quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

La vie en rouge

Eu e a C. somos fãs da série How I Met Your Mother. Não, não é o Breaking Bad, nem é o Dexter, nem o Newsroom. Mas é uma série divertida, com várias referências à cultura-pop e com uma homenagem à interacção entre amigos: as piadas que nunca ninguém esquece, os hábitos, as pequenas histórias. É óbvio, mesmo para quem gosta da série, que houve ali várias temporadas a mais só para fazer render o produto. Mas, para dois namorados (sim, mesmo casados, nós namoramos), poucas séries podem ser tão boas de ver no sofá de manta. Especialmente para nós, que a vemos desde o princípio juntos. A série retrata as aventuras (e desventuras) de Ted Mosby e do seu grupo de amigos até conhecer a mãe dos seus filhos (a quem vai contando a história, daí o título da série). 

A série, que acabou por explodir devido à fantástica interpretação de Neil Patrick Harris, actor gay cuja personagem Barney Stinson entrou para a história da televisão, faz-nos sempre torcer por Ted. Ted é o tipo porreiro, um bocado geek, a quem todos os desastres amorosos se vão sucedendo, mas por quem estamos sempre a torcer porque sabemos, lá no fim, que ele vai conhecer a mulher dos sonhos dele, ter dois filhos, continuar com os amigos e ser muito feliz. É tudo uma questão de tempo.
O Benfica é o meu Ted Mosby. É o clube por quem estou sempre a torcer e que sigo fielmente (se bem que, neste caso, sem a C. Aliás, muito longe da C.). Sigo o Benfica desde que me lembro e, com as mesmas probabilidades de o influenciar do que a uma personagem fictícia de uma série de televisão, vejo sempre o Benfica (não só nos jogos) com a ansiedade que todas as decisões sejam tomadas correctamente, em busca do bem maior: voltar a dominar o futebol português. É óbvio que a analogia tem um pequeno senão: eu posso rir-me ou ficar triste com as decisões de Ted Mosby na proporção directa da qualidade do episódio, diálogos, a atenção com que estou, etc. Infelizmente, os erros do Benfica têm sido mais marcantes para a minha pessoa e bem mais longos do que 9 temporadas (a última ainda não completa).
Mais ainda, o Benfica nunca me garantiu que ia, de facto, atingir o seu objectivo, encontrar o seu amor e ter dois filhos. Eu vejo o Benfica apaixonada e sofregamente sem sequer ter o colchão de segurança que, um dia, tudo vai acabar bem. 

No último episódio da série, há uma cena em que a mãe (a futura mulher de Ted Mosby), canta uma pequena versão do "La vie en rose" da Edith Piaf. Numa série que teve vários momentos altos, mas também muitos episódios para encher chouriços, a canção, soberbamente interpretada por Cristian Milioti, seguida de um mónologo terno de Ted, foi um ponto alto na série como há muito já não havia. 
Foi bom lembrar que, embora seja um grande cliché, a série é sobre a busca do amor. E isso não é necessariamente um cliché.


Ontem o Benfica ganhou ao Sporting. Foi muito melhor e, durante alguns períodos, tive a minha sensação preferida no derby: de que somos mais em campo, como se ocupássemos mais espaço, fossemos sempre mais fortes e mais rápidos. O que é facto é que, para mim, benfiquista doente, nada é mais lindo do que a camisola vermelha. Nada. E estranho sempre que uns de vós, pessoas que eu até aprecio (houve uma com quem me cheguei a casar), tenham escolhido clubes com riscas no equipamento, com umas cores pálidas, praticamente envergonhadas pela sua existência. A minha sensação preferida nestes jogos é quando sinto, cá dentro, que as camisolas vermelhas são de facto maiores. É um cliché, eu sei.
Ganhar um derby é bom, e eu adoro isso, mas isso não significa que vamos ficar com a mãe no fim. Li esta semana teorias de fãs que dizem que a mãe pode ter morrido e é por isso que Ted conta a história do seu amor aos filhos. Não é um drama tão grande como não ser campeão outra vez, mas também é triste. 

Quando Dier caiu, de camisola verde pálido, e Enzo rematou, vermelho berrante ao peito, foi "la vie en rouge".

Diz-me com quem andas

Eu nasci, cresci e infelizmente não vivi para sempre no Porto. Reparei até no outro dia que estou há cinco anos em Lisboa. O sotaque já não é o mesmo, mas há coisas que não mudam. É “à beira” e nunca “ao pé”, “sapatilhas” não são, evidentemente, “ténis”, são “3 menos um quarto” e não me habituo ao “um quarto para as 3”. Continuo a dizer “cá” para me referir ao Porto quando estou a 300 quilómetros de distância e “vou a casa” significa sempre subir a A1. O Porto é a minha casa.

Aprendi, no entanto, a gostar de Lisboa. A luz é realmente única, há mais sol do que nevoeiro e a calçada portuguesa torna os dias mais sorridentes do que o granito. Sim, admito que não ter de passar na Segunda Circular todos os dias tenha ajudado à minha integração. Lisboa não é o benfica e o sportem, Lisboa é Lisboa, uma mistura de portugueses de todas as regiões e de estrangeiros de todos os continentes. E eu gosto de me sentir numa cidade do mundo, de ouvir línguas diferentes, de olhar para rostos mais negros ou mais asiáticos, de nem reparar na roupa do punk ou do homossexual.

Lisboa é isto, mas Lisboa também é o vizinho que não me cumprimenta ou a pressa que não deixa ajudar a idosa a carregar os sacos. Em Lisboa chamam-me “senhora”, e não “menina”, e isso eu não posso perdoar. Em Lisboa, e mesmo com o sotaque a falhar, eu sou sempre “do Norte”, e não do Porto, porque Norte é tudo acima de Lisboa e Sul é o Algarve. Em cinco anos, detectei facilmente o problema de Lisboa: é que, em Lisboa, quase ninguém é de Lisboa. Lisboa não tem o bairrismo, não tem o encontrar-se sempre alguém conhecido na rua, não tem um só sotaque, não tem uma espécie de “carago” no início, no fim ou em qualquer meio de uma frase, não tem uma identidade. Lisboa é grande e diferente demais para ser uma só Lisboa.

E Lisboa não tem, ainda por cima, um clube. É claro que o Porto não tem só o FCPorto e que a cidade tem lampiões e lagartos (são os piores, aliás), mas, se viesse aí um meteorito que ia acabar com o planeta e fosse dado a escolher a um portuense que clube é que ia lá acabar com ele, parece-me que a escolha seria óbvia. Em Lisboa há dois clubes grandes, mais os que são de outros clubes ou só da selecção (até viver aqui nem sabia que esta espécie existia), mais os que não gostam de futebol (nunca conheci tanta gente que não gosta de futebol como em Lisboa, acho que é um fenómeno que merecia ser estudado). Tudo junto, não há uma só voz e ia ser uma grande confusão se um lisboeta tivesse de escolher quem ia lá acabar com o meteorito.

Feita a introdução geográfico-social, vamos mesmo à bola. O FCPorto dos últimos 30 anos cresceu também à custa da rivalidade com Lisboa. O discurso pegou e, infelizmente, continua a ser uma mensagem fácil de passar: a capital é sempre favorecida. Lisboa são os mouros, só queremos Lisboa a arder e cheira a merda, cheira a Lisboa. É esta rivalidade, este ódio, que motiva o FCPorto para ganhar mais do que os clubes de Lisboa. O FCPorto ganha muito porque sabe escolher treinadores (cof cof), sabe comprar jogadores (cof cof cof), mas sabe, sobretudo, unir-se contra os ataques de fora, de lá de baixo, daqui de Lisboa.

O FCPorto não precisa de aliados. Pelo contrário, o FCPorto precisa de estar sozinho para querer ganhar sempre. Contra tudo e contra todos, de preferência. Não só vivemos bem com o ódio dos outros, como nos motivamos com ele. Se é uma atitude de guerrilha, que não ajuda a que os casais de clubes diferentes vão de mão dada ao Dragão? Sim, admito que sim, mas eu não gosto sequer de andar de mão dada com o M. em dias de clássico, por isso não sou um bom exemplo.

Já os clubes de Lisboa andam às voltas a tentar derrotar o domínio “do Norte”, mas não têm conseguido. Já tentaram várias estratégias, mas falharam. A nova, bem notória neste derby, é juntarem-se. Não sei se fui só eu - que nestes jogos estou sempre excitadíssima com a hipótese de haver porrada, expulsões, polémicas de arbitragem e placas do estádio a voar – que notei, mas este benfica-sportem mais pareceu um amigável. E, mesmo nos amigáveis, já vi um capitão vermelho a mandar um árbitro ao chão, por isso não estava mesmo nada à espera de tanta calma.

Talvez seja eu que sou doente, mas façam lá o exercício de imaginar que uma daquelas equipas era o FCPorto. Um estádio a desfazer-se, um jogo adiado, adeptos visitantes a ficarem mais tempo perto do perigo do que os outros, uma vistoria suspeita. Seria uma festa, certo? Podem alegar, ainda assim, que, confrontado com uma situação destas, também o FCPorto não seria tão tolerante. Certo, certíssimo. Iríamos tentar expor todas as falhas dos outros, com certeza. Mas, se isto acontecesse no Dragão, temos a certeza que não seria nomeada uma equipa especial do Ministério Público para investigar tanta incompetência?

O derby, o maior derby do país, já não é o mesmo. E não é só pela diferença das equipas (tens de começar a dar mais luta, Bruno). Os dirigentes dos dois clubes de Lisboa estão a unir-se à frente de todos com um objectivo comum. E é engraçado ver que, na linha da frente, não está, como é habitual, o clube e o presidente traumatizados com o FCPorto. Estão estes, que tão felizes eram connosco ainda há uns meses:



Mal agradecidos.

Só espero que, no meio de tanta incompetência, más escolhas e falta de vontade, o meu clube use isto para ficar mais forte. Afinal de contas, é tão inesperado este FCPorto ainda estar na luta como um clube qualquer ter de ir salvar o planeta de um meteorito.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Oficial: livro a caminho

Pois é, vocês estavam convencidos que a loucura do mercado de Janeiro já tinha passado, mas nós ainda temos novidades. A Matéria-Prima acaba de comunicar à CMVM a contratação do Lá em casa mando eu para um livro que está quase, quase prontinho. Assinámos o contrato em cinco minutos e prometemos trabalhar com humildade e dar tudo pela equipa. Sempre com nota artística, claro. Queremos lutar pelo título das melhores vendas, como aquele rapaz que quando chegou ao Arouca disse que queria ser campeão. Para isso, apelamos aos nossos adeptos que sejam o 12º jogador ou, neste caso, o 12º comprador. Para já, podemos revelar apenas que o livro será baseado neste blog, mas terá muito conteúdo exclusivo. Uma espécie de Benfica, com a espinha dorsal da selecção, mas com uma fornada de sérvios a titulares. Lá para Abril/Maio, há um novo duplo pivot de escritores nas prateleiras. Avisamos já que, se não comprarem o livro, para o ano escrevemos com os juniores. 

Obrigada a todos por nos lerem.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O que faltava

Se és do sportem, começa a ler o texto só daqui a quatro minutos por favor. 

O Bruno é o homem que faltava ao futebol português. E não estou a ser irónica, como o árbitro Manuel Mota quando só deu quatro minutos de desconto depois uma segunda parte do mais puro anti-jogo que eu já vi. Jogadores a deitarem-se no chão até quando caíam sozinhos, choro, lágrimas, pernas no ar, macas, um terror, pobres coitados, tanto sofrimento junto. Já não via uma coisa assim desde o Porto-benfica, juro.

Digo-o porque, sem o Bruno, o sportem estava condenado a ser o terceiro grande só duas vezes por ano – quando jogava contra os rivais da Segunda Circular. E este é o maior, e provavelmente único, elogio que lhe posso fazer: até aqui, ninguém do FCPorto se importava com o sportem.

Eu, confesso, sou uma grande ativista do ódio contra o sportem desde sempre. É verdade que, quando vivia no Porto e eles eram campeões (não sei se se lembram, já foi há tanto tempo), nem se dava por isso. E todos sabemos que o sentimento “anti” cresce sobretudo baseado nisso: no colega do lado que é de outro clube e nos f%&# a cabeça quando ganha. No meu caso, foi um coisa televisionada, como já expliquei aqui.

O M. costuma dizer, na brincadeira (será?), que só se apaixonou por mim porque eu odeio o sportem. Reparem: eu ser do Porto, o clube que destrói o dele, ainda aguenta; agora uma pessoa que não odeia o outro rival não tem qualquer credibilidade para ele. Entretanto, a verdade é que ele foi percebendo a diferença entre odiar o sportem em Faro (o M. quer que os nossos filhos sejam do farense, quando o clube tem um leão como símbolo e tem sportem no nome, valha-me deus, qualquer dia queres que se chamem Bruno!!!!) ou em Lisboa e odiar o sportem no Porto. É que o sportem praticamente não existe para um portista. Lá em casa, no Porto, sabe-se sempre quem joga contra nós e contra o benfica, mas contra o sportem não. E este é só um exemplo do desprezo que o Bruno tem que combater.

A estratégia dele é conhecida e tenta copiar (muito mal, muito mal...) uma que vimos funcionar há 30 anos. Não lhe interessa se, na altura, o Porto era o clube da “província” e precisava de se afirmar perante a “capital” com um discurso de incitamento à guerrilha e se, agora e sempre, o sportem é tudo menos isso.

Ver o sportem a adoptar a postura de “contra tudo e contra todos” é engraçado, porque reparem que nem no ano passado, quando andavam pelo sétimo lugar, alguma vez os vi argumentar que estavam assim porque estava tudo contra eles. Nem quando lhes apanharam o vice a pagar a um árbitro. Aliás, nem nas primeiras jornadas deste ano, com foras-de-jogo constantes e um empate contra o rival com a ajuda do árbitro. Isto surge, naturalmente, quando o sportem, a meio da época, já deixou a Taça de Portugal e a Taça da Liga pelo caminho e quando até o Montero já deixou de marcar golos em fora-de-jogo.

Nada contra a estratégia de criar teorias da conspiração para desculpar derrotas. Faz parte. O que o Bruno fez de diferente é que se virou para o nosso lado. Exclusivamente para o nosso lado. E nós estamos habituados aos Gomes da Silva desta vida vestidos de vermelho, mas de verde realmente ainda nos faz alguma confusão. Principalmente quando mantêm aquela pose cavalheiresca, tão à sportem, com um tom erudito e um ar tão lavadinho. Como é que uma pessoa entra na lama da argumentação com alguém que tem o cachecol sem dobras e sem manchas pousado em cima dos ombros?

Eu estou habituada a falar sobre roubalheiras, polémicas, apitos, nomeações e etc com um vermelho que está convencido que a fome no mundo vai acabar quando o Pinto da Costa sair do Porto. Mas a verdade é que não estou habituada a falar com um verde sobre a roubalheira que foi o sportem-marítimo da Taça da Liga, por exemplo. Ou da ilegalidade do primeiro golo deles em Penafiel. Ou do escândalo que foi o marítimo ter subido ao relvado depois do FCPorto. Ou do penalty por marcar sobre o Carlos Eduardo. Ou de como o nosso jogo deveria ter terminado sempre depois devido ao anti-jogo do qual já falei.

Estivesse o futebol português como há um ano e nesta altura eu não teria de fazer isto. Mas não está. Porque o Bruno chegou e odeia o FCPorto e vai fazer de tudo para convencer os outros clubes todos que nós somos maus. O Bruno era o homem que faltava para que todos se odeiem a todos e passemos a semana a levar com ameaças de boicotes e jogos com os juniores. Não é o primeiro, não será o último, e ainda lhe falta aquele pequeno pormenor de ganhar para que isto resulte.

sábado, 25 de janeiro de 2014

10 anos sem Fehér e uma vida de recordações

Foi há 10 anos. Eu estava a ir de boleia para Lisboa, a voltar de Faro em plena época de exames. A ouvir o jogo na rádio com outro benfiquista, tínhamos acabado de gritar aquele golo do Fernando Aguiar como se fosse realmente importante. Eu não vi a queda em directo, mas ouvi a voz do repórter de campo nervosa, embargada, aflita, assustada, a dizer que Fehér tinha caído e que podia estar mal. Lembro-me vagamente do relato confuso de tudo o que se estava a passar, da aflição geral, das contradições normais, dos boatos. E lembro-me de chegar a casa e seguir aquilo tudo em directo com o R., no apartamento de Sete Rios que tantas memórias me traz.

Toda a gente se lembra da morte de Fehér. Se estava a ver o jogo ou não, da queda, do que pensou, do que sentiu. Faz hoje 10 anos e, para muitos, parece que foi ontem, tal a nitidez com que se lembram. Nem parece verdade que já passou uma década inteirinha, de tão apressados que andamos, com tantas coisas que já fizemos, se ainda ontem era domingo e estávamos a ver o Benfica em Guimarães, sem pensar em mais uma semana de trabalho. As recordações têm, depois, esse poder: são uma máquina do tempo brutal, uma viagem rápida a sítios há muito distantes, tão brutal nas suas contradições (como mudei em 10 anos!) que chega a dar tonturas. 

Esta expressão, que uso repetidamente, vem de um artigo que o D. me mostrou uma vez na Time. Escrito por um adepto do Liverpool, acabado de ser campeão europeu, o artigo é um maravilhoso elogio à eterna alegria e melancolia de ser adepto. O autor explica a quem não sabe e verbaliza por quem o sente que ser-se adepto é ter sempre a nossa vida à nossa volta, à distância de um golo, de um número nas costas numa camisola. Para 99,999% das pessoas, Fehér representa um domingo à noite trágico, uma memória brutal e inesquecível, a morte em directo. Obviamente que, para mim, Miki Fehér é sobretudo lembrado por essa tão triste noite. Mas não só. Fehér é também um jogo contra o Guimarães em casa emprestada no Jamor, um 2-0 insonso à segunda jornada, com um golo seu no fim, que me fez logo perceber que era mais um ano de seca. Foi uma tarde de pouco sol passada em Porto Covo, com o T. e o D., a beber cervejas no café do parque de campismo e a adivinhar mais uma época terrível. 
Fehér foi uma viagem espectacular para o Porto, para vermos o Benfica-Lazio no estádio do Bessa (perdemos 0-1 depois de termos perdido 3-1 em Roma). No meio de tantas e tantas gargalhadas naquele autocarro, preciosa ajuda para esquecermos a eliminação, lembro-me do M. gritar: "Podemos criticar todos, menos o Fehér! Esse dá tudo o que tem, não sabe é mais que aquilo!" - e no meio dos risos, da juventude e tempo que me permitia fazer viagens para ir ver o Benfica a todo o lado, ficou o único elogio futebolístico que me lembro de ouvir ao húngaro em vida (eu sei que não interessa para nada se ele era bom jogador ou não, é só uma história).

A verdade é que esse poder de aliar o futebol à memória e, por consequência, à minha vida, é uma das grandes razões pelas quais eu vou sempre amar este jogo. Eu sei que nunca vou esquecer Fehér, sobretudo por aquele domingo, mas também por me levar aquelas férias, aquela viagem e até a um reportagem da SportTv, que vi numa daquelas manhãs de ócio da vida estudantil, da qual só me lembro do Cajuda, na altura treinador do Braga, a virar-se para ele a dizer "toda a gente sabe que não estás no teu melhor momento", um fragmento bizarro que não sei porque é que cá ficou. 

Hoje, 10 anos depois da sua morte, milhares de pessoas também usarão o futebol como máquina do tempo e vão viajar uma década, recordar onde estavam, com quem estavam. Vão lembrar-se de projectos dessa época, de sonhos, de desilusões, da vida, da sua vida. Infelizmente, será por um motivo trágico e marcante. Hoje, toda a gente fará essa viagem com os adeptos de futebol. Mas, no próximo jogo, um pormenor qualquer fará um adepto recorda-se de uma conversa, de uma piada dita com um amigo a ver a bola, de um craque, de uma viagem, de um familiar. E fará essa viagem sozinho, sorrirá para dentro e contará isso a alguém da nossa tribo. Uma das maiores alegrias que tenho como adepto é que facilmente viajo para locais distantes (Budapeste, a perder 2-1 com o Manchester United para a Champions, em que eu e o R., recebendo a mensagem do golo de Simão de livre, imitámos os festejos pela praça), para datas (o meu dia de anos, em que a C. festejou o primeiro golo do Porto em Old Trafford (2-2) agarrando-se à minha perna e eu a olhei com ar ameaçador e lhe pedi para nunca mais repetir aquilo), para pessoas (o meu avô e o Benfica-Beira Mar de 93/94). Hoje, infelizmente, o futebol vai fazer-nos recordar uma tragédia colectiva. Mas, acreditem, várias vezes me leva aos meus tesouros pessoais. 

"...ser adepto é mais que derrotar a distância e a geografia. É a nossa máquina do tempo pessoal. Se há coisa que eu fiz de forma consistente nos últimos 50 anos foi apoiar o Liverpool. Ser adepto é uma benção, porque nos liga à infância como mais nada o faz, e a tudo e todos que marcaram as nossas vidas entre a infância e o presente. Por isso, (...) quando vi o jogo na televisão, não tive que estar à procura dos fragmentos da minha vida. Eles estavam todos à minha volta. Chá em casa da minha avó depois de um jogo; o meu tio favorito que morreu muito cedo; namoradas que não perceberam a essência disto (casei com a única que percebeu); o meu bolo do 21º aniversário, feito pela minha mãe, com as cores do Liverpool; as minhas filhas vestidas com os primeiros equipamentos delas; os grandes amigos com quem já não falo há muito.

What does being a fan mean? It means you`ll never walk alone"

(Michael Elliot, hopelessly devoted. Para quem tiver assinatura da Time, está aqui. A minha tradução vem do meu antigo blog, com a revista ao meu colo)

domingo, 19 de janeiro de 2014

Tempo para pensar

Já lá vão mais de três anos desde o meu último desgosto amoroso. O André deixou-me e eu pensei que o mundo ia acabar, mas afinal acabei por encontrar a felicidade ao lado do Vítor. Nos últimos dois anos não vivemos uma grande história de amor, mas a verdade é que o sexo contra o benfica era fantástico.

Sabes, quem me ouvir falar até parece que estou sempre a trocar de companheiro, mas a verdade é que são eles que me têm trocado por outras atrás do dinheiro. Quanto a isto não posso fazer nada: por muito boa que eu seja e por muita estabilidade que lhes dê, nunca vou ser rica como aquelas pindéricas russas e árabes.

Por isso, tenho de arriscar. Já não há muitos rapazes novos e jeitosos por aí que ainda estejam solteiros. E tu soubeste engatar-me bem. Eu bem vi como tratavas a tua ex, lá em Paços de Ferreira. Parecias o sonho de qualquer adepta. Vitórias a jogar bonito – o que mais se pode pedir?

E ela, como toda a gente sabe, era muito mais burra do que eu, portanto não me foi nada difícil conquistar-te. Tu sabias ao que vinhas: eu já não sou a mesma pessoa que há três anos. Já não estou à espera de um grande amor, mas também já não estou de coração partido. Sou uma mulher mais madura, não me deixo apaixonar por qualquer ruivinho que aparece e já não acredito em contos de fadas. Só quero um homem que me trate bem, que me dê a mão na rua, que me aqueça a cama no inverno, sabes?

Não peço muito em troca. Só preciso de ganhar, ganhar, ganhar. Escusamos de ter a posse de bola do Barça de Guardiola ou de fazer uma jogada como o último golo do Messi. Não estou à espera de muito, porque não me quero magoar. Mas tu nem isso me estás a dar. Pareces cada vez mais distante, como se estivesses condenado a aturar-me. Às vezes até parece que não gostas de mim. Porquê, Paulo, porquê? O que se passa contigo? Não podes ter deixado de ser um bom partido assim tão depressa. Ou será que nunca foste? Será que me enganei?

Eu sei, eu sei que também não estou nesta relação de pedra e cal. Já não consigo dar-te os filhos que dei ao André e ao Vítor – o Falcao, o Hulk, o Moutinho, o James. Mas porra, Paulo, temos o Fernando, o Lucho, o Jackson, o Mangala, o Danilo, o Alex Sandro, tanta coisa que outro homem qualquer era capaz de matar para ter. Mas contigo assim isto não está a funcionar. Não está, escusas de vir para a televisão fingir que está tudo bem entre nós porque não está.

É verdade que a nossa relação não está perdida, mas eu preciso de um tempo para pensar. O problema – espero - não és tu, sou eu. Sou eu, que ainda agora na luz gritei amo-te mais alto do que todos os vermelhos que lá estavam e, mesmo assim, levei com a tua indiferença, com a tua incompetência, com a tua falta de vontade em estar comigo. Senti-me como uma daquelas mulheres que chega a casa do trabalho, arruma tudo num instante, faz o jantar preferido do marido e veste a sua lingerie mais sexy, mas, quando ele chega, vai directo para a cama e não usufrui de nada.

Não pode ser, Paulo, assim não pode ser. Tens pouco tempo para me mostrares que queres lutar por esta relação. Eu não desisto de ti, acredita. Estarei sempre aqui para o que precisares, ao teu lado, a gritar da bancada. Conquista-me outra vez, mostra-me que podemos ser felizes. Agora é a tua vez de me dizeres amo-te todos os dias.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Stress pós-traumático

Tenho saudades de amar o Benfica. Amar. Amar desenfreada e loucamente, sorrir e sentir os meus olhos a brilhar quando se fala do Benfica. Saudades da comunhão, de me sentir capaz de confiar cegamente (se bem que, honestamente, eu nunca confiei assim no Benfica e duvido que alguma vez o consiga vir a fazer).

Eu sei, ganhámos. Ganhámos 2-0 e até pareceu simples. Eu devia estar contente e, confesso, estou algo surpreendido. Espero que vocês compreendam a bordoada que eu vou mandar agora: Eu compreenderia se, depois de Maio de 2013, os jogadores do Benfica se tivessem suicidado todos. (Ainda estão cá? Vão continuar a ler?). Era uma morte digna, um hara-kiri à japonesa, numa tentativa de salvar a honra (semelhante ao que a C. praticamente faz quando um carro que não tem prioridade consegue meter-se primeiro no cruzamento do que ela. A C. sente que isso é um vexame que envergonhará os nossos bisnetos). Sinceramente, para alguns deles, seria até uma maneira de, finalmente, serem apreciados por mim, ao sentir que pelo menos tinham sentido aquela perda como eu. No entanto, e passados uns meses do pior período da história do humanidade, eis que o Benfica ganha aos seus rivais e passa para a frente do campeonato. Eu devia estar feliz com isso - e estou, na medida em que isso é melhor do que um plantel ter-se suicidado, mas não estou convencido. Não sei se é stress pós-traumático, se é só feitio. 


 Não estou convencido por dois tipos de razões: as primeiras são irracionais e fazem parte da minha loucura, ou seja, eu parto do princípio que tudo nos vai correr mal. Tudo. Eu assumo sempre, mas sempre, que o rival naquele dia se vai matar em campo e que o nosso guarda-redes anda a ser chantageado por um polícia. Isto, com toda a probabilidade, vai-me retirar anos de vida, quase tantos como aqueles que a C. perde quando um carro lhe ganha um cruzamento (a sério, C., não é preciso ficar com o olhar Paulinho-Santos-quando-via-o-JVP sempre que isso acontece. É só um cruzamento e a seguir passamos nós, querida).
O segundo tipo de razões é mais racional: perdemos Matic e Salvio e Cardozo estão de baixa há mais tempo do que é normal (em milhões de benfiquistas não havia ninguém que desse um ligamento ao Salvio?), o que é equivalente a dizer que estamos numa guerra sem as nossas metralhadoras e que agora vamos tentar combater o inimigo não tendo generais. E, além disso, pusémos à venda metade do regimento. Para o observador externo, mais parece que andamos a dar tiros no pé do que a tentar ganhar a guerra. Ora, isto, aos olhos de quem, aos 90 minutos, face a um livre indirecto do Porto, pensou "pronto, eles vão marcar agora e ainda empatam e eu vou ter aqui uma coisa má", é só a pior coisa do mundo. Não há nada mais lixado para um paranóico do que ser efectivamente perseguido. 

Eu sei que já escrevi isto mil vezes e a C. goza-me a dizer que eu tenho que deixar de acreditar que vou ser presidente do Benfica e que posso parar com a campanha. Eu sei que devia. Em primeiro lugar porque vou ser jogador ("não joga o Matic, joga o Manel"), mas em segundo lugar porque até para mim mesmo me torno cansativo, com este género de benfiquismo circular, sempre a lamuriar-se. E a verdade é que, face ao duplo-pivot de Paulo Fonseca, quase todos os problemas parecem piores. Pelo menos para a C., aos olhos de quem aquela linha de dois trincos a atrapalharem-se parece pior que a II Guerra Mundial para os polacos. Mas poderei eu animar-me e ceder aos olhos (lindíssimos) de quem, além de ser do Porto, não deixa ninguém passar num cruzamento? Não será mesmo isso que ela quer, que eu baixe as defesas? 


É disso que eu tenho saudades, de me animar. De me entregar sem medo. De ter um bocadinho de fé sem me sentir logo ridículo. Eu nem sei se alguma vez fui assim ou poderei vir a ser, mas gostava, juro que gostava. O problema é que eu tenho de aturar um presidente que vende o craque da equipa por metade da cláusula, tenho um treinador que, com uma só frase, arrasou toda a formação. E um plantel valioso, mas insuficiente para, 11 contra 10 do Porto, ao menos ter a bola nos pés. E como é que uma pessoa acredita em alguma coisa depois de Maio do ano passado? 

Eu sei, eu sei. Era suposto, depois de um clássico e vivendo com a C., vir para aqui cantar vitória. Mas isso era o mesmo que a C. começar a ser uma cordeirinha ao volante. Eu já vi o Benfica levar muita porrada. De dentro e de fora. Desde a morte na praia até ao assassinato do seu património. Não sei quantas vezes o Benfica vai ter de ultrapassar todas as coisas que se parecem mover contra ele. Não sei quantas vezes vou ter de esperar que o Benfica nasça outra vez. O que te prometo, Benfica, é que de todas as vezes, vou esperar pacientemente e ao teu lado. Vou contigo até ao fim, sem as melhores metralhadoras, com o general vendido a meio da batalha. Domingo após domingo, clássico após clássico, ano após ano. Posso não dar berros em cada parto, pode não me cair uma lágrima cada vez que entras em campo, posso não gritar o "NINGUÉM PÁRA O BENFICA!" sem temer que isso dê azar. Mas eu estou aqui, a escrever este texto repetidamente, da minha maneira traumatizada, perturbada e ansiosa, ao teu lado. 

Vou ver-te nascer as vezes que for preciso até, finalmente, me animar.