- O Eusébio deve ter morrido - disse ele, antes de atender.
Porque só uma coisa assim tão grave quebraria a regra.
O Eusébio morreu mesmo. Eu virei-me para o lado cheia de sono. Ele não dormiu mais.
Eusébio, para ser sincera, não me dizia nada. Conhecia-o apenas pelos golos que passavam na televisão em datas marcantes. Não me era indiferente a sua qualidade, claro, mas era uma espécie de personagem dos livros de História, com defeitos e virtudes que me eram distantes. Cresci numa família portista que nunca o idolatrou. Contaram-me, ainda por cima, as histórias do rapaz negro que se tornou um grande exemplo do colonialismo do Estado Novo.
Eusébio, para mim, uma portuense, portista, de 27 anos, era um benfica e um país de outros tempos. Quando o meu sogro falava dele, eu conseguia ver nos seus olhos um benfica que eu nunca vi. Um benfica que ganhava, um benfica que metia medo, um benfica que era o símbolo máximo de um povo calado pela ditadura.
Mas o benfica e o país dos meus tempos não são assim, felizmente. Daí que Eusébio nunca me tenha motivado nenhuma rivalidade, sequer. Dizem que era bom homem e não me lembro de o ouvir dizer mal do meu FCPorto. Isso também terá ajudado, claro. Mas eu não sou do tempo do Eusébio. O tempo traz-nos diferentes olhares, diferentes opiniões. Maradona será sempre o melhor para o meu pai, Messi dificilmente perderá o primeiro lugar nos meus escolhidos. Messi é o meu Maradona, Maradona é o Messi do meu pai.
Para uma jornalista, a notícia de uma morte é quase sempre um conjunto de caracteres, uns telefonemas, umas manchetes. Escrevo sobre acidentes mortais todos os dias, as catástrofes naturais quase nunca me surpreendem e é raro parar para pensar sobre o que se está a passar. Fi-lo, por exemplo, quando escrevia sobre os seis miúdos que o mar levou no Meco. Fiquei genuinamente aterrorizada com o que estava a contar. A morte é mais fácil de encarar quando chega na altura certa, de uma maneira suave, sem sobressaltos e dor. Mas a morte de um ídolo nunca faz sentido, muito menos para um adepto. Eusébio não o era para mim, mas era-o para o M.. E, embora futebolisticamente espere que o benfica de Eusébio continue enterrado, não consegui deixar de ficar triste por ele. Pelo meu sogro. Pelas pessoas de quem gosto e que gostavam dele.
No domingo, no entanto, voltaremos ao relvado. E aí não há tempo para choradeira. A não ser quando eu penso no duplo pivot (PORQUÊ??? PORQUÊ QUE NÃO MUDAS ESSA MERDA?? Estou tão cansada disto...). Eusébio era futebol e é disso que todos nós gostamos. Por isso tenho pena que as atenções se possam virar para os adeptos portistas (muitos ou poucos) que não respeitarem a sua memória. Porque isso vai acontecer, preparem-se. A geração que irá à luz não se identifica com Eusébio, o grande jogador português, mas ouviu falar do benfica que os nossos avós nos ensinaram a odiar depois de tantos anos a sofrerem com o nosso, na altura, pequeno Porto. E quem vive em estádios, como eu, sabe que não é a morte de um ser humano que está em causa, mas uma rivalidade. Nós dizemos isto a brincar, claro, mas o M. ficaria mais afectado e eu, confesso, talvez visse uma vantagem se fosse o Matic que morresse esta semana.
Não estou a tentar desculpar quem eventualmente o faça, mas quem assobiar Eusébio estará, na verdade, a sentir que está a assobiar o benfica. Eu não o farei (nem sei assobiar, tenho a tarefa facilitadíssima!), mas também não vou gostar de ver os moralistas do costume a dizer que aquela gente do Norte é sempre a mesma coisa. É que, além de ser cientificamente improvável que uma pessoa, por ser de um clube diferente, se torne mais mal educada, uma rápida pesquisa mostrar-lhes-á que a rivalidade (e, por vezes, a estupidez) é transversal no mundo do futebol (um dia talvez o M. vos conte o dia em que, no estádio do Betis, se festejou com confetis a morte de um ex-presidente do Sevilha. É bonito? Se levarmos muito a sério, não. Tem piada? Se formos inteligentes, alguma).
O futebol é um jogo em que um dia eu estou bem e no outro está o M., mas não é o futebol que nos define enquanto pessoas. Há de tudo em todo o lado. Há adeptos do benfica que aplaudiram a equipa quando fomos campeões em pleno estádio da luz e, se houver destes no Porto, não me identifico nada com eles. Incomoda-me que alguém deseje a morte do meu presidente, mas não sou moralista. Prefiro sentir esse desejo como uma manifestação de rivalidade, um reconhecimento do tanto que essa pessoa me deu de bem e lhes deu de mal. Porque o Porto e o benfica, nos tempos de Eusébio ou agora, são dois rivais. É mesmo isso que tanto gozo nos dá.
- O Eusébio morreu mesmo? - perguntei eu, quando finalmente acordei.
- Sim - respondeu ele, já de olhos tristes.
- Porra. Isso vai ser uma vantagem para vocês no domingo.
O futebol é um jogo em que um dia eu estou bem e no outro está o M., mas não é o futebol que nos define enquanto pessoas. Há de tudo em todo o lado. Há adeptos do benfica que aplaudiram a equipa quando fomos campeões em pleno estádio da luz e, se houver destes no Porto, não me identifico nada com eles. Incomoda-me que alguém deseje a morte do meu presidente, mas não sou moralista. Prefiro sentir esse desejo como uma manifestação de rivalidade, um reconhecimento do tanto que essa pessoa me deu de bem e lhes deu de mal. Porque o Porto e o benfica, nos tempos de Eusébio ou agora, são dois rivais. É mesmo isso que tanto gozo nos dá.
- O Eusébio morreu mesmo? - perguntei eu, quando finalmente acordei.
- Sim - respondeu ele, já de olhos tristes.
- Porra. Isso vai ser uma vantagem para vocês no domingo.




