quinta-feira, 10 de abril de 2014

Para a C., com amor

Há quase um ano, a C. escreveu-me isto. O Benfica tinha acabado de se qualificar para a final da Liga Europa e eu não cabia em mim de contente com o que Cardozo acabara de fazer ao Fenerbahçe. O amor e a raiva dela resultaram num feitiço de tal maneira poderoso que nem a Taça escapou. E hoje aqui estou para devolver a gracinha.

A C. é a pessoa mais do Porto que eu conheço. Antes de conhecer a C. e a família, eu achava que os adeptos do Porto eram todos uns selvagens que comiam com as mãos. Para mim, ser do Porto era ser mau. Ser do Porto significava não só torcer pelo clube que mais merece acabar no mundo, mas também simbolizar tudo o de mais maligno que há no planeta. E não era um mau fixe, tipo Darth Vader ou Dexter. Era mais tipo Miguel Relvas. 
Mas não, a C., exceptuando o clube, é a melhor pessoa do mundo. Tem pinta, sentido de humor e dá uma abada ao mundo inteiro em bondade. Só que é do Porto. Há um ano, a C. escrevia a que foi, para mim, a melhor frase de sempre do blog: "Eu amo o M. e o M. ama o benfica. E estar a apenas um ser humano de distância de amar o benfica envergonha-me". É-me impossível verbalizar melhor do que isto. Mesmo depois de casados, a viver debaixo do mesmo tecto uma série de tempo, ainda me é estranho quando a C., a melhor mulher, filha, irmã, tia e nora do mundo, diz que vai jogar "o Portinho" como se aquele clube não merecesse passar 50 séculos debaixo do Atlântico.

A C., que já correu mais estádios do que eu, que é - repito - a pessoa mais do Porto que eu conheço (e, convenhamos, espero ficar por aqui. Adoro a C. e a família dela, mas há um limite de portismo na vida de uma pessoa e eu já estou a fazer quatro ou cinco quotas), anda furiosa. Não se podem juntar o nome próprio Paulo e o apelido Fonseca na mesma frase sem ela espernear e fazer um esgar de vómito. Vê os jogos do Porto num estado de ansiedade entre partir a televisão e partir a televisão com ainda mais força. Eu, infelizmente, compreendo. A C. está mal habituada. O Porto, infelizmente, ganhou mais do que perdeu no tempo de vida dela, e esta época tão Benfica 1998 está a dar cabo dela. 

Eu amo a C. e todos os dias me apetece abraçá-la, mesmo sendo ela uma pessoa que é incapaz de admitir que o Katsouranis tocou na bola e só na bola naquele lance com o Anderson. Mas, apesar deste amor que não tenho vergonha nenhuma de aclamar em público, preciso muito que a mulher da minha vida pague a praga que me rogou o ano passado. Portanto, C., o que eu mais quero - além de todos os títulos do Benfica esta época em futebol masculino de seniores (convém uma pessoa especificar bem que é para o divino não nos entregar um título de futsal por engano) - é que o teu clube se afunde ainda mais esta época. 
Assim, deviam começar por perder já daqui a umas horas nos penalties em Sevilha, com lesões graves de Mangala, Danilo e Ghilas e com o Beto a marcar o penalty decisivo. Espero ainda que o meu clube passe as meias das duas taças contra o teu com golos em fora-de-jogo aos 92 minutos (o Cardozo, ao fazer o 0-7 aos 92 minutos  na Taça da Liga, levanta uma camisola com a inscrição: "Espaço C."). 

Depois de tudo isto, só porque gosto muito de ti e tu não mereces tanto sofrimento, assino um empate no clássico da última jornada que te permite segurar o 4º lugar à frente do Nacional, dado que o Estoril dá 3-0 em Alvalade à mesma hora. Desde que, claro, o Benfica entre em campo já campeão e com todos os jogadores com o cabelo à Paulo Fonseca. 

Pré-venda do livro

O livro "Lá em casa mando eu!" já está disponível para encomenda. Podem ver aqui:

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Wook

A partir de 18 de Abril, estará à venda nas principais livrarias: FNAC, Bertrand, Continente, etc.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Desliguem tudo, por favor

Uma das grandes vantagens que nós, fanáticos, temos sobre as pessoas normais é que dificilmente nos apanham a ver a festa de um rival. É verdade que sofremos mais, mas isso até pode ser usado a nosso favor. O M., por exemplo, o ano passado perdeu dois quilos com o golo do Kelvin e, se na altura me preocupou e pareceu até um bocado exagerado (não pela dimensão do sofrimento que, esse, era totalmente adequado, mas devido à condição física do M., que já não tem muitos quilos para perder), quantas pessoas não matariam por perder peso com esta "facilidade"? O mundo das dietas e dos sumos detox iria à ruína se descobrissem que basta perder três competições numa semana.

Dizia eu que há uma grande vantagem em levarmos isto muito a sério. Enquanto que uma pessoa normal é capaz de estar sentada no seu sofá, a fazer zapping, e a ver os festejos de um clube rival, como se isso não fosse pior que ser comido por um urso, nós temos o privilégio de desconhecer essa realidade. Não sei se sou só eu que tenho esta incrível virtude, mas eu nunca vi um clube que não o meu a fazer a festa. É certo que isso não acontece muitas vezes, mas não pode desvalorizar-se o trabalho que isto dá. Fanático que é fanático está convencido que só o seu clube é que sabe festejar e que nenhumas imagens, jornais, ou conversas de café valem a pena ou sequer fazem sentido quando é um rival a ganhar.

O M. garante que, durante o Penta, não via jogos nas Antas porque o FCPorto ganhava sempre. Já eu,  por exemplo, esta época não vejo um jogo do benfica desde a nossa derrota na luz. Quando o M. vai ao estádio, posso ficar sossegadinha a fazer coisas mais importantes como chorar em comédias românticas. De vez em quando, ligo a televisão ou a internet, confirmo que o resultado não me agrada e lá regresso eu ao mundo maravilhoso em que os protagonistas vão acabar por ficar juntos. Ai, a vida é tão simples quando não envolve futebol.

O problema, claro está, é quando o M. decide arruinar os meus planos. Logo a mim, que sou tão boa mulher que aceitei jantar fast-food no dia em que ele fazia 30 anos para chegarmos mais cedo e ele poder ver o jogo. Ninguém valoriza isto, não é? Se soubessem o que me custou estar enfiada num quarto, sem nada para fazer numa bonita cidade espanhola, enquanto ele sorria para o computador...

Mas uma mulher não é de ferro, certo? Estava 2-0, já ia nos 60 e tal minutos, via-se bem que ia dar goleada e eu tive que pedir-lhe para desligar. O meu lado de adepta fanática percebeu o olhar que ele me deitou, uma mistura entre "também não gosto mais de ti" e "quem é esta pessoa que ousa não querer ver o benfica?", mas o meu lado de portista fanática não aguentava mais. Aquela excitação a cada ataque, aquelas referências ao campeonato quase conquistado e o rio ave a dormir em vez de os matar a todos (DÁ-LHES UMA MOCADA NA CABEÇA E FOGE, NUNO, pensava eu)... De certeza que também já vos aconteceu, espero.

Como, além de fanáticos, somos um casal bastante fofinho, chegamos a um consenso e ele pelo menos tirou o som e desviou o ecrã para eu não ver mais. E eu não o valorizei muito na altura, porque ele continuou a sorrir para o computador e eu continuei a sentir que estava demasiado próxima de uma festa do benfica, mas a verdade é que, quando é ao contrário, eu bem sei o que custa ter de conter a nossa alegria. Por isso, obrigada M., e espero que também estejas na dúvida se foi mesmo boa ideia isto de nos apaixonarmos porque a vida seria bem mais fácil se não tivéssemos de aturar o clube do outro.

Não que me importasse de trocar, claro. Quando o M. perdeu dois quilos por causa do Kelvin, eu era a pessoa mais feliz do mundo e agora estou uma mistura entre "não ter vontade de viver" e "viver só para assegurar a extinção do benfica". Só que eu estou sempre do lado certo, quer seja a ganhar ou a perder: sou dos bons, dos melhores, dos azuis e brancos. E é nestas alturas que menos percebo o M. por ser de um clube tão horrível. Porra, das poucas vezes que ganham então é que são mesmo detestáveis. Não que eu saiba muito bem como é que isto agora funciona. Nunca vi.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Raiva

Às vezes tenho um bocado de inveja do M.. Não do clube que ele é, claro, porque preferia ser capturada por extraterrestres e enviada para um planeta distante onde não houvesse nem um raio de sol ou uma gota de água do que torcer algum dia por aquilo. Mas da maneira como ele vive o futebol, de como ele sofre.

Como é que eu hei-de explicar isto? Não é que ele sofra mais, porque Pinto da Costa me livre de algum dia eu passar por essa vergonha de vermos um Porto-benfica no mesmo sofá e ele parecer às outras pessoas mais doente do que eu. É a forma de sofrimento, percebem? A maneira como ele, nas derrotas, fica com os olhos vermelhos, sem vontade de comer, com uma voz arrastada e melancólica que deixa toda a gente à sua volta sem saber o que dizer. Sim, acho que me consegui explicar: tenho inveja do meu marido porque, quando o clube dele perde, ele fica com ar de que morreu alguém.

Claro que ele conseguiu atingir esta forma fantástica porque já sofre há muitos anos. Nós conhecemo-nos num jogo em que o benfica perdeu, o que diz muito do que tem sido não só a nossa relação, mas também os nossos clubes. Parecendo que não, uma pessoa começa a ganhar calo e depois torna-se num daqueles adeptos que até quando ganha chora desalmadamente, porque parece que é o fim do mundo e a qualquer altura o céu vai cair em cima de todos nós porque o benfica está prestes a ser campeão.

Não é por acaso: esta época está mesmo a ser o fim do mundo. E, por mim, o céu devia mesmo cair em cima de todos nós. É uma coisa que desejo ardentemente, aliás, desde que o Paulo Fonseca inventou aquele duplo-pivot. É mesmo aqui que está a diferença entre nós os dois: quando eu perco, não fico propriamente triste. Fico com raiva.

Quando eu digo raiva não estou só a falar naquela vontade que qualquer adepto tem de pegar no João Capela e enviá-lo para uma jaula cheia de leões com um grande e suculento bife colado naquela careca. Não, isso é perfeitamente normal. A minha raiva transforma-se mesmo num estado de espírito: tudo me irrita, tudo está mal, toda a gente é idiota. Em linguagem feminina, parece que estou com TPM o tempo todo.

É isso, às tantas é mesmo isso. O FCPorto perder altera até as minhas hormonas mais profundas. Mexe comigo, transforma o meu corpo, a minha mente. Daí que eu precise tanto que isto acabe. O campeonato, claro, que eu espero que termine com um terramoto "trágico", com epicentro no Marquês de Pombal, pior do que o de 1755 (M., só digo isto porque sei que vais estar aqui no Porto, seguro e comigo, não sou uma pessoa assim tão raivosa). Mas sobretudo esta nuvem negra que paira sobre o meu clube, este azar, esta incompetência, esta semelhança entre o nosso futebol e o de qualquer equipa de Lisboa que ganha um campeonato de muitos em muitos anos.

Preciso que isto acabe, mas ainda quero muito que isto não acabe assim tão mal. Estou com muita raiva de não acreditar muito no que podemos fazer daqui até ao fim, e até do que não nos deixam fazer, mas tenho que terminar com um apelo: ganhem hoje, ganhem para a semana, ganhem tudo o que ainda puderem. Não é só uma época horrível do FCPorto que está em causa. É que eu estou insuportável mesmo.



quarta-feira, 2 de abril de 2014

Marquem na vossa agenda



A partir de dia 18 de Abril, estará à venda. Com textos do blog, mas também muitos originais!

O lançamento será feito a duas mãos, naturalmente. Mais à frente contaremos tudo :)

quinta-feira, 27 de março de 2014

A queda dum anjo

Ninguém admira mais Oscar Tacuara Cardozo do que eu. Quando o nosso ponta de lança enfiou o terceiro ao Sporting na Luz eu fui visto a gritar: “AMO-TE, CARDOZO!!! AMO-TE, CARALHO! AMO-TE!”. Uma pessoa que grita isto no meio de uma multidão só pode ser levada a sério. No Benfica da minha vida adulta, Tacuara Cardozo foi o homem que mais admirei, o jogador que nunca teve um assobio meu, a quem aplaudi mesmo todos os falhanços.
Não me interessa se é desengonçado, se não parecia capaz de ganhar os Jogos Sem Fronteiras. Oscar Cardozo é o maior marcador estrangeiro do Sport Lisboa e Benfica. E, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, é um ponta de lança além da quantidade estúpida de golos que já marcou.

Foi-me penoso ver Cardozo ontem. Doeu-me. Cardozo, no Dragão, fez uma exibição tão péssima – fruto da sua gritante falta de ritmo e entrosamento neste novo Benfica – que eu sofri como sofrem os pais quando vêem os filhos a serem goleados num jogo de infantis. Tive vontade de o tirar dali, não só para o bem do Benfica (que era o mais importante), como por ele. Cardozo não merece não estar à altura do Benfica.

No livro de Camilo de Castelo Branco, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda é um miguelista provinciano e conservador que, chegado à capital, se torna um liberal um bocado para o devasso. A sátira da vida política portuguesa faz de Calisto um anjo caído, personagem cómica de costumes caricaturados. Cardozo merece tudo menos ser uma personagem cómica, um corpo estranho que os adeptos querem ver fora dali. Cardozo merece o nosso carinho, as nossas palmas, a nossa paciência, mas devido ao seu estilo de jogo – e à mudança de estilo do Benfica – só pode voltar em condições físicas que agora, obviamente, não tem.

No entanto, se o Sport Lisboa e Benfica se encontra líder do campeonato com 7 pontos de avanço, em todas as frentes e num estado anímico que faz quase esquecer que ao minuto 90 da segunda jornada com o Gil Vicente corríamos o sério risco de acabar a segunda jornada com zero pontos, muito se deve a Oscar Cardozo. Foi ele que marcou a Belenenses, Académica, Olympiakos, Nacional e aqueles 3 ao Sporting (cada um melhor que o outro). Numa fase da época onde o Benfica não jogava o que joga agora e onde tudo estava por um fio, Jorge Jesus incluído, Cardozo – como um anjo – manteve-nos vivos e permitiu-nos chegar a Março com o campeonato mesmo à mão.

Cardozo, neste momento, tem de estar no banco. Até Funes Mori teria sido mais útil que o grande Tacuara ontem. Mas é nosso dever não deixar cair Cardozo. Se Cardozo tantas vezes segurou o Benfica, agora é o Benfica que o deve segurar. Um matador destes não merece assobios e não pode ser exposto assim. Se há coisa que eu considero fatal para um clube e os seus adeptos é a falta de memória. E Cardozo deve perdurar sempre na nossa pelas melhores razões. Para mim, serás sempre um anjo.


  

terça-feira, 25 de março de 2014

Round one

Nós, cá em casa, odiamos clássicos. Há quem nos pergunte, a sorrir, "E então e amanhã, como é que é lá em casa? Deve ser giro, deve!" Não é nada giro. Nem há razão para sorrisos. É óbvio que nós sorrimos educadamente e dizemos "Vamos ver!..." (nenhum de nós diz: "Vamos ganhar" - a bazófia dá um azar do caraças) e a verdade é que preferíamos nem ver.

Eu gostava de ter uma metáfora à mão, do género: é como fazer um exame ou uma coisa assim. Deixem-me ver se me explico: a C. já foi operada três vezes. E em nenhuma delas ela desceu para o bloco operatório com a cara de dor que ela tem antes dos clássicos (para verem o tipo de pessoa com quem eu vivo, da última vez ela foi a rir-se para o bloco porque o Olympiakos tinha acabado de marcar ao Benfica. Espero que na operação te tenham tirado essa maldade do corpo). Para além disso, antes das operações, podíamos abraçarmo-nos e acalmarmo-nos mutuamente. Mas nós não nos podemos abraçar antes do clássico. Se a C. me quer abraçar antes do clássico, é porque está nervosa com a dupla de centrais dela e eu tenho de evitar delicadamente esse abraço para que isso lhes dê azar. Não há aquele conforto de casal "Vai correr bem, meu amor". Não, é mais "Espero que o teu ponta de lança parta as duas pernas depois de marcar na própria". Num Manchester United-Porto (2-2), a C. festejou o primeiro golo do clube dela agarrando-se à minha perna. Segundo os relatos dela, eu fiz a voz da miúda d'"O Exorcista" e disse: "Não voltes a fazer isso". Dado que era o meu dia de anos e dado que o Porto tinha marcado, eu acho que mereço uma salva de palmas por não ter arrancado a mão à C. 

O que é que piora ainda mais isto tudo, esta ansiedade toda? É que faltam, no mínimo, quatro clássicos, com a possibilidade de mais dois de bónus. Eu acho que isto devia ser proibido. Fazíamos um ou dois e pronto. O meu jogo de sonho do Benfica é o jogo de domingo, com a Académica: uma equipa inferior, marcar cedo (para eu acalmar), marcar o segundo antes da meia hora (para os matar moralmente) e fazer o terceiro antes da meia hora final (permitindo-me trinta minutos de descompressão que me deixam depois ficar feliz com o apito final). Jogar com o Porto significa tudo menos isto. Significa dificuldades, jogo muito preso, incerto, etc. A incerteza e o medo, apesar de algumas pessoas mais desprevenidas acharem que são o sal do futebol, são o maior terror. Se forem o sal são o sal que entra nas nossas feridas. Ninguém quer isso. E nenhum adepto com dois dedos de testa (de um lado ou do outro) pode querer isso seis vezes. É como se estivessem em cima de um prédio e vos desafiassem para saltar para o outro ao lado. Se conseguissem, ganhavam um prémio qualquer em dinheiro. Mas podiam cair. Quem é o doido que quer fazer isto seis vezes? 

Mais, quem é o doido que quer saltar, sabendo que se aterrar de boca lá em baixo vai ser gozado e vai ter que ver isso nos telejornais todos? Quem é o doido que quer saltar sabendo que tem traumas relativos a outros saltos? 
Viram o derby de Sevilha? As duas equipas que mais se odeiam no mundo numa eliminatória europeia. 0-2 na primeira mão, 0-2 na segunda. Penalties. Imaginem penalties numa eliminatória europeia contra a equipa que vocês mais detestam. Eu acho que, exceptuando os adeptos totalmente inconscientes, os que só aparecem para as festas ou que só sabem o resultado ao passar no quiosque na segunda-feira de manhã, ninguém se quer meter numa coisa dessas. É jogar à roleta russa, só que em vez de se morrer fica-se a ouvir os rivais uma vida inteira. As caras dos adeptos antes dos penalties eram de um sofrimento atroz. Ninguém queria estar ali, a viver aquilo. Era como se a tensão fosse insuportável, uma confusão muito grande onde se cruzam o nosso maior sonho e a nossa maior fobia ali à frente. É um salto muito arriscado, é colocar as fichas todas na mesa. Eu, sinceramente, evitava estas noites mal dormidas e os dias em que abraçar a minha mulher é estranho. 

Isto é a conversa de um adepto doente, que, ganhe ou perca, amanhã passa um mau bocado naqueles noventa minutos. Aos jogadores do Glorioso só me resta pedir que saltem com confiança e força amanhã. Sem olhar para o chão. Vou parar de escrever que a C. está a abraçar-me e tenho de a afastar.