhã. É uma regra sagrada para um casal sem filhos: domingo de manhã é para dormir, sempre. No entanto, este domingo o telefone tocou. Era o pai do M..

- O Eusébio deve ter morrido - disse ele, antes de atender.

Porque só uma coisa assim tão grave quebraria a regra.

O Eusébio morreu mesmo. Eu virei-me para o lado cheia de sono. Ele não dormiu mais.

Eusébio, para ser sincera, não me dizia nada. Conhecia-o apenas pelos golos que passavam na televisão em datas marcantes. Não me era indiferente a sua qualidade, claro, mas era uma espécie de personagem dos livros de História, com defeitos e virtudes que me eram distantes. Cresci numa família portista que nunca o idolatrou. Contaram-me, ainda por cima, as histórias do rapaz negro que se tornou um grande exemplo do colonialismo do Estado Novo.

Eusébio, para mim, uma portuense, portista, de 27 anos, era um benfica e um país de outros tempos. Quando o meu sogro falava dele, eu conseguia ver nos seus olhos um benfica que eu nunca vi. Um benfica que ganhava, um benfica que metia medo, um benfica que era o símbolo máximo de um povo calado pela ditadura.

Mas o benfica e o país dos meus tempos não são assim, felizmente. Daí que Eusébio nunca me tenha motivado nenhuma rivalidade, sequer. Dizem que era bom homem e não me lembro de o ouvir dizer mal do meu FCPorto. Isso também terá ajudado, claro. Mas eu não sou do tempo do Eusébio. O tempo traz-nos diferentes olhares, diferentes opiniões. Maradona será sempre o melhor para o meu pai, Messi dificilmente perderá o primeiro lugar nos meus escolhidos. Messi é o meu Maradona, Maradona é o Messi do meu pai.

Para uma jornalista, a notícia de uma morte é quase sempre um conjunto de caracteres, uns telefonemas, umas manchetes. Escrevo sobre acidentes mortais todos os dias, as catástrofes naturais quase nunca me surpreendem e é raro parar para pensar sobre o que se está a passar. Fi-lo, por exemplo, quando escrevia sobre os seis miúdos que o mar levou no Meco. Fiquei genuinamente aterrorizada com o que estava a contar. A morte é mais fácil de encarar quando chega na altura certa, de uma maneira suave, sem sobressaltos e dor. Mas a morte de um ídolo nunca faz sentido, muito menos para um adepto. Eusébio não o era para mim, mas era-o para o M.. E, embora futebolisticamente espere que o benfica de Eusébio continue enterrado, não consegui deixar de ficar triste por ele. Pelo meu sogro. Pelas pessoas de quem gosto e que gostavam dele.

No domingo, no entanto, voltaremos ao relvado. E aí não há tempo para choradeira. A não ser quando eu penso no duplo pivot (PORQUÊ??? PORQUÊ QUE NÃO MUDAS ESSA MERDA?? Estou tão cansada disto...). Eusébio era futebol e é disso que todos nós gostamos. Por isso tenho pena que as atenções se possam virar para os adeptos portistas (muitos ou poucos) que não respeitarem a sua memória. Porque isso vai acontecer, preparem-se. A geração que irá à luz não se identifica com Eusébio, o grande jogador português, mas ouviu falar do benfica que os nossos avós nos ensinaram a odiar depois de tantos anos a sofrerem com o nosso, na altura, pequeno Porto. E quem vive em estádios, como eu, sabe que não é a morte de um ser humano que está em causa, mas uma rivalidade. Nós dizemos isto a brincar, claro, mas o M. ficaria mais afectado e eu, confesso, talvez visse uma vantagem se fosse o Matic que morresse esta semana.

Não estou a tentar desculpar quem eventualmente o faça, mas quem assobiar Eusébio estará, na verdade, a sentir que está a assobiar o benfica. Eu não o farei (nem sei assobiar, tenho a tarefa facilitadíssima!), mas também não vou gostar de ver os moralistas do costume a dizer que aquela gente do Norte é sempre a mesma coisa. É que, além de ser cientificamente improvável que uma pessoa, por ser de um clube diferente, se torne mais mal educada, uma rápida pesquisa mostrar-lhes-á que a rivalidade (e, por vezes, a estupidez) é transversal no mundo do futebol (um dia talvez o M. vos conte o dia em que, no estádio do Betis, se festejou com confetis a morte de um ex-presidente do Sevilha. É bonito? Se levarmos muito a sério, não. Tem piada? Se formos inteligentes, alguma).

O futebol é um jogo em que um dia eu estou bem e no outro está o M., mas não é o futebol que nos define enquanto pessoas. Há de tudo em todo o lado. Há adeptos do benfica que aplaudiram a equipa quando fomos campeões em pleno estádio da luz e, se houver destes no Porto, não me identifico nada com eles. Incomoda-me que alguém deseje a morte do meu presidente, mas não sou moralista. Prefiro sentir esse desejo como uma manifestação de rivalidade, um reconhecimento do tanto que essa pessoa me deu de bem e lhes deu de mal. Porque o Porto e o benfica, nos tempos de Eusébio ou agora, são dois rivais. É mesmo isso que tanto gozo nos dá.

- O Eusébio morreu mesmo? - perguntei eu, quando finalmente acordei.
- Sim - respondeu ele, já de olhos tristes.
- Porra. Isso vai ser uma vantagem para vocês no domingo.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio

Nós, médicos, estamos treinados para ultrapassar isto da morte. Vivemo-la muitas vezes e o seu absolutismo, a sua inacreditável estupidez e tamanho obrigam-nos a certos mecanismos de defesa que nos permitam seguir em frente. Amanhã é outro dia e é preciso trabalhar, seguir em frente. Não há tempo para chorar, para pensar no que é que afinal nós andamos aqui a fazer.

Eu nunca vi Eusébio jogar. Quando nasci, em 1984, já se tinha retirado e a minha primeira memória do King é a banda-desenhada de Eugénio Silva "Eusébio, Pantera Negra". Eusébio é, para mim, o herói do Benfica de banda-desenhada. Foi a partir desse livro que o meu pai me contou as façanhas de Eusébio, os episódios que mais o marcaram, os golos que marcaram a sua meninice. É da estátua de Eusébio que me lembro na primeira vez que fui ao Estádio da Luz (1-1 com o Boavista). 

Para mim, sem o ter visto jogar, Eusébio era o divino. Era o Benfica que tinha sido invencível, era o Benfica europeu, dominador, fantástico. O Benfica que tinha conquistado aqueles campeonatos todos, que tinha marcado gerações e gerações e marcara o nome do meu clube na história do futebol mundial. Eusébio, que eu nunca tinha visto jogar, era, no fundo, a minha imaginação. O meu Benfica imaginário, que eu queria ter vivido, que eu gostava de voltar a ver. O Benfica do qual o meu pai falava com um brilho nos olhos. Eusébio era, mais coisa menos coisa, a razão pela qual o meu pai era do Benfica e eu, mesmo sem o ter conseguido verbalizar até hoje, talvez tenha percebido que, por via indirecta, era por causa dele que eu era do Benfica. 
Com 5 ou 6 anos, nas mais intrincadas discussões futebolísticas, lembro-me de gritar uma vez no infantário: "Mas se o Eusébio jogasse vocês não tinham hipóteses!". Ainda hoje me parece um argumento difícil de rebater.

A idade e este Benfica que me calhou em sorte tornou-me um cínico. Nunca achei graça ao aproveitamento político do King, nunca gostei que se desse a tantos excessos, e, mais grave, percebi que muito dificilmente vou viver esse seu Benfica. O Benfica das vitórias, da glória europeia, o "Ben-fica" com sotaque inglês de Bobby Charlton. O Benfica dos olhos do meu pai. O Benfica de camisolas vermelhas, golas brancas e número cosido nas costas. O Benfica do meu tempo, infelizmente, é o Benfica que apaga as luzes na hora da derrota e perde muito mais que ganha. Talvez por isso, e pelo treino de médico, não me tenha imediatamente emocionado com a morte da maior lenda do meu clube. Só ao longo do dia, vendo as inúmeras manifestações de todos os ilustres representantes do "beautiful game" percebi e senti o legado que Eusébio nos deixou. Muito dificilmente o nome do Benfica subirá tão alto como hoje no meu tempo de vida. 

As manifestações de respeito e carinho de figuras como Maradona, Pelé, Franz Beckenbauer, Bobby Charlton, Michel Platini ou de clubes como AC Milan, Manchester United, Real Madrid, Futebol Clube do Porto, Sporting Clube de Portugal, AS Roma, além de destaque na Marca, As, L`Equipe, BBC, CNN, Guardian, Gazzetta Dello Sport devem fazer parar o coração de qualquer benfiquista. Devem fazer-nos, nem que seja por um momento, pensar que se o museu tem aqueles troféus, se o Estádio da Luz tem aquele tamanho, se somos assim tantos, se somos o que somos, muito se deve a Eusébio da Silva Ferreira.

Hoje não partiu a minha infância, mas partiu a de quem me passou o benfiquismo. 

O Benfica não morre com a partida de Eusébio. Mas o ressurgimento da sua memória colectiva, a sua grandeza, o rasto de vitórias e derrotas marcantes que deixou, marcando de forma supra-histórica o Mundial de 1966, é a mais fulgurante oportunidade que Benfiquistas como eu, que nunca viram Eusébio jogar, têm de sentir o seu clube e a sua maior glória, orgulhando-se e espantando-se com o sem número de línguas que dizem o nome Eusébio e, por consequência, o do Benfica. Se queremos que daqui a 50, 60 anos, outro Eusébio seja chorado, urge que o Benfica deixe de ser um clube que apaga as luzes na hora das derrotas, que se desculpa, que parece querer viver à margem dos seus sócios e  faça tudo para se transformar e voltar a ser o clube mítico que parece reluzir nos olhos do meu pai e nas palavras de Bobby Charlton.

Nós, médicos, estamos treinados para passar por cima disto da morte. Amanhã é outro dia e é preciso trabalhar, seguir em frente. Não há tempo para chorar, para pensar no que é que afinal nós andamos aqui a fazer. Mas hoje morreu o Eusébio. Não há treino que valha ao médico quando é o Benfiquista que chora por dentro.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Problema de expressão

Aviso desde já os leitores mais sensíveis para o conteúdo explícito deste texto. Qualquer pessoa que nunca tenha insultado um adversário com palavrões inexistentes, que nunca tenha desejado uma doença sem cura a um jogador ou que nunca tenha imaginado os filhos de um árbitro perseguidos na escola, é melhor fechar já esta página. Ah, e se por acaso for familiar ou amigo do Fonseca, do Licá ou do Herrera, também. 


Tive a sorte de crescer numa família que me ensinou os pilares essenciais da vida em sociedade, como o respeito pelos outros, a boa educação, a igualdade, a liberdade e a solidariedade. Confesso mesmo que me tenho em boa conta em relação a estes valores. Sou uma pessoa calma, não me meto em confusões e espero contribuir para um mundo melhor.

Dito isto, vamos à bola. Eu tenho um problema. Parece que admiti-lo é o primeiro passo para o curar, mas neste caso acredito que será mesmo difícil eu algum dia mudar. Acreditem que até me custa escrevê-lo porque, como já referi, eu considero-me uma pessoa extremamente normal fora do futebol. E agora, que já passaram umas horas desde o sportem-FCPorto, custa-me recordar as coisas que eu sou capaz de dizer durante 90 minutos.

Quando eu sou uma pessoa normal, não insulto ninguém, a não ser os automobilistas que fazem rotundas inteiras pela faixa mais à direita, mas acho esta uma excepção perfeitamente tolerável. A ver um jogo do meu clube, ninguém é poupado. O adepto verde é um filho da puta, claro, porque o amor da minha vida nem é um adepto adversário nem nada. O árbitro é um grande cabrão, obviamente, mas não é nada pessoal, porque qualquer ser humano vestido de amarelo ou de preto num jogo de futebol o é. O jogador deles é corno, porque aparentemente naquela altura eu acredito que ser enganado pela mulher é motivo de gozo, mas atenção que um dos meus jogadores também o pode ser quando falha um passe. O treinador deles é um madeirense do caralho - e notem que eu não tenho nada contra a Madeira, até sou descendente de um madeirense -, mas o meu treinador já é um burro do caralho, o que é muito pior.

Quando eu sou uma pessoa normal, não tolero sentimentos racistas ou homofóbicos. No entanto, no futebol há expressões que se enraizaram nos adeptos e que me envergonham sempre que ganho consciência do que acabei de dizer. Ontem, por exemplo, quando o melhor médio do mundo e arredores William Carvalho entrou a matar ao Varela (o cabrão do árbitro só deu amarelo, agora digam que eu não tenho razão ao insultá-lo logo à partida) eu pedi cartão vermelho para “o preto de merda”. E esta é uma frase que não só me dá nojo, como tem a sua piada, porque acho que o Varela é bem mais negro do que o rapaz. Outra vez, quando o Capel veio ao nosso canto, chamei-lhe “paneleiro”. Eu não faço ideia qual é a orientação sexual dele, mas notem que isso não tem nada a ver com o assunto. Ele é do sportem e está ali perto de mim, tenho que dizer-lhe alguma coisa. E logo eu, que não só não tenho nada contra os homossexuais, como luto todos os dias para que não sejam discriminados. Só que nem é uma coisa que eu só chame a um adversário, porque digam lá: quando o Herrera entrega a 20ª bola a um adversário, ele não merece ser um “paneleiro do caralho”?

Quando eu sou uma pessoa normal, abomino a violência. Não faço mal a uma mosca, nem desejo que alguém o faça, a não ser que a mosca tenha alguma vez votado Cavaco. O Adrien, no entanto, merece partir uma perna de cada vez que se atira para o chão. E o Cedric, se levasse um murro nos dentes de cada vez que fica indignado porque o cabrão do árbitro lhe marca uma falta evidente, não lhe faria nada mal. É óbvio que, em consciência, eu não desejo nada de mal aos meninos, mas em consciência eu também não acho que o Licá merece ir “para a puta que o pariu” de cada vez que… bem, de cada vez que entra em campo com a camisola do meu clube.

Enfim, desculpem-me por estas coisas. Na verdade acho que só o faço porque sei que eles não me ouvem, embora as pessoas que não me conhecem e ficam ao meu lado possam ficar convencidas que eu sou uma selvagem. Não sou. Eu não sinto nada disto, não penso nada disto. Nenhum ser humano é melhor ou pior por ser adepto de um clube, por ser árbitro, por ser jogador ou treinador. Aliás, muitos destes seres humanos que ontem foram estas coisas horríveis que eu lhes chamo e desejo, amanhã podem marcar um golo e passam logo a ser o “Varelinha do meu coração”, podem fazer uma boa exibição e viram “Licázinho, meu amor” e podem ainda ser contratados pelo meu clube e deixar de ser automaticamente o “anão, pigmeu e etc” para entrarem na minha vida como “Moutinho, meu filho”.

Se é justo, racional, se me orgulho disto? Claro que não. Mas isto é futebol, não é para ser levado muito a sério. A não ser quando os filhos da puta dos verdes aplaudem o preto de merda do William Carvalho, a seguir a este não ter sido expulso pelo cabrão do árbitro quando quase matava o estúpido do Varela, que falhou tantos cruzamentos como o paneleiro do Licá, que não tem culpa porque o burro do caralho do nosso treinador não teve tomates para jogar à Porto e calar aquele presidente deles que havia de apanhar uma doença sem cura qualquer.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Nunca mais acaba 2013?

24 de Dezembro de 2013, 11.30h da manhã, comboio para Faro

Acordo de repente e quase grito no meio da carruagem. Tinha acabado de sonhar que abria o site do Manchester City e via Matic, satisfeito e de óculos escuros, a sorrir com o contrato assinado. E eu desesperado, acordei a pensar como seria o jogo com o Porto dia 12 de Janeiro sem ele. Acordo assustado. Matic afinal (ainda) não saiu. Mas esta amargura está-me entranhada, agarrada ao espírito. São muitos empates com o Arouca em casa na pele. 

13 de Janeiro de 2013, Estádio da Luz

Cardozo isola-se, Mangala falha o fora-de-jogo. Tacuara remata, mas Helton faz uma super-defesa. Lembro-me de pensar que tinha ido um campeonato ao ar naquele lance. Só me lembrei disso hoje outra vez. A memória, mesmo que nos minta de vez em quando, tem uma capacidade fenomenal para nos ferir.

11 de Abril de 2013, Hospital de Santa Maria

O Newcastle aperta o cerco e o 2-0 está na cabeça de toda a gente. Estou no gabinete 2 a ver doentes e a olhar sempre para o canto do olho para o telemóvel. Nada acontece e as meias-finais estão ali mesmo. Meço a tensão a uma senhora e espreito o livescore. Nada. 1-0. Quanto tempo faltará? A senhora sai do gabinete e dou a mim mesmo uma pausa para ver os últimos 5 minutos. Golo do Salvio e grito no meio do banco. Faço o banco feliz, descontraído, a ver doentes sem parar, alegre. Não quero saber se vou estar a noite toda acordado, se tenho de ir a pé até ao fim do mundo. O Benfica caminha para um sonho europeu e eu, ao fim de 29 anos de vida, sinto-me realizado, capaz de entender o sentido da vida, como se o Benfica a ganhar fosse toda a metafísica do mundo.

1 de Janeiro de 2013, 00.01, cá em casa

Estou doente, tenho febre e estou sozinho em casa com a C., que é a melhor pessoa do mundo e ficou em casa comigo. Não me lembro ao certo do que pedi para 2013, mas sei ao certo o que queria. Tive saúde, amor e muitos amigos. Mas aquilo que peço todos os anos primeiro não tive. Não sei se foi da febre, se me esqueci mesmo (não que isso realmente interesse, porque peço todos os anos Benfica Campeão, com ou sem passas e não tem resultado). Se pudesse voltar atrás dizia a mim mesmo para voltar para a cama e para me preparar.

4 de Dezembro de 2013, 02.00h (?) Lisboa

Telefonema cá para casa, nasceu o J., o nosso terceiro sobrinho. Eu e a C. sorrimos, desejamos-lhe tudo de bom e passamos um bom bocado de tempo a discutir o clube de uma criança com minutos de vida. Isto pode parecer estúpido, mas tendo em conta Maio de 2013 e a dicotomia que se viveu cá em casa, essa decisão pode ser das mais importantes da vida do J. Se o J. viver o futebol como os tios, a decisão do clube dele marcar-lhe-á a vida e o tempo. Os anos e as épocas serão melhores ou piores consoante o clube. Jogadores serão heróis ou vilões. Bolas ao poste, azares monstruosos ou um bocadinho de sorte. Mas, mais do que isso, o J. será uma pessoa diferente consoante o clube que tiver. É só perguntar-lhe, daqui a 20 anos, e se fosses do .... ? e ver a reacção dele, se ele não sente que lhe estão a perguntar se queria ser outra pessoa, com outra noção da vida e do tempo.

6 de Novembro, 19.00h, Hospital da Luz, Lisboa

A C. faz anos e está internada. A mesma pessoa que em Maio tinha os olhos a brilhar, que chorou  no Porto Canal a lembrar-se do telefonema do FCP a perguntar-lhe porque não renovara o cativo em 2009, junta as poucas forças que tem para insultar o seu treinador e a defesa que, com a sua absurda segurança, conquistou o título de 2012/2013. Lembrei-me daquele trava-línguas: "O tempo perguntou ao tempo quanto tempo é que o tempo tem" para chamar nomes às mães dos jogadores que há uns meses eram os melhores do mundo. É extraordinária a capacidade de regeneração dos adeptos de futebol. A capacidade de esquecer e de, ao mesmo tempo, nunca esquecer. É como se tivéssemos uma linha temporal só nossa, que medimos em épocas e torna estas semanas sem campeonato um vazio sem nada que o preencha e aquelas semanas decisivas de Maio uma tempestade de emoções em que mil coisas acontecem num segundo. Dou-lhe a mão e calo o meu contentamento com mais uma asneira da defesa deles. Afinal, ela faz anos.

2 de Maio de 2013, 22.00h

O Benfica joga uma meia-final europeia e eu estou em Viena num congresso. Senti o golo do Cardozo como marcado por mim. Estou num conto de fadas. A solidão permite-me, pelo menos, chorar um bocadinho de alegria sem ninguém me ver. Parece-me que isto se passou noutra vida, há mais de mil anos, como se fosse uma lenda, uma história de encantar para adormecer. 
Já não acredito em contos de fadas.

22 de Julho de 2013, Mondim de Basto

Basta-me a C. para ser feliz. Não preciso do futebol para nada.

9 de Novembro de 2013, Estádio da Luz

Sou visto a descer lugares no Estádio da Luz a gritar "AMO-TE, TACUARA! AMO-TE!" quando Cardozo fuzilou Rui Patrício no terceiro golo. Nem por uma fracção de segundo me lembrei daquele falhanço contra Helton, 10 meses antes. Pareceu-me que, pela primeira vez em mesmo muito tempo, o futebol podia fazer-me feliz.

15 de Maio de 2013, Amesterdão

A vida não faz sentido absolutamente nenhum. 

29 de Dezembro, 2013, cá em casa.

C. : "2013 está a acabar. Como é que achas que correu o ano?"
M. : "Uma merda, perdemos tudo em Maio."
C. : "Mas também casámos."
M. : "Ah, pois foi."
C: "E tivemos um sobrinho."
M. : "Pois foi. Mas foi uma merda de ano na mesma"

E abraçamo-nos, prontos para mais um ano.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Tonta de Porto

Ando triste. O M. vai andar longe por uns tempos, vou estar a trabalhar no Natal e parece que não há nada que me anime nos últimos tempos. Acho que, em parte, a culpa é do Futebol Clube do Porto. Bem, na verdade suspeito que até é por causa do Porto que eu estou assim. Pronto, vá, admito: ando triste com o meu clube.

O futebol tem este dom ao mesmo tempo maravilhoso e assustador de controlar a nossa felicidade. Os fins-de-semana podem ser bons ou maus consoante vou a casa ou fico a trabalhar, mas influenciam realmente o meu estado de espírito durante toda a semana consoante o Porto ganha ou perde. E, ultimamente, sabemos qual das duas hipóteses tem acontecido recorrentemente (pode ser chocante para adeptos de outros clubes mas para nós, portistas, empatar é perder). É inacreditável como ainda há uns meses eu pensava que era impossível estar mais contente enquanto o M. batia com a cabeça na parede e agora está tudo trocado.

É que nem consigo disfarçar. O M. - que tenta controlar-se não só porque me ama, mas sobretudo porque sabe que dá azar cantar de galo - bem tenta puxar-me para as nuvens, que é onde ele anda. Enche-me de chocolates, que normalmente resolvem todos os meus problemas. Repete que fico gira com o cabelo mais curto, e até notou logo quando o cortei, que é o sonho de muitas mulheres. Abraça-me com mais força, que pode ser mesmo verdade porque ele tem saudades minhas ou então é a minha cabeça a imaginar que os braços dele ficam mais fortes consoante o benfica ganha ou perde.

É muito giro isto de eu ser do Porto e ele do benfica, mas depois acontecem estas coisas. Eu chego a casa e só quero comer chocolates e ir dormir; ele quer ir passear, jantar fora, aproveitar a vida. Eu de vez em quando deixo de falar porque estou a pensar que mal fiz eu para merecer ir ver aquele jogo em Coimbra; ele fala, fala, fala, e de repente está a falar de como foi espectacular ir a Vila do Conde, como se eu quisesse saber. Eu durmo mal, viro-me na cama tantas vezes como o Paulo Fonseca muda o meio-campo e tenho sonhos tão maus que envolvem o Josué, o Licá e o Ricardo na mesma equipa; ele adormece em segundos, ressona de prazer e sou capaz de jurar que às vezes, mesmo no escuro, o vejo a sorrir e o ouço a chamar "Cardozo".

Claro que estamos conscientes que vai ser sempre assim: nós nunca estaremos igualmente felizes ao mesmo tempo. Pronto, eu sei que isto parece exagero, porque é óbvio que há momentos em que estamos felizes ao mesmo tempo. No entanto, os nossos clubes definem quem está mais e quem está menos. E isso é determinante. Não imaginam as vezes que já pensámos que, se um filho nosso nascer em Maio, vai ter o azar de ter uma mãe ou um pai bastante triste a segurá-lo, com um sorriso mais ou menos sincero para a fotografia que captará o momento eternamente. E, sempre que olharmos para essa imagem, dois ou 20 anos depois, um de nós lembrará o outro: “Olha C./M., estavas com aquela cara porque o Porto/benfica tinha perdido o campeonato!”. Ou, pior, estaremos ambos miseravelmente infelizes se um filho nosso tiver um daqueles raros e enormes azares de nascer em ano de sportem campeão (porra, futuro filho, isso tem quase a mesma probabilidade de um dia o Maxi Pereira se tornar escuteiro, por isso vê lá se te orientas e não nos desiludes logo à partida).

Estou triste e, como não estou habituada a isto, não sei o que fazer. Como é que se ultrapassa isto? Como é que se deixa de pensar no que correu mal? Como é que paro de ouvir na minha cabeça aquele “e se...” que me atormenta? Como é que se dorme bem enquanto o Quaresma está a caminho? Como é que se deixa de sonhar com o negócio Ghilas? Tentei as tochas e nada. Tentei a solução racional, aquela lengalenga de “isto é só futebol e não se pode ganhar sempre” e só fico ainda mais irritada (isto não é só futebol, nunca é só futebol e já não era pouco se fosse só futebol). Tentei tudo, até ver um jogo de andebol com o M. porque grande parte do que sei desta modalidade é que o Porto é melhor do que o benfica, e até isso falhou (fomos roubados, claro, mas vocês percebem o sentido).

Tem dó de mim, Porto. Pára de me fazer mal. Pára, já chega, não dá mais. Imagina como me sinto, como se sentem tantos portistas que dependem de ti para andarem felizes. Nem sabes o quanto nos magoa quando desapareces e nem chegas a entrar em campo para tentar ganhar. É um desespero olhar para ti e não te reconhecer. Nós não estamos habituados a isto, nós não queremos isto. Precisamos tanto e mesmo de ti. Estamos tristes, estamos tontos de falta de Porto. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

M. e Vítor Paneira na Benfica TV

Foi um almoço maravilhoso, com uma prenda para a vida. Muito obrigado ao João, que me encontrou no facebook e à Ivone, que chamou a Benfica TV para registar o momento. E, sobretudo, a Vítor Paneira. Por tudo.

Escusas de levantar os braços, Goetze

Quando, no passado sábado, Goetze marcou ao Borussia e levantou os braços a pedir desculpa, foi-me impossível não pensar no Verão quente de 1993, quando o T. me anunciou que Paulo Sousa tinha saído do Benfica e emigrado para os verdes. Mario Goetze, talentoso e virtuoso médio alemão, estava no Borussia desde os 9 anos e, aos 21, escolheu rumar ao rival Bayern, em vésperas de uma final da Liga dos Campeões entre os dois clubes. Não sei se se chateou com alguém, não sei se foi ganhar muito mais, mas não vejo qualquer justificação válida. Goetze não merece um aperto de mão, nem sequer que lhe olhem nos olhos. Goetze merece ser um pária até ao fim dos seus dias.



Sentei-me no degrau cor de tijolo e, acompanhado pelo T., de cotovelos nos joelhos e mãos nos queixos, passei uma tarde de sol farense a tentar imaginar como seria o meio-campo do Benfica nesse ano, se Kulkov seria suficientemente consistente ou não para a posição e, pior, se o Sporting não nos ia cilindrar e comprar todo o nosso plantel. Talvez o discurso fosse mais simples na minha cabeça - eu tinha 9 anos - mas recordo-me bem do vazio, do sentimento de traição, de não querer ir brincar, de não querer ir jogar à bola como jogávamos sempre. 

Talvez Mario Goetze e a nata futebolística passem demasiado tempo fechados em casa, sem qualquer contacto com a realidade. Entre playstations, plasmas de dimensões surreais e penteados que envergonham qualquer pessoa com o mínimo de sentido estético, o mundo dos futebolistas parece uma coisa desligada da realidade, do mundo real onde vivem os adeptos, as pessoas normais que trabalham durante toda a semana e que ao fim-de-semana riem e choram, festejam e fumam cigarro de desespero. A Goetze e à trupe de futebolistas que se acha acima de tudo, fazia falta passarem tempo nos cafés onde se discute futebol, nas roulottes depois do jogo, onde se nota um silêncio gélido depois das derrotas e onde a cerveja sabe melhor quando se ganha. Faz-lhes falta irem ver miúdos a jogar, a gritarem que querem ser como eles e que ficam loucos de felicidade quando vestem uma camisola que, para esses miúdos, é mágica e que para os Goetzes é um emprego.




Quinze anos depois daquele degrau cor de tijolo, mais crescido e com maior capacidade de encaixe face às amarguras do futebol, numa tarde algarvia fui à praia com a C. e amigos. Depois do sol, do mar, das bolas de Berlim, fomos para o carro e eu vi-o. “Está ali o Paulo Sousa.” Não conseguimos chegar com o carro suficientemente perto dele e, por momentos, achámos que o tínhamos perdido. No carro, eu e dois amigos benfiquistas falámos do que sentimos naquele dia das nossas infâncias, quando Sousa, que tinha chegado ao Benfica com 13 anos, desertou. A mágoa e raiva eram tais que até a C. concordava e anuía. Para nossa surpresa, uns metros depois, vimos Sousa na berma da estrada, a arrumar qualquer coisa na mala. F. pôs a cabeça de fora e gritou-lhe, raivoso: TRAIDOR! Não sei se Sousa, um número seis absolutamente fabuloso, chegou a olhar para mim. Se tivesse olhado, veria o desprezo que lhe nutro desde que, naquela tarde, me deixou sem vontade de brincar.

É muito difícil explicar a ligação de um adepto a um clube sem recorrer à metáfora do amor. Talvez (de certeza?) o amor nem seja uma metáfora, mas sim a expressão a usar. Somos incondicionais, irracionais, apaixonados. Sofremos com coisas pequenas, fazemos birras com jogadores, quilómetros para ver finais ou jogos do campeonato. Passamos dias, tardes, noites a pensar nisto. Vamos ao café e defendemos o nosso clube contra amigos ou contra aquele senhor irritante do clube rival. Abraçamos desconhecidos na bancada, trocamos opiniões tácticas com o senhor do bar do trabalho. Estamos preparados para tudo. Choramos sem vergonha nas derrotas, cumprimos promessas absurdas nas vitórias.  Às vezes passamos por tanta coisa num jogo de futebol que parece que passou uma vida. Tudo pelo amor. Pelo amor à camisola. Pela lealdade. A lealdade que Sousa e Goetze não respeitaram. Nem todos os jogadores têm de ser Francesco Totti, Paolo Maldini, Paneira, Baía. Gente que se confunde com a camisola. Esses são os excepcionais. O que nós pedimos aos outros é que tenham o mínimo de decência, a consideração mínima por tudo o que nós vivemos, que é não nos trair para ir jogar no rival.



Quando isso não é respeitado, quando jogadores que sempre foram nossos deixam de o ser, pouco podemos fazer. Não temos milhões para os convencer a ficar (e não devíamos oferecer um euro que fosse a quem quer ir jogar para um rival) e eles vão voltar para os seus mundos, com plasmas do tamanho de ecrãs de cinema e penteados bizarros. Lá, fechados, vão achar tudo normal, que não fizeram nada de mal.
Cabe-nos, sempre que eles se dignam a vir ao mundo real, ao mundo das pessoas que vão às roulottes, das pessoas que choram e riem com os seus clubes, lembrar-lhes que não os perdoamos. Que não esquecemos. Que nos tiraram a vontade de brincar numa tarde.

Goetze terá tudo, terá um ordenado muito maior do que o meu, uma casa gigante, um ecrã que nem cabia no nosso T1. Mas nunca terá o nosso respeito. Talvez em várias circunstâncias o perceba. Quando for filmar um anúncio milionário, talvez estranhe a raiva nos olhos do cameraman. Quando for ao quiosque comprar um jornal para comemorar um título do Bayern, talvez tenha o azar do senhor do quiosque lhe mandar os trocos para o chão. Se um dia for à praia, um grupo de jovens pode gritar-lhe umas barbaridades. Sempre que desceres à terra, vamos lembrar-te que não te queremos cá.


Escusas de levantar os braços, Goetze. Ainda perdes as tuas trinta moedas, Judas.