Nós, cá em casa, odiamos clássicos. Há quem nos pergunte, a sorrir, "E então e amanhã, como é que é lá em casa? Deve ser giro, deve!" Não é nada giro. Nem há razão para sorrisos. É óbvio que nós sorrimos educadamente e dizemos "Vamos ver!..." (nenhum de nós diz: "Vamos ganhar" - a bazófia dá um azar do caraças) e a verdade é que preferíamos nem ver.
Eu gostava de ter uma metáfora à mão, do género: é como fazer um exame ou uma coisa assim. Deixem-me ver se me explico: a C. já foi operada três vezes. E em nenhuma delas ela desceu para o bloco operatório com a cara de dor que ela tem antes dos clássicos (para verem o tipo de pessoa com quem eu vivo, da última vez ela foi a rir-se para o bloco porque o Olympiakos tinha acabado de marcar ao Benfica. Espero que na operação te tenham tirado essa maldade do corpo). Para além disso, antes das operações, podíamos abraçarmo-nos e acalmarmo-nos mutuamente. Mas nós não nos podemos abraçar antes do clássico. Se a C. me quer abraçar antes do clássico, é porque está nervosa com a dupla de centrais dela e eu tenho de evitar delicadamente esse abraço para que isso lhes dê azar. Não há aquele conforto de casal "Vai correr bem, meu amor". Não, é mais "Espero que o teu ponta de lança parta as duas pernas depois de marcar na própria". Num Manchester United-Porto (2-2), a C. festejou o primeiro golo do clube dela agarrando-se à minha perna. Segundo os relatos dela, eu fiz a voz da miúda d'"O Exorcista" e disse: "Não voltes a fazer isso". Dado que era o meu dia de anos e dado que o Porto tinha marcado, eu acho que mereço uma salva de palmas por não ter arrancado a mão à C.
O que é que piora ainda mais isto tudo, esta ansiedade toda? É que faltam, no mínimo, quatro clássicos, com a possibilidade de mais dois de bónus. Eu acho que isto devia ser proibido. Fazíamos um ou dois e pronto. O meu jogo de sonho do Benfica é o jogo de domingo, com a Académica: uma equipa inferior, marcar cedo (para eu acalmar), marcar o segundo antes da meia hora (para os matar moralmente) e fazer o terceiro antes da meia hora final (permitindo-me trinta minutos de descompressão que me deixam depois ficar feliz com o apito final). Jogar com o Porto significa tudo menos isto. Significa dificuldades, jogo muito preso, incerto, etc. A incerteza e o medo, apesar de algumas pessoas mais desprevenidas acharem que são o sal do futebol, são o maior terror. Se forem o sal são o sal que entra nas nossas feridas. Ninguém quer isso. E nenhum adepto com dois dedos de testa (de um lado ou do outro) pode querer isso seis vezes. É como se estivessem em cima de um prédio e vos desafiassem para saltar para o outro ao lado. Se conseguissem, ganhavam um prémio qualquer em dinheiro. Mas podiam cair. Quem é o doido que quer fazer isto seis vezes?
Mais, quem é o doido que quer saltar, sabendo que se aterrar de boca lá em baixo vai ser gozado e vai ter que ver isso nos telejornais todos? Quem é o doido que quer saltar sabendo que tem traumas relativos a outros saltos?
Viram o derby de Sevilha? As duas equipas que mais se odeiam no mundo numa eliminatória europeia. 0-2 na primeira mão, 0-2 na segunda. Penalties. Imaginem penalties numa eliminatória europeia contra a equipa que vocês mais detestam. Eu acho que, exceptuando os adeptos totalmente inconscientes, os que só aparecem para as festas ou que só sabem o resultado ao passar no quiosque na segunda-feira de manhã, ninguém se quer meter numa coisa dessas. É jogar à roleta russa, só que em vez de se morrer fica-se a ouvir os rivais uma vida inteira. As caras dos adeptos antes dos penalties eram de um sofrimento atroz. Ninguém queria estar ali, a viver aquilo. Era como se a tensão fosse insuportável, uma confusão muito grande onde se cruzam o nosso maior sonho e a nossa maior fobia ali à frente. É um salto muito arriscado, é colocar as fichas todas na mesa. Eu, sinceramente, evitava estas noites mal dormidas e os dias em que abraçar a minha mulher é estranho.
Isto é a conversa de um adepto doente, que, ganhe ou perca, amanhã passa um mau bocado naqueles noventa minutos. Aos jogadores do Glorioso só me resta pedir que saltem com confiança e força amanhã. Sem olhar para o chão. Vou parar de escrever que a C. está a abraçar-me e tenho de a afastar.
