terça-feira, 11 de março de 2014

Pátria do futebol

Quando era miúdo vi uma cassete com um resumo do Itália 90 tantas, tantas vezes que fiquei a saber aquilo de cor. Começava com um grito (provavelmente referente ao México de 86) de Aaaaargentina (com o "g" mudo, como um "h") paaaaaaaatria queridaaaaa!!!! Não sei se o grito é de Victor Hugo Morales, famoso relatador argentino, mas tenho-o na cabeça, nítido. O futebol é uma memória estranha. Sempre que alguém diz Argentina, a primeira coisa que me vem sempre à cabeça é o grito desse relato. 

Em todas as minhas viagens, levei sempre comigo o benfiquismo e o futebol. Quando fui com o R. e o T. a Tallin, tivemos uma noite de copos brutal. Na primeira parte da noite estive com dois alemães horas e horas a falar do jogo. Um era um nómada da bola, trabalhava numa companhia aérea e andava a curtir grandes jogos, Europeus e Mundiais. O outro era do 1860 Munique e esteve a noite inteira a debitar coisas contra o Bayern, como eram odiosos e como só os queria ver na merda. Foi uma noite de partilha. Não me lembro do nome de nenhum dos dois, mas durante aquelas horas fomos, genuinamente, amigos de sempre. Eles ouviam, com sinceridade, a minha amargura em relação ao Benfica, atirando aqui e ali pormenores que se lembravam do meu clube. E aquele alemão (que era carpinteiro e estava na Estónia a aprender a fazer um tipo de casas em madeira) foi tão eloquente na sua verve anti-Bayern que ainda hoje é nele que penso quando vejo a equipa de Pep parecer não ter rival. Como estará ele?

El River en B de nuevo o una Libertadores? El descenso del River - o guia que foi connosco ao San Lorenzo-Rosario Central, adepto Xeneize.


A impressão mais brutal da Argentina é que em todo o lado parece dia de jogo. Camisolas do Boca, calças do River, polos do San Lorenzo. Uma tshirt a dizer "Dia del hincha del Racing", galhardetes do Independiente nos taxis. Tudo na rua, na boa. O preconceito de que todo o futebol argentino é violento é falso. Há violência e grave, sim. Mas o adepto normal, o hincha médio tem um orgulho nas suas cores desmesuradamente maior do o nosso. E ocupam as ruas, as paredes, tudo. Buenoa Aires é como um estádio gigante, e quem gosta de futebol sente que aterrou num planeta diferente, com uma paixão superlativa, nunca antes vista. Os ingleses podem ter o sentido de humor, os espanhóis podem ser campeões do mundo, mas há aqui uma visceralidade que não se explica. Vem de dentro, de um sítio que o adepto normal não conhece. Estamos a falar do povo de Maradona, Quino e Mafalda, Piazzolla e Che Guevara. Imaginem a capacidade mágica de sentir deste povo.



La bosta negra... Taxista de Buenos Aires

Quando entrámos no taxi em Buenos Aires e o taxista ouviu Bombonera, ouviu-se o seu sussurro, no meio do barulho do motor a ser ligado: la bosta negra... Era do Independiente, que está na segunda. Falou, indignado, de que quando o River esteve na segunda houve logo uma liguilha para o subir e ao contrário nada. "Muchos millones en el futbol". Bateu na FIFA ("hace mas dinero que Coca-cola!") e deixou-nos no estádio. Nem sei se lhe disse o meu clube, mas deliciei-me com aquele la bosta negra... Cheio de sarcasmo, quase a indicar-nos que íamos para o pior sítio do mundo e que devíamos mudar.
A piada constante, o tom leve e meio cantado das piadas reflectem uma ternura pelo jogo fabulosa. Na viagem nem sei por quantas camisolas passamos. Quando entramos na Bombonera e percebemos o pormenor arquitectónico delicioso do balneário rival ser em baixo da bancada da claque do Boca, percebemos que não há clássico português que possa enervar um argentino. Estes homens jogam no céu ou no inferno. Não há meio termo para os argentinos.


Eu levei o Benfica para Tallin, mas já levei o Benfica a muitos outros sítios. O que me fascinou na Argentina, sobretudo em  Buenos Aires, foi sentir que não precisava de levar para lá o que eu gosto de futebol. O futebol já lá estava. Pintado nas paredes ou numa simples banca de uma feira, nas camisolas que toda a gente usa, nos anúncios, nos jornais. Sente-se o futebol na rua. Na periferia ou na cidade, há sempre um campo com balizas com redes, com alguém a jogar. Reconheço algumas camisolas, mas só me apetece ficar a vê-los jogar. Eu sei, eu sei, há glaciares para ver e isto é só um romantismo estúpido, mas tenho a sensação que cheguei a casa.



In the stadium, we are San Lorenzo fans. If the other team scores the most beautiful goal of the football history... We don`t care - O nosso guia (sim, tivemos de ir para a bola de guia) a explicar aos americanos como se devem comportar num estádio.

O futebol argentino tem mil e um problemas: Don Julio é presidente da federação desde os tempos da ditadura. É também vice-presidente da FIFA. Nada é estruturado, os estádios são velhos, a violência é resolvida estupidamente com a proibição de adeptos visitantes em todos os estádios, sem que isso resolva nada. Como resultado, o futebol é miserável. Mas as bancadas dançam. E essa força visceral, esssa identidade, essa argentinidade, mantém o jogo vivo e fantástico. Não há guia argentino que não recomende uma ida à bola. É uma quinta-feira, o estádio nem enche. Mas a bancada dança, devagar, e as mãos agitam-se a um compasso certo. É impossível não entrar na onda, não cantarolar, não sentir aquele ritmo, aquela febre. Dá-me vontade de chamar toda a gente, de chamar a minha família, o meu serviço, os meus amigos que não gostam de bola e dizer-lhes: está aqui. É por isto que eu amo este jogo. Porque é de toda a gente, porque nos faz sentir coisas que mais nada nos pode fazer sentir. Porque é a alegria e tristeza máxima, porque é tão importante como a nossa identidade (e não há adepto do San Lorenzo que não queira para voltar para o bairro de Buedo, de onde a ditadura os tirou e construiu um supermercado no local do seu estádio). O futebol pode ser a alma de um povo, de um país. Pode ser o melhor guia, o melhor taxista, a melhor história, o melhor livro. O futebol pode ser a melhor metáfora de uma viagem. Para mim, a Argentina é o Perito Moreno, as cataratas do Iguazu e a imensidão de Buenos Aires. Mas a primeira recordação que terei será sempre a bancada do San Lorenzo aos saltos. É, até hoje, a minha pátria do futebol. Como aquele relato daquela cassete: Argentina, pátria querida. 

Si el fútbol nos importa tanto a los argentinos no es porque sí. Nos importa porque nos desnuda, nos representa, nos evidencia. Y el fútbol, hasta cierto punto, nos aproxima. Una de esas pocas cosas que los argentinos sentimos que hacemos bien. Una de esas pocas cosas que los argentinos, de vez en cuando, sentimos que hacemos juntos - La Argentinidad. Eduardo Sacheri, Panenka 25

sábado, 1 de março de 2014

Ele avisou

Todo o adepto deve ter a sua referência. Não falo de um jogador, de um treinador ou de um dirigente. Uma referência como adepto. Alguém que saiba mais do que nós, de quem podemos esperar uma previsão  acertada ou uma análise correcta e, sobretudo, alguém que no calor do momento seja mais inteligente do que nós. A minha referência é o meu pai. E nem sequer acredito que seja pelo simples facto de ser meu pai, porque admirarei muito os filhos do M., por exemplo, quando estes o contrariarem futebolísticamente em tudo. Só que o meu pai é o adepto que eu gostava de ser: calmo e ponderado quando os outros estão todos aos gritos e aos gritos quando todos estão calmos e ponderados.

O meu pai é daqueles adeptos que não liga muito a vendas ou contratações de jogadores, a dinheiro a entrar ou a sair. O meu pai está sempre atento é ao treinador. É exactamente o contrário de mim, que vou feita parola para o YouTube ver vídeos dos novos craques, mas à partida aceito qualquer um para os treinar. Criou-se o mito até de que o meu pai gostaria de qualquer treinador que viesse para o Porto. É que desde Octávio Machado que o meu pai se tornou um defensor acérrimo de todos os treinadores do FCP. Foi ele que me explicou o que Co Adriaanse queria fazer, foi ele que me avisou que Jesualdo podia ser campeão muitas vezes connosco, foi ele que logo sublinhou que com Fernandez até ao fim podíamos ter sido campeões em 2005. Mas foi ele, sobretudo, que admirou Vítor Pereira.

Acho que não é possível explicar-vos o quanto o meu pai gostava de Vítor Pereira. Desde o início, quando nós adormecíamos a ver o FCPorto, quando nós criticávamos a falta de fulgor, quando nós estávamos convencidos, admitam lá, que era impossível ganharmos alguma coisa com ele. O meu pai não precisou de nenhuma vitória contra o benfica ou de apenas uma derrota para o campeonato em duas épocas. O meu pai ria-se dos adversários que o desvalorizavam e durante meses deixou de perder tempo comigo, porque eu não o conseguia perceber. De vez em quando, lá me mostrava uma opinião, uma análise que lhe dava razão (honra seja feita ao blog Lateral Esquerdo, que penso ter sido o único a acompanhar a loucura do meu pai pelo homem), mas sem nunca se preocupar muito com a minha burrice.

Quando todos estávamos aos gritos, que a posse de bola não entusiasmava, que tínhamos de marcar mais golos, que não jogávamos bem, que, que, que, o meu pai estava calmo e ponderado. Ele sabia que íamos ganhar. Daí que, esta época, eu devesse ter percebido logo que algo ia correr mal. Pela primeira vez desde Octávio, o meu pai não gostou da escolha do treinador. Sim, leram bem. Quando a única coisa que sabíamos de Paulo Fonseca é que tinha qualificado um paços de ferreira sem estrelas para a Champions, ele torceu o nariz. Ele, o adepto que aplaudia Co Adriaanse quando ele experimentava o Pepe como único central, que era capaz de elogiar Jesualdo quando este mudava a equipa para jogar contra os rivais, que não compreendeu os adeptos que exigiram a cabeça de Fernandez. Quando todos estávamos calmos e ponderados, porque afinal de contas até um canguru a treinador é capaz de ganhar no FCP, o meu pai começou aos gritos.

Faltam 10 jornadas para o campeonato acabar e poucos acreditarão que o meu pai não tinha razao. Faltam 10 jornadas para o campeonato acabar e poucos, como o meu pai, continuarão a ir apoiar o FCPorto até ao fim. Porque o meu pai é o adepto que consegue ver à primeira que o duplo-pivot defensivo não resulta, mas também é o adepto que vai todo contente a cantar no cortejo para a luz, mesmo quando não espera vir de lá feliz. O meu pai anda triste, chateado por não terem mandado o homem embora quando ainda podíamos ser campeões com o tal canguru a treinar, mas nem imaginam a alegria que foi, para mim e para o meu pai, mesmo separados por milhares de quilómetros, durante uma chamada skype virada para a televisão, quando o Ghilas empurrou a bola lá para dentro. Porque quando o Porto ganha (ou passa uma eliminatória, no caso), gritamos todos.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Enzo

Chegou como chegam todos os nossos reforços: numa capa d`A Bola que promete um jogador de sonho, com um elogio forçado e uma promessa irrealista. Já somos batidos nisto e, reacção imediata, olhamos para o valor gasto e atribuímos imediatamente uma responsabilidade. Foi nisto que o futebol moderno nos transformou: antes sabíamos de cor datas, golos míticos, que jogador tinha jogado com o número 8 em determinado jogo. Hoje sabemos salários, valores absurdos de transferências e colocamos rótulos como se fossemos um adepto-merceeiro.

Enzo, de olhar louco, rótulo de craque e preço que exigia rendimento em campo, tornou-se um caso. Não aparecia, não jogava e nós, adeptos que exigimos que aquele dinheiro todo se materialize em golos, em assistências, em rendimento palpável, mensurável, não lhe perdoámos: ficou o Enzo Férias. Um tipo tresloucado, sem neurónios para isto, sem a concentração e a seriedade necessárias para o exigente adepto europeu. Vais para a lista dos crápulas e de lá não sairás, pensámos todos. Nem contava para o totobola. Hoje, quando penso no Benfica 2011/2012, fico a pensar que estavam no plantel, no princípio da temporada, Matic, Enzo Perez, Witsel e Javi Garcia. Matic era um louro tosco que queríamos que não tivesse a bola nos pés e Enzo era um gajo que estava exilado na Argentina e a quem só exigíamos que nos desse o nosso dinheiro de volta (é tão, mas tão irónico que vejamos o dinheiro dos nossos clubes como "nosso". Adiante.). Se a vida pudesse andar para trás, podíamos ter tido um meio campo com Matic a 6 e Enzo e Witsel à sua frente. Os merceeiros (com todo o respeito), suponho eu, não passam a vida a melancolizar o azeite ou as maçãs que o seu estabelecimento vendeu. 

A vida dá muitas voltas e, ainda mal restabelecido da saída de Javi e Witsel - foi a primeira vez na minha vida onde eu não sabia, DE FACTO, como é que o Sport Lisboa e Benfica se apresentaria em campo no resto da época - vi Enzo Perez à frente de Matic no Celtic Park. Foi um 0-0 pálido e Enzo, sem aquele olhar revoltado e louco que lhe conhecíamos dos blogs onde afogávamos as mágoas por mais uma compra desgraçada (mas ninguém estuda o perfil psicológico dos jogadores antes de os comprar? Porra, que amadores!), parecia tímido em campo. Isto não vai dar, pensei eu, afogado no meu sofá. O gajo não tem estofo para isto.

Alguns jogos depois, Enzo resolveu arrancar no meio de dois trincos de uma equipa qualquer para chegar à área. "Larga a bola, caralho!", "Larga, Enzo!", e ele sempre a acelerar, com a cabeça demasiado em baixo para um médio centro, "Foda-se, dá a bola!" e ele nada, "Levanta a cabeça, seu burro!" e ele em frente. A jogada perdeu-se. "Este gajo é o extremo do meio", disse o P. Rimo-nos muito na bancada. Mal nós sabíamos.

Com o passar da época, percebemos todos que Enzo era essencial. A sua lesão, no fatídico jogo com o Estoril, mudou o campeonato. Quando desatou a chorar em Amesterdão, já há muito que Enzo Férias tinha sido enterrado. Enzo era já o nosso Enzo. O Enzo do Benfica. 

É óbvio que ser sul-americano ajuda. O coração está ali mesmo, expresso na cara, nos olhos, nos palavrões. Matic parecia decompor o campo em quadrados, mas Enzo vive a mil à hora, com a faca nos dentes, como se jogasse com o barulho dos pneus dos Fórmula 1 nos ouvidos. O olhar tímido e perdido de Celtic Park era já o de um animal competitivo, a loucura do Enzo Férias transformou-se numa rebeldia revolucionária usada em nosso prol. Enzo vermelho, Enzo Ferrari.

Na terça-feira, Enzo comeu o Sporting, comeu o derby. O extremo do meio acelerou sempre por onde quis, olhou Adrien com os olhos loucos do Jack Nicholson no "Shining" e entrou para os nossos corações benfiquistas. O golo é para emoldurar. A bola solta-se depois da perdida de Rodrigo e Enzo agarra-a em sprint, mete o corpo e parece que está a disputar a bola contra um júnior. O Ferrari vermelho acelera e encontra um menino inglês, louro, com ar de quem frequentou os melhores colégios e vestido de farda verde-e-branca. Enzo, argentino "de la calle", vermelho por adopção, pára. A cabeça demasiado em baixo (e isso continua a irritar-me), mas arranca logo, um gesto imediatamente a seguir ao outro, sem pensar. Senta o betinho e, em queda, faz um último esforço outra vez para rematar, como quem já não tem mais forças para dar. 

Se há coisa que um jogador do Benfica merece é que sejamos sempre gratos a quem dá tudo, a quem fica sem mais forças para entregar à camisola vermelha. A imagem do Topo Sul todo de braços esticados, a fazer vénias a Enzo ficará como uma das minhas mais gratas recordações de um derby. Porque foi merecida. 


Somos uns fáceis, nós adeptos. Só queremos um tipo com quem nos identifiquemos, alguém que dê tudo. Queremos um golo que nos apague a mágoa. Queremos, nem que seja por uns segundos, sentir que aquele tipo vai ser nosso para sempre, que ele é do Benfica, que ele também sabe a história do derby, que ele também vai entrar amanhã no trabalho 3 cm acima do chão como que a voar porque ganhou aos rivais. Nós não temos a frieza dos merceeiros, nós não queremos saber quanto custaram e quanto ganham os craques, nós não queremos departamentos de comunicação, empréstimos para rodar. Nós queremos alguém que ganhe a bola em corrida e que a coloque docemente na rede, como Enzo fez, e que depois desate a chorar de alegria como nós.

Eu sei que Enzo, eventualmente, vai sair. Neste Verão ou noutro, não sei. Havemos de vê-lo com uma camisola estrangeira qualquer, a arrancar pelo meio com a cabeça demasiado em baixo e com aquele olhar louco. Enzo, outrora Férias, hoje Ferrari, tornar-se-à Perez. E nós cá ficaremos, agarrados às promessas nos jornais desportivos, a dizer que o Djuricic não rende, cínicos e cansados de ser clientes. A paixão de Enzo será uma recordação. 

Sonho com o dia em um tipo destes dirá não e que escolha ficar connosco. É que, para mim, não há contas de mercearia que valham um jogador a quem os adeptos perdoaram e com o qual agora se identificam. Eu sei que as probabilidades disto acontecer são praticamente nulas, mas no dia em que deixar de acreditar nisto é porque já não sonho em fazer o que Enzo fez e em sair substituído com a Luz a fazer-me vénias.  Quando eu deixar de acreditar nisto, deixei de ser adepto e tornei-me não o cliente de uma mercearia, mas de um hipermercado qualquer. Enzo, por viver o meu sonho, foi a pessoa que eu mais quis ser na vida nos últimos tempos. E, por isso, e por muito que seja infantil (e é), espero e sonho que fique. Um dia terá a braçadeira e sorriso rasgado e, para sempre, todas as nossas vénias.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

La vie en rouge

Eu e a C. somos fãs da série How I Met Your Mother. Não, não é o Breaking Bad, nem é o Dexter, nem o Newsroom. Mas é uma série divertida, com várias referências à cultura-pop e com uma homenagem à interacção entre amigos: as piadas que nunca ninguém esquece, os hábitos, as pequenas histórias. É óbvio, mesmo para quem gosta da série, que houve ali várias temporadas a mais só para fazer render o produto. Mas, para dois namorados (sim, mesmo casados, nós namoramos), poucas séries podem ser tão boas de ver no sofá de manta. Especialmente para nós, que a vemos desde o princípio juntos. A série retrata as aventuras (e desventuras) de Ted Mosby e do seu grupo de amigos até conhecer a mãe dos seus filhos (a quem vai contando a história, daí o título da série). 

A série, que acabou por explodir devido à fantástica interpretação de Neil Patrick Harris, actor gay cuja personagem Barney Stinson entrou para a história da televisão, faz-nos sempre torcer por Ted. Ted é o tipo porreiro, um bocado geek, a quem todos os desastres amorosos se vão sucedendo, mas por quem estamos sempre a torcer porque sabemos, lá no fim, que ele vai conhecer a mulher dos sonhos dele, ter dois filhos, continuar com os amigos e ser muito feliz. É tudo uma questão de tempo.
O Benfica é o meu Ted Mosby. É o clube por quem estou sempre a torcer e que sigo fielmente (se bem que, neste caso, sem a C. Aliás, muito longe da C.). Sigo o Benfica desde que me lembro e, com as mesmas probabilidades de o influenciar do que a uma personagem fictícia de uma série de televisão, vejo sempre o Benfica (não só nos jogos) com a ansiedade que todas as decisões sejam tomadas correctamente, em busca do bem maior: voltar a dominar o futebol português. É óbvio que a analogia tem um pequeno senão: eu posso rir-me ou ficar triste com as decisões de Ted Mosby na proporção directa da qualidade do episódio, diálogos, a atenção com que estou, etc. Infelizmente, os erros do Benfica têm sido mais marcantes para a minha pessoa e bem mais longos do que 9 temporadas (a última ainda não completa).
Mais ainda, o Benfica nunca me garantiu que ia, de facto, atingir o seu objectivo, encontrar o seu amor e ter dois filhos. Eu vejo o Benfica apaixonada e sofregamente sem sequer ter o colchão de segurança que, um dia, tudo vai acabar bem. 

No último episódio da série, há uma cena em que a mãe (a futura mulher de Ted Mosby), canta uma pequena versão do "La vie en rose" da Edith Piaf. Numa série que teve vários momentos altos, mas também muitos episódios para encher chouriços, a canção, soberbamente interpretada por Cristian Milioti, seguida de um mónologo terno de Ted, foi um ponto alto na série como há muito já não havia. 
Foi bom lembrar que, embora seja um grande cliché, a série é sobre a busca do amor. E isso não é necessariamente um cliché.


Ontem o Benfica ganhou ao Sporting. Foi muito melhor e, durante alguns períodos, tive a minha sensação preferida no derby: de que somos mais em campo, como se ocupássemos mais espaço, fossemos sempre mais fortes e mais rápidos. O que é facto é que, para mim, benfiquista doente, nada é mais lindo do que a camisola vermelha. Nada. E estranho sempre que uns de vós, pessoas que eu até aprecio (houve uma com quem me cheguei a casar), tenham escolhido clubes com riscas no equipamento, com umas cores pálidas, praticamente envergonhadas pela sua existência. A minha sensação preferida nestes jogos é quando sinto, cá dentro, que as camisolas vermelhas são de facto maiores. É um cliché, eu sei.
Ganhar um derby é bom, e eu adoro isso, mas isso não significa que vamos ficar com a mãe no fim. Li esta semana teorias de fãs que dizem que a mãe pode ter morrido e é por isso que Ted conta a história do seu amor aos filhos. Não é um drama tão grande como não ser campeão outra vez, mas também é triste. 

Quando Dier caiu, de camisola verde pálido, e Enzo rematou, vermelho berrante ao peito, foi "la vie en rouge".

Diz-me com quem andas

Eu nasci, cresci e infelizmente não vivi para sempre no Porto. Reparei até no outro dia que estou há cinco anos em Lisboa. O sotaque já não é o mesmo, mas há coisas que não mudam. É “à beira” e nunca “ao pé”, “sapatilhas” não são, evidentemente, “ténis”, são “3 menos um quarto” e não me habituo ao “um quarto para as 3”. Continuo a dizer “cá” para me referir ao Porto quando estou a 300 quilómetros de distância e “vou a casa” significa sempre subir a A1. O Porto é a minha casa.

Aprendi, no entanto, a gostar de Lisboa. A luz é realmente única, há mais sol do que nevoeiro e a calçada portuguesa torna os dias mais sorridentes do que o granito. Sim, admito que não ter de passar na Segunda Circular todos os dias tenha ajudado à minha integração. Lisboa não é o benfica e o sportem, Lisboa é Lisboa, uma mistura de portugueses de todas as regiões e de estrangeiros de todos os continentes. E eu gosto de me sentir numa cidade do mundo, de ouvir línguas diferentes, de olhar para rostos mais negros ou mais asiáticos, de nem reparar na roupa do punk ou do homossexual.

Lisboa é isto, mas Lisboa também é o vizinho que não me cumprimenta ou a pressa que não deixa ajudar a idosa a carregar os sacos. Em Lisboa chamam-me “senhora”, e não “menina”, e isso eu não posso perdoar. Em Lisboa, e mesmo com o sotaque a falhar, eu sou sempre “do Norte”, e não do Porto, porque Norte é tudo acima de Lisboa e Sul é o Algarve. Em cinco anos, detectei facilmente o problema de Lisboa: é que, em Lisboa, quase ninguém é de Lisboa. Lisboa não tem o bairrismo, não tem o encontrar-se sempre alguém conhecido na rua, não tem um só sotaque, não tem uma espécie de “carago” no início, no fim ou em qualquer meio de uma frase, não tem uma identidade. Lisboa é grande e diferente demais para ser uma só Lisboa.

E Lisboa não tem, ainda por cima, um clube. É claro que o Porto não tem só o FCPorto e que a cidade tem lampiões e lagartos (são os piores, aliás), mas, se viesse aí um meteorito que ia acabar com o planeta e fosse dado a escolher a um portuense que clube é que ia lá acabar com ele, parece-me que a escolha seria óbvia. Em Lisboa há dois clubes grandes, mais os que são de outros clubes ou só da selecção (até viver aqui nem sabia que esta espécie existia), mais os que não gostam de futebol (nunca conheci tanta gente que não gosta de futebol como em Lisboa, acho que é um fenómeno que merecia ser estudado). Tudo junto, não há uma só voz e ia ser uma grande confusão se um lisboeta tivesse de escolher quem ia lá acabar com o meteorito.

Feita a introdução geográfico-social, vamos mesmo à bola. O FCPorto dos últimos 30 anos cresceu também à custa da rivalidade com Lisboa. O discurso pegou e, infelizmente, continua a ser uma mensagem fácil de passar: a capital é sempre favorecida. Lisboa são os mouros, só queremos Lisboa a arder e cheira a merda, cheira a Lisboa. É esta rivalidade, este ódio, que motiva o FCPorto para ganhar mais do que os clubes de Lisboa. O FCPorto ganha muito porque sabe escolher treinadores (cof cof), sabe comprar jogadores (cof cof cof), mas sabe, sobretudo, unir-se contra os ataques de fora, de lá de baixo, daqui de Lisboa.

O FCPorto não precisa de aliados. Pelo contrário, o FCPorto precisa de estar sozinho para querer ganhar sempre. Contra tudo e contra todos, de preferência. Não só vivemos bem com o ódio dos outros, como nos motivamos com ele. Se é uma atitude de guerrilha, que não ajuda a que os casais de clubes diferentes vão de mão dada ao Dragão? Sim, admito que sim, mas eu não gosto sequer de andar de mão dada com o M. em dias de clássico, por isso não sou um bom exemplo.

Já os clubes de Lisboa andam às voltas a tentar derrotar o domínio “do Norte”, mas não têm conseguido. Já tentaram várias estratégias, mas falharam. A nova, bem notória neste derby, é juntarem-se. Não sei se fui só eu - que nestes jogos estou sempre excitadíssima com a hipótese de haver porrada, expulsões, polémicas de arbitragem e placas do estádio a voar – que notei, mas este benfica-sportem mais pareceu um amigável. E, mesmo nos amigáveis, já vi um capitão vermelho a mandar um árbitro ao chão, por isso não estava mesmo nada à espera de tanta calma.

Talvez seja eu que sou doente, mas façam lá o exercício de imaginar que uma daquelas equipas era o FCPorto. Um estádio a desfazer-se, um jogo adiado, adeptos visitantes a ficarem mais tempo perto do perigo do que os outros, uma vistoria suspeita. Seria uma festa, certo? Podem alegar, ainda assim, que, confrontado com uma situação destas, também o FCPorto não seria tão tolerante. Certo, certíssimo. Iríamos tentar expor todas as falhas dos outros, com certeza. Mas, se isto acontecesse no Dragão, temos a certeza que não seria nomeada uma equipa especial do Ministério Público para investigar tanta incompetência?

O derby, o maior derby do país, já não é o mesmo. E não é só pela diferença das equipas (tens de começar a dar mais luta, Bruno). Os dirigentes dos dois clubes de Lisboa estão a unir-se à frente de todos com um objectivo comum. E é engraçado ver que, na linha da frente, não está, como é habitual, o clube e o presidente traumatizados com o FCPorto. Estão estes, que tão felizes eram connosco ainda há uns meses:



Mal agradecidos.

Só espero que, no meio de tanta incompetência, más escolhas e falta de vontade, o meu clube use isto para ficar mais forte. Afinal de contas, é tão inesperado este FCPorto ainda estar na luta como um clube qualquer ter de ir salvar o planeta de um meteorito.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Oficial: livro a caminho

Pois é, vocês estavam convencidos que a loucura do mercado de Janeiro já tinha passado, mas nós ainda temos novidades. A Matéria-Prima acaba de comunicar à CMVM a contratação do Lá em casa mando eu para um livro que está quase, quase prontinho. Assinámos o contrato em cinco minutos e prometemos trabalhar com humildade e dar tudo pela equipa. Sempre com nota artística, claro. Queremos lutar pelo título das melhores vendas, como aquele rapaz que quando chegou ao Arouca disse que queria ser campeão. Para isso, apelamos aos nossos adeptos que sejam o 12º jogador ou, neste caso, o 12º comprador. Para já, podemos revelar apenas que o livro será baseado neste blog, mas terá muito conteúdo exclusivo. Uma espécie de Benfica, com a espinha dorsal da selecção, mas com uma fornada de sérvios a titulares. Lá para Abril/Maio, há um novo duplo pivot de escritores nas prateleiras. Avisamos já que, se não comprarem o livro, para o ano escrevemos com os juniores. 

Obrigada a todos por nos lerem.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O que faltava

Se és do sportem, começa a ler o texto só daqui a quatro minutos por favor. 

O Bruno é o homem que faltava ao futebol português. E não estou a ser irónica, como o árbitro Manuel Mota quando só deu quatro minutos de desconto depois uma segunda parte do mais puro anti-jogo que eu já vi. Jogadores a deitarem-se no chão até quando caíam sozinhos, choro, lágrimas, pernas no ar, macas, um terror, pobres coitados, tanto sofrimento junto. Já não via uma coisa assim desde o Porto-benfica, juro.

Digo-o porque, sem o Bruno, o sportem estava condenado a ser o terceiro grande só duas vezes por ano – quando jogava contra os rivais da Segunda Circular. E este é o maior, e provavelmente único, elogio que lhe posso fazer: até aqui, ninguém do FCPorto se importava com o sportem.

Eu, confesso, sou uma grande ativista do ódio contra o sportem desde sempre. É verdade que, quando vivia no Porto e eles eram campeões (não sei se se lembram, já foi há tanto tempo), nem se dava por isso. E todos sabemos que o sentimento “anti” cresce sobretudo baseado nisso: no colega do lado que é de outro clube e nos f%&# a cabeça quando ganha. No meu caso, foi um coisa televisionada, como já expliquei aqui.

O M. costuma dizer, na brincadeira (será?), que só se apaixonou por mim porque eu odeio o sportem. Reparem: eu ser do Porto, o clube que destrói o dele, ainda aguenta; agora uma pessoa que não odeia o outro rival não tem qualquer credibilidade para ele. Entretanto, a verdade é que ele foi percebendo a diferença entre odiar o sportem em Faro (o M. quer que os nossos filhos sejam do farense, quando o clube tem um leão como símbolo e tem sportem no nome, valha-me deus, qualquer dia queres que se chamem Bruno!!!!) ou em Lisboa e odiar o sportem no Porto. É que o sportem praticamente não existe para um portista. Lá em casa, no Porto, sabe-se sempre quem joga contra nós e contra o benfica, mas contra o sportem não. E este é só um exemplo do desprezo que o Bruno tem que combater.

A estratégia dele é conhecida e tenta copiar (muito mal, muito mal...) uma que vimos funcionar há 30 anos. Não lhe interessa se, na altura, o Porto era o clube da “província” e precisava de se afirmar perante a “capital” com um discurso de incitamento à guerrilha e se, agora e sempre, o sportem é tudo menos isso.

Ver o sportem a adoptar a postura de “contra tudo e contra todos” é engraçado, porque reparem que nem no ano passado, quando andavam pelo sétimo lugar, alguma vez os vi argumentar que estavam assim porque estava tudo contra eles. Nem quando lhes apanharam o vice a pagar a um árbitro. Aliás, nem nas primeiras jornadas deste ano, com foras-de-jogo constantes e um empate contra o rival com a ajuda do árbitro. Isto surge, naturalmente, quando o sportem, a meio da época, já deixou a Taça de Portugal e a Taça da Liga pelo caminho e quando até o Montero já deixou de marcar golos em fora-de-jogo.

Nada contra a estratégia de criar teorias da conspiração para desculpar derrotas. Faz parte. O que o Bruno fez de diferente é que se virou para o nosso lado. Exclusivamente para o nosso lado. E nós estamos habituados aos Gomes da Silva desta vida vestidos de vermelho, mas de verde realmente ainda nos faz alguma confusão. Principalmente quando mantêm aquela pose cavalheiresca, tão à sportem, com um tom erudito e um ar tão lavadinho. Como é que uma pessoa entra na lama da argumentação com alguém que tem o cachecol sem dobras e sem manchas pousado em cima dos ombros?

Eu estou habituada a falar sobre roubalheiras, polémicas, apitos, nomeações e etc com um vermelho que está convencido que a fome no mundo vai acabar quando o Pinto da Costa sair do Porto. Mas a verdade é que não estou habituada a falar com um verde sobre a roubalheira que foi o sportem-marítimo da Taça da Liga, por exemplo. Ou da ilegalidade do primeiro golo deles em Penafiel. Ou do escândalo que foi o marítimo ter subido ao relvado depois do FCPorto. Ou do penalty por marcar sobre o Carlos Eduardo. Ou de como o nosso jogo deveria ter terminado sempre depois devido ao anti-jogo do qual já falei.

Estivesse o futebol português como há um ano e nesta altura eu não teria de fazer isto. Mas não está. Porque o Bruno chegou e odeia o FCPorto e vai fazer de tudo para convencer os outros clubes todos que nós somos maus. O Bruno era o homem que faltava para que todos se odeiem a todos e passemos a semana a levar com ameaças de boicotes e jogos com os juniores. Não é o primeiro, não será o último, e ainda lhe falta aquele pequeno pormenor de ganhar para que isto resulte.