Há quase um ano, a C. escreveu-me isto. O Benfica tinha acabado de se qualificar para a final da Liga Europa e eu não cabia em mim de contente com o que Cardozo acabara de fazer ao Fenerbahçe. O amor e a raiva dela resultaram num feitiço de tal maneira poderoso que nem a Taça escapou. E hoje aqui estou para devolver a gracinha.
A C. é a pessoa mais do Porto que eu conheço. Antes de conhecer a C. e a família, eu achava que os adeptos do Porto eram todos uns selvagens que comiam com as mãos. Para mim, ser do Porto era ser mau. Ser do Porto significava não só torcer pelo clube que mais merece acabar no mundo, mas também simbolizar tudo o de mais maligno que há no planeta. E não era um mau fixe, tipo Darth Vader ou Dexter. Era mais tipo Miguel Relvas.
Mas não, a C., exceptuando o clube, é a melhor pessoa do mundo. Tem pinta, sentido de humor e dá uma abada ao mundo inteiro em bondade. Só que é do Porto. Há um ano, a C. escrevia a que foi, para mim, a melhor frase de sempre do blog: "Eu amo o M. e o M. ama o benfica. E estar a apenas um ser humano de distância de amar o benfica envergonha-me". É-me impossível verbalizar melhor do que isto. Mesmo depois de casados, a viver debaixo do mesmo tecto uma série de tempo, ainda me é estranho quando a C., a melhor mulher, filha, irmã, tia e nora do mundo, diz que vai jogar "o Portinho" como se aquele clube não merecesse passar 50 séculos debaixo do Atlântico.
A C., que já correu mais estádios do que eu, que é - repito - a pessoa mais do Porto que eu conheço (e, convenhamos, espero ficar por aqui. Adoro a C. e a família dela, mas há um limite de portismo na vida de uma pessoa e eu já estou a fazer quatro ou cinco quotas), anda furiosa. Não se podem juntar o nome próprio Paulo e o apelido Fonseca na mesma frase sem ela espernear e fazer um esgar de vómito. Vê os jogos do Porto num estado de ansiedade entre partir a televisão e partir a televisão com ainda mais força. Eu, infelizmente, compreendo. A C. está mal habituada. O Porto, infelizmente, ganhou mais do que perdeu no tempo de vida dela, e esta época tão Benfica 1998 está a dar cabo dela.
Eu amo a C. e todos os dias me apetece abraçá-la, mesmo sendo ela uma pessoa que é incapaz de admitir que o Katsouranis tocou na bola e só na bola naquele lance com o Anderson. Mas, apesar deste amor que não tenho vergonha nenhuma de aclamar em público, preciso muito que a mulher da minha vida pague a praga que me rogou o ano passado. Portanto, C., o que eu mais quero - além de todos os títulos do Benfica esta época em futebol masculino de seniores (convém uma pessoa especificar bem que é para o divino não nos entregar um título de futsal por engano) - é que o teu clube se afunde ainda mais esta época.
Assim, deviam começar por perder já daqui a umas horas nos penalties em Sevilha, com lesões graves de Mangala, Danilo e Ghilas e com o Beto a marcar o penalty decisivo. Espero ainda que o meu clube passe as meias das duas taças contra o teu com golos em fora-de-jogo aos 92 minutos (o Cardozo, ao fazer o 0-7 aos 92 minutos na Taça da Liga, levanta uma camisola com a inscrição: "Espaço C.").
Depois de tudo isto, só porque gosto muito de ti e tu não mereces tanto sofrimento, assino um empate no clássico da última jornada que te permite segurar o 4º lugar à frente do Nacional, dado que o Estoril dá 3-0 em Alvalade à mesma hora. Desde que, claro, o Benfica entre em campo já campeão e com todos os jogadores com o cabelo à Paulo Fonseca.


