quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Stress pós-traumático

Tenho saudades de amar o Benfica. Amar. Amar desenfreada e loucamente, sorrir e sentir os meus olhos a brilhar quando se fala do Benfica. Saudades da comunhão, de me sentir capaz de confiar cegamente (se bem que, honestamente, eu nunca confiei assim no Benfica e duvido que alguma vez o consiga vir a fazer).

Eu sei, ganhámos. Ganhámos 2-0 e até pareceu simples. Eu devia estar contente e, confesso, estou algo surpreendido. Espero que vocês compreendam a bordoada que eu vou mandar agora: Eu compreenderia se, depois de Maio de 2013, os jogadores do Benfica se tivessem suicidado todos. (Ainda estão cá? Vão continuar a ler?). Era uma morte digna, um hara-kiri à japonesa, numa tentativa de salvar a honra (semelhante ao que a C. praticamente faz quando um carro que não tem prioridade consegue meter-se primeiro no cruzamento do que ela. A C. sente que isso é um vexame que envergonhará os nossos bisnetos). Sinceramente, para alguns deles, seria até uma maneira de, finalmente, serem apreciados por mim, ao sentir que pelo menos tinham sentido aquela perda como eu. No entanto, e passados uns meses do pior período da história do humanidade, eis que o Benfica ganha aos seus rivais e passa para a frente do campeonato. Eu devia estar feliz com isso - e estou, na medida em que isso é melhor do que um plantel ter-se suicidado, mas não estou convencido. Não sei se é stress pós-traumático, se é só feitio. 


 Não estou convencido por dois tipos de razões: as primeiras são irracionais e fazem parte da minha loucura, ou seja, eu parto do princípio que tudo nos vai correr mal. Tudo. Eu assumo sempre, mas sempre, que o rival naquele dia se vai matar em campo e que o nosso guarda-redes anda a ser chantageado por um polícia. Isto, com toda a probabilidade, vai-me retirar anos de vida, quase tantos como aqueles que a C. perde quando um carro lhe ganha um cruzamento (a sério, C., não é preciso ficar com o olhar Paulinho-Santos-quando-via-o-JVP sempre que isso acontece. É só um cruzamento e a seguir passamos nós, querida).
O segundo tipo de razões é mais racional: perdemos Matic e Salvio e Cardozo estão de baixa há mais tempo do que é normal (em milhões de benfiquistas não havia ninguém que desse um ligamento ao Salvio?), o que é equivalente a dizer que estamos numa guerra sem as nossas metralhadoras e que agora vamos tentar combater o inimigo não tendo generais. E, além disso, pusémos à venda metade do regimento. Para o observador externo, mais parece que andamos a dar tiros no pé do que a tentar ganhar a guerra. Ora, isto, aos olhos de quem, aos 90 minutos, face a um livre indirecto do Porto, pensou "pronto, eles vão marcar agora e ainda empatam e eu vou ter aqui uma coisa má", é só a pior coisa do mundo. Não há nada mais lixado para um paranóico do que ser efectivamente perseguido. 

Eu sei que já escrevi isto mil vezes e a C. goza-me a dizer que eu tenho que deixar de acreditar que vou ser presidente do Benfica e que posso parar com a campanha. Eu sei que devia. Em primeiro lugar porque vou ser jogador ("não joga o Matic, joga o Manel"), mas em segundo lugar porque até para mim mesmo me torno cansativo, com este género de benfiquismo circular, sempre a lamuriar-se. E a verdade é que, face ao duplo-pivot de Paulo Fonseca, quase todos os problemas parecem piores. Pelo menos para a C., aos olhos de quem aquela linha de dois trincos a atrapalharem-se parece pior que a II Guerra Mundial para os polacos. Mas poderei eu animar-me e ceder aos olhos (lindíssimos) de quem, além de ser do Porto, não deixa ninguém passar num cruzamento? Não será mesmo isso que ela quer, que eu baixe as defesas? 


É disso que eu tenho saudades, de me animar. De me entregar sem medo. De ter um bocadinho de fé sem me sentir logo ridículo. Eu nem sei se alguma vez fui assim ou poderei vir a ser, mas gostava, juro que gostava. O problema é que eu tenho de aturar um presidente que vende o craque da equipa por metade da cláusula, tenho um treinador que, com uma só frase, arrasou toda a formação. E um plantel valioso, mas insuficiente para, 11 contra 10 do Porto, ao menos ter a bola nos pés. E como é que uma pessoa acredita em alguma coisa depois de Maio do ano passado? 

Eu sei, eu sei. Era suposto, depois de um clássico e vivendo com a C., vir para aqui cantar vitória. Mas isso era o mesmo que a C. começar a ser uma cordeirinha ao volante. Eu já vi o Benfica levar muita porrada. De dentro e de fora. Desde a morte na praia até ao assassinato do seu património. Não sei quantas vezes o Benfica vai ter de ultrapassar todas as coisas que se parecem mover contra ele. Não sei quantas vezes vou ter de esperar que o Benfica nasça outra vez. O que te prometo, Benfica, é que de todas as vezes, vou esperar pacientemente e ao teu lado. Vou contigo até ao fim, sem as melhores metralhadoras, com o general vendido a meio da batalha. Domingo após domingo, clássico após clássico, ano após ano. Posso não dar berros em cada parto, pode não me cair uma lágrima cada vez que entras em campo, posso não gritar o "NINGUÉM PÁRA O BENFICA!" sem temer que isso dê azar. Mas eu estou aqui, a escrever este texto repetidamente, da minha maneira traumatizada, perturbada e ansiosa, ao teu lado. 

Vou ver-te nascer as vezes que for preciso até, finalmente, me animar. 

Vão ver o jogo juntos?

Percebo a tentação da pergunta. Para este filme de um casal de clubes diferentes ficar completo, são necessários aqueles planos de nós os dois, juntos na bancada, cada um com o seu cachecol e muito sorridentes porque gostamos muito um do outro e isso supera tudo. Estou quase a vomitar. Porque, felizmente ou infelizmente, não sei, esse casal não somos nós.

Não consigo sequer imaginar o que seria ver este jogo ao lado do M.. E nem seria só por ele, que nestas alturas diz coisas completamente absurdas que me dariam a justa causa para pedir o divórcio abaixo da cláusula de rescisão, mas sobretudo pelo que estaria à volta.

O futebol, para mim, não é uma experiência pessoal. Eu não quero que o meu clube ganhe só para eu ficar feliz. Não me basta olhar para o relvado e absorver internamente o que se está a passar. Não sou capaz de viver um benfica-Porto sozinha. E era isso que aconteceria se um dia eu cometesse o erro de ir ver um jogo destes ao lado do M..

Mas então, C., estarias com o teu marido, que te ama muito e te iria proteger daqueles malucos que gritam de alegria quando vêem passar uma águia. Sim, acredito que sim, a não ser que o Porto marcasse primeiro e o M. começasse aos berros a denunciar o meu ódio ao benfica e a dizer que eu merecia ser comida pelo tal milhafre. Podia acontecer. E o pior é que, só de imaginar esse cenário, comigo a correr e a fugir de milhares de lampiões enfurecidos, eu sorrio, porque o Porto pelo menos estava a ganhar.

Mesmo admitindo esse risco, eu teria de tornar-me cega, surda e muda. Não poderia gritar penalty de cada vez que o Garay atirava ao chão um jogador meu e teria de não bater no gajo do lado (o meu marido, possivelmente) quando ele aplaudisse o amarelo e consequente vermelho por simulação. O M., que adora quando o Porto é roubado porque sabe que me irrita mais, iria provocar-me ao apontar para o adepto que diria um lamentável “É muito difícil para o árbitro” e eu não aguentaria mais. Imagino-me a entrar no relvado, dar um cachaço ao árbitro e voltar mais aliviada. Esperem... Isto já aconteceu, não já?

Voltemos ao cenário em que eu estou numa bancada rodeada de lampiões. O Jackson vai isolado para a baliza, eu levanto-me e incentivo-o, mas o f%#& da p!$#$ do árbitro interrompe a jogada. O que seria aceitável eu fazer? Chamar-lhe ladrão penso que não me causaria problemas, porque há uma espécie de acordo universal entre adeptos em que ninguém defende o árbitro seja em que condições for, mas eu não iria ficar por ali. Porque o benfica é sempre beneficiado, e isto está tudo feito para estes c#amp;#&$ serem campeões porque o ano passado nós conseguimos destruí-los, e de repente sai-me o nome do Kelvin ou o número 92, e lá estou a ser perseguida por milhares de lampiões pela bancada fora. Na minha mente, isto acaba quase sempre assim.

Por outro lado, se o M. estivesse ao meu lado naquele momento, eu iria gritar-lhe: “E AGORA? DIZ LÁ QUE NÃO ESTAMOS A SER ROUBADOS!”. Porque eu gosto muito dele e quero que ele veja o mundo tal como eu. Seria um momento tão bonito, nós a partilharmos a mesma visão sobre um lance de um jogo entre os nossos clubes. Mas ele negaria tudo, inventaria uma nova regra para justificar a estupidez do Soares Dias e começaria a passar um atestado para eu ser internada numa unidade de psiquiatria. Ele tem esse poder sobre mim.

E eu desabafaria que nós não estamos a jogar um c”#$#$34 e que o nosso extremo não tem lugar nem no Ramaldense. E eles ficariam confusos, porque o Gaitán, aparentemente, tem todas as condições para fazer uma bela carreira no Ramaldense. E eu continuaria, que o nosso treinador é teimoso e burro, que estou farta disto, que não aguento mais. E um deles iria tocar-me no ombro, em jeito de compreensão, enquanto me contaria que desde os 5-0 no Dragão que também acha o Jesus um incompetente. E agora, só por este momento, talvez valesse mesmo a pena ver um jogo do outro lado.

Do outro lado. Porque eu e o M. somos um casal, mas somos de lados diferentes. E eu não me sinto bem do lado dele. O lado dele é vermelho e eu não gosto, o lado dele estava em maioria mas calado, o lado dele está tão habituado a perder com o meu lado que parece que nem estava a contar com a enorme quantidade de ofertas que o meu lado lhes deu. É verdade, se víssemos este jogo juntos podíamos dar a mão, aparecer na televisão com um ar fofinho e dar um grande exemplo de civismo. Mas não é assim que entendemos o futebol. Sobretudo, não é assim que vivemos os nossos clubes.

O futebol não é uma experiência pessoal, é para ser vivido com os outros, os que estão do meu lado, os meus. Eu quero que o meu clube ganhe para nós, os bons, ficarmos todos felizes. Eu olho para o relvado, a partir de uma bancada azul, e canto, e grito, e salto, quando os meus cantam, e gritam, e saltam. Não sou capaz de viver um benfica-Porto sozinha, mas ali somos um só. E, nessa parte - só mesmo nessa parte, porque tudo o resto já sabemos que não está a funcionar, e notem que consegui escrever um texto sobre o clássico disfarçando a minha revolta -, foi mesmo bom.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Benfica-Porto, o elefante cor-de-rosa

Toda a gente nos pergunta, invariavelmente, como é que eu e a C. vivemos esta semana. Talvez imaginem cenas de guerra, discussões constantes. Outros, mais românticos, talvez nos imaginem só a falar sem parar do assunto, numa harmonia de compreensão pelo outro lado que serviria para Bruno Carvalho dizer que estávamos unidos a planear coisas contra o Sporting.
Nada mais falso. Quem passe cá por casa esta semana, se não falar do assunto, até poderá imaginar que está na presença de um casal culto e civilizado, com boa música a tocar no Spotify (passe a publicidade, isto é brutal), livros a serem lidos, trabalhos a serem acabados e, devido a interesse histórico e pitoresco (adoro quando alguém diz "pitoresco" numa tentativa condescendente de não desprezar algo), até se juntou para ver o Portugal-Coreia do Norte de 1966 (talvez aqui o meu fascínio pelo Jaime Graça - impressionou-me mesmo - nos denunciasse, mas adiante). Esta semana, vistos de fora, eu e a C. parecemos pessoas normais. Nada mais falso.

A verdade é que nenhum de nós pára de pensar no Benfica-Porto de domingo desde há muito tempo. Há um elefante cor-de-rosa a passear no nosso T1, mas nós fingimos que não o vemos e que há espaço para os três cá em casa. A verdade é que, para mim e para a C., adeptos sofredores e doentes, pessoas com uma personalidade anormalmente patológica no que aos nossos clubes diz respeito, o Benfica-Porto (e outros jogos importantes) são um inferno. São uma montanha de sofrimento, uma escalada gélida, de arrepios e ravinas perigosas que nenhum de nós quer fazer. Um sofrimento tal que, admitimos (os dois, no plural), praticamente não compensa. A alegria de ganhar um clássico (uma maravilha sem preço) valerá este sofrer por antecipação todo?

A nossa solução para o Benfica-Porto é a de qualquer pessoa adulta, ponderada, madura para os assuntos delicados: não falar sobre isso e esperar que passe. Se nós nos agarrarmos muito aos livros e ao trabalho e não falarmos do assunto, pode ser que me saia da cabeça o medo que o Oblak dê um frango e lixe com éfe grande toda a promissora carreira que tem. Se falarmos do trabalho e dessas coisas, a C. aspira a que também Paulo Fonseca pense em tudo menos no duplo-pivot. Se formos passear, se convidarmos amigos a vir cá a casa, pode ser que até aconteça, por milagre, que este sofrimento todo passe finalmente.

Eu gostava - ou não - de vos dizer que andamos em casa eu com camisola do Benfica e ela do Porto e que passamos o dia a provocar-nos subtil e inteligentemente. Mas isso, além de ser uma treta maior do que o fair-play, não somos nós. Nós andamos a telefonar às escondidas aos nossos pais a discutir táctica enquanto o outro não chega. Nós não vemos notícias na TV sobre os clássicos porque já lemos tudo três vezes na net. Nós não precisamos de perguntar ao outro em que é que está a pensar nesta semana (ou na anterior) porque já sabemos a resposta.

A C. está ao meu lado a fingir que isto não é nada com ela. Nem levantou os olhos quando uma notícia sobre o clássico foi dita agora, no resumo do telejornal. É normal, acabou de passar um elefante à frente da televisão.
Agora vamos os dos fazer o jantar. Além do elefante, temos amigos cá em casa.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Eusébio (o lado azul)

O telefone nunca toca ao domingo de manhã. É uma regra sagrada para um casal sem filhos: domingo de manhã é para dormir, sempre. No entanto, este domingo o telefone tocou. Era o pai do M..

- O Eusébio deve ter morrido - disse ele, antes de atender.

Porque só uma coisa assim tão grave quebraria a regra.

O Eusébio morreu mesmo. Eu virei-me para o lado cheia de sono. Ele não dormiu mais.

Eusébio, para ser sincera, não me dizia nada. Conhecia-o apenas pelos golos que passavam na televisão em datas marcantes. Não me era indiferente a sua qualidade, claro, mas era uma espécie de personagem dos livros de História, com defeitos e virtudes que me eram distantes. Cresci numa família portista que nunca o idolatrou. Contaram-me, ainda por cima, as histórias do rapaz negro que se tornou um grande exemplo do colonialismo do Estado Novo.

Eusébio, para mim, uma portuense, portista, de 27 anos, era um benfica e um país de outros tempos. Quando o meu sogro falava dele, eu conseguia ver nos seus olhos um benfica que eu nunca vi. Um benfica que ganhava, um benfica que metia medo, um benfica que era o símbolo máximo de um povo calado pela ditadura.

Mas o benfica e o país dos meus tempos não são assim, felizmente. Daí que Eusébio nunca me tenha motivado nenhuma rivalidade, sequer. Dizem que era bom homem e não me lembro de o ouvir dizer mal do meu FCPorto. Isso também terá ajudado, claro. Mas eu não sou do tempo do Eusébio. O tempo traz-nos diferentes olhares, diferentes opiniões. Maradona será sempre o melhor para o meu pai, Messi dificilmente perderá o primeiro lugar nos meus escolhidos. Messi é o meu Maradona, Maradona é o Messi do meu pai.

Para uma jornalista, a notícia de uma morte é quase sempre um conjunto de caracteres, uns telefonemas, umas manchetes. Escrevo sobre acidentes mortais todos os dias, as catástrofes naturais quase nunca me surpreendem e é raro parar para pensar sobre o que se está a passar. Fi-lo, por exemplo, quando escrevia sobre os seis miúdos que o mar levou no Meco. Fiquei genuinamente aterrorizada com o que estava a contar. A morte é mais fácil de encarar quando chega na altura certa, de uma maneira suave, sem sobressaltos e dor. Mas a morte de um ídolo nunca faz sentido, muito menos para um adepto. Eusébio não o era para mim, mas era-o para o M.. E, embora futebolisticamente espere que o benfica de Eusébio continue enterrado, não consegui deixar de ficar triste por ele. Pelo meu sogro. Pelas pessoas de quem gosto e que gostavam dele.

No domingo, no entanto, voltaremos ao relvado. E aí não há tempo para choradeira. A não ser quando eu penso no duplo pivot (PORQUÊ??? PORQUÊ QUE NÃO MUDAS ESSA MERDA?? Estou tão cansada disto...). Eusébio era futebol e é disso que todos nós gostamos. Por isso tenho pena que as atenções se possam virar para os adeptos portistas (muitos ou poucos) que não respeitarem a sua memória. Porque isso vai acontecer, preparem-se. A geração que irá à luz não se identifica com Eusébio, o grande jogador português, mas ouviu falar do benfica que os nossos avós nos ensinaram a odiar depois de tantos anos a sofrerem com o nosso, na altura, pequeno Porto. E quem vive em estádios, como eu, sabe que não é a morte de um ser humano que está em causa, mas uma rivalidade. Nós dizemos isto a brincar, claro, mas o M. ficaria mais afectado e eu, confesso, talvez visse uma vantagem se fosse o Matic que morresse esta semana.

Não estou a tentar desculpar quem eventualmente o faça, mas quem assobiar Eusébio estará, na verdade, a sentir que está a assobiar o benfica. Eu não o farei (nem sei assobiar, tenho a tarefa facilitadíssima!), mas também não vou gostar de ver os moralistas do costume a dizer que aquela gente do Norte é sempre a mesma coisa. É que, além de ser cientificamente improvável que uma pessoa, por ser de um clube diferente, se torne mais mal educada, uma rápida pesquisa mostrar-lhes-á que a rivalidade (e, por vezes, a estupidez) é transversal no mundo do futebol (um dia talvez o M. vos conte o dia em que, no estádio do Betis, se festejou com confetis a morte de um ex-presidente do Sevilha. É bonito? Se levarmos muito a sério, não. Tem piada? Se formos inteligentes, alguma).

O futebol é um jogo em que um dia eu estou bem e no outro está o M., mas não é o futebol que nos define enquanto pessoas. Há de tudo em todo o lado. Há adeptos do benfica que aplaudiram a equipa quando fomos campeões em pleno estádio da luz e, se houver destes no Porto, não me identifico nada com eles. Incomoda-me que alguém deseje a morte do meu presidente, mas não sou moralista. Prefiro sentir esse desejo como uma manifestação de rivalidade, um reconhecimento do tanto que essa pessoa me deu de bem e lhes deu de mal. Porque o Porto e o benfica, nos tempos de Eusébio ou agora, são dois rivais. É mesmo isso que tanto gozo nos dá.

- O Eusébio morreu mesmo? - perguntei eu, quando finalmente acordei.
- Sim - respondeu ele, já de olhos tristes.
- Porra. Isso vai ser uma vantagem para vocês no domingo.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio

Nós, médicos, estamos treinados para ultrapassar isto da morte. Vivemo-la muitas vezes e o seu absolutismo, a sua inacreditável estupidez e tamanho obrigam-nos a certos mecanismos de defesa que nos permitam seguir em frente. Amanhã é outro dia e é preciso trabalhar, seguir em frente. Não há tempo para chorar, para pensar no que é que afinal nós andamos aqui a fazer.

Eu nunca vi Eusébio jogar. Quando nasci, em 1984, já se tinha retirado e a minha primeira memória do King é a banda-desenhada de Eugénio Silva "Eusébio, Pantera Negra". Eusébio é, para mim, o herói do Benfica de banda-desenhada. Foi a partir desse livro que o meu pai me contou as façanhas de Eusébio, os episódios que mais o marcaram, os golos que marcaram a sua meninice. É da estátua de Eusébio que me lembro na primeira vez que fui ao Estádio da Luz (1-1 com o Boavista). 

Para mim, sem o ter visto jogar, Eusébio era o divino. Era o Benfica que tinha sido invencível, era o Benfica europeu, dominador, fantástico. O Benfica que tinha conquistado aqueles campeonatos todos, que tinha marcado gerações e gerações e marcara o nome do meu clube na história do futebol mundial. Eusébio, que eu nunca tinha visto jogar, era, no fundo, a minha imaginação. O meu Benfica imaginário, que eu queria ter vivido, que eu gostava de voltar a ver. O Benfica do qual o meu pai falava com um brilho nos olhos. Eusébio era, mais coisa menos coisa, a razão pela qual o meu pai era do Benfica e eu, mesmo sem o ter conseguido verbalizar até hoje, talvez tenha percebido que, por via indirecta, era por causa dele que eu era do Benfica. 
Com 5 ou 6 anos, nas mais intrincadas discussões futebolísticas, lembro-me de gritar uma vez no infantário: "Mas se o Eusébio jogasse vocês não tinham hipóteses!". Ainda hoje me parece um argumento difícil de rebater.

A idade e este Benfica que me calhou em sorte tornou-me um cínico. Nunca achei graça ao aproveitamento político do King, nunca gostei que se desse a tantos excessos, e, mais grave, percebi que muito dificilmente vou viver esse seu Benfica. O Benfica das vitórias, da glória europeia, o "Ben-fica" com sotaque inglês de Bobby Charlton. O Benfica dos olhos do meu pai. O Benfica de camisolas vermelhas, golas brancas e número cosido nas costas. O Benfica do meu tempo, infelizmente, é o Benfica que apaga as luzes na hora da derrota e perde muito mais que ganha. Talvez por isso, e pelo treino de médico, não me tenha imediatamente emocionado com a morte da maior lenda do meu clube. Só ao longo do dia, vendo as inúmeras manifestações de todos os ilustres representantes do "beautiful game" percebi e senti o legado que Eusébio nos deixou. Muito dificilmente o nome do Benfica subirá tão alto como hoje no meu tempo de vida. 

As manifestações de respeito e carinho de figuras como Maradona, Pelé, Franz Beckenbauer, Bobby Charlton, Michel Platini ou de clubes como AC Milan, Manchester United, Real Madrid, Futebol Clube do Porto, Sporting Clube de Portugal, AS Roma, além de destaque na Marca, As, L`Equipe, BBC, CNN, Guardian, Gazzetta Dello Sport devem fazer parar o coração de qualquer benfiquista. Devem fazer-nos, nem que seja por um momento, pensar que se o museu tem aqueles troféus, se o Estádio da Luz tem aquele tamanho, se somos assim tantos, se somos o que somos, muito se deve a Eusébio da Silva Ferreira.

Hoje não partiu a minha infância, mas partiu a de quem me passou o benfiquismo. 

O Benfica não morre com a partida de Eusébio. Mas o ressurgimento da sua memória colectiva, a sua grandeza, o rasto de vitórias e derrotas marcantes que deixou, marcando de forma supra-histórica o Mundial de 1966, é a mais fulgurante oportunidade que Benfiquistas como eu, que nunca viram Eusébio jogar, têm de sentir o seu clube e a sua maior glória, orgulhando-se e espantando-se com o sem número de línguas que dizem o nome Eusébio e, por consequência, o do Benfica. Se queremos que daqui a 50, 60 anos, outro Eusébio seja chorado, urge que o Benfica deixe de ser um clube que apaga as luzes na hora das derrotas, que se desculpa, que parece querer viver à margem dos seus sócios e  faça tudo para se transformar e voltar a ser o clube mítico que parece reluzir nos olhos do meu pai e nas palavras de Bobby Charlton.

Nós, médicos, estamos treinados para passar por cima disto da morte. Amanhã é outro dia e é preciso trabalhar, seguir em frente. Não há tempo para chorar, para pensar no que é que afinal nós andamos aqui a fazer. Mas hoje morreu o Eusébio. Não há treino que valha ao médico quando é o Benfiquista que chora por dentro.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Problema de expressão

Aviso desde já os leitores mais sensíveis para o conteúdo explícito deste texto. Qualquer pessoa que nunca tenha insultado um adversário com palavrões inexistentes, que nunca tenha desejado uma doença sem cura a um jogador ou que nunca tenha imaginado os filhos de um árbitro perseguidos na escola, é melhor fechar já esta página. Ah, e se por acaso for familiar ou amigo do Fonseca, do Licá ou do Herrera, também. 


Tive a sorte de crescer numa família que me ensinou os pilares essenciais da vida em sociedade, como o respeito pelos outros, a boa educação, a igualdade, a liberdade e a solidariedade. Confesso mesmo que me tenho em boa conta em relação a estes valores. Sou uma pessoa calma, não me meto em confusões e espero contribuir para um mundo melhor.

Dito isto, vamos à bola. Eu tenho um problema. Parece que admiti-lo é o primeiro passo para o curar, mas neste caso acredito que será mesmo difícil eu algum dia mudar. Acreditem que até me custa escrevê-lo porque, como já referi, eu considero-me uma pessoa extremamente normal fora do futebol. E agora, que já passaram umas horas desde o sportem-FCPorto, custa-me recordar as coisas que eu sou capaz de dizer durante 90 minutos.

Quando eu sou uma pessoa normal, não insulto ninguém, a não ser os automobilistas que fazem rotundas inteiras pela faixa mais à direita, mas acho esta uma excepção perfeitamente tolerável. A ver um jogo do meu clube, ninguém é poupado. O adepto verde é um filho da puta, claro, porque o amor da minha vida nem é um adepto adversário nem nada. O árbitro é um grande cabrão, obviamente, mas não é nada pessoal, porque qualquer ser humano vestido de amarelo ou de preto num jogo de futebol o é. O jogador deles é corno, porque aparentemente naquela altura eu acredito que ser enganado pela mulher é motivo de gozo, mas atenção que um dos meus jogadores também o pode ser quando falha um passe. O treinador deles é um madeirense do caralho - e notem que eu não tenho nada contra a Madeira, até sou descendente de um madeirense -, mas o meu treinador já é um burro do caralho, o que é muito pior.

Quando eu sou uma pessoa normal, não tolero sentimentos racistas ou homofóbicos. No entanto, no futebol há expressões que se enraizaram nos adeptos e que me envergonham sempre que ganho consciência do que acabei de dizer. Ontem, por exemplo, quando o melhor médio do mundo e arredores William Carvalho entrou a matar ao Varela (o cabrão do árbitro só deu amarelo, agora digam que eu não tenho razão ao insultá-lo logo à partida) eu pedi cartão vermelho para “o preto de merda”. E esta é uma frase que não só me dá nojo, como tem a sua piada, porque acho que o Varela é bem mais negro do que o rapaz. Outra vez, quando o Capel veio ao nosso canto, chamei-lhe “paneleiro”. Eu não faço ideia qual é a orientação sexual dele, mas notem que isso não tem nada a ver com o assunto. Ele é do sportem e está ali perto de mim, tenho que dizer-lhe alguma coisa. E logo eu, que não só não tenho nada contra os homossexuais, como luto todos os dias para que não sejam discriminados. Só que nem é uma coisa que eu só chame a um adversário, porque digam lá: quando o Herrera entrega a 20ª bola a um adversário, ele não merece ser um “paneleiro do caralho”?

Quando eu sou uma pessoa normal, abomino a violência. Não faço mal a uma mosca, nem desejo que alguém o faça, a não ser que a mosca tenha alguma vez votado Cavaco. O Adrien, no entanto, merece partir uma perna de cada vez que se atira para o chão. E o Cedric, se levasse um murro nos dentes de cada vez que fica indignado porque o cabrão do árbitro lhe marca uma falta evidente, não lhe faria nada mal. É óbvio que, em consciência, eu não desejo nada de mal aos meninos, mas em consciência eu também não acho que o Licá merece ir “para a puta que o pariu” de cada vez que… bem, de cada vez que entra em campo com a camisola do meu clube.

Enfim, desculpem-me por estas coisas. Na verdade acho que só o faço porque sei que eles não me ouvem, embora as pessoas que não me conhecem e ficam ao meu lado possam ficar convencidas que eu sou uma selvagem. Não sou. Eu não sinto nada disto, não penso nada disto. Nenhum ser humano é melhor ou pior por ser adepto de um clube, por ser árbitro, por ser jogador ou treinador. Aliás, muitos destes seres humanos que ontem foram estas coisas horríveis que eu lhes chamo e desejo, amanhã podem marcar um golo e passam logo a ser o “Varelinha do meu coração”, podem fazer uma boa exibição e viram “Licázinho, meu amor” e podem ainda ser contratados pelo meu clube e deixar de ser automaticamente o “anão, pigmeu e etc” para entrarem na minha vida como “Moutinho, meu filho”.

Se é justo, racional, se me orgulho disto? Claro que não. Mas isto é futebol, não é para ser levado muito a sério. A não ser quando os filhos da puta dos verdes aplaudem o preto de merda do William Carvalho, a seguir a este não ter sido expulso pelo cabrão do árbitro quando quase matava o estúpido do Varela, que falhou tantos cruzamentos como o paneleiro do Licá, que não tem culpa porque o burro do caralho do nosso treinador não teve tomates para jogar à Porto e calar aquele presidente deles que havia de apanhar uma doença sem cura qualquer.